30 Anos de Atlanta 1996: O que o Tempo não Levou

Trinta anos se passaram desde os Jogos Olímpicos de Atlanta.
Muita coisa mudou; o esporte mudou, o treinamento mudou, eu também mudei.

Atlanta ainda cabe no agasalho…

Mas algumas coisas permaneceram. Ainda visto o agasalho da delegação brasileira de 1996.

Claudio Bertolino usando o agasalho oficial da delegação brasileira dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, trinta anos após sua participação olímpica.

Ainda pratico a marcha atlética, hoje pela saúde, pelo prazer e também nas competições máster.

E continuo acreditando que o esporte pode acompanhar uma pessoa por toda a vida.

Talvez o maior orgulho não seja descobrir que ainda consigo vestir esse agasalho; é perceber que continuo vivendo os valores que ele representa.

Trinta anos depois, continuo treinando, competindo e ensinando pessoas a praticarem atividade física com inteligência. Hoje, olhando para trás, percebo que a maior conquista daqueles Jogos não foi apenas ter participado de uma Olimpíada; Foi descobrir que o esporte poderia continuar fazendo parte da minha vida muito depois do encerramento da carreira de alto rendimento.

Como foi competir nos Jogos Olímpicos

Participar dos Jogos Olímpicos representa o ponto mais alto da carreira para praticamente todo atleta de alto rendimento. Comigo não foi diferente.

No entanto, do ponto de vista competitivo, minha prova acabou ficando muito abaixo daquilo que eu esperava.

Chegamos aos Estados Unidos um mês antes da competição e ficamos concentrados (atletismo e basquetebol feminino) em LaGranje, a 106 quilômetros de Atlanta.

Camping de treinamento para os Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.
Camping de treinamento em LaGranje | Jogos Olímpicos de Atlanta 1996

O problema era o ambiente: temperaturas elevadas e umidade muito alta, uma combinação especialmente desfavorável para provas de longa duração.

Eu ainda estava na fase final de aquisição da forma esportiva, período que exige treinos intensos para atingir o pico de rendimento. Nessas condições climáticas, porém, o desgaste provocado pelos treinamentos acabou sendo maior do que a capacidade de recuperação do organismo.

O resultado apareceu na competição. Não fui o único. De maneira geral, os fundistas brasileiros também ficaram abaixo das expectativas, o que reforça o quanto aquelas condições ambientais influenciaram a preparação final da equipe.

Havia uma expectativa simbólica de que a edição de 1996, comemorando os 100 anos dos Jogos Olímpicos da era moderna, fosse realizada em Atenas, onde tudo começou em 1896. No entanto, a escolha acabou recaindo sobre Atlanta, resultado de fatores políticos, econômicos e comerciais que marcaram aquele processo de candidatura.

Apesar de a competição não ter acontecido como eu imaginava, participar de uma Olimpíada continua sendo uma experiência impossível de descrever completamente.

Vista geral da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, com o estádio repleto de público.

A Vila Olímpica, a cerimônia de abertura, o convívio com atletas do mundo todo, fazem parte de uma memória que permanece viva até hoje.

Integrantes da delegação brasileira durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.

O que mudou em 30 anos

Ciência e Treinamento | A aproximação entre ciência e prática seguiu acontecendo, mas os estudos sobre biomecânica, fisiologia, psicologia, prevenção de lesões e adaptação ao treinamento ampliaram significativamente o conhecimento disponível.

O treinador continua sendo essencial, mas hoje conta com muito mais informação para tomar decisões e individualizar o trabalho.

Atualmente, não só existe uma enorme quantidade de evidências científicas orientando a prescrição dos treinos, como a sua chegada rapidamente a todos os lugares. Um maior domínio de conceitos como controle de carga, individualização, variabilidade e monitoramento tornaram o treinamento mais preciso.

Tecnologia | Naquela época, relógios com GPS e aplicativos de treinamento simplesmente não existiam para a maioria dos atletas. Hoje, o corredor consegue registrar praticamente tudo: distância, ritmo, frequência cardíaca, altimetria, potência e recuperação. A tecnologia passou a ser uma ferramenta importante para orientar decisões.

Recuperação | Há trinta anos, a recuperação era frequentemente vista como um período de descanso passivo. Hoje, como parte ativa do treinamento, sabemos da sua importância e influência direta na evolução.

Sono, recuperação ativa, fisioterapia preventiva e estratégias individualizadas passaram a receber a mesma atenção que os próprios treinos.

Nutrição | A nutrição esportiva evoluiu enormemente. Em 1996, muitas estratégias ainda eram baseadas em tentativa e erro. Atualmente, ela é planejada de acordo com o tipo de treino, o momento da temporada e as características de cada atleta. Hidratação, reposição energética e suplementação passaram a ser utilizadas de forma muito mais criteriosa.

Apesar de todas essas transformações, uma coisa permaneceu exatamente igual: não existe tecnologia capaz de substituir a dedicação, a disciplina e a constância. O esporte evoluiu, mas os valores que sustentam uma carreira continuam os mesmos.


Alguns corredores de fundo e os 2 marchadores em Atlanta

Atlanta não foi construída apenas pelas histórias individuais; também foi feita pelas pessoas que dividiram essa caminhada.

Hoje, olhando essa fotografia, percebo que ela reúne não apenas atletas olímpicos, mas diferentes histórias que ajudaram a construir o atletismo brasileiro na década de 1990. Algumas continuam sendo escritas. Outras permanecerão apenas na memória e nos registros que deixaram.

Os 2 atletas brasileiros da marcha atlética e 5 dos fundistas que representaram o Brasil nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, reunidos em fotografia na concentração que antecedeu os jogos.
Da esquerda para a direita: Ronaldo da Costa, Sérgio Galdino, Diamantino Silveira, Adalberto Garcia, Cláudio Bertolino, Luiz Antônio dos Santos, Vanderlei Cordeiro.

ADALBERTO BATISTA GARCIA | 5.000m. Nasceu em Indiaporā (SP), em 31 de agosto de 1967. Aos 17 anos, começou a treinar atletismo por influência de um amigo. Foi atleta da equipe SMEL Rio Preto/Brasil Telecom. Participou dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, na prova dos 5.000 metros. Voltou e continuou treinando, mas passou a se dedicar às provas de rua. Parou de correr em 2007 e se graduou em Educação Física.

CLAUDIO LUIS BERTOLINO | 20km Marcha Atlética. Nasceu em Santo André (SP), em 31 de março de 1963. Morava perto do clube Pirelli e, em 1979, começou a praticar marcha atlética. Conseguiu o índice para os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, mas uma lesão impossibilitou sua participação. Foi aos Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata, em 1995 e, no ano seguinte, competiu nos Jogos Olímpicos de Atlanta, na marcha dos 20 km. Encerrou a carreira de atleta em 2003 Fez faculdade de Educação Física e especialização. Atualmente, reside em Londrina, onde treina o Clube da Corrida. Compete na categoria máster.

DIAMANTINO SILVEIRA DOS SANTOS | Maratona. Natural de Carazinho (RS), Diamantino dos Santos iniciou a carreira nas corridas ainda na adolescência e destacou-se rapidamente nas provas de longa distância. Bicampeão do Troféu Brasil nos 10.000 metros, representou o Brasil em três Jogos Olímpicos: Seul 1988, Barcelona 1992 e Atlanta 1996. Também conquistou o terceiro lugar na Corrida de São Silvestre de 1989, venceu a Maratona da Itália em 1991 e chegou a ocupar a 11ª colocação no ranking mundial da maratona. Após encerrar a carreira, passou a atuar como treinador de atletismo.

LUIZ ANTÔNIO DOS SANTOS | Maratona. Natural de Volta Redonda (RJ), Luiz Antônio dos Santos (1964–2021) iniciou a carreira conciliando os treinos com o trabalho na Companhia Siderúrgica Nacional. Destacou-se rapidamente nas maratonas, vencendo provas importantes como Blumenau, Chicago, São Paulo e Fukuoka, além de conquistar a medalha de bronze no Campeonato Mundial de Gotemburgo, em 1995. Representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, onde terminou a maratona na 10ª colocação. Após encerrar a carreira, tornou-se treinador e fundou, em Taubaté (SP), a Associação Atlética Luasa, dedicada à formação de novos atletas.

Luiz Antônio faleceu em 2021, aos 57 anos, deixando um importante legado para o atletismo brasileiro, especialmente na maratona.

Em 2016, tive a oportunidade de entrevistá-lo para este blog, registrando parte de sua trajetória e de sua visão sobre o esporte. Esse depoimento permanece como uma homenagem a um dos grandes nomes do atletismo nacional.

👉Veja as conquistas e a entrevista com Luiz Antônio:
📝Luiz Antônio dos Santos – O Maratonista de Aço

RONALDO DA COSTA | 10.000m. Nasceu em Descoberto (MG) em 7 de junho de 1970. Decidiu participar de uma corrida em sua cidade natal quando viu um cartaz afixado na porta da farmácia; correu, venceu a prova e começou treinar regularmente. Em 1994 venceu a corrida de São Silvestre, em São Paulo, e no ano seguinte, foi medalha de bronze na prova dos I0.000 metros, nos Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata. Foi aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, onde também disputou os 10.000 metros. Em 1998, venceu a Maratona de Berlim e marcou um novo recorde mundial, com o tempo de 2h06’05”. Depois de encerrar sua carreira de atleta, passou a trabalhar na formação de jovens atletas, no Programa “Rumo ao Pódio Olímpico”, do Instituto Joaquim Cruz. em Ceilândia. Distrito Federal

SÉRGIO VIEIRA GALDINO | 20km Marcha Atlética. Nasceu em Armazém (SC), em 7 de maio de 1969. Aos quatro anos mudou-se com a família para Blumenau. Aos 16 anos, ingressou na marcha atlética, conquistou doze títulos brasileiros e cinco sul-americanos, na prova dos 20 km. Disputou os Jogos Pan-Americanos de Havana, em I99I; de Mar Del Plata, em 1995; e de Santo Domingo, em 2003. Foi aos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e de Atlanta em 1996, competindo na prova dos 20 km. Nos Jogos Olímpicos de Atenas. em 2004, participou da prova dos 50 km. É graduado em Educação Física e pós-graduado em Ciências do Movimento Humano. A partir de 1997, conciliou a carreira de técnico com a carreira de atleta: Atualmente, trabalha como gestor esportivo e diretor executivo na Fundação Multiescola do Desporto, em Blumenau.

VANDERLEI CORDEIRO DE LIMA | Maratona. Natural de Cruzeiro do Oeste (PR), Vanderlei Cordeiro de Lima iniciou sua trajetória nas corridas escolares e construiu uma das carreiras mais marcantes do atletismo brasileiro. Representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 e conquistou a medalha de ouro na maratona dos Jogos Pan-Americanos de 1999 e 2003. Nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, liderava a maratona quando foi interrompido por um espectador a poucos quilômetros da chegada, mas ainda assim conquistou a medalha de bronze. Pela demonstração de espírito esportivo diante do episódio, recebeu a Medalha Pierre de Coubertin, uma das mais importantes homenagens do Movimento Olímpico.

Os textos acima, sobre os 7 atletas em Atlanta, foram extraídos do livro Atletas Olímpicos Brasileiros | Katia Rubio. São Paulo. SESI-SP Editora. 2015.


Em breve no Blog do Bertô

Como parte da série especial pelos 30 anos dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, publicarei uma entrevista histórica que realizei com Jefferson Pérez, campeão olímpico dos 20 km da marcha atlética em Atlanta e um dos maiores nomes da modalidade.

A entrevista foi concedida originalmente para a revista RunningBR e será publicada aqui no blog no dia 26 de julho, exatamente trinta anos após sua conquista olímpica.

Comentários

4 respostas a “30 Anos de Atlanta 1996: O que o Tempo não Levou”

  1. Avatar de LUIZ FERNANDO PINHEIRO RIBEIRO
    LUIZ FERNANDO PINHEIRO RIBEIRO

    excelente trajetória professor. Parabéns por tudo que fez pelo esporte e vem fazendo pra você e nós, seus alunos, grande abraço

    1. Avatar de bertolino-atleta

      Muito obrigado pelas palavras Luiz Fernando!

      Receber um comentário como esse faz tudo valer a pena. A carreira de atleta foi uma etapa muito especial, e compartilhar essa experiência e contribuir com a evolução de vocês tem sido igualmente gratificante.

      Seguimos aprendendo, treinando e construindo essa caminhada juntos.

      Grande abraço!

  2. Avatar de Judite Maeoka
    Judite Maeoka

    Qtas histórias de atletas que a maioria não lembra, muito bacana.
    Parabéns pelo atleta que vc foi e pelo treinador que vc é hoje.

    1. Avatar de bertolino-atleta

      Muito obrigado, Judite!

      Fico feliz que você tenha gostado. Uma das minhas intenções com esse artigo foi trazer e preservar um pouco da história desses atletas e daquele momento tão especial do atletismo brasileiro, para que não se perca com o tempo.

      E obrigado pelo carinho nas suas palavras. Ter alunos como você, que caminham comigo há tantos anos, faz essa trajetória ter ainda mais significado.

      Um grande abraço!

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