Categoria: Comportamento do Corredor

  • O que Mais Dificulta sua Corrida não Acontece no Treino

    O que Mais Dificulta sua Corrida não Acontece no Treino

    O Problema não é o Treino

    Você já percebeu que, muitas vezes, o treino em si não é o maior problema da corrida?
    O treino começa quando você calça o tênis, tá certo…mas a dificuldade real começa muito antes disso.

    Antes de aquecer, antes de pensar em ritmo, antes de olhar o relógio —
    o corredor já enfrentou uma série de obstáculos invisíveis.

    Hoje eu quero falar justamente sobre isso: as dificuldades do dia a dia que atrapalham e podem até impedir o treino, mesmo quando a vontade de correr existe.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Por que Treinar Corrida é Muito Mais Difícil Fora do Treino

    Os Obstáculos Invisíveis do Corredor

    Quando se fala em dificuldade para treinar, normalmente o pensamento vai direto para falta de disciplina, preguiça e desorganização.

    Mas isso é uma leitura superficial, porque na prática, quase sempre os maiores obstáculos do corredor são logísticos, contextuais e mentais, e aparecem antes do treino começar.

    Vamos a alguns exemplos bem comuns:

    • Distância entre casa e local de treino
    • Pouco tempo real disponível
    • Horários ruins por conta do trabalho, família, e compromissos
    • Falta de percurso adequado
    • Insegurança em determinados locais
    • Repetição excessiva de trajetos
    • Dificuldade para encaixar treinos longos
    • Treinar sempre sozinho

    Nada disso aparece na planilha. Nada disso o relógio mede. Mas tudo isso pesa, e muito.

    Quando o Treino Depende da Logística, o Desafio Muda Completamente

    Quando eu morava em cidade grande, sentia isso na pele — e via essa realidade o tempo todo. Corredores que precisavam pegar o carro para chegar até o parque enfrentavam trânsito antes e depois do treino, tinham janelas de tempo muito curtas e, muitas vezes, desistiam.

    Não por falta de vontade, mas por exaustão logística.
    Por isso, desde então, sempre que alguém me traz esse tipo de dificuldade como motivo de desânimo, costumo contar uma história real.

    Durante um bom período, treinei diariamente no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e não era raro ver a seguinte cena: um corredor chegando do treino, abrindo o porta-malas do carro, se secando ali mesmo, trocando de roupa — colocando inclusive a gravata — para sair direto para o trabalho.

    Agora compara isso com outra realidade: aquele corredor que desce do prédio cruza a rua, e já está em um percurso extenso, seguro e agradável para treinar; são contextos completamente diferentes.

    Essas duas realidades não são comparáveis — e tentar tratá-las como iguais gera frustração, porque, no fim das contas, o problema não está no corredor, o problema está em tentar encaixar um treino ideal em uma vida real que não comporta esse modelo.

    Falta de Tempo não é Desculpa – é contexto

    Pouca gente realmente não tem tempo, mas muita gente não tem tempo ideal, o tempo contínuo, previsível e tranquilo, porque treinar corrida exige deslocamento, preparação, execução, retorno e recuperação.

    Às vezes, a pessoa até tem uma hora disponível, só que esse tempo vem espremido entre compromissos, com a cabeça cheia, com pressa para voltar e isso desgasta mentalmente.

    E aqui entra um ponto importante: Treino não é só físico; é também cognitivo, ecorrer cansado mentalmente também pesa.

    A Solidão do Treino – e seus efeitos

    Treinar sozinho não é um problema em si, aliás, conheço vários que o preferem assim, mas sabemos que no dia a dia, para a maioria, a solidão pode pesar quando o dia já foi difícil, o clima está ruim, o treino é longo, a motivação está baixa.

    Ter companhia não é só sobre conversa; é sobre compartilhar o esforço, dividir o custo mental, por isso, muitos corredores treinam melhor em grupo e assim sustentam melhor a constância, sofrem menos abandono, e não reconhecer isso é ignorar um fator humano essencial.

    A Falta de Variedade de Percursos

    Desde sempre isso fez muita diferença, porque sim, correr sempre no mesmo lugar pode cansar mentalmente, reduzir estímulos sensoriais, tornar os longos mais pesados e aumentar a percepção de esforço.

    Mesmo percursos bons, quando repetidos demais, perdem o frescor e aquela paisagem agradável começa a passar despercebida. Onde oriento presencialmente os treinos, temos algumas opções de parques e percursos pela cidade, que deixam o processo menos penoso para os alunos, e por conta de um relativo conforto desse aspecto nos treinos, vários deles reclamam das provas em que precisam fazer duas voltas de 4 ou 5 km.

    No inicio da minha carreira na prova da marcha atlética, uma prova também de fundo, que nem a corrida. Era numa cidade grande, parte da grande São Paulo, mas quase sem parques e opções de estradas para os treinos, então, no meio da semana, treinávamos no clube o qual representávamos, em volta do campo de futebol, que media 292 metros.

    Fotografia capturando o treinador Claudio Bertolino em sua rotina de treino no início da carreira esportiva, de forma dedicada e focada em um pequeno percurso de pedrisco que contornava um campo de futebol.

    Quando o propósito sempre foi bem maior do que o percurso.

    Era o que tínhamos; ficar rodando por um circuito pequeno com quatro curvas fechadas, por voltas e voltas até cumprir os treinos que pareciam bem mais demorados do que eram, que nem a sensação de se correr na esteira.

    Não havia reclamações sobre percurso pequeno, já que a iniciação e adaptação era ali, naquela estrutura limitada, e não tinha o que fazer tão pouco pensávamos nessa questão e além disso, nossa referência era o treinador, um admirável atleta campeão, então já veterano e que também treinava ali, e não raramente, treinava dentro do quintal dele, em volta da casa.

    Eu diria que o ambiente pode limitar a prática, mas rodando ali naqueles 292 metros, de maneira pragmática consegui muitos títulos e recordes, do nível estadual ao nacional, da categoria pré-juvenil a adulta, então diria também que isso depende muito mais do praticante do que do ambiente.

    O Problema Não é Falta de Motivação — é referência distorcida

    Veja como esse negócio de referência é relativo. Há um tempo, fui orientar um treino de força no condomínio de um aluno que estava com dificuldade para manter a regularidade nos treinos de corrida.

    A academia ficava de frente para um lago, com um percurso de aproximadamente 700 metros em pedrisco ao redor; um espaço bonito, tranquilo, seguro e praticamente dentro da casa dele.

    Fiz questão de conhecer aquele percurso de perto e logo perguntei: “Por que você não treina por aqui? Mesmo que seja uma ou duas vezes na semana, especialmente nos treinos mais curtos que eu te passo?”

    A resposta veio rápida: “Ah, mas esse percurso é muito pequeno”
    E é aqui que entra um ponto importante. De verdade, nem todo mundo tem acesso a parques extensos, trilhas ou circuitos variados.

    Imagem realista de um corredor vestindo camiseta amarela do Clube da Corrida Bertolino, com expressão pensativa e a mão no queixo. Ele está parado em frente a um pequeno lago circular com uma pista de pedrisco ao redor, em um parque ao entardecer.

    Você já se sentiu limitado pelo local onde treina? Às vezes, a solução está em adaptar a planilha ao que temos disponível.

    Isso pode, sim, dificultar a prática da corrida em alguns casos, mas será que isso deveria ser motivo para desânimo? Porque, muitas vezes, o que está por trás não é falta de opção, mas comparação com um padrão idealizado.

    E é exatamente aqui que aparece um erro muito comum: o corredor, sem perceber, acha que o problema é a falta de motivação, quando na verdade o que ele está sentindo é saturação.

    Saturação de sempre buscar o cenário ideal, de não aceitar o que está disponível, de tentar treinar dentro de um padrão que não cabe na própria rotina.

    Se o seu treino não cabe na sua rotina, talvez o problema não seja disciplina, mas estrutura.

    👉 Veja como organizar melhor sua semana de treinos no artigo:
    📝Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    👉 E conheça a Planilha Customizável de Treinos de Corrida
    📊 https://planilhacust.clubedacorrida.esp.br/

    Um Erro Comum: Copiar Rotinas que não Cabem na Sua Vida

    Esse é um ponto crítico, o corredor vê um atleta profissional, um influencer ou um amigo com rotina diferente, e tenta copiar os horários, volumes, frequências e formatos. Já vi isso acontecer algumas vezes – e os corredores que agiam assim? Não correm mais…

    Como esperado, o resultado disso será uma frustração, então não tente replicar rotinas dos outros, difíceis ou impossíveis para você; crie a sua com o que você tem, da melhor maneira que puder.

    O melhor treino do mundo é inútil se ele não cabe na sua vida

    E nunca se esqueça; treinar corrida não é sobre o treino ideal, é sobre o treino sustentável, então como minimizar os obstáculos? Aqui não tem fórmula mágica, tem inteligência prática e vou te dar alguns exemplos:

    Ajustar o local ao treino, não o contrário

    Em vez de tentar encaixar o treino ideal em um local distante ou complicado, adapte o treino ao espaço que você tem disponível. Um percurso curto, repetido com inteligência, pode gerar ótimos estímulos, já que, o erro está em sacrificar constância por cenários perfeitos, e o treino que acontece vale mais do que o treino idealizado.

    Aceitar trajetos mais curtos e compensar com estrutura

    Percursos menores não são sinônimos de treino ruim.

    👉 O que faz diferença não é o tamanho do percurso…
    👉 é a forma como o treino é estruturado.

    Você pode compensar um trajeto curto com alguns ajustes simples:

    Hidratação planejada

    Ter água por perto facilita a reposição durante o treino.
    Isso permite sessões mais longas e controladas, mesmo em circuitos curtos.

    Controle por tempo (e não por distância)

    Em vez de pensar em quilômetros, pense em minutos de corrida.
    Isso tira a limitação do percurso e amplia as possibilidades.

    Uso inteligente de voltas

    Repetir o mesmo circuito não é problema — é ferramenta.
    Permite controle preciso de ritmo, volume e intensidade.

    Estrutura de treino bem definida

    Treinos intervalados, progressivos ou contínuos podem ser feitos perfeitamente em percursos curtos.
    O estímulo vem da estrutura, não do cenário.

    Foco no objetivo do treino

    Cada sessão tem um propósito: ritmo, volume, recuperação…
    Quando isso está claro, o percurso vira secundário.

    Mas aqui entra uma pergunta ainda mais importante: afinal, para que mesmo você treina? Se você nunca parou pra responder isso com clareza, pode estar treinando sem direção.

    👉 Aprofundei exatamente esse ponto neste vídeo:
    🎥 Afinal, Pra Que Mesmo Você Treina?

    Lá eu explico como o seu objetivo define todo o resto do seu treino — e por que ignorar isso trava sua evolução.

    Regularidade acima da variedade

    Treinar sempre no mesmo lugar pode, inclusive, ajudar na consistência.
    Menos logística → mais execução.

    Ajuste mental (aceitação do contexto)

    Parar de buscar o “percurso ideal” e começar a usar o que está disponível.
    Isso reduz frustração e aumenta a aderência ao treino.

    Um bom treino nasce da organização da estrutura geral, não do tamanho do percurso, quando a estrutura vence a extensão.

    Usar treinos híbridos quando necessário

    Quando o contexto aperta, misturar corrida com outras modalidades pode ser uma solução inteligente, não uma concessão.

    • pequenos trechos de bike
    • caminhada rápida ou inclinada
    • força funcional

    Esses estímulos mantêm o condicionamento com menor impacto logístico; o treino híbrido pode preservar continuidade quando a rotina não colabora.

    Reorganizar expectativas por fase da vida

    A capacidade de treinar muda conforme o trabalho, família, saúde e momento emocional. Insistir em metas antigas pode gerar frustração e abandono; ajustar expectativas não é retroceder — é manter o processo vivo, porque o corredor que respeita fases, dura mais, evolui melhor e se machuca menos.

    Infográfico com o título "Não é sobre o treino ideal, é sobre o treino sustentável". Apresenta 5 pilares: adaptar o local ao treino, aceitar trajetos curtos, variar estímulos no mesmo percurso, usar treinos híbridos e ajustar expectativas conforme a fase da vida.

    Variar estímulos dentro do mesmo percurso

    Mesmo em trajetos repetidos, é possível criar diversidade; isso reduz o cansaço mental e melhora a resposta neuromuscular. O corpo se adapta melhor quando o estímulo muda, mesmo no mesmo cenário.

    Experimente:

    • variação de ritmo
    • controle de recuperação
    • uso consciente de intensidade
    • blocos progressivos
    • modificar sentidos
    • focar em técnica

    Quase sempre, manter 70% do plano é melhor do que abandonar 100%

    Constância não é Perfeição

    Quem evolui na corrida não é quem treina sempre no lugar ideal, tem sempre tempo sobrando, nunca falha; quem evolui é quem:

    • negocia bem com a realidade
    • ajusta sem abandonar
    • aceita fases
    • entende limites temporários

    Isso é maturidade esportiva.

    Conclusão – Treinar Corrida é Treinar Adaptação

    Treinar corrida é muito mais do que correr bem; é aprender a lidar com a vida, negociar com o tempo, respeitar o contexto e ajustar expectativas. A adaptação não é só fisiológica, ela é logística, mental e emocional.

    Se você sente dificuldade para treinar, saiba:
    👉 Você não está sozinho
    👉 Você não é fraco
    👉 Você está lidando com a vida real

    Espero que agora você possa encarar melhor os maiores obstáculos entre você e o treino.

  • Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar   

    Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar   

    Se você é um corredor regular, provavelmente tem uma planilha, é possível que tenha um relógio GPS e esteja conectado ao Strava; mas eu te pergunto:- você tem a sua Agenda de Treino?

    Muitos corredores coletam dados, a Carga Externa do treino, mas poucos processam o feedback do corpo, a Carga Interna do treino. Seus treinos estão arquivados, mas o contexto está perdido; o resultado? Repetição de eventuais erros, estagnação e ate mesmo lesões.

    Por isso é que vou falar aqui sobre o diário de treino, e que ele não é automático nem mesmo complicado, mas é a ferramenta de inteligência que transforma dados brutos em decisões que salvam a evolução e protegem o corpo.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar      

    Vou mostrar porque é que eu o indico, o que se deve registrar e como isso por vezes salvou a preparação de vários atletas que conheci.

    Tem duas coisas que aprendi logo cedo com meu primeiro treinador:

    • O arquivamento das matérias de jornal das minhas participações e conquistas como atleta
    • Um diário de anotações para cada temporada de treinos

    Com algum tempo percebi a importância da pasta dos recortes, que conta toda uma trajetória (um paralelo das fotos nas corridas atualmente) e do diário, como poderosa ferramenta de realinhamentos.

    O Diário: Onde a Carga Interna se Encontra com a Planilha

    Recapitulando, como descrito no artigo Carga Interna x Carga Externa, cada estímulo da planilha de treinos é aplicado sob o conceito da Carga Externa; o treino que o treinador pede.

    Já a Carga Interna é como o corpo responde ao pedido, ou, ao treino executado; o que o diário pode registrar.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Carga Interna x Carga Externa

    O Diário Como Ferramenta de Feedback Real

    Planilha e relógio mostram o que você executa, enquanto o diário mostra o que você vive durante o treino.

    Ele é o único espaço onde treinador e atleta acessam o mundo interno da corrida.
    Sem ele, qualquer ajuste de carga fica baseado em chute — ou só nos números frios do GPS; com ele, você evita erros de progressão, identifica alertas precoces e acelera evolução – é literalmente o upgrade mental que não tem em nenhum aplicativo.

    Como atleta antes mesmo da categoria juvenil e ate hoje competindo na categoria máster, sempre tive os diários anuais que são um verdadeiro tesouro. Quando algo sai dos trilhos na preparação, volto, e entre poucas semanas e às vezes alguns meses, variavelmente encontro o padrão que me mostra o erro.

    Mesmo como treinador não perdi esse habito. Todo aluno meu tem sua planilha de treinos e desde o inicio, mantenho um arquivo individual dos seus treinos, semana a semana, aquelas que elaborei e enviei a eles.

    Foto do treinador Claudio Bertolino em seu escritório, focado no notebook enquanto elabora planilhas de treino personalizadas para alunos do Clube da Corrida Bertolino. Ao fundo, medalhas e banners do clube reforçam a autoridade profissional.

    Além disso, anoto as intercorrências que julgo mais importantes já sabendo que serão as respostas as eventuais questões futuras. Funciona assim: quando preciso de alguma informação especifica ou desvendar algo desalinhado no processo, recorro aos dados que coloquei ali como observação.

    É como fazer um seguro de algo; encaro que estou fazendo ali um investimento sem saber se vou usar depois, mas se precisar terei informações para me ajudar a resolver os problemas do aluno, que indiretamente, são meus problemas também.

    Exemplos Práticos

    1. Uma aluna reclamou de dores nas canelas. Logo fui às anotações na planilha dela, e ao mesmo tempo fiz uma analise de algumas semanas anteriores às dores, assim como implementei as medidas para sanar o problema antes do agravamento, já que, mais importante do que as anotações é o que fazer com elas.
    2. Certa aluna reclamou que, em determinada fase dos treinos esperava ter eliminado alguns quilos de peso. Nesse caso, eu já tinha uma resposta pronta, mas fiz questão de consultar as anotações na planilha dela, que provaram que ela não perfazia, por varias semanas, o mínimo de frequência necessária de treinos semanais, e mais, pouco fazia os melhores treinos para mexer com o metabolismo das gorduras.

    Assim que mostrei os dados das minhas anotações, ela facilmente entendeu onde estava a dificuldade, e perceba que, ela mesma não enxergava o obvio e não era por ignorar aquilo; mas porque não tinha o controle que um simples diário pode nos fornecer.

    Os Pilares de Anotação

    Aqui estão Os Pilares de Anotação — os 04 blocos indispensáveis que tornam um Diário de Treino realmente útil para evolução, prevenção de lesões e ajustes inteligentes de carga; eles são simples, rápidos de preencher e poderosos de interpretar.

    Sensação Subjetiva de Esforço (PSE/RPE)

    O mais importante de todos, é a nota de 0 a 10 que traduz o quanto o treino pesou para você naquele dia — independentemente dos números do relógio. Inclui:

    • “Foi leve, confortável ou sofrido?”
    • “Dei mais do que deveria?”
    • “Meu corpo estava responsivo ou pesado?”
    • “Tinha Capacidade de sustentar o esforço?”

    O diário é o único lugar onde você registra aquilo que nenhum relógio detecta: a percepção real de dificuldade do treino. Dois treinos com o mesmo pace podem ter sensações completamente diferentes.

    Este pilar revela fadiga oculta, alerta risco de overreaching, que pode levar ao overtraining.

    Qualidade do Movimento (técnica)

    Como o movimento se comportou hoje? Esse pilar revela sinais precoces de compensação e sobrecarga. Inclui:

    Esses parâmetros ajudam a identificar padrões antes da dor virar lesão; é a diferença entre corrigir a postura cedo, ou parar por 3 semanas depois. Sem esse registro, qualquer ajuste técnico vira tentativa e erro, porque o relógio diz quanto você correu, mas não diz como você se moveu.

    Intercorrências do Dia (o que o relógio não vê)

    É o “contexto humano” confirmando que treino não acontece no vácuo, mas, dentro da sua vida. Esse pilar explica por que você correu bem ou mal — e o Strava nunca mostraria. Inclui:

    • Horas e qualidade do sono
    • Stress do trabalho e problemas do dia
    • Refeições ruins ou atrasadas
    • Dor de cabeça / cansaço ao acordar
    • Clima emocional do dia

    Tudo isso muda a resposta do corpo e o diário registra essas pequenas variáveis que explicam por que o treino não rendeu.

    👉 Veja os detalhes desse pilar no vídeo:
    📺 Por que Treinar Corrida é Muito Mais Difícil Fora do Treino 

    Notas Estratégicas para o Próximo Treino

    É o pilar do feedback ativo, que fecha o ciclo. Inclui:

    • O que aprendi hoje?
    • O que ajustar amanhã?
    • Preciso correr mais leve?
    • A postura precisa de atenção?
    • Melhor aquecer mais?
    • Estou pronto para subir carga?

    Aqui o corredor vira protagonista — não só executor da planilha.

    Infográfico explicativo sobre o que anotar no diário de treinos, destacando os quatro pilares: sensação subjetiva de esforço, qualidade do movimento, intercorrências do dia e notas estratégicas para o próximo treino.

    Esses pilares são o detalhamento dos pontos importantes nas anotações, e claro, você não vai precisar anotar em todo treino, e cada um desses detalhes, e com o tempo  aprenderá a filtrar.

    Você perceberá padrões e aprenderá a prever seus dias bons e ruins, e sem isso, entra a possibilidade de achar que está regredindo, quando na verdade só estará drenado.

    Transformando Dados em Decisão (o poder do padrão)

    A “Pesquisa” do Corredor

    Seu diário, com o tempo, se torna seu próprio banco de dados e você começa a notar os padrões; quer ver dois exemplos?

    Padrão de Lesão

    “Toda vez que eu faço mais de x km na semana e durmo menos de 7 horas, a lesão volta”. Eu mesmo tinha um padrão desse tipo: quando fazia mais de 100 km na semana, a periostite tibial (fortes dores nas canelas) me atacava, então, com esse padrão identificado sempre estava preparado para essa condição.

    Padrão de Sucesso

    “Meus melhores treinos de ritmo sempre vieram depois de um dia de descanso ativo”. A sequência de várias semanas assim, certamente vai construindo um praticante muito forte para correr.

    O Trabalho do Treinador

    É isso que eu faço com meus alunos do Clube da Corrida. A planilha individualizada que elaboro e eles seguem é o mapa, mas as minhas anotações, o GPS que me diz se devemos manter, fazer um desvio ou acelerar.

    “Se você só me manda o Strava, você me dá uma foto. Se você me manda os dados imensuráveis, você me dá um filme”.

    Quer ver as bases para uma planilha de treinos equilibrada?

    👉 Veja como isso funciona, no artigo:
    📝 Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    O Resumo Para a Evolução: O diário permite a Reprogramação de Ritmos baseada em realidade e não apenas em expectativa.

    👉 Quer saber sobre a reprogramação de ritmos?
    📺 Assista ao vídeo Reprogramação de Ritmos: O Caminho Para Evoluir na Corrida  

    O diário não é burocracia, ele pode ser simples, direto e rápido, é inteligência de treino e indica que você está Cuidando Bem da Sua Corrida.

    Vamos à Ação Imediata! Pegue um caderno simples, crie uma nota no seu celular, ou faça um sistema igual ao que vou te mostrar logo abaixo, ou no vídeo sobre esse assunto. Comece hoje a anotar os Pilares que discutimos. Não precisa começar pela perfeição, mas pela consistência.

    Agora vou te dar um template para as anotações, igual ao que faço para mim, para os meus alunos, para as planilhas que elaborei para o curso Fitwalk | A Caminhada Turbinada e para o meu produto digital Planilha Customizável de Treino de Corrida.    

    Veja no exemplo abaixo, a praticidade de um diário dentro de uma planilha de treinos em arquivo word: entre 2 semanas de treinos, coloco um espaço para as anotações a serem feitas embaixo de cada treino (seta superior), ou apenas abaixo do treino que necessita de alguma observação. Na ausência de intercorrências, não é preciso a linha auxiliar (seta inferior).

    Diário de anotações na planilha de treinos de corrida.

    Detalhe! Quanto mais o plano de treinos for ajustado e com menos invencionices você treina; e quanto mais você trata bem sua corrida, menos anotações serão necessárias no seu diário. 

    Agora pensa e escreve aqui nos comentários: você se lembra de alguma situação em que um diário de treinos teria ajudado a resolver? E não se esqueça:-“O diário é uma forte ponte entre o seu esforço e a sua evolução.”

  • Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida? 5 Sinais de que você pode estar sabotando seus resultados

    Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida? 5 Sinais de que você pode estar sabotando seus resultados

    Você já parou pra pensar… se está tratando bem a sua corrida?

    Não estou falando de performance, pace ou distância.
    Estou falando de cuidado mesmo.

    Porque, assim como a gente cuida do que é mais precioso — uma amizade, um relacionamento ou até mesmo de bens materiais como um carro — a corrida também precisa de atenção para continuar nos dando tudo o que tem de melhor.

    E acredite: ela dá muito. Mas… será que você está retribuindo?

    👉 Se preferir, voce poderá ver esse tema em vídeo:
    📺 Será que Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida?    

    A Corrida Está a Seu Serviço — Mas Você Está Cuidando Dela?

    A corrida:

    • Melhora sua saúde
    • Fortalece músculos e ossos
    • Protege seu coração
    • Regula seu humor
    • Ajuda no controle do peso

    A lista é enorme — e isso não é por acaso. A corrida impacta praticamente todas as esferas da vida do corredor, indo muito além do físico. Ela melhora a saúde cardiovascular, fortalece o corpo e aumenta a resistência, mas também atua diretamente na mente, ajudando a reduzir o estresse, a ansiedade e a clarear os pensamentos.

    No campo emocional, a corrida constrói autoconfiança, disciplina e resiliência, qualidades que transbordam para o trabalho, relacionamentos e decisões do dia a dia. Além disso, influencia até a qualidade do sono, a produtividade e o humor, criando um ciclo positivo difícil de ignorar.

    Quando bem cuidada, a corrida deixa de ser apenas uma atividade física e se torna uma ferramenta de equilíbrio e evolução pessoal. Por isso, negligenciar esse cuidado não afeta só o treino — afeta tudo o que ele sustenta.

    Mas, assim como um amigo que sempre te apoia, se você só aparece quando “sobra tempo” — e ainda em condições ruins — cedo ou tarde essa relação cobra um preço.

    Hoje você vai entender:

    • Como muitos corredores sabotam seus próprios resultados sem perceber
    • Quais sinais indicam que você está tratando mal sua corrida
    • E o que fazer para mudar isso

    Correr no “Tempo Que Sobra” Está Sabotando Seus Resultados

    Você já disse ou ouviu alguém falar: “Eu corro no tempo que sobra”. Muito embora isso pareça ser positivo, o que realmente significa esse “tempo que sobra”?

    Na prática, muitas vezes é o período do dia após aquele que foi desperdiçado com coisas pouco relevantes, como rolar o celular sem objetivo, assistir algo sem interesse real ou procrastinar tarefas.

    Mulher relaxada mexendo no celular, ilustrando procrastinação e tempo perdido que atrapalha o treino de corrida

    E o curioso é que, depois disso, o tempo falta justamente para o que importa.

    O Problema de Deixar o Treino por Último

    Quando isso acontece, o treino deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser apenas um encaixe de última hora na rotina. Ele surge como uma obrigação feita no automático, sem presença e sem intenção.

    A energia já foi consumida ao longo do dia, e o corpo responde com menor disposição e qualidade de movimento. O que deveria ser um momento de evolução vira apenas mais um esforço para “cumprir tabela”.

    Sem prioridade, o treino perde força dentro da rotina e começa a competir com qualquer outro compromisso. Aos poucos, isso enfraquece a consistência e compromete os resultados. E, no longo prazo, a corrida deixa de ocupar o espaço que deveria na sua vida.

    E assim, o treino vira:

    • Um encaixe de última hora
    • Um esforço sem energia
    • Um compromisso sem prioridade

    Ou seja: o pior momento do dia.

    Você já chega para treinar cansado, com a energia física praticamente esgotada depois de um dia cheio. A mente também não ajuda — está saturada, carregada de decisões, preocupações e estímulos acumulados. O foco diminui, e até tarefas simples parecem exigir mais esforço do que deveriam.

    Além disso, os compromissos ainda pendentes ficam martelando na cabeça, tirando sua presença no treino. Isso faz com que a corrida deixe de ser um momento de conexão e passe a ser apenas mais uma obrigação. E, nessas condições, o treino dificilmente atinge o potencial que poderia.

    Mulher pensativa olhando para um grande relógio, representando falta de tempo para treinar corrida

    É como tentar plantar uma horta no terreno que sobrou depois de ocupar os melhores espaços. Funciona? Até funciona, mas longe do ideal.

    Quando o Treino Acontece nas Piores Condições

    Treinar no “resto do dia” geralmente significa treinar em condições desfavoráveis.

    1. Cansaço acumulado

    • Energia física e mental já esgotadas
      O corpo chega ao treino sem reservas, com a musculatura já desgastada pelas atividades do dia. A mente, cansada, reduz sua capacidade de foco e de sustentar o esforço.
    • Movimentos mais pesados
      A passada perde leveza e eficiência, exigindo mais esforço para manter o ritmo. O gesto técnico se deteriora, aumentando o gasto energético.
    • Queda na motivação
      O cérebro tende a evitar esforço quando percebe o cansaço acumulado. O treino vira algo que você precisa “se arrastar” para fazer, e não algo que te puxa.
    • Rendimento abaixo do potencial
      Mesmo completando o treino, você entrega menos do que poderia em condições melhores. Isso compromete a qualidade do estímulo e, consequentemente, a evolução.

    Com o tempo, isso gera frustração + sensação de estagnação.

    2. Alimentação inadequada

    • Longos períodos sem comer
      Ficar muitas horas sem se alimentar reduz a disponibilidade imediata de energia para o treino. O corpo entra em modo de economia, dificultando sustentar o esforço.
    • Baixa disponibilidade de energia
      Sem combustível suficiente, o organismo não consegue manter intensidade e estabilidade ao longo da sessão. Isso limita tanto o desempenho quanto a qualidade do estímulo.
    • Maior fadiga durante o treino
      O cansaço aparece mais cedo e de forma mais intensa, mesmo em treinos leves. A percepção de esforço aumenta, tornando cada minuto mais difícil.
    • Menor prazer na atividade
      A experiência deixa de ser agradável e passa a ser desconfortável. Com o tempo, isso reduz a vontade de treinar e afeta a consistência.

    Resultado: Treinos que você não tem vontade de repetir.

    3. Sono insuficiente

    Dormir mal impacta diretamente:

    • Força
    • Velocidade
    • Recuperação
    • Sistema imunológico

    O efeito prático: você faz mais esforço para ter menos resultado.

    4. A “tempestade perfeita”

    Agora imagine tudo isso acontecendo ao mesmo tempo: cansaço acumulado, fome e noites mal dormidas. O corpo simplesmente não tem de onde tirar energia para sustentar o treino. O rendimento despenca, e aquilo que antes era controlável passa a parecer muito mais difícil.

    A percepção de esforço dispara, fazendo com que ritmos leves pareçam intensos demais. Cada minuto exige mais do que deveria, tanto física quanto mentalmente. Ao final, a sensação não é de satisfação, mas de exaustão extrema. E é exatamente aqui que mora o problema. O que deveria te dar energia e equilíbrio começa, pouco a pouco, a te desgastar.

    Corredora curvada com mãos nos joelhos demonstrando cansaço após treino de corrida

    Quando o Treino Deixa de Ser Estímulo e Vira Agressão

    Repetir esse padrão não sai de graça.

    Queda de rendimento acontece quando você treina constantemente abaixo do seu potencial, sem conseguir extrair qualidade dos estímulos. Com o tempo, a evolução não aparece, mesmo com esforço e frequência. Isso gera frustração e leva à perda de confiança na própria capacidade.

    Maior risco de lesões surge quando o corpo perde controle motor e eficiência na estabilização dos movimentos. Com isso, erros de execução se tornam mais frequentes durante o treino. O resultado parte de contraturas, podendo ir para estiramentos , torções e até fraturas por estresse.

    A Baixa Imunidade aparece quando o corpo está sobrecarregado e não consegue sustentar a recuperação adequada. O sistema imune fica comprometido, aumentando a frequência de doenças. A partir daí, entra-se no ciclo: doença, pausa nos treinos e perda de ritmo.

    A Desmotivação surge quando todo treino passa a ser um sofrimento constante. A corrida perde o prazer, os resultados não aparecem e a disciplina começa a enfraquecer. Aos poucos, você se afasta da prática sem nem perceber.

    A Corrida é um Relacionamento — e Isso Muda Tudo

    Pense na corrida como uma parceria. Ela te entrega energia, saúde, confiança e disposição de forma consistente, sustentando não só o seu desempenho, mas também seu bem-estar no dia a dia. É uma relação que, quando bem construída, impacta muito além do treino.

    Mãos sobrepostas simbolizando parceria e compromisso com a corrida e o treino consistente

    Mas e você? Se só aparece sem planejamento, sem energia e sem atenção, essa conexão começa a enfraquecer. Com a corrida é igual: quanto melhor você cuida, mais ela te devolve em forma de resultados e equilíbrio.

    5 Sinais de Que Você Está Tratando Mal Sua Corrida

    Fique atento:

    • Você treina sempre cansado ou com sono
    • Sente dores frequentes que não desaparecem
    • Seu rendimento caiu sem explicação
    • A corrida já não traz prazer
    • Você vive doente ou resfriado

    👉 Se você se identificou com 2 ou mais sinais, é hora de ajustar.

    Como Cuidar Melhor da Sua Corrida (sem mudar tudo)      

    Pequenos ajustes já fazem uma grande diferença.

    Organize seus horários

    Ícone representando organização de horários para treino de corrida na rotina diária
    • Crie um padrão mínimo
    • Dê prioridade ao treino
    • Evite deixar sempre para o final do dia

    Ajuste sua alimentação

    alimentacao-corrida-energia-treino
    • Evite treinar com fome extrema
    • Evite refeições pesadas antes do treino
    • Busque equilíbrio

    Hidrate-se ao longo do dia

    Ícone de hidratação com água para melhorar a performance na corrida ao longo do dia
    • Não beba água só no treino
    • Mantenha constância
    • Evite queda de performance por desidratação

    Durma melhor

    sono-recuperacao-corrida-descanso
    • O sono é seu principal aliado
    • Impacta recuperação, energia e imunidade
    • Crie rotina de horários

    Escute seu corpo

    Ícone representando atenção aos sinais do corpo durante o treino de corrida
    • Dor não é normal constante
    • Cansaço extremo é sinal
    • Queda de rendimento precisa de atenção

    👉 Ignorar isso só aumenta o risco de lesão e estagnação.

    A Mudança de Mentalidade Que Muda Tudo

    O segredo é simples: não espere o tempo ideal — crie ele. Corra mesmo assim, mas com inteligência, ajustando aos poucos sua rotina, suas condições e a qualidade do treino.

    A evolução vem desse processo consistente de organização e consciência. No fim das contas, a corrida está a nosso serviço, mas não nos obedece — e quanto melhor você a trata, mais ela te devolve.

    Quer Estruturar Melhor Seus Treinos?

    Se você quer cuidar melhor da sua corrida, o próximo passo é entender como organizar sua semana de forma inteligente.

    👉 Assista ao vídeo:
    📺 Como Montar Uma Semana de Treino Equilibrada (sem treinar demais ou de menos)    

    👉 E se quiser se aprofundar ainda mais, recomendo a leitura de dois artigos que complementam essa visão:

    📝 Os Pilares Invisíveis que Sustentam seu Progresso na Corrida  

    📝 Os 3 Pilares Essenciais para Correr Melhor: O Segredo Além da Corrida 

  • Como a Alienação no Treino de Corrida Pode Travar Sua Evolução

    Como a Alienação no Treino de Corrida Pode Travar Sua Evolução

    Você pode estar fazendo tudo certo nos seus treinos… ou acreditando que está.

    Mas se você não sabe exatamente o que está fazendo — nem por que está fazendo — o risco de estar se sabotando é enorme, e o pior: muitas vezes isso acontece sem que o corredor perceba.

    Neste artigo vamos falar sobre alienação no treinamento de corrida: o estado em que o atleta treina no automático, sem buscar clareza sobre o processo e, por isso mesmo, acaba comprometendo sua evolução.

    📺 Prefere assistir em vez de ler?
    Este conteúdo também está disponível em vídeo:
    👉 Como a Alienação Barra Sua Evolução

    Um ciclo que pode libertar — ou aprisionar

    A corrida é, por natureza, um movimento cíclico.
    Passo após passo, um gesto se repete e se encaixa no outro, formando um padrão de deslocamento que pode parecer quase hipnótico.

    Esse automatismo biomecânico é fundamental para a eficiência da corrida; quanto mais natural e econômico o movimento, melhor, mas existe um detalhe curioso: esse automatismo físico pode acabar se refletindo também na mente do corredor.

    Quando isso acontece, o atleta passa a:

    • repetir treinos sem questionar
    • cumprir planilhas sem entender
    • manter hábitos sem avaliá-los
    • acumular quilômetros sem construir consciência

    O que deveria ser um ciclo virtuoso de evolução acaba se transformando em um ciclo vicioso de estagnação.

    Água parada com lixo simbolizando estagnação no treinamento de corrida

    A estagnação quase sempre gera prejuízos.

    O corpo continua correndo , mas o entendimento não evolui, e quando o entendimento para, a performance pode parar também.

    O que é alienação no treino de corrida?

    Neste contexto, alienação não tem relação com o uso jurídico do termo. No treinamento esportivo, usamos a palavra para descrever quando o corredor não compreende a lógica do próprio processo de treinamento.

    Ele não sabe, por exemplo:

    • por que a intensidade muda ao longo da semana
    • qual é o objetivo de cada tipo de treino
    • o papel das rodagems, intervalados e longões
    • quais são as cargas ideais para cada estímulo
    • por que existe uma ordem estratégica entre esses treinos

    Também não entende por que às vezes ainda não é hora de correr uma meia maratona ou uma maratona, mesmo que tenha vontade. Na maioria das vezes, o problema não está apenas na falta de conhecimento técnico, o problema está na postura passiva diante do processo.

    É o corredor que:

    • apenas segue a planilha
    • ou treina “no feeling”
    • mas não procura entender o que está acontecendo.

    O ciclo da alienação no treinamento

    A alienação no treino costuma funcionar como um ciclo que se retroalimenta; vamos entender como isso acontece.

    1. Falta de consciência

    O primeiro elo é simples: executar sem compreender. Muitos corredores apenas “seguem o fluxo”, repetindo treinos sem saber:

    • qual sistema energético estão trabalhando
    • qual o objetivo do treino do dia
    • em que fase do planejamento se encontram

    Treinar passa a ser quase uma receita de bolo. Hoje, com tanta informação disponível gratuitamente na internet, esse comportamento chama ainda mais atenção, já que antigamente era preciso comprar revistas especializadas ou participar de cursos para entender o básico.

    Hoje bastaria acompanhar:

    • bons canais no YouTube
    • podcasts especializados
    • conteúdos educativos

    Mesmo assim, muitos corredores não desenvolvem essa curiosidade ativa, e essa falta de consciência cria terreno fértil para:

    • erros de treinamento
    • vícios técnicos
    • sobrecarga
    • estagnação
    • lesões evitáveis

    Sem entender o processo, o corredor vive um treino praticamente “cego”.

    2. Vulnerabilidade

    Sem entender o que está fazendo, o corredor se torna altamente vulnerável.
    Ele pode:

    • seguir orientações equivocadas sem perceber
    • confiar cegamente em qualquer treinador ou influenciador
    • cometer erros sozinho acreditando que está evoluindo

    Essa falta de critérios abre espaço para exageros, desequilíbrios e decisões ruins. É como dirigir um carro em alta velocidade com os vidros embaçados.

    Vidro embaçado visto de dentro de um carro representando treino sem clareza

    Pode até funcionar por um tempo, mas cedo ou tarde o impacto aparece.

    3. Resultados fracos

    Com o aumento da vulnerabilidade, os resultados começam a refletir esse desequilíbrio.
    O rendimento pode:

    • estagnar
    • evoluir muito lentamente
    • ou até regredir

    Além disso, podem surgir:

    • sinais de sobrecarga
    • pequenas lesões recorrentes
    • queda na motivação

    O corredor treina, se esforça… mas a evolução não aparece.

    4. Frustração e confusão

    Quando os resultados não aparecem, surge a frustração. Sem entender o motivo, o corredor começa a duvidar:

    • do método
    • do treinador
    • do próprio corpo
    • ou da própria capacidade

    Ele tenta corrigir por conta própria, mas como não tem clareza do problema, acaba cometendo novos erros. Isso gera:

    • confusão mental
    • desânimo
    • perda de prazer na corrida
    Corredor sentado e pensativo na pista demonstrando desânimo com os treinos

    5. Reforço da alienação

    Mesmo frustrado, o corredor continua repetindo os mesmos padrões. Ele pensa:

    “Uma hora vai dar certo.” Sem reflexão e sem orientação consciente, os erros se normalizam, a alienação vira hábito e o ciclo se fortalece.

    Infográfico - o ciclo da alienação na corrida.

    Com ou sem treinador, isso pode acontecer

    Um ponto importante: a alienação pode acontecer tanto com quanto sem treinador.
    Você pode estar alienado:

    • mesmo tendo treinador, se apenas executa sem entender
    • mesmo treinando sozinho, se não segue nenhum critério

    Ou seja, o problema não é apenas a presença ou ausência de orientação técnica; o problema é a falta de consciência crítica sobre o processo. Treinar não é apenas correr, Treinar também é pensar sobre o que se está fazendo, e quem pensa sobre o treino tende a aprender mais com os acertos — e errar menos.

    Por que é tão fácil ser enganado?

    Um corredor alienado é relativamente fácil de impressionar.
    Por exemplo:

    • um gráfico bonito pode parecer uma grande análise
    • uma explicação longa pode parecer profunda
    • um treino extremamente difícil pode ser interpretado como “treino eficaz”

    Sem entendimento básico, o corredor pode cair facilmente em:

    • modismos
    • estratégias de marketing
    • orientações mal fundamentadas

    Às vezes, isso acontece até sem má intenção por parte de quem orienta, mas o corredor alienado não tem ferramentas para perceber.

    Uma experiência pessoal sobre alienação

    Aprendi isso fora da corrida, da pior maneira. Durante um período da minha vida profissional, deixei as ações de marketing da minha empresa totalmente nas mãos de terceiros. Eu praticamente não entendia nada sobre o assunto.

    Resultado: perdi tempo e dinheiro com profissionais despreparados e depois disso, resolvi aprender ao menos o básico sobre o assunto, não para fazer tudo sozinho, mas para não ser enganado novamente.

    Muitos de nós já passamos por algo semelhante em outras áreas da vida e não por acaso, quando precisamos de um especialista, costumamos buscar referências e recomendações antes de contratar.

    Afinal, quem nunca saiu de uma oficina com a sensação de não saber se o orçamento do mecânico estava realmente justo? Esse tipo de experiência ensina algo importante:
    entender minimamente um serviço não é arrogância — é proteção.

    E no treinamento esportivo isso é ainda mais relevante. Diferente de um serviço pontual, a orientação no treino é um processo contínuo e recorrente. O que está em jogo aqui é uma atividade importante realizada diretamente sobre o próprio corpo, com impacto não apenas na performance, mas também na saúde.

    Se a orientação for ruim, o prejuízo pode se acumular ao longo do tempo, por isso, quanto mais consciência o corredor desenvolve, mais protegido ele fica.

    O risco de acertar sem saber por quê

    Errar é ruim, mas existe algo quase tão perigoso quanto errar: acertar sem entender o motivo.

    Quando o corredor tenta repetir aquele acerto no futuro, pode falhar completamente, porque o contexto mudou.
    Talvez aquele resultado tenha sido fruto de:

    • uma fase específica do treinamento
    • um momento particular da preparação
    • ou simplesmente sorte

    Evoluir por sorte é frágil. Já evoluir com consciência é sustentável.
    Quem entende o processo sabe:

    • o que funcionou
    • por que funcionou
    • quando repetir
    • quando adaptar

    Isso constrói uma base sólida para evolução.

    Como romper o ciclo da alienação

    Você não precisa se tornar especialista em treinamento, mas pode desenvolver um nível básico de consciência sobre o seu processo e algumas atitudes simples ajudam muito nisso.

    Estratégias práticas

    • Consuma conteúdos educativos confiáveis
    • Pergunte mais, mesmo que tenha treinador
    • Entenda a lógica geral do seu treinamento
    • Busque clareza sempre que algo não fizer sentido
    • Evite terceirizar totalmente seu processo
    • Anote percepções em um diário de treino

    📺 Quer aprender a usar um diário de treino de forma realmente estratégica?
    Assista ao vídeo
    👉 Diário de Treino: O Upgrade Que Seu Strava Não Vai Te Contar:

    A autonomia equilibrada é a chave. Nem alienação. Nem teimosia.

    Treinar é parceria, não delegação

    Um bom treinador não quer um robô que apenas execute a planilha; ele prefere muito mais um aluno que se envolve com o processo.

    A evolução nasce da conexão entre:

    • planejamento
    • execução
    • comunicação

    Quando o corredor entende minimamente o que está fazendo, ele fica mais preparado para lidar com:

    • ajustes de carga
    • mudanças no planejamento
    • imprevistos na rotina
    • adaptações necessárias

    Ele deixa de ser apenas executor e passa a ser parte ativa do próprio processo de evolução.

    Conclusão: a chave é consciência

    Treinar com consciência é o que diferencia o corredor que evolui daquele que apenas acumula quilômetros.

    A alienação:

    🚫 impede aprender com a experiência
    🚫 impede evitar erros
    🚫 impede reconhecer progressos

    Evoluir na corrida é mais do que correr; é entender o que se está fazendo — e por quê.

  • Por que não Queimar Etapas nos Treinos

    Por que não Queimar Etapas nos Treinos

    A equivalência da famosa “queima de etapas” para treinos e provas é simples:

    É quando se desconsidera um plano de orientação — ou mesmo sem qualquer diretiva — e se assume a execução de tarefas além das possibilidades momentâneas, mirando metas com muito mais ambição do que realidade.

    Pode acreditar: essa tentação existe aos montes, e talvez você já tenha presenciado; talvez já tenha experimentado. E ela acontece em todos os níveis:

    • Amadores iniciantes
    • Intermediários empolgados
    • Atletas experientes
    • Corredores de alta performance

    Os treinos são como ternos, quanto mais na medida, melhor. Tudo bem as medidas são flexíveis, “mas não altere o samba tanto assim”.

    Representação do treino bem ajustado ao atleta.

    Como e Onde Isso Acontece

    No Âmbito dos Treinos

    As principais formas de atropelar o processo de condicionamento estão na manipulação inadequada de volume e intensidade.

    📌 Se você quer aprender como estruturar uma semana equilibrada e evitar exageros de volume e intensidade, assista:
    👉
    Como Montar Uma Semana de Treino Equilibrada (sem treinar demais ou de menos)

    Quer alguns exemplos clássicos?

    • O treino longo com 30% a mais do que o estabelecido porque “o dia estava bom”.
    • A semana com aumento muito acima dos 10% preconizados pela teoria.
    • Tiros que beiram o inexequível.
    • Ritmos sustentados além da zona proposta.

    São exemplos recorrentes de uma “boa” queima de etapa.

    Um Exemplo Clássico da Cópia Sem Critério

    Na década de 80, o notável meio-fundista marroquino Said Aouita, multicampeão entre 3.000m e 5.000m (com desempenho expressivo dos 800m aos 10.000m), tornou-se referência mundial.

    Seu modelo de treino foi replicado por aqui, mas sem:

    • Especificidade
    • Contexto fisiológico
    • Individualização

    Resultado? Um grande fracasso. Uma tentativa simplista de adiantar o processo para atletas experientes, conduzidos por metodologia inadequada que levou a uma queima de etapa por imitação.

    O atleta multi-campeão Said Aouita competindo.

    O notável atleta Said Aouita

    Especialização Precoce e Declínio Prematuro

    Uma década depois, repetia-se o contexto em outro cenário, e eu seguia observando:

    • Atletas formados entrando em declínio precoce
    • Jovens em iniciação esportiva sendo conduzidos a cargas incompatíveis com suas estruturas em formação

    A consequência mais comum? Foi exatamente o que aconteceu – especialização precoce com o desaparecimento de vários jovens talentos do cenário competitivo na fase adulta.

    A maleabilidade dos planos e dos treinos é uma premissa que tem sido utilizada como uma espécie de licença poética a treinadores imediatistas e seus métodos e processos que produzem campeões mirins, às vezes juvenis, mas quase nunca chegam à fase adulta, e quando acontece, são de carreiras meteóricas.

    Quando a Ciência Intervém

    A federação norte-americana de natação, há décadas atrás, minimizou essa condição com protocolos de limites aos treinamentos de seus jovens atletas, o que evidencia a seriedade necessária do trato a uma área tão preciosa à modalidade e aos seus pré-adolescentes e adolescentes, na fase em que fabricam os sonhos de serem um paralelo de Phelps.

    Quando Isso Chega Até Você: O Perigo dos “Copiões” e dos Especializadores Precoces

    Pode parecer que os exemplos anteriores pertencem apenas ao alto rendimento, mas não, eles estão mais próximos do que se imagina. Hoje, no universo da corrida amadora, também existem:

    • Treinadores que replicam planilhas prontas, sem individualização.
    • Métodos importados de atletas profissionais aplicados a iniciantes.
    • Processos acelerados que produzem “evoluções rápidas” — quase sempre seguidas de consequências negativas.

    O treinador “copião” não considera histórico esportivo, idade biológica, base aeróbia construída, resposta individual à carga; ele considera apenas o modelo.

    Já o “especializador precoce” transforma um corredor iniciante em “especialista” em 3 ou 4 meses:

    • Volume elevado cedo demais
    • Intensidade desproporcional
    • Excesso de provas
    • Pouca base estrutural

    O resultado costuma ser previsível: lesões, queda de rendimento, desmotivação e abandono da prática. A queima de etapas não está apenas na decisão individual de correr além do previsto, também pode estar no ambiente que estimula:

    • Comparações constantes
    • Evoluções apressadas
    • Metas incompatíveis com o momento

    Nem todo treino difícil é treino inteligente, nem toda evolução rápida é sustentável, e muitas vezes, a responsabilidade não está apenas no corredor — mas na orientação que ele recebe.

    Distância de Prova: A Queima de Etapa Mais Sedutora

    “Professor, quero correr uma maratona daqui a quatro meses.”
    “Mas você não estará pronto.”
    “Mas vai ser legal.”

    O diálogo acima foi só uma representação de uma prática comum para mostrar uma das maneiras de como as coisas se dão na queima de etapa para escolha de uma distância de prova a se participar, e assim, começa uma das formas mais comuns de queimar etapas. As provas longas exigem:

    • Tempo de preparação
    • Base aeróbia consolidada
    • Participação prévia em distâncias menores
    • Maturidade fisiológica

    A maratona é fascinante, mas tentar corrê-la sem cumprir pré-requisitos é como tentar escalar uma montanha alta e íngreme sem passar pelas fases preparatórias; desafio sem base é imprudência.

    É possível que todos ali diálogo acima tenham ciência da precocidade da ideia pela imaturidade orgânica do corredor, que o tempo é curto, às vezes algumas temporadas antes do ideal; de que vai ser legal até aproximadamente os 30 km, e às vezes bem antes, um pesadelo, que incorre em riscos, e que poderá deixar sequelas.

    Quando a Emoção Engana

    Em 05/06/2023, um jovem de 26 anos faleceu aos 15 km, durante um desafio empresarial de cumprir uma maratona. Ele não estava preparado sequer para 5 km e a sucessão de imperícias culminou em tragédia.

    Mais uma prova de que a emoção é um estímulo enganoso e a fisiologia não negocia. A combinação de um grande desafio com despreparo, afasta ainda mais a pessoa do risco zero em atividades como o mergulho em apneia, na alta montanha; e também na corrida, embora não pareça.

    As distâncias mais longas de provas são bem exigentes quanto ao caráter e tempo de preparação, e a participação consistente em provas mais curtas é um dos importantes pré-requisitos. Sim, a maratona é uma prova fascinante quanto ao topo dos autodesafios e desafios, mas, um desafio assim sem cumprir pré-requisitos, é tentar atingir o topo do Monte Everest sem as oito semanas preparatórias. 

    Volta aos Treinos Pós-Lesão

    Quando “parece estar tudo bem” é justamente o momento de maior vigilância; queimar etapas na volta pós-lesão é uma das formas mais comuns de reincidência. Recidivas são, em grande parte, consequência de:

    • Dimensionamento inadequado de cargas
    • Tempo insuficiente de cicatrização
    • Fortalecimento incompleto da região afetada
    Atleta corredor em tratamento fisioterápico.

    Experiência Pessoal e Base Sólida

    Me lembro que, ainda atleta em formação, meu primeiro treinador e grande incentivador dizia:- “temos que colocar muitos quilômetros nas suas pernas”. Ele estava dizendo sobre as bases para uma carreira sólida sem atropelos.

    Lembro também, já atleta formado, que meu último treinador foi impecável com as cargas de treinos, sempre muito preciso. Por sorte, aprendi observando o respeito ao processo, que carreira sólida não nasce da pressa, nasce da progressão.

    Por Que os Corredores Queimam Etapas?

    Perfil e Falsa Sensação de Segurança

    1. O amador muitas vezes não sabe que está queimando etapas.
    2. Sabe, mas comete pela ansiedade por resultados rápidos.
    3. Está sob orientação sem fundamentos científicos sólidos.
    4. Acredita que a pior consequência será apenas uma fadiga passageira.

    Essa falsa sensação de segurança é perigosa porque o ambiente parece controlado, mas os “russos da fisiologia” não foram consultados. A queima de etapas nasce de três fontes:

    • Impaciência
    • Emoção
    • Desconhecimento

    Mas o treinamento esportivo é regido por:

    • Progressão
    • Adaptação
    • Tempo
    • Respeito biológico

    Não existe atalho fisiológico, o corpo não evolui na velocidade da vontade e toda tentativa de acelerar o processo cobra juros — às vezes pequenos, às vezes irreversíveis.
    Treinar é construir; queimar etapas é apostar contra o próprio tempo.

    📌 Antes de tentar acelerar seus resultados, veja este vídeo:
    👉 Por Que Não Queimar Etapas

  • Correr Movido Pelo Estado de Espírito: Liberdade ou Ilusão?

    Correr Movido Pelo Estado de Espírito: Liberdade ou Ilusão?

    Há muito tempo circula a ideia de que correr deve ser algo guiado pelo estado de espírito — aquele impulso momentâneo que diz: “Hoje eu estou com vontade”.

    Mas estado de espírito, por definição, é temperamento passageiro. E o que é passageiro dificilmente sustenta evolução consistente.

    Correr Quando der na Telha ou Treinar Sistematicamente?

    É difícil dizer o que veio antes: correr quando “bater a vontade” ou treinar com método. Ambas as formas podem funcionar — especialmente quando o objetivo é apenas se movimentar.

    Mas à medida que a ciência do treinamento esportivo evoluiu, o modelo sistematizado passou a se sobressair, não por rigidez, mas por coerência fisiológica.

    “Quando tiver vontade, coloque o tênis e corra como e o quanto estiver disposto.”

    Representação da dúvida entre correr amparado pela ciência ou pelo estado de espírito.

    Esse argumento considera fatores emocionais legítimos e eles são importantes, porém, quando falamos de:

    • performance
    • metas progressivas
    • minimização de lesões
    • otimização de tempo

    Vontade deixa de ser critério suficiente.

    Saúde, Performance e o Limite do Empirismo

    Para quem corre exclusivamente pela saúde, o modelo empírico pode funcionar — desde que haja alguma regularidade. Mas mesmo nesse cenário, existe um risco silencioso: a tendência a permanecer na zona de conforto fisiológica.

    Sem planejamento, o corredor costuma:

    • Repetir sempre o mesmo ritmo
    • Manter o mesmo volume
    • Evitar desconfortos adaptativos

    Resultado? Pode não atingir sequer o mínimo estímulo necessário para prevenir doenças hipocinéticas, e, no extremo oposto, estão os vigoréxicos, que fazem do impulso uma escalada desordenada de cargas.

    A falta de método produz dois extremos:

    • Subestimulação crônica
    • Sobrecarga irresponsável

    A Ciência não Anula a Motivação. Ela a Organiza

    Ouvi recentemente que até mesmo um médico maratonista defender o viés da corrida pelo acaso motivacional.

    Mas é curioso, já que, na prática clínica, decisões não são tomadas pelo “estado de espírito”; são baseadas em evidência, protocolo e raciocínio científico.

    Por que, então, seria diferente no treinamento? A corrida — seja de resistência ou velocidade — está profundamente calcada na:

    • fisiologia do exercício
    • periodização
    • dinâmica das cargas
    • princípio da individualidade biológica
    Representação de um corredor treinando baseado na ciência do esporte.

    Ignorar isso é reduzir um fenômeno complexo a um impulso momentâneo. Ainda assim, é importante dizer – quase sempre é melhor correr por vontade do que não correr, mas correr apenas por vontade limita o que poderia ser construído com método.

    Disciplina: A Ponte Entre Quem Você é e Quem Quer Ser

    Disciplina não é rigidez. É alinhamento entre:

    • Objetivo
    • Método
    • Execução

    Ela permite que você treine mesmo quando o estado de espírito não coopera, e curiosamente, o efeito é inverso do que muitos pensam: A corrida pode não depender do estado de espírito, mas o estado de espírito frequentemente melhora por causa da corrida.

    Aqui está o ponto central: Você não precisa estar motivado para treinar; precisa treinar para manter a motivação viva.

    Para Quem o Modelo da Vontade Funciona?

    Funciona para:

    • O corredor ocasional
    • Quem não tem metas específicas
    • Quem aceita resultados aleatórios

    Mas não funciona para quem:

    • Quer evoluir
    • Quer correr provas específicas
    • Quer evitar lesões
    • Quer otimizar as “poucas” 24 horas do dia

    📌 Se você quiser refletir mais profundamente sobre o que realmente te move a correr, assista:
    👉 Por que Você Realmente Treina?

    Treinar é administrar energia, tempo e estímulo; isso exige método.

    Correr movido pelo estado de espírito é liberdade; treinar com orientação é construção. A liberdade pode iniciar o movimento, mas é a construção que sustenta o progresso.

    Entre a vontade e o método, não existe guerra, existe hierarquia. A vontade pode abrir a porta, mas é a disciplina que mantém você no caminho. E no final, quase nunca nos arrependemos do treino que fizemos.

    Mas frequentemente nos arrependemos daqueles que deixamos para depois — esperando a vontade chegar. Correr melhora o estado de espírito, mas esperar o estado de espírito melhorar para correr é inverter a lógica da adaptação.

  • Estratégias Para Não Desistir de Correr: Como Criar Consistência na Corrida  

    Estratégias Para Não Desistir de Correr: Como Criar Consistência na Corrida  

    Começar a prática da corrida é uma coisa,:- basta uma rápida atenção aos múltiplos benefícios que ela proporciona, um convite na hora certa ou até a curiosidade de saber por que milhões de pessoas participam desse movimento e pronto, a aderência é relativamente fácil.  

    O verdadeiro desafio, porém, não é começar. É não desistir de correr.

    A permanência na prática já é coisa bem diferente…e não por acaso as pesquisas mostram que com menos de 12 meses de participação corresponde o grupo mais numeroso em relação aos corredores com mais tempo na atividade, ou seja, muitos desistirão.

    Ainda que a saúde e a qualidade de vida sejam apontadas como os principais objetivos para os indivíduos praticarem a Corrida, sendo esses aspectos fundamentais e com manutenção sem data de vencimento, muitos sucumbem até o segundo mês de prática.

    Mais de um terço dos indivíduos que iniciam na corrida são motivados pela estética, mais precisamente o emagrecimento, só que esse é dos últimos e mais difíceis fenômenos dentre os vários promovidos por ela, apesar de ser uma das atividades físicas mais eficazes pra esse fim.

    Enquanto se pode facilmente enxergar que, com algumas semanas de treinos não se modificou um só furo no cinto, ainda que se possa sentir alguns dos outros efeitos positivos e bem mais importantes da extensa gama deles e já na segunda semana, isso é insuficiente para manter na atividade o indivíduo imediatista e movido somente pela estética, então ele desiste, porque o que mais interessa na sua concepção demora, e o mais importante é invisível aos olhos.

    Por Que Tantas Pessoas Desistem de Correr?  

    Entender as dificuldades do iniciante e propor estratégias pode ser um bom começo para a persistência

    A adoção de estratégias pode fazer a diferença entre a frustração de mais um desistente e a vitória daquele que soube dar chances a si mesmo, encarando e assumindo o processo de treinar corrida como ele é: relativamente vagaroso e requer disciplina. Aceitar o processo é a primeira grande estratégia.

    Superadas as dificuldades iniciais, o novo corredor perceberá que nem tudo é desconforto, e conhecerá um vício do bem.

    Lembre que a consistência é fundamental. Mesmo ao enfrentar desafios, manter-se resiliente e seguir praticando a corrida pode levar a resultados fortes e memoráveis.

    🟢 Estratégias Para não Desistir da Corrida

    Se você quer criar consistência na corrida e evitar fazer parte das estatísticas de desistência, as estratégias abaixo podem transformar sua relação com o treino.

    1. Obtenha Orientação

    Investir numa orientação qualificada de maneira permanente pode ter um ótimo custo-benefício. O trabalho de um profissional capacitado e experiente aumentará seu compromisso com a atividade, otimizará seu tempo pela eficácia, trará segurança e os resultados esperados no processo de treinos. Cerca de 50% dos corredores brasileiros amadores estão sob orientação, e assim, grande parte desses adeptos da corrida procuram solucionar a questão da performance, sendo que 100% deles ficam mais motivados.

    2. Varie os Treinos

    A variação não só dos locais mas também dos estímulos: treinos curtos, treinos rápidos, treinos longos, treinos intervalados, treinos de força, quebram a monotonia que levam ao desinteresse e à desistência

    3. Arrume Companhia

    Se o seu perfil é de alguém que não admite desenvolver uma atividade assim, sozinho, você pode tentar convencer pessoas próximas a correr contigo, ou se engajar num grupo já existente, pois, ainda que não haja alguém no mesmo nível de condicionamento para correr junto o tempo todo, o fato de ter algumas pessoas com horário e objetivos parecidos facilita bastante.

    4. Estabeleça uma Rotina

    Consistência nasce da agenda. Determine, segundo sua agenda da semana, os dias e horários dos treinos, tentando sempre mantê-los reservados a esse fim, e coloque a sua corrida naordem do dia”, como aquilo que deverá cumprir, diferentemente do “se der eu vou”. Nos dias em que tiver programado correr, será bom pensar nisso como uma tarefa com tanto valor quanto uma das principais refeições, ou quanto o esperado descanso ao final da jornada.

    5. Crie Metas

    Metas são tão importantes que, no alto nível habitam o campo dos sonhos. Você também poderá ter os seus, elegendo várias metas, como garantir o bem estar, melhorar a estética corporal, manter os indicadores da saúde, estabelecer auto desafios, etc…Um pequeno conjunto de metas exequíveis, e seu treinador vai te ajudar muito na escolha delas, certamente te ajudarão na motivação tanto para iniciar quanto de permanecer praticando a corrida.

    Metas são importantes, mas precisam estar alinhadas ao seu momento de vida.
    Correr para emagrecer é diferente de correr para se desafiar.
    Buscar saúde é diferente de buscar performance.

    Quando a meta está desconectada do seu propósito atual, a motivação enfraquece.

    📌 Se você quiser refletir mais profundamente sobre isso, assista:
    👉 Por Que Você Realmente Treina?

    6. Visualize o Sucesso

    Mentalize seus objetivos e visualize-se atingindo-os. A visualização positiva pode fortalecer sua experiência e foco.

    7. Comemore as Conquistas e Resultados

    A prática da corrida é mediante um processo rotineiro de esforço físico e de longa duração, onde os objetivos são escaláveis, às vezes demorados e quase todos difíceis. Quem consegue correr regularmente, já é diferenciado pela disciplina, está mesmo de Parabéns!!…e quem atinge objetivos, pode muito bem comemorá-los à sua maneira. 

    8. Crie Recompensas

    Defina recompensas para alcançar metas específicas; pode ser desde um pequeno mimo após uma semana de treinos bem sucedida, até uma recompensa maior alcançar um marco importante.

    9. Registre os Treinos

    O registro dos treinos e observações a cerca deles é um importante documento no campo da motivação e em outros também. Ali você terá um poderoso histórico de sua evolução, explicações de causa e efeito para quase todas as adversidades ou sucessos no decorrer do processo…um bom diário dos treinos contém tanta informação que equivale a um livro; o seu livro.  

    📌 Quer aprofundar esse ponto?
    Falo detalhadamente sobre como o diário de treino pode elevar seu nível de consciência e evolução no vídeo:
    👉 Diário de Treino: O Upgrade Que Seu Strava Não Vai Te Contar

    10. Compartilhe Alguns Treinos

    Não precisa se tornar “atleta de redes sociais”, ou vai nessa se quiser, mas alguns treinos serão tão desafiadores e te trarão tanta força e satisfação mental que realmente serão dignos de compartilhar uma foto ou um relato dele com quem se importará com isso, então mostre que o fruto do teu esforço te fez bem, com muito orgulho.   

    11. Participe dos Eventos

    Uma das melhores estratégias para manter-se engajado num programa de treinamento de corrida é participando das corridas rústicas. Dessa maneira são criados parâmetros palpáveis de evolução, etapas consecutivas e ininterruptas de preparação, adoção de desafios e auto desafios e o prazer de participar do evento, ou seja, uma ação com vários fatores conspirando a favor da sua permanência na rotina dos treinos.  

    12. Informe-se Sobre a Corrida

    Atualmente temos muitas revistas eletrônicas e portais na internet especializados, com informações sobre muitos assuntos relacionados à corrida (abaixo, deixo alguns deles). A noção básica ainda que sobre poucos assuntos, te colocará em vantagem sobre as escolhas a fazer, para que não perca tempo e dinheiro, e para que obtenha os resultados esperados.

    Informação é uma das ferramentas mais poderosas para quem deseja evoluir. A falta dela — ou a alienação — pode ser justamente o que está travando seu progresso, mesmo quando você treina com dedicação.

    📌 Aprofunde essa reflexão no vídeo:
    👉 Como a Alienação Barra Sua Evolução

    13. O Que Podemos Aprender com a Elite

    Os atletas de elite estão em um nível de performance muito distante do corredor amador. No entanto, guardadas as proporções impostas pela genética e pelo contexto competitivo, os princípios que sustentam o alto rendimento são os mesmos que sustentam a evolução do iniciante.

    Disciplina, consistência, método, paciência e respeito ao processo não são exclusivos de quem corre para medalhas — são fundamentos universais da evolução.

    Conhecer a história de desafios, perseverança e resiliência dos protagonistas do atletismo amplia a compreensão do que realmente constrói performance. Mais do que inspiração, a elite oferece referência técnica e mental.

    📌 Aprofunde essa reflexão no vídeo:
    👉 Atleta de Elite: Por Que Ele é Importante (Também Para o Corredor Amador)

    14. Lide com Obstáculos de Forma Construtiva

    Eventualmente, haverá intercorrências, como a falta de tempo ou lesões; em vez de desistir completamente, ajuste seu plano de treinamento buscando alternativas e aproveitando para aprender com as adversidades.

    🟢 A Corrida Não Testa Suas Pernas. Testa Sua Permanência.

    Desistir raramente é um problema físico. Quase sempre é um desalinhamento entre expectativa e processo.

    Quem permanece não é o mais talentoso — é o que entende que a evolução é silenciosa, gradual e muitas vezes invisível.

    A corrida não entrega resultados imediatos. Ela entrega caráter.

    Ensina disciplina quando ninguém está olhando. Ensina paciência quando o espelho ainda não mudou. Ensina resiliência quando o cansaço aparece.

    Persistir na corrida é, no fundo, um exercício de maturidade. E maturidade não se constrói em dois meses. Constrói-se treino após treino.

    Se você compreender isso, dificilmente fará parte da estatística dos que desistem. Você fará parte dos que permanecem. E permanecer é o que transforma praticantes… em corredores de verdade.

    🔎 Para Aprofundar Sua Evolução

    Se este artigo fez sentido para você, recomendo expandir 04 dos pilares fundamentais da permanência na corrida:

    Afinal, Pra Que Mesmo Você Treina?
    → Entenda como seus motivos evoluem com o tempo e por que correr sem propósito é treinar sem direção. https://youtu.be/_jPf9X4Vh6Q

    📘 Diário de Treino: O Upgrade Que Seu Strava Não Vai Te Contar
    → Transforme registro em ferramenta estratégica de evolução. https://youtu.be/gs4k4S0liQQ

    🧠 Como a Alienação Barra Sua Evolução
    → Entenda como a falta de consciência pode estar limitando seus resultados. https://youtu.be/LcLDqhd2VHY

    🏅 Atleta de Elite: Por Que Ele é Importante (Também Para o Corredor Amador)
    → Descubra por que a elite é referência prática também para você. https://youtu.be/Mxr1SMFC4ZY

    A corrida é simples, mas evoluir nela exige intenção. Escolha ser um corredor consciente… E Bons Treinos!

    📚 Amplie Seu Repertório

    Além deste blog, existem portais especializados que ajudam a acompanhar o cenário da corrida, como:

    Webrun
    Ativo
    Corrida no Ar
    Sua Corrida
    Runner’s World
    Contra Relógio

    Consumir informação de diferentes fontes amplia sua visão — mas lembre-se: informação só gera evolução quando aplicada com consciência.

    Fonte:
    João Gabriel Milano Peixoto Queiroz e outros
    http://www.efdeportes.com/efd188/perfil-dos-praticantes-de-corrida-de-rua.htm