Categoria: Comportamento do Corredor

  • Quando o Propósito Supera o Objetivo

    Quando o Propósito Supera o Objetivo

    A Jornada Chega ao Seu Sentido

    Chegamos ao último episódio dessa trilogia, “O Sentido do Seu Treino”.
    Nos dois artigos anteriores abordamos: Afinal, Para Que Mesmo Você Treina? e Seu Objetivo Mudou – E Isso é Ótimo.

    Aqui, vamos dar um passo além, e falar sobre o ponto em que o propósito começa a se sobrepor ao objetivo.

    O propósito é o que te mantém correndo quando o objetivo é atingido, muda ou deixa de fazer sentido.

    É aqui que a corrida deixa de ser apenas um meio pra alcançar algo, e passa a ser um modo de estar no mundo.

    Correr, a partir daqui, não é só uma prática física, mas também uma forma de se conhecer, de se manter inteiro, de encontrar sentido.

    Objetivo e Propósito – Não São a Mesma Coisa

    O objetivo é o que te faz começar, e pode ser:

    • perder peso
    • melhorar a saúde
    • baixar o tempo nos 10 km
    • ou simplesmente se sentir bem
    Infográfico sobre os principais objetivos da corrida, destacando perda de peso, melhora da saúde, desempenho em provas e bem-estar.

    Ele tem forma, medida, prazo, mas o propósito é diferente; o propósito é o motivo mais profundo.

    Ele é menos sobre “o que você quer alcançar” e mais sobre “por que você quer isso”.
    É aquilo que continua te movendo mesmo quando você já conquistou o que queria — ou quando as circunstâncias mudaram e aquele objetivo deixou de fazer sentido.

    O objetivo muda; o propósito permanece.
    E é justamente essa diferença que separa o corredor que apenas segue planilhas do corredor que encontra sentido em cada passada, porque uma planilha é justamente uma ferramenta para alcançar objetivos.

    A Corrida Como Espelho da Vida

    A corrida é, de certa forma, um espelho, e tudo o que você vive nela reflete o que acontece fora dela:

    • os altos e baixos
    • as conquistas
    • as pausas forçadas
    • as dúvidas
    • o amadurecimento

    No começo, o corredor é movido por objetivos claros e diretos — correr uma prova, perder uns quilos, desafiar um amigo, mas com o tempo, a corrida começa a mostrar outras camadas.

    Você passa a perceber que aquilo que te prende à prática não é mais o cronômetro, nem o espelho, nem a balança. É algo mais interno, e esse é o ponto em que o propósito começa a aparecer — quase sem que você perceba.

    A Relação Com o Objetivo

    Ter um objetivo é importante: é ele que dá direção, que organiza seu treino, que faz você levantar da cama num dia frio, mas o erro está em acreditar que o objetivo é tudo.

    Quando o corredor enxerga a corrida apenas como meio pra alcançar algo, ele corre o risco de se perder quando esse “algo” acaba, e é por isso que tanta gente desanima depois de atingir uma meta: aquela maratona, aquele peso ideal, aquele recorde pessoal… e depois?

    Se o objetivo é o combustível, o tanque sempre vai esvaziar, mas se o propósito é o motor, ele te mantém em movimento — mesmo quando não há linha de chegada à vista.

    O Ponto de Virada — Quando o Propósito Aparece

    Esse ponto de virada é diferente para cada corredor. Às vezes acontece depois de uma fase atípica da vida, ou após uma lesão, quando você precisa parar e repensar o que está fazendo.
    Às vezes vem depois de anos de prática, quando a corrida já faz parte da sua identidade, e, curiosamente, às vezes o propósito aparece quando o objetivo já foi atingido.

    Você percebe que continua treinando:

    • porque sente falta da corrida
    • mesmo sem uma prova marcada
    • não só por resultados
    • pela presença que ela te traz

    E é aí que tudo muda; a corrida deixa de ser uma cobrança e passa a ser um encontro.

    Os Tipos de Corredor e Suas Transições

    Parece que há um ciclo quase natural no desenvolvimento do corredor, detalhado no artigo anterior, mas que vou citar por aqui para quem não o leu, e que podemos chamar de Ciclo do Propósito:

    Motivação inicial | quando o objetivo é começar
    Desenvolvimento | quando o objetivo é melhorar
    Maturidade | quando o propósito toma o lugar do objetivo

    Infográfico dos ciclos do propósito do corredor: Motivação Inicial, Desenvolvimento e Maturidade.

    Nem todos chegam à terceira fase, e tudo bem. Mas quem chega, descobre que correr é menos sobre “buscar” e mais sobre “ser”.
    Esses corredores costumam ter uma relação mais equilibrada com o treino, com o corpo e até com a própria vida.

    Quando o Objetivo Divide Espaço com o Propósito

    É natural que, com o tempo, o objetivo que um dia ocupava o centro da sua motivação passe a dividir espaço com o propósito.

    Então:

    • Aquela vontade de baixar os tempos;
    • Correr a primeira meia maratona;
    • Ou perder peso;

    Podem até perder força, mas isso não significa que os objetivos deixaram de ser importantes.

    Na verdade, eles continuam existindo. A diferença é que agora deixam de ser a única razão para você correr e passam a ocupar o lugar que sempre deveriam ter: o de etapas de uma jornada maior.

    O propósito e o objetivo não são opostos; eles se complementam. O segredo está em compreender que o objetivo está a serviço do propósito — e não o contrário.

    Quando o corredor entende isso, tudo se encaixa. Ele pode buscar performance sem se perder, perseguir metas sem viver sob cobrança constante e sonhar alto sem transformar cada prova em um julgamento sobre si mesmo.

    Porque ele sabe por que faz o que faz. O propósito torna-se a bússola; os objetivos continuam importantes, mas passam a indicar apenas os próximos passos do caminho.

    O Propósito Como Raiz

    O propósito é a raiz que sustenta a árvore, mesmo quando as folhas mudam; ele é o que faz você continuar correndo mesmo quando não há prova marcada, quando o tempo não melhora, quando a motivação dá uma pausa.

    O propósito não se mede em pace ou medalhas, ele se percebe:

    • no bem-estar
    • na clareza mental
    • na sensação de pertencimento
    • no prazer do treino que te faz bem
    Infográfico sobre A PERCEPÇÃO DO PROPÓSITO NA CORRIDA destacando Bem-Estar, Clareza Mental, Sensação de Pertencimento e Treino que Faz Bem.

    E é por isso que, mesmo sem objetivo definido, o corredor com propósito não para; ele entende que correr é uma forma de se manter vivo, conectado, presente.

    A Corrida Como Estilo de Vida

    Correr se torna um espaço de reflexão, um ritual de equilíbrio, uma forma de se reconectar com o essencial. Não importa o ritmo, o percurso ou o resultado — o que importa é o sentido.

    A corrida passa a ser uma prática de autoconhecimento, de autoexpressão e, em muitos casos, até de espiritualidade silenciosa.

    O corredor maduro entende que não precisa provar nada, nem pra si, nem para os outros; ele corre porque correr faz sentido, e isso basta.

    O Sentido do Seu Treino

    No fim das contas, o treino é só uma parte do que a corrida te ensina. Ela te mostra que objetivos são importantes, mas são transitórios, e que o propósito é o que te mantém em movimento, mesmo quando todo o resto muda.

    O propósito é o que te mantém correndo quando o objetivo é atingido, muda ou deixa de fazer sentido, e talvez seja isso o que faz da corrida uma das práticas mais completas que existem.

    Sem objetivos, o propósito perde direção. Sem propósito, os objetivos perdem significado.


    Este artigo também está em vídeo:

    🎥 Quando o Propósito Supera o Objetivo

    Continue explorando este tema

    Além deste artigo, estes vídeos ajudam a aprofundar essa reflexão sobre propósito, objetivos e longevidade na corrida:

    🎥 Afinal, Pra Que Mesmo Você Treina?

    🎥 Seu Objetivo Mudou – E Isso é Ótimo

    🎥 Disciplina Sustentável: O Que Mantém o Corredor Ativo

    🎥 Corrida com Longevidade: O Método que Organiza Sua Evolução

  • Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Você já percebeu que, às vezes, o motivo que te fez começar a correr não é mais o mesmo que te faz continuar?

    Isso acontece com quase todo corredor. A gente começa por um motivo muito específico — perder peso, controlar a ansiedade, voltar a se sentir ativo, ou até pra acompanhar um amigo. Mas o tempo, as experiências e até o próprio corpo vão mudando esse sentido.

    👉 Se preferir assistir em vez de ler, veja o vídeo:
    📺 Seu Objetivo Mudou (E Isso é Ótimo)

    E sabe o que é o mais interessante? Isso não é um problema, mas, exatamente o contrário: é sinal de evolução, e esse artigo é sobre isso — sobre como os objetivos mudam com o tempo, e por que essa mudança é um sinal claro de amadurecimento como corredor.

    O Objetivo Inicial: O Que Te Trouxe Até Aqui

    Todo corredor tem um “ponto de partida emocional” e talvez o seu tenha sido o espelho, um exame médico, o estresse do trabalho ou simplesmente a vontade de se sentir melhor.

    Esses primeiros objetivos são legítimos e poderosos, porque te tiram da inércia, mas eles são apenas o começo de uma história, já que, com o tempo, a corrida deixa de ser apenas um meio e começa a se tornar um propósito em si mesma.

    Eu costumo dizer que a corrida é uma escola, e que a primeira lição dela é justamente essa: o motivo que te faz começar não precisa ser o mesmo que te faz continuar.

    E isso é libertador porque te permite entender que o que importa é seguir em movimento, mesmo que o destino mude.

    Quando o Objetivo Muda

    Com o tempo, as conquistas e as frustrações começam a moldar seus novos objetivos; você atinge uma meta — e quer outra, ou percebe que o que antes te motivava já não te move mais, ou ficou em segundo plano.

    E está tudo certo, porque na verdade, isso mostra que você está crescendo dentro do esporte.

    Exemplos de transição de objetivos:

    • Você começou para emagrecer — e hoje corre para se desafiar
    • Começou buscando performance — e agora busca equilíbrio
    • Queria provar algo para alguém — e hoje corre pela sensação de liberdade

    Essas transições são mais comuns do que parecem, e cada uma delas exige uma mudança de mentalidade e, às vezes, até de metodologia de treino.

    Por isso, é tão importante ter consciência sobre o seu momento atual, porque o treino ideal muitas vezes não é o que está na planilha — é o que faz sentido para o seu propósito de hoje.

    O Papel do Treinador Nessa Jornada

    Um bom treinador não serve apenas para ajustar volumes e intensidades. Para começar, ele ajuda o corredor a interpretar o momento em que está.

    Às vezes, o aluno quer perseguir uma meta antiga, sem perceber que a vida mudou, que as prioridades são outras, que o corpo responde de forma diferente, que o objetivo precisa se atualizar.

    E é aí que entra o papel do treinador como espelho e bússola; alguém que te ajuda a encontrar o ponto de equilíbrio entre o desafio e o prazer.

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    Eu vejo isso o tempo todo aqui no Clube da Corrida:

    • Alunos que chegam querendo performance a qualquer custo e, depois de um tempo, descobrem que o que precisavam mesmo era constância
    • Outros vêm buscando saúde e acabam se apaixonando pelo processo competitivo

    Um ponto importante
    Esse tipo de objetivo tem uma peculiaridade: quase ninguém tem a mínima noção da energia necessária para sustentar uma preparação voltada à performance.

    É um processo que exige:

    • tempo
    • disciplina
    • foco
    • estrutura

    Estrutura de vida voltada à performance é coisa que pouca gente tem disponível, e por isso é comum que, depois de algumas tentativas frustradas, o corredor acabe:

    • revendo suas metas
    • desistindo do objetivo de performance
    • no extremo, se afastando da corrida

    Um Caso Real Para Refletir

    Aqui segue um caso interessante pra te contar.
    Eu treinava um senhor que tinha uma ótima aptidão para corrida. Com o tempo, ele começou a evoluir rápido; apresentava performances muito acima da média para a faixa etária dele.

    Naturalmente, passamos a investir em treinos mais específicos, voltados à performance, e, como acontece com qualquer corredor que segue um bom processo, chegou um momento em que ele atingiu o que eu chamo de:

    Zona limítrofe da performance

    Aquela fase em que:

    • os ganhos já não são tão evidentes
    • cada segundo a menos passa a custar muito mais esforço, técnica e paciência

    Mas aí veio o ponto crítico. Ele acreditou que estava estagnado por causa do treino, e não porque já tinha chegado ao seu limite técnico e fisiológico dentro da rotina que levava.

    Achando que ainda havia um “salto escondido” para dar, decidiu trocar de treinador.
    O resultado foi o oposto do que esperava:

    • começaram as lesões recorrentes
    • o rendimento despencou
    • nunca mais conseguiu correr nem perto do que corria antes

    Com o tempo, acabou desistindo até mesmo dos treinos. Perceba que cada um tem uma trajetória, e entender o momento da jornada, reconhecer que nem sempre evoluir significa melhorar tempos ou bater recordes, é fundamental para não se frustrar.

    Quando Insistir e Quando Reajustar

    Muita gente se culpa por não estar mais tão motivada quanto antes, mas isso geralmente é um sinal de que o objetivo antigo já cumpriu o papel dele.

    A motivação não some do nada — ela muda de forma, e quando isso acontece você tem duas opções:

    • insistir em um propósito que não te representa mais
    • permitir um reajuste inteligente

    Possibilidades de reajuste

    👉 Talvez você não consiga ou não queira mais fazer recordes pessoais — e tudo bem.
    👉 Talvez queira focar em qualidade de vida, ou em correr acompanhado.
    👉 Ou, quem sabe, esteja na hora de experimentar novas distâncias, novos ambientes, e até novas modalidades.

    Reajustar o objetivo não é retroceder. É evoluir com consciência.
    A única coisa que realmente impede o progresso é ficar preso ao passado, tentando repetir o que já foi, em vez de construir o que faz sentido agora.

    Maturidade Esportiva

    Com o tempo, o corredor amadurece e esse amadurecimento se manifesta de várias formas:

    Você passa a ouvir mais o corpo do que o relógio

    É quando o corredor entende que o corpo é o verdadeiro marcador de progresso.
    O relógio mostra números, mas não mostra:

    • fadiga
    • estresse
    • qualidade do sono

    Quando você começa a ouvir o que o corpo está dizendo, e não apenas o que o pace mostra, passa a treinar de forma mais inteligente.

    Essa escuta:

    • evita lesões
    • melhora a recuperação
    • mantém o prazer em correr

    É o momento em que o treino deixa de ser uma obrigação e vira um diálogo com o próprio corpo.

    Aprende a respeitar os dias ruins sem culpa

    Nem todo treino vai sair como o planejado, e tudo bem, porque dias ruins fazem parte do processo e, muitas vezes, são os que mais ensinam sobre limites e equilíbrio.

    Quando o corredor entende isso, deixa de transformar cada corrida em uma prova de fogo. Respeitar um corpo cansado é sinal de inteligência, não de fraqueza, e, muitas vezes, o descanso é o treino mais eficiente daquele dia.

    Entende que constância vale mais do que intensidade

    A maturidade no treino vem quando se percebe que não é o esforço pontual que traz resultado, mas o acúmulo de boas semanas, meses e anos.

    A intensidade é importante, mas sem constância ela não se sustenta, e o corredor que busca resultados duradouros aprende a priorizar o hábito, não a exceção. Quando a regularidade se torna parte da rotina, o progresso vem de forma mais leve, natural e permanente.

    Percebe que o prazer de correr é o verdadeiro combustível

    Chega um momento em que a corrida deixa de ser apenas sobre metas e resultados, e passa a ser sobre prazer. O simples ato de calçar o tênis e sair para correr já se torna recompensador.

    É o prazer que mantém a chama acesa quando o ritmo cai, quando a motivação oscila ou quando a vida aperta, e no fim das contas, o que faz alguém continuar correndo por anos não é a busca por recordes; é a satisfação genuína de se sentir vivo em movimento.

    A maturidade esportiva é quando você deixa de se comparar com os outros — e começa a se comparar com o seu ontem. É o ponto em que a corrida deixa de ser uma cobrança e vira um diálogo com você mesmo.

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    A Corrida se Adapta à Sua Vida

    Depois de algum tempo de experiência como treinador, percebi que os objetivos podem mudar até mesmo para os mais inusitados; como, por exemplo, aquele de muita gente atualmente: correr para poder comer mais à vontade, inclusive já contei isso com detalhes no artigo anterior.

    • Alguns correm para competir
    • Outros visando o turismo esportivo
    • Outros para aliviar a cabeça
    • Outros, para poder comer o churrasco do fim de semana sem culpa

    E tudo isso é válido.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    O Ciclo do Propósito

    Eu gosto de pensar nos objetivos da corrida como ciclos:

    🔹 Ciclo do começo: Quando tudo é descoberta
    🔹 Ciclo da conquista: Quando queremos resultados
    🔹 Ciclo da consciência: Quando correr já é parte da nossa identidade

    O segredo é reconhecer em qual ciclo você está e viver ele por inteiro, sem pressa, sem comparação e com o entendimento de que todos eles têm o seu valor.

    Se o Seu Objetivo Mudou… Comemore

    Se o seu objetivo mudou, comemore, porque isso significa que você mudou também e é justamente essa capacidade de se transformar que mantém o corredor em movimento, dentro e fora da pista.

    Então, se hoje o seu motivo para correr não é mais o mesmo de quando começou, está ótimo, você está no caminho certo, e continue evoluindo, do seu jeito, no seu ritmo, com propósito.

    👉 Sobre esse assunto, assista ao vídeo:
    🎥
    Quando o Propósito Supera o Objetivo | O Sentido do Seu Treino

  • Afinal, Para Que Mesmo Você Treina?

    Afinal, Para Que Mesmo Você Treina?

    Corredor:- você tem uma resposta bem definida sobre os motivos pelos quais você treina?

    Se alguém te perguntasse agora qual é o seu objetivo real com a corrida, você saberia responder com clareza? Porque acredite — muitos corredores não sabem, sobretudo os menos experientes.

    Muitos começam “na onda” com uma motivação, mas no meio do caminho isso muda, se perde, se contamina com a de outros, ou até se contradiz, e entender por que você corre é o que define não só o seu progresso, mas a forma como você vive a corrida.

    👉 Se preferir, em vez do texto, veja esse assunto no vídeo:
    📺 Afinal, pra que mesmo você treina?

    Os Motivos Mais Comuns Para Começar a Correr

    Quando a gente observa o universo da corrida de rua, conversa com os corredores, ou até mesmo vê as estatísticas sobre perfis, percebe o primeiro ponto; as pessoas correm pelos motivos mais variados:

    • Algumas querem emagrecer
    • Outras, aliviar o estresse
    • Tem quem corra por desafio pessoal
    • Por saúde
    • Ou para socializar

    E tem quem simplesmente comece porque o amigo chamou.

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    Estatisticamente, por dados aproximados baseados em estudos e pesquisas nacionais:

    – O Brasil tem hoje cerca de 13 milhões de corredores amadores
    – Desses, metade treina por conta própria — ou seja, sem acompanhamento direto
    – E, segundo levantamentos de portais de corrida e saúde, os principais motivos para começar são:

    • 35%: emagrecimento e estética
    • 25%: melhorar a saúde cardiovascular
    • 20%: reduzir o estresse e ansiedade
    • 10%: superar desafios pessoais
    • 10%: conviver com outras pessoas

    Se agruparmos os interesses em torno da saúde física, mental e social, ou, a Saúde  Integral do individuo, teremos uma quantidade por volta dos 83%.

    O fato é que quase todo corredor começa com uma motivação muito prática, e a maioria não percebe que esse ponto de partida é só o início de uma trajetória de transformação, porque, com o tempo, os motivos variavelmente mudam — e, junto com eles, muda também o significado da corrida.

    Quando o Objetivo Muda — e isso é bom!

    Muita gente acha que o ideal é ter um objetivo fixo, bem definido — tipo ‘quero correr uma meia maratona’ ou ‘quero perder 10 quilos’.

    Só que na prática, o amadurecimento de um corredor vem justamente quando os objetivos começam a mudar.

    👉 Veja as implicações nessas mudanças, no vídeo:
    📺 Seu Objetivo Mudou (e isso é ótimo)

    Um Exemplo Prático

    Conheci muita gente que começou a correr para perder peso, e percebi que depois de alguns meses, atingindo o peso ideal, ficou meio sem saber o que fazer.

    Só que aí, algo interessante geralmente acontece: o corredor começa a perceber o prazer de se desafiar nos treinos, de sentir o corpo respondendo, de ver a melhora na performance, então passa a dar mais atenção aos parâmetros de tempo e distância nos treinos.

    O objetivo deixa de ser o peso corporal; o praticante até mesmo se esquece de verificar aquilo que já está sob controle  — e naturalmente volta a sua atenção para a evolução pessoal na forma de performance.

    No meu caso – para que você veja só como esse negócio de objetivo pode ser muito dinâmico – eu já tinha praticado alguns esportes, mas, ainda adolescente, parei na marcha atlética, uma modalidade de fundo; que nem a corrida que tratamos por aqui.

    Contrariando totalmente a lógica do adolescente que procura por um esporte, meu objetivo inicial era ficar distante do sedentarismo. Pois bem, algum tempo passou e eu, ainda juvenil, nem me lembrava do sedentarismo e só pensava na performance.

    Depois de mais de uma década, e ainda pelo viés da performance, me veio um objetivo bem especifico: o sonho olímpico. Encerrado esse ciclo e com algum tempo inativo, voltei com o mesmo objetivo de quando era um menino: o de fugir do sedentarismo, mas agora preocupado com a saúde e com a estética.

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    E isso acontece com frequência: a corrida começa sendo um meio para algo externo, mas com o tempo, vira um valor interno. Ela deixa de ser sobre resultados e passa a ser sobre identidade, e justamente nesse ponto, entra o papel do treinador.

    O Papel do Treinador na Construção e Revisão de Objetivos

    Um bom treinador não é só quem passa treinos, mas quem ajuda o corredor a entender o porquê de cada treino — e com a mesma importância, a repensar os próprios objetivos quando for preciso.

    O treinador é uma espécie de espelho, nos momentos em que mostra o que o aluno ainda não percebeu sobre si mesmo.

    O Papel Prático do Treinador

    • Ajudar o aluno a definir metas realistas e alinhadas ao momento atual;
    • Identificar quando o corredor está preso num objetivo ultrapassado (por exemplo, insistindo em performance quando o corpo pede saúde);
    • Traduzir o propósito emocional do aluno em estratégias técnicas de treino;
    • Relembrar o aluno de que a corrida é uma jornada de longo prazo, e que os objetivos podem mudar conforme a vida muda.

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    E o mais interessante: o treinador também aprende com isso, porque, à medida que o aluno amadurece, o olhar do treinador sobre ele também muda.

    A História do ‘Correr Para Poder Comer Mais’

    Já faz algum tempo, durante um treino com meu grupo, eu comentei algo que gerou polêmica.

    Baseado no que eu tinha percebido, disse que muita gente corre pra poder ter um cardápio mais flexível — em outras palavras, pra poder comer mais à vontade e de certa forma, isso faz todo o sentido.

    Existe até uma brincadeira recorrente sobre as fases da vida: no início da fase adulta, a pessoa pode comer de tudo, mas não tem dinheiro para isso. Depois que se estabiliza profissionalmente, já tem recursos, mas a idade começa a cobrar o preço — e aí, parece que “não pode comer mais nada”.

    É justamente nesse ponto que a corrida entra em cena: ela devolve certa liberdade; a pessoa percebe que, com o hábito de correr pode manter o prazer de comer sem culpa, equilibrando o que gosta com o que precisa, como se a corrida se tornasse a ponte entre o prazer e o autocuidado.

    O prazer de comer com flexibilidade faz parte da qualidade de vida — que, aliás, é algo relativo entre as pessoas, já que, para muita gente, poder se alimentar bem, sem culpa e sem restrições exageradas, é um dos grandes prazeres da vida.

    Quando a corrida entra nessa equação, ela ajuda a equilibrar o prazer e a saúde de um jeito leve, sem extremos. Cada um encontra seu ponto de equilíbrio: uns correm pra poder saborear um bom prato, outros pra manter o corpo ativo e a mente tranquila. No fim das contas, qualidade de vida é isso — encontrar o próprio jeito de viver bem.

    Os Diferentes Tipos de Objetivo na Corrida

    Para entender onde você está na sua jornada como corredor, vale conhecer os tipos de objetivos que normalmente aparecem nesse caminho. Também é bom saber que, quando alguém começa a correr dificilmente o faz por um único motivo, que esses variam muito entre pessoas, e também mudam com o tempo.

    Objetivos Estéticos

    Muito comuns entre iniciantes e especialmente entre mulheres antes da meia-idade.

    • Perda de peso
    • Definição corporal
    • Melhora do tônus muscular
    • Sentir-se melhor com o próprio corpo

    Objetivos de Saúde

    • Controle do colesterol
    • Redução do estresse
    • Melhora do sono
    • Equilíbrio do humor
    • Promoção do bem-estar geral

    Objetivos Emocionais

    • Alívio do estresse
    • Sensação de bem-estar mental
    • Espaço de equilíbrio no dia a dia
    • Corrida como válvula de escape

    Objetivos de Performance

    • Baixar tempos
    • Aumentar distâncias
    • Melhorar desempenho em provas
    • Alcançar metas específicas

    Objetivos Sociais e de Propósito

    • Integração com grupos de corrida
    • Motivação coletiva
    • Superação de desafios pessoais
    • Enfrentar ou ressignificar fases difíceis
    • Reconexão consigo mesmo

    No fim das contas, todos esses motivos são válidos e se entrelaçam de alguma forma, já que a corrida tem essa capacidade de atender diferentes dimensões do ser humano — o físico, o mental, o emocional e até o social.

    Eles não são fixos, mas ajudam a visualizar a progressão natural de quem vive a corrida de verdade; e não importa o motivo inicial, o que importa é o quanto a corrida transforma a pessoa ao longo do caminho.

    O Amadurecimento do Corredor

    O amadurecimento do corredor acontece quando ele entende que o objetivo é dinâmico, que ele pode mudar de fase, mudar de meta, e isso não significa estar perdido, mas estar vivo dentro da prática.

    A corrida é um espelho da vida: às vezes o foco é saúde, às vezes superação, às vezes conexão — e tá tudo certo.

    É positivo quando um corredor passa a treinar com mais consciência; quando ele para de se comparar com os outros e começa a buscar melhorar a si mesmo, dentro do contexto que está vivendo agora. É aí que nasce o corredor maduro.

    👉 Veja um artigo que poderá te ajudar com isso:
    📝 Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    Pontos de Reflexão

    Agora é com você Corredor: por que você treina? Qual é o seu objetivo hoje? E ele é o mesmo de quando você começou? Em que fase da corrida você está?

    A corrida pode ser o que você quiser que ela seja: um meio para emagrecer, um espaço de paz, um campo de batalha pessoal, ou um laboratório de autoconhecimento. O importante é que seja consciente — e que te faça crescer.

  • Por que o Corredor Sente Culpa ao Descansar? O Descanso faz Parte do Treino

    Por que o Corredor Sente Culpa ao Descansar? O Descanso faz Parte do Treino

    Tem um detalhe curioso na corrida: quase ninguém se sente culpado por treinar demais. Pouca gente olha para uma semana excessiva e pensa “talvez eu tenha passado do ponto”.

    Porém, basta um treino não acontecer, um descanso fora do planejado, e muitos corredores sentem imediatamente que estão falhando; como se descansar fosse regredir, como se ouvir o corpo fosse sinal de fraqueza, como se um dia de chuvas torrenciais sem sair de casa fosse um crime, ou como se a disciplina só existisse na insistência.

    Talvez você já tenha vivido isso: o treino está lá na planilha, o horário chegou, mas o corpo não responde da maneira habitual. Você acorda estranho, sem energia, pesado, com uma dor diferente, mentalmente indisposto; e mesmo percebendo isso, ainda assim vem a culpa.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Seu Corpo Pede Descanso. Sua Cabeça Diz Não           

    A sensação de que deveria treinar é forte, e o pensamento na cabeça martelando que está “devendo” é ainda mais…

    E perceba como isso é curioso: muita gente consegue aceitar o excesso com naturalidade, mas não consegue aceitar a pausa com maturidade.

    Existe uma diferença enorme entre disciplina e incapacidade de descansar.

    Quando a disciplina começa a virar pressão

    Eu vejo muitos corredores extremamente comprometidos, pessoas organizadas, constantes, que seguem planilha, acordam cedo, treinam mesmo cansadas, encaixam a corrida no meio da rotina pesada da vida; e isso é admirável.

    Mas existe um ponto em que a disciplina começa a se misturar com pressão emocional.

    Quando o corredor deixa de treinar porque quer evoluir, e passa a treinar porque sente medo de parar.

    E esse medo, muitas vezes, não é físico; é psicológico:

    • medo de perder condicionamento
    • medo de regredir
    • medo de decepcionar a si mesmo
    • medo de quebrar a sequência
    • medo de deixar de se sentir “o corredor disciplinado”

    Tem corredor que transforma a consistência numa identidade tão forte, que qualquer pausa parece ameaça. Aqui existe um detalhe importante: o problema não é gostar de treinar; o problema é quando o descanso começa a gerar culpa, porque aí a relação com o treino deixa de ser saudável.

    O que aprendi ouvindo o próprio corpo

    Eu mesmo já vivi isso. Dias em que o treino estava programado, mas o corpo claramente não estava bem; não era preguiça, não era falta de vontade, mas aquela sensação estranha de que o sistema inteiro não estava respondendo direito.

    Às vezes era uma dor diferente, às vezes era um cansaço mais profundo, ou simplesmente ausência de energia, e ainda assim vinha o conflito mental:

    “Mas o treino está ali.”
    “Será que estou ficando mole?”
    “Será que vou perder adaptação?”

    Só que com o tempo, treinando, competindo e observando atletas, fui entendendo que o fantasma silencioso do dia ruim não aparecia só pra mim.

    A diferença entre preguiça e fadiga real

    Existe uma diferença enorme entre preguiça e fadiga real, porque muitas vezes a fadiga produz aquilo que o corredor interpreta apenas como preguiça. O corpo reduz energia, reduz disposição, reduz resposta, e a sensação subjetiva acaba sendo confundida com falta de vontade.

    Mas nem toda “preguiça” nasce de desinteresse; às vezes ela é, verdadeiramente, um sintoma de desgaste.

    Existe também a diferença entre:

    Mas nem todos aprendem isso. Grande parte aprende apenas a executar; fazer o treino, cumprir volume, seguir sequência, só que treinamento não é apenas estímulo, também é interpretação.

    E talvez uma das maiores maturidades na corrida seja desenvolver a capacidade de ler o próprio corpo sem transformar isso em desculpa de um lado nem em tortura do outro.

    Porque tem corredor que ignora tudo:

    • sono ruim
    • dores persistentes
    • esgotamento mental
    • queda de rendimento
    • irritabilidade
    • saturação

    E continua treinando porque acredita que parar um dia destruirá meses de evolução, o que não se traduz em consciência, mas em desconexão.

    O treino no papel vs. o corpo real

    O corredor consciente entende que o corpo não funciona como máquina linear. Você pode acordar com disposição acima da média dos dias de treinos, mas não acordará bem disposto em todos eles.

    O mesmo treino pode ser excelente numa semana, e excessivo em outra, e como consequência, a mesma carga externa — aquela escrita na planilha — pode gerar respostas completamente diferentes dependendo do contexto físico, emocional e fisiológico do momento.

    É exatamente por isso que eu já falei em outro artigo sobre carga interna e carga externa, porque o treino não é apenas aquilo que você faz; é também aquilo que o organismo consegue absorver.

    As vezes o corpo está dizendo claramente aquilo que está fora do padrão: “hoje não”; mas a cabeça responde: “você tem obrigação.”, porque o pensamento está preso ao treino no papel… àquilo que foi previamente padronizado, e não necessariamente ao estado real do organismo naquele dia.

    O descanso também faz parte do treinamento

    Tem outro ponto importante aqui: muita gente associa descanso à perda., como se o condicionamento fosse extremamente frágil e um treino perdido fosse destruir todo o processo.

    Só que fisiologia não funciona assim. Evolução não acontece apenas no estímulo, ela acontece na recuperação do estímulo.

    É no descanso que existe:

    • reorganização
    • reparo muscular
    • redução de saturação do sistema nervoso
    • parte da consolidação da adaptação do que foi treinado

    E é justamente no descanso que acontece a supercompensação — aquele processo em que o corpo absorve o treino, recupera o desgaste e volta um pouco mais preparado do que antes.

    Ou seja: recuperação não é ausência de treinamento. Recuperação faz parte do treinamento.

    Às vezes, o treino mais inteligente do dia é o que você não faz.

    Disciplina não é ignorar o corpo

    Agora, cuidado: isso aqui não é um incentivo à acomodação, porque sempre existirá o risco de interpretar qualquer desconforto como justificativa para parar.

    E não é disso que estou falando. Treinar exige disciplina, regularidade, inclui atravessar dias ruins e aprender a funcionar mesmo sem motivação.

    Mas maturidade esportiva também exige outra coisa: discernimento. Saber quando insistir… e saber quando aliviar.

    O corredor imaturo só conhece dois extremos:

    🔴 ou ele negligencia o treino
    🔴 ou ele negligencia o próprio corpo

    O corredor maduro aprende equilíbrio.

    Quando é o ego quem não consegue descansar

    Existe um detalhe psicológico muito forte e as vezes presente nisso tudo. Às vezes, o corpo quer descansar, mas o ego quer provar força, manter sequência, manter identidade, continuar se fazendo enxergar em alguém extremamente disciplinado.

    E perceba uma coisa importante: muitas vezes o corredor não está treinando apenas o físico; mas tentando sustentar uma imagem de si mesmo. A imagem da pessoa forte, da pessoa constante, que nunca falha.

    Só que o problema é que o corpo não negocia com ego eternamente. Uma hora ele cobra.

    E normalmente a cobrança vem através de:

    • lesão
    • exaustão
    • queda de rendimento
    • fadiga persistente
    • desmotivação
    • afastamento emocional da corrida.

    Acredito que existe uma diferença enorme entre intensidade – que também agride – e violência contra si mesmo.

    Muita gente pode achar que ser disciplinado é sempre forçar, mas às vezes, a verdadeira disciplina é respeitar um limite momentâneo sem transformar isso em culpa, porque descansar um dia não destrói uma trajetória.

    O que destrói trajetórias normalmente é o acúmulo de pequenas desconexões ignoradas ao longo do tempo. 

    • é o corredor que nunca reduz
    • nunca escuta
    • nunca ajusta
    • nunca interpreta
    • só insiste

    E ironicamente, muitos dos corredores mais disciplinados são justamente os que mais têm dificuldade de descansar.

    A cultura da produtividade também invadiu a corrida

    Atualmente vivemos numa cultura que glorifica produtividade o tempo inteiro, e talvez por isso, o descanso obrigue a pessoa a enfrentar uma sensação desconfortável: a sensação de não estar produzindo.

    • treino virou produtividade
    • quilometragem virou produtividade
    • sequência virou produtividade

    Tudo precisa parecer avanço constante, mas o corpo humano não evolui em linha reta; existem oscilações, fases de adquirir e momentos de absorção da forma física.

    Existem períodos em que reduzir um pouco é exatamente o que permitirá continuar crescendo depois; e tudo isso, inclusive, está muito bem conceituado dentro da teoria do treinamento esportivo.

    Treinar para a próxima prova ou para seguir correndo

    Talvez aqui esteja uma das diferenças entre treinar para a próxima prova e treinar para continuar correndo por muitos anos.

    🟢 quem treina apenas para uma prova tende a pensar no curto prazo
    🟢 quem pensa em longevidade aprende a preservar o sistema…

    Aprende que consistência não é treinar todos os dias a qualquer custo; consistência é conseguir sustentar o processo por anos sem destruir a relação com o próprio corpo, o que exige consciência.

    Saber aliviar também é maturidade

    Eu vejo muitos corredores extremamente fortes fisicamente, mas frágeis emocionalmente quando precisam desacelerar, porque acelerar virou conforto psicológico, treinar virou alívio emocional, e parar virou ameaça.

    Só que, um corredor verdadeiramente maduro não é aquele que consegue apenas acelerar…

    • é aquele que também sabe aliviar
    • que sabe interpretar sinais
    • que sabe reduzir culpa
    • que sabe descansar sem sentir que está abandonando a própria identidade

    Então da próxima vez que o seu corpo pedir descanso, antes de sentir culpa, tente fazer uma pergunta diferente: isso é preguiça, ou é um sinal que merece atenção?

    Porque existe uma diferença enorme entre desistir do processo e ajustar o processo para continuar nele.

    E talvez uma das maiores inteligências na corrida não seja suportar qualquer carga; seja desenvolver sensibilidade suficiente para entender o que o corpo está tentando dizer antes que precise gritar.

    Descansar não significa desistir. Às vezes significa continuar, e o corredor inteligente não é o que consegue treinar todos os dias sem parar, mas o que consegue continuar correndo por muitos e muitos anos.

  • Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?

    Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?

    Existe uma diferença enorme entre correr com método… e correr para provar alguma coisa, e boa parte dos corredores não percebe quando atravessa essa linha.

    Porque no campo esportivo o ego não aparece como vilão; ele aparece como coragem, como competitividade, como “garra”.

    Só que, muitas vezes, o que parece força…é desorganização emocional, e tem um ponto importante aqui: o ser humano, principalmente na fase adulta de construção de identidade — quando estamos consolidando carreira, posição social, imagem pessoal:

    • Tende ao modo de afirmação
    • Quer mostrar competência
    • Precisa mostrar capacidade
    • Quer mostrar força

    Não apenas material, mas também moralmente, queremos provar que damos conta em tudo o quanto nos envolvemos.

    E esse impulso, que naquela fase faz sentido na vida profissional e social…
    muitas vezes invade o treino.

    E quando ele invade o treino, o método começa a perder espaço para a necessidade de validação.

    Esse artigo vai falar sobre isso: sobre a diferença entre treinar e competir com método, ou deixar o ego tomar decisões que o planejamento já tinha resolvido.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?   

    O que é correr com método?

    Correr com método é simples — mas não é fácil.

    É entender que:

    • Cada treino tem um objetivo fisiológico
    • Cada fase do ciclo tem uma função
    • Cada intensidade tem um propósito

    No âmbito das provas, você não é o mesmo atleta em todas elas, já que o organismo responde de forma diferente dependendo do momento do ciclo; e no ambiente do treino não é sobre intensidade máxima – é sobre estímulo adequado – um regenerativo não é fraco, ele é estratégico. Um treino controlado não é “menos esforço”, mas construção.

    Método é saber que performance não é construída no impulso. É construída na repetição inteligente.

    O que é correr com ego?

    Agora vamos falar do que esta sempre nas entrelinhas e quase ninguém admite: ego não é comportamento de arrogância explícita. Ego é quando a emoção toma a decisão que o planejamento já tinha tomado.

    É quando:

    • Você acelera o treino regenerativo porque alguém passou
    • Você transforma um treino progressivo em disputa
    • Você ignora o ritmo da planilha porque “estava se sentindo bem”
    • Você larga uma prova acima do planejado porque “o grupo puxou”

    O ego raramente grita; ele sussurra:

    “Você pode mais”
    “Não fica para trás”
    “Mostra que você está forte”

    E assim… o método começa a se dissolver.

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    Treino não é palco

    Tem uma frase aplicável nesse contexto: “Treino não é palco”, porque se o corredor precisa ganhar o treino, então perdeu o processo, já que o treino existe para provocar adaptação fisiológica, não para validar identidade.

    Quando o treino vira validação, a carga externa pode até parecer correta — mas a carga interna já saiu do controle e isso é invisível no momento.

    Mas aparece depois:

    • Fadiga acumulada
    • Oscilação de performance
    • Dificuldade de recuperação
    • Mais dores, em número e grau
    • Lesões recorrentes
    • Sensação constante de “não encaixar”

    O que acontece Fisiologicamente quando o ego assume

    Quando você altera o ritmo de forma impulsiva, você altera:

    Zona metabólica predominante

    Cada intensidade ativa uma predominância metabólica diferente. Quando você acelera além do planejado, sai de uma zona majoritariamente aeróbia e começa a aumentar a participação glicolítica.

    Isso eleva a produção de lactato e a dependência de glicogênio muscular, então, o que era para ser um estímulo de base passa a gerar estresse metabólico elevado, a recuperação deixa de ser simples e passa a exigir mais tempo e reorganização interna, e o que era construção controlada vira desgaste desnecessário.

    Recrutamento de fibras

    Em ritmos controlados, predominam fibras do tipo I, mais resistentes e econômicas. Quando você acelera impulsivamente, começa a recrutar mais fibras do tipo II; essas fibras são mais potentes, mas fatigam mais rápido.

    Isso aumenta o custo neuromuscular da sessão, e além disso, altera o padrão de adaptação esperado para aquele treino; você treinou potência no dia em que deveria treinar eficiência.

    Demanda neural

    Aumentar o ritmo não é apenas questão muscular — é neural. O sistema nervoso central passa a coordenar maior frequência de disparo motor; isso eleva a exigência de sincronização e controle fino do movimento.

    O esforço deixa de ser predominantemente metabólico, passa a ter forte componente neural e o sistema nervoso demora mais para se recuperar do que a musculatura, por isso, às vezes, o corpo parece pronto, mas o desempenho não responde.

    Resposta hormonal

    Mudanças bruscas de intensidade elevam marcadores de estresse, como cortisol e catecolaminas. Em doses adequadas, isso é positivo e adaptativo, mas quando ocorre fora do contexto planejado, gera sobrecarga desnecessária.

    O equilíbrio entre estímulo e recuperação hormonal fica prejudicado; isso pode impactar sono, recuperação e sensação subjetiva de energia, e o ciclo começa a perder harmonia.

    Perceba que você muda completamente o tipo de estímulo e isso desorganiza o ciclo esforço–recuperação. O problema aqui não é correr forte; o problema é correr forte no dia errado.

    Método organiza a adaptação. Ego cria ruído na adaptação, e performance precisa de sinal claro, não de ruído.

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    Treinar em grupo: quando o longo vira competição

    Eu já vivi isso tanto em treinos quanto em provas. Teve uma fase da minha carreira em que participava de um camping anual de treinos, e ali, quase sempre conseguíamos reunir um grupo de atletas da mesma modalidade, cada um com sua planilha de treinos, mas compartilhando parte das sessões.

    Alguns treinos da semana eram feitos juntos, principalmente regenerativos e, quase sempre, os longos, e foi justamente nos longos que um padrão começou a se repetir.

    Faltando alguns quilômetros para terminar, alguém acelerava; às vezes era outro atleta, algumas vezes era eu. O ritmo começava a subir progressivamente, e quando percebíamos, aquele longo terminava como se fosse uma prova.

    👉 Nem todo treino precisa virar intensidade; veja isso no vídeo:
    📺 Não São os Tiros: O Treino Mais Importante da Corrida é Outro

    Na semana seguinte, a mesma coisa, e isso começa a ficar normal. Ninguém comenta, os treinadores nem sempre ficam sabendo, e parece algo natural do grupo.

    O momento em que o método se perde

    Mas o que estava acontecendo ali? O treino longo, que tinha uma função específica dentro do ciclo, muitas vezes aeróbia, controlada, acumulativa, estava virando estímulo competitivo.

    A carga interna já não era mais a planejada, e depois de algumas semanas assim, comecei a perceber o efeito colateral:

    • A recuperação ficava mais lenta
    • A sensação de controle diminuía
    • Os treinos seguintes da semana não encaixavam tão bem

    👉 O que acontece entre os treinos também conta; veja no artigo:
    📝 Os Pilares Invisíveis que Sustentam seu Progresso na Corrida

    E aí vem a parte difícil: assumir que aquilo não era estratégia; era ego. Era a necessidade de não chegar depois, de não “ceder” no final, de mostrar força, então ao perceber que aquilo estava afetando o restante da semana, e por consequência, o planejamento inteiro, e foi quando tomei uma decisão consciente.

    Voltei meu foco imediato para a preparação e deixei o foco distante para as competições. Passei a controlar o final dos treinos mantendo meu ritmo ideal, mesmo que isso significasse chegar depois.

    E sabe o que aconteceu?

    O processo voltou a encaixar.
    Os treinos começaram a responder melhor.
    A recuperação melhorou.
    As competições passaram a refletir essa organização.

    E assim, entendi algo que levo até hoje: chegar primeiro no treino pode alimentar o ego, mas chegar inteiro na prova alimenta a performance.

    Na Prova: onde o ego aparece com mais força

    Agora vamos para a prova — onde o ego fica mais sofisticado… e mais perigoso; ele aparece já na largada, e se existe um ritmo planejado para o percurso, ele é um, mas o ritmo do grupo é outro.

    E aí surge a pergunta: você tem, e está executando estratégia, ou reagindo ao ambiente? Porque prova não é lugar de provar valor acima de tudo; é lugar de executar estratégia, e quem larga acima do planejado normalmente paga no final, e muitas vezes não é falta de preparo, mas erro de decisão.

    Estratégia exige maturidade para ser executada

    Ali na prova, da mesma forma que nos treinos, nenhuma estratégia funciona se você não tiver maturidade para executá-la, porque a prova certamente não vai refletir uma planilha perfeita sem a presença da disciplina emocional.

    👉 Assista ao vídeo sobre estratégia de prova:
    📺 Por que Você Quebra na Prova? A Estratégia que está Faltando 

    Se isso puder ajudar – eu sempre ensino aos meus alunos algo que aprendi desde muito cedo na minha carreira de atleta: respeitar o nível de condicionamento que tinha em cada competição, e esse nível geralmente varia bastante, dentro, e entre temporadas.

    👉 Nem todo corredor está pronto para executar o que acha que está, e acaba errando:
    📝 Manias de quem tem treinador, mas vive mudando o treino

    Nem toda prova era para recorde pessoal, nem toda fase era de performance máxima, mas em quase todas consegui extrair o melhor possível dentro daquele momento fisiológico – porque eu executava o que estava planejado.

    Nas raras vezes em que errei perdi segundos importantes, porque no alto rendimento, segundos fazem diferença (para o amador, isso pode representar minutos), mas, hoje sabendo que esses erros estavam ligados à leitura de prova, não à necessidade de provar algo, menos mal.

    E essa diferença é fundamental: quando o erro vem da estratégia, ele ensina; quando vem do ego, ele se repete.

    Ego não é maldade; é insegurança

    Na maioria das vezes o ego não é arrogância; é medo.

    • Medo de parecer fraco
    • Medo de ficar para trás
    • Medo de não evoluir
    • Medo de acharem que você “não está bem”

    Mas maturidade esportiva é saber que performance não se constrói na comparação, se constrói na consistência, e quem disputa treino normalmente compromete prova; quem executa método, normalmente surpreende na prova.

    O papel do treinador

    Como já disse em outras ocasiões, por aqui e também para os meus alunos, o treinador não existe para acelerar você; ele está ali para regular, para proteger você de você mesmo, porque todo atleta — inclusive o experiente — em algum momento vai querer provar algo.

    E é aí que ele precisa ser convencido de que o método precisa prevalecer sobre o impulso.

    Agora deixo uma reflexão simples: quando você treina ou compete, pergunte:

    Essa decisão está alinhada com meu método… ou está alimentando meu ego? E pode ser que só isso já te ajude a ir melhorando suas atitudes pelos treinos e provas, porque o ego constrói momentos, enquanto o método constrói carreira.

    E se você quer correr melhor — e por mais tempo — precisa decidir quem está guiando sua corrida.

  • Gosta de Correr Sozinho(a)? Entenda Por que Isso é Mais Comum do que Parece                    

    Gosta de Correr Sozinho(a)? Entenda Por que Isso é Mais Comum do que Parece                    

    Uma pesquisa realizada pelo projeto Por Dentro do Corre, estimou que existam cerca de 13 milhões de corredores no Brasil. Além desse número, outro dado chama a atenção: aproximadamente 31% dos entrevistados disseram preferir praticar esportes sozinhos.

    Ou seja, praticamente um em cada três corredores, e talvez, você faça parte desse grupo, dos que preferem colocar o tênis, sair de casa e simplesmente correr, sem conversar, sem combinar horário, sem depender de ninguém.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Gosta de Correr Sozinho? Você não está Sozinho

    Treinar sozinho não significa necessariamente, que o corredor seja uma pessoa antissocial, mas, somente um perfil de corredor às vezes pouco compreendido, e que tem muito a nos ensinar.

    Vamos falar sobre quem escolhe correr sozinho, sobre quem corre sozinho por circunstâncias da vida, e também sobre a ideia de que correr sozinho não significa caminhar sozinho na sua evolução.

    O mito do corredor solitário

    Existe um certo preconceito silencioso em relação ao corredor que prefere treinar sozinho.

    Às vezes ele é visto como alguém:

    • fechado
    • individualista
    • pouco sociável

    Acontece que a escolha de correr sozinho não reflete necessariamente a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo.

    Vou dizer, na prática, o que observo ao longo dos anos como treinador. Tenho alunos extremamente comunicativos, participativos e queridos por todos que, simplesmente, gostam de fazer seus treinos de corrida sozinhos.

    Isso revela que, em muitos casos, a corrida é justamente o espaço onde algumas pessoas encontram o silêncio; algo raro atualmente.

    É fácil perceber que vivemos cada vez mais, cercados por estímulos, mensagens, notificações, reuniões, ruídos, cobranças, e, para muita gente, correr sozinho representa um momento de descanso mental.

    É um horário em que ninguém pede nada, ninguém interrompe, ninguém acelera ou diminui seu ritmo; é apenas você, sua respiração e seus pensamentos. Por isso, antes de qualquer julgamento, vale lembrar: existem diferentes maneiras de viver a corrida, nenhuma delas é universal.

    Existem diferentes perfis de corredor

    Evidentemente, os praticantes da corrida não são motivados pelas mesmas coisas.

    Parte deles:

    • encontra energia no grupo
    • gostam da conversa antes e no treino
    • sente estímulo pela companhia
    • corre melhor com alguém ao lado

    Outra parte funciona ao contrário:

    • encontra energia na autonomia
    • gosta de definir o próprio ritmo
    • livre para correr quando quer
    • corre como quer
    • não depende de ninguém

    Isso tudo não torna um perfil melhor que o outro; apenas diferente.

    Boas companhias de treino podem trazer experiências importantes para a formação esportiva do corredor, por outro lado, muitos se desenvolvem bem treinando sozinhos; eles conseguem prestar mais atenção ao próprio corpo, à técnica, intensidade, e sensação do esforço.  

    Infográfico "AO CORRER SOZINHO, VOCÊ PODE", ilustrado com uma corredora focada em uma trilha. 1. Prestar mais atenção ao próprio corpo, 2. Cuidar melhor da técnica, 3. Medir mais a intensidade, 4. Sentir melhor o esforço.

    Nesse momento, muitos conseguem inclusive organizar ideias, refletir sobre projetos, ou simplesmente aproveitar o treino.

    Correr sozinho não significa ser solitário

    Veja o exemplo do meu aluno que corre sozinho há décadas. Um corredor extremamente consistente, já correu a meia maratona em 1h19’, ótimo desempenho para um amador.

    Alguém poderia imaginar que ele fosse uma pessoa reservada ou pouco sociável, quando acontece exatamente o contrário. Ele participa normalmente dos treinos coletivos de força, conversa com todos, gosta do ambiente do grupo, interage, troca experiências.

    A escolha dele é apenas uma: prefere que a corrida seja vivida individualmente.

    Este exemplo mostra algo importante. O fato de uma pessoa preferir correr sozinha não significa que ela queira viver isolada. Na maioria das vezes, significa apenas que ela encontrou, naquele momento específico do dia, a forma de treino que mais combina com sua personalidade, e isso merece ser respeitado.

    O que a corrida solitária pode oferecer

    Quando a escolha é consciente, correr sozinho oferece algumas vantagens muito interessantes.

    A primeira delas talvez seja a liberdade.

    Você escolhe:

    Infográfico "A liberdade que a corrida solitária pode oferecer", mostrando o ciclo do corredor. O horário, O percurso, O ritmo, Não adaptar o treino, Não acelerar quando não deve, Não diminuir quando o treino pede intensidade.

    Mas existe um benefício que considero igualmente importante: desenvolver uma conexão maior com o próprio corpo.

    Quando corremos sem distrações, passamos a perceber detalhes que muitas vezes passam despercebidos em treinos coletivos:

    • a respiração
    • a postura
    • a passada
    • a sensação muscular
    • o comportamento da frequência cardíaca
    • os primeiros sinais de fadiga

    Essa percepção corporal é valiosa para qualquer corredor, porque ajuda a reconhecer os limites do organismo e a tomar decisões mais conscientes durante os treinos.

    As desvantagens do corredor solitário

    Mas será que correr sempre sozinho traz apenas vantagens?
    Se, por um lado, correr sozinho oferece liberdade e uma conexão muito interessante com o próprio corpo, por outro também apresenta alguns desafios. 

    O primeiro deles é a ausência de um olhar externo.

    Quando treinamos sempre sozinhos, alguns erros técnicos podem permanecer por muito tempo sem que se perceba. Por exemplo:

    Outro desafio é a motivação. Alguns corredores acabam treinando menos por não terem nenhum compromisso com outra pessoa.

    Em determinados períodos, fica mais fácil:

    Quem treina em grupo, muitas vezes encontra na companhia um estímulo extra para manter a regularidade.

    Também existe a questão da segurança. Dependendo do horário, do percurso ou da região onde o corredor mora, correr acompanhado pode ser uma escolha mais prudente.

    Ou seja, como acontece em quase tudo na corrida, não existe uma resposta única. Cada forma de treinar apresenta vantagens e limitações; o importante é conhecer as duas e fazer escolhas conscientes.

    Quando correr sozinho não é uma escolha

    Até aqui falamos de quem gosta de correr sozinho, mas existe outro grupo de corredores que merece atenção: aqueles que treinam sozinhos pelas circunstâncias da vida.

    Por exemplo:

    • moram em cidades pequenas
    • trabalham em horários incompatíveis com as assessorias
    • viajam constantemente
    • não têm um grupo de corrida próximo de onde vivem

    Essas pessoas muitas vezes acreditam que estão em desvantagem, mas nem sempre é assim, já que, hoje a tecnologia permite que corredores do país inteiro sejam acompanhados por treinadores, mesmo treinando sozinhos.

    É possível:

    E eu acompanhei essa transformação de perto, quando comecei a prescrever treinos a distância, há muitos anos atrás.

    Toda a comunicação era feita por e-mail: o corredor recebia uma semana de treinos, e só voltávamos a conversar dias depois. Isso tornava os feedbacks lentos, dificultava os ajustes e impedia a agilidade que hoje parece tão natural.

    Agora a realidade é outra. Um corredor pode concluir um treino pela manhã, enviar suas impressões, tirar uma dúvida, receber um ajuste e seguir o planejamento praticamente em tempo real.

    Isso mudou completamente a forma como entendemos o treinamento. Há alguns anos, parecia que treinar sozinho significava evoluir sozinho; hoje sabemos que essas duas coisas são bem diferentes.

    Treinar sozinho não significa evoluir sozinho

    O corredor pode realizar todos os treinos sozinho e, ainda assim, estar muito bem acompanhado, aliás, boa parte dos meus alunos vive exatamente essa realidade.

    Eles treinam em horários diferentes, moram em cidades diferentes, alguns nunca se encontraram pessoalmente, mas, todos recebem orientação, planejamento, ajustes e acompanhamento constantes.

    Isso porque o papel do treinador não é correr ao lado do aluno, mas ajudá-lo a tomar melhores sobre:

    • calendário de provas
    • organização do treinamento
    • controle das cargas
    • planejamento da evolução
    • interpretação dos sinais do corpo
    • evitar erros comuns

    A corrida continua sendo solitária durante aqueles quarenta, cinquenta ou sessenta minutos de treino, mas a construção dessa evolução não precisa ser. Essa diferença é enorme, porque autonomia não significa abandono; significa apenas que o corredor é capaz de executar o treino sem depender da presença física de outra pessoa.

    Grupo ou treino individual?

    Afinal, o que é melhor? Treinar acompanhado ou treinar sozinho?… Baseado em tudo o vimos até agora, eu diria que depende.

    • depende da personalidade
    • das circunstancias
    • dos objetivos
    • da rotina
    • da experiência
    • do momento de vida
    Infográfico "AO CORRER SOZINHO, VOCÊ PODE", ilustrado com uma corredora focada em uma trilha. 1. Prestar mais atenção ao próprio corpo, 2. Cuidar melhor da técnica, 3. Medir mais a intensidade, 4. Sentir melhor o esforço.

    Existem corredores que florescem dentro do grupo; outros, quando encontram silêncio. Alguns gostam de alternar as duas experiências, e isso também funciona muito bem.

    Não é raro ver corredores que realizam certos tipos de treinos em grupo, aproveitando a energia coletiva, mas fazem outros sozinhos, desfrutando de um momento mais introspectivo.

    A corrida é suficientemente ampla para comportar todos esses perfis e não existe um único jeito certo de praticá-la.

    A corrida também respeita quem você é

    A corrida permite que cada pessoa a viva de uma maneira diferente. Alguns gostam da conversa antes do treino, do café depois da corrida, da foto em grupo.

    Integrantes do Clube da Corrida Bertolino, no café da manhã pós treino.

    Outros encontram prazer justamente na simplicidade de calçar o tênis, sair de casa, correr e voltar sem roteiro, sem compromissos ou explicações, e nenhum deles aprecia menos a corrida; apenas a experimenta de um jeito diferente.

    Quando entendemos isso, deixamos de comparar estilos e passamos a respeitar as diferentes formas de viver o esporte, porque, no fundo, o que importa não é correr como os outros; é correr de uma maneira que faça sentido para si.

    Se você gosta de correr sozinho, saiba que não está sozinho. Milhões de corredores compartilham essa preferência, e isso não faz de você alguém menos sociável, menos comprometido ou menos apaixonado pela corrida.

    Talvez apenas revele uma característica da sua personalidade, ou mostre que você encontrou na corrida um espaço de silêncio, liberdade e conexão consigo mesmo.

    Ao mesmo tempo, vale lembrar que treinar sozinho não significa precisar descobrir tudo sozinho; buscar aprendizados ou contar com alguém com um bom sistema para organizar sua evolução pode fazer toda a diferença, independentemente de você correr em grupo ou sozinho.

  • Quando Correr sem Beber Água Era Sinal de Força: Como Essa Crença Mudou

    Quando Correr sem Beber Água Era Sinal de Força: Como Essa Crença Mudou

    Houve uma época em que terminar um treino desidratado podia ser motivo de orgulho. Hoje, essa ideia parece um verdadeiro absurdo.

    Quanto mais tempo conseguíamos correr sem beber água, mais fortes e resistentes parecíamos. Entre corredores, não era incomum ouvir comentários como: “Hoje corri 30 quilômetros sem tomar um gole de água.”

    E isso não era visto como um erro; pelo contrário: muitas vezes era contado como uma conquista, sendo raro encontrar alguém com uma garrafinha de água para um treino longo.

    Quando isso acontecia, a pessoa podia até ser vista como “menos resistente” ou como alguém que ainda não tinha desenvolvido a força necessária para suportar grandes distâncias.

    Hoje sabemos que essa lógica faz pouco sentido. A hidratação passou a ser compreendida como parte importante do treinamento e do cuidado com o corpo, especialmente em corridas longas, temperaturas elevadas ou situações de maior perda de líquidos.

    Mas talvez o aspecto mais interessante dessa história seja entender como chegamos a acreditar que correr sem beber água era uma demonstração de força.

    Neste artigo, vamos resgatar uma prática que marcou uma época da corrida, compreender as crenças que ajudaram a mantê-la e observar como a evolução do conhecimento transformou a forma de treinar, competir e cuidar da hidratação.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Quando Correr Sem Beber Água Era Sinal de Força            

    A corrida era outra…

    Na década em que comecei meus treinamentos, o universo da corrida era muito diferente do que vemos hoje:

    • havia poucos corredores amadores
    • poucas provas
    • quase nenhuma informação disponível
    • não existia internet
    • não existiam relógios inteligentes
    • não havia vídeos de especialistas no YouTube

    Grande parte do conhecimento circulava de atleta para atleta e muitos comportamentos eram simplesmente reproduzidos; se os atletas de elite faziam assim, os amadores faziam também, e nem sempre porque havia evidências, mas porque parecia fazer sentido.

    A cultura da resistência

    Naquela época existia uma ideia muito forte: o bom corredor era aquele que suportava mais sofrimento, e quanto mais difícil, melhor.

    Era quase uma competição paralela:

    • quem suportava mais calor
    • quem terminava mais destruído
    • quem corria mais quilômetros
    • quem precisava de menos água

    Era como se a resistência física fosse medida pela capacidade de ignorar as necessidades do próprio corpo. Hoje percebemos que isso confundia resistência com sofrimento, e são coisas completamente diferentes.

    Os relatos eram comuns

    Lembro perfeitamente das nossas conversas: “Hoje fiz 25 quilômetros sem beber água” — dizia um. “Eu fiz trinta” — respondia outro, quase como se aquilo fosse um recorde.

    Ninguém perguntava: “Como ficou sua hidratação?” Aliás, praticamente não existia conversas sobre hidratação. A preocupação era terminar o treino e o resto parecia fazer parte do pacote.

    Mas eu me lembro muito bem dos efeitos disso. Depois daqueles longos nas manhãs sem beber água, passava boa parte das tardes com uma sede enorme; era o corpo passando horas tentando restabelecer seu equilíbrio e recuperando aquilo que tinha perdido durante o treino.

    Na época, não se não fazia essa relação com a hidratação. Ninguém interpretava aquilo como um sinal de que havíamos exagerado na desidratação, e aquela condição era apenas considerada como normal.

    O problema não estava somente na prática de correr sem beber água, mas no comportamento tão normal que ninguém questionava as consequências.

    Mas, por que acreditávamos nisso?

    Hoje é fácil olhar para trás e pensar: “Como eles faziam isso?”
    Para tanto, é preciso entender o seguinte contexto:

    • A ciência do exercício ainda estava evoluindo
    • Muitos mecanismos da hidratação ainda eram pouco compreendidos
    • Os estudos demoravam anos para chegar ao treinamento do dia a dia
    • Havia forte influência da cultura militar na cultura esportiva

    Suportar desconforto era visto como sinal de força mental, mas o problema é que uma ideia verdadeira acabou sendo exagerada, porque sim, o atleta precisa desenvolver resistência mental, mas isso nunca significou ignorar necessidades fisiológicas do organismo em exercício.

    A ciência mudou nossa forma de enxergar a hidratação

    Com o passar dos anos, os estudos começaram a mostrar algo importante:

    • Durante o exercício perdemos muito mais do que água
    • Perdemos líquidos
    • Perdemos eletrólitos
    • A temperatura corporal aumenta
    • O volume plasmático diminui
    • O coração precisa trabalhar mais para manter o mesmo esforço
    Infográfico "DURANTE A CORRIDA", com dois corredores. 1. Perda de líquidos e eletrólitos, 2. Aumento da temperatura corporal, 3. Redução do volume plasmático, 4. Aumento da solicitação cardíaca.

    Dependendo da intensidade, tudo isso começa a afetar diretamente o desempenho. Além disso, ficou claro que uma desidratação importante aumenta o risco de vários problemas fisiológicos, principalmente em ambientes quentes.

    Ou seja, não era apenas questão de conforto; era também questão de desempenho e segurança.

    A evolução dos isotônicos

    Outro marco importante aconteceu com a popularização das bebidas esportivas. A primeira bebida isotônica surgiu nos Estados Unidos na década de 60, mas demorou muitos anos para chegar de forma consistente ao Brasil.

    No final dos anos 80 ela começou a aparecer com mais frequência. Nos anos 90 ainda era praticamente restrita aos atletas de maior rendimento, e só nos anos 2000 passou realmente a fazer parte da rotina de muitos corredores amadores.

    Ao mesmo tempo, aumentaram as pesquisas, os congressos e a divulgação de conhecimento sobre hidratação esportiva, quando o cenário começou a mudar rapidamente.

    Então devemos beber água o tempo todo?

    Aqui existe outro extremo. Hoje sabemos muito mais, mas também sabemos que não existe uma regra única.

    A necessidade de hidratação na corrida depende de vários fatores:

    • duração do treino
    • intensidade
    • temperatura ambiente
    • umidade relativa do ar
    • quantidade de suor produzida pelo corredor
    • nível de adaptação ao calor

    Por isso, não existe uma quantidade universal que sirva para todos os corredores, e assim, a hidratação também precisa ser individualizada.

    O que continua valendo?

    Curiosamente, algumas ideias daquela época continuam verdadeiras. O corredor realmente precisa desenvolver tolerância ao desconforto.

    Nem todo treino será confortável, nem toda sede significa perigo imediato e nem toda sensação desagradável exige interromper o treino.

    A diferença é que hoje sabemos separar desconforto fisiológico esperado, de sinais importantes que o corpo está enviando, e essa talvez seja a maior mudança.

    Da mesma forma, entendemos que resistência não é lutar contra o corpo, mas aprender a trabalhar junto com ele.

    Quando olhamos para trás, pode parecer estranho imaginar corredores comemorando um treino inteiro sem beber água, mas é importante lembrar que não treinávamos assim por irresponsabilidade, mas porque aquele era o conhecimento disponível no momento.

    A ciência do treinamento evoluiu, nós evoluímos com ela, e talvez essa seja a maior lição dessa série aqui no blog, porque na corrida, como em tantas outras áreas do conhecimento e até da vida, aprender e atualizar fazem parte do treinamento.

    O verdadeiro corredor não é aquele que permanece preso ao passado; é aquele que continua evoluindo, e talvez daqui a vinte anos algumas das certezas que temos hoje também sejam revistas.

    E isso não significa que estamos errando; significa que a ciência continua evoluindo e o importante não é defender tradições, mas continuar aprendendo.

    E fique de olho no Blog do Bertô: em um dos próximos artigos da série “Comportamento do Corredor”, vamos falar sobre outro hábito que já foi muito comum entre corredores e atletas, e que hoje parece ainda mais estranho: correr usando saco plástico para “emagrecer mais rápido”.

  • Fair Play na Corrida: O que Você Faria para Vencer?

    Fair Play na Corrida: O que Você Faria para Vencer?

    Sabemos que boa parte de uma corrida se refere a disputas. Enquanto muitos corredores largam simplesmente para participar, outros tantos partem para fazer o seu melhor, testar sua capacidade, buscar um resultado ou superar a si mesmo e aos outros.

    Agora vamos imaginar o surgimento de um momento particularmente interessante: de repente aparece uma vantagem que você não provocou nem conquistou diretamente pela sua capacidade.

    O corredor à sua frente erra o caminho, diminui o ritmo antes da hora, para por engano, perde a concentração, ou simplesmente não percebe que a prova ainda não terminou. E então surge uma escolha: você aproveita a oportunidade ou faz alguma coisa que pode te custar uma posição ou até uma vitória?

    É nesse tipo de situação que a corrida deixa de ser apenas uma disputa e passa a colocar o corredor diante de uma decisão, porque competir comumente é querer chegar à frente, e aproveitar uma oportunidade dentro das regras, que aparece em uma prova, não é algo assim comum.

    A questão é: quando essa oportunidade surge por causa de um erro do adversário, o que você decide fazer? É justamente nesse ponto que o fair play começa a ficar interessante.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Fair Play na Corrida: Até Onde Você Iria?       

    Não porque exista necessariamente uma resposta certa para todos os casos, mas porque situações assim nos obrigam a pensar sobre os limites que cada corredor estabelece para si mesmo quando está competindo.

    Situações como essa já aconteceram em provas de corrida e ganharam repercussão por colocarem em confronto duas possibilidades: aproveitar uma vantagem inesperada ou agir de acordo com aquilo que entendemos como espírito esportivo, e é aí que entra o fair play.

    Mais do que uma regra escrita, o fair play envolve ética, respeito ao adversário e a maneira como o atleta se comporta quando tem a oportunidade de obter uma vantagem que não conquistou pela sua própria performance.

    Mas será que todos os casos são tão simples assim? E será que agir de acordo com o fair play significa sempre abrir mão de uma vitória?

    Ao longo deste artigo, vamos analisar situações reais do esporte e da corrida para discutir onde termina a competição e começa a ética — e o que essas escolhas podem revelar não apenas sobre os atletas, mas também sobre nós mesmos.

    O caso que emocionou o mundo

    Em 2012, numa prova de cross-country na Espanha, o queniano Abel Mutai, medalha de bronze nos 3.000 metros com obstáculos nos Jogos Olímpicos de Londres, cometeu um erro.

    Pensando que já havia cruzado a linha de chegada, ele parou antes do final da prova. Logo atrás vinha o espanhol Iván Fernández Anaya, e bastava ultrapassá-lo para vencer.

    Em vez disso, Anaya fez outra escolha: tocou nas costas do queniano, apontou a linha de chegada e permitiu que ele completasse a prova como vencedor.

    O espanhol Iván Fernández Anaya indicando a linha de chegada ao queniano Abel Mutai numa corrida de cross-coutry em 2012.
    Iván Fernández Anaya, em Fair Play, corrigindo o engano de Abel Mutai

    As imagens desse momento se multiplicaram por todas as mídias e correram o mundo. Milhões de pessoas se emocionaram, e o episódio passou a ser citado como um dos maiores exemplos de fair play da história do esporte.

    E eu concordo que foi um gesto bonito e de empatia, mas, será que essa é a única forma de enxergar esse tipo de história?

    Porque existe uma pergunta que ninguém fez: se o espanhol Iván Fernández Anaya, eu ou você, estivesse naquela situação, e em jogo estivesse uma medalha olímpica, um título mundial ou outra premiação muito importante, faria exatamente a mesma coisa?

    À primeira vista, o que parecia uma pergunta fácil de responder vai abrindo um leque que coloca o fair play numaenorme zona cinzenta, conforme entendemos como funciona o comportamento no esporte de alto rendimento.

    Ali, cada decisão envolve anos de treinamento, enorme pressão, carreira, patrocínio, dinheiro e, muitas vezes, a oportunidade de uma vida inteira; o que faz do fair play um tema totalmente aberto.

    Depois de vários anos competindo no alto nível, posso dizer que a realidade é um pouco diferente quando ampliamos o contexto, como você vai ver a seguir.

    No caso de Anaya, era uma prova importante, mas muito diferente de uma final olímpica ou de uma disputa por um título mundial, e essa diferença de contexto ajuda a entender por que esse assunto é muito mais complexo do que parece.

    O que realmente significa Fair Play

    Você provavelmente já ouviu essa expressão muitas vezes, e traduzindo ao pé da letra, Fair Play significa jogo limpo.

    O conceito nasceu junto com os Jogos Olímpicos da era moderna, idealizados pelo Barão Pierre de Coubertin, em 1896. Mais do que vencer, a proposta era competir de forma honesta, respeitando as regras, os adversários e o próprio esporte.

    Ao longo do tempo, o Fair Play passou a representar muito mais do que simplesmente obedecer ao regulamento. Ele passou a simbolizar valores como respeito, integridade, honestidade e espírito esportivo.

    Só que existe um detalhe importante: uma coisa é cumprir as regras, outra muito diferente, é abrir mão de uma vantagem para corrigir o erro cometido por um adversário; e é aí que essa conversa começa a ficar interessante.

    O Fair Play que a internet conhece

    Quando alguém fala em Fair Play é quase certo que apareça uma imagem como aquela que vimos, onde o espanhol poderia ter vencido a corrida, mas preferiu avisar Abel Mutai de que a linha de chegada ainda estava alguns metros adiante.

    As imagens daquele ato deram a volta ao mundo, foram reproduzidas milhares de vezes, vistas por milhões de pessoas e passaram a representar, para muita gente, a essência do esporte.

    Mas por que esse episódio emocionou tanta gente? Justamente porque ele foge da lógica da competição.

    A expectativa comum era que o espanhol aproveitasse o erro do adversário, como acontece em praticamente todos os esportes. Imagine um goleiro que rebate a bola nos pés de um atacante; ninguém espera que ele devolva a bola ao goleiro, o esperado é que faça o gol.

    Naquela corrida aconteceu exatamente o contrário, e foi essa quebra de expectativa que transformou a surpresa em admiração. É o tipo de atitude que desperta um sentimento muito bonito e por isso é que aquelas imagens seguem sendo lembradas tantos anos depois.

    Mas segue uma questão que quase nunca aparece quando essa história é contada: será que esse comportamento representa a realidade sempre, e em todos os níveis do esporte competitivo, ou se fica famoso pela exceção? É essa pergunta que vamos explorar daqui para frente.

    Embora Anaya fosse um excelente corredor, aquela prova estava bem distante do ambiente de uma final olímpica ou de um campeonato mundial. Isso não diminui a grandeza do seu gesto, mas ajuda a entender que o contexto também influencia as decisões; quanto maior o valor daquilo que está em disputa, maior tende a ser o conflito entre competitividade e empatia.

    As diferentes faces do Fair Play

    O fair play não tem apenas uma camada, indo do mais básico ao mais complexo, e destrinchar isso ajuda a interpretar situações como a de Anaya.

    Fair play das regras

    • não cortar caminho
    • não empurrar um adversário
    • não trapacear
    • não buscar vantagem por meios ilegais

    Fair play do respeito

    • cumprimentar o adversário
    • aceitar a derrota
    • reconhecer o mérito de quem venceu
    • postura digna antes, durante e depois da prova

    Fair play da empatia

    Quando um atleta decide ajudar outro mesmo sem ser obrigado pelas regras; foi exatamente isso que vimos no caso de Iván Fernández Anaya: ele poderia simplesmente continuar correndo, mas escolheu agir de outra maneira.

    Fair play da renúncia

    Chegamos ao quarto nível, talvez o mais difícil de todos; aquele que exige abrir mão de uma enorme vantagem conquistada dentro das regras.

    Os exemplos que eu vi de perto

    Em agosto de 1991, durante o Campeonato Mundial de Atletismo, em Tóquio, aconteceu um episódio pouco conhecido, mas muito bonito.

    Na prova dos 50 km da marcha atlética, os então soviéticos Aleksandr Pothasov e Andrey Perlov abriram mão de disputar a vitória para cruzarem juntos a linha de chegada, a ponto da classificação ser definida no foto-finish.

    Na prova dos 50 km da marcha atlética, mundial de Tóquio, os então soviéticos Aleksandr Pothasov e Andrey Perlov, movidos pelo fair play, abriram mão de disputar a vitória para cruzarem juntos a linha de chegada.
    Aleksandr Pothasov (esq.) e Andrey Perlov na chegada dos 50 km mundial de Tóquio 1991

    Aquele foi um dos momentos mais bonitos da história da modalidade. Os dois sabiam que a União Soviética estava prestes a deixar de existir e aquela chegada simbolizava muito mais do que uma vitória; era quase um gesto de despedida, e desde então cada qual representaria um país diferente.

    Mais do que dividir aquele momento, eles quiseram mostrar que a amizade e a união permaneciam acima das mudanças políticas. Foi um gesto mutuo de empatia baseado no companheirismo de muitos anos de treinos e competições desses atletas.

    Os limites do Fair Play

    No mesmo Campeonato Mundial aconteceu outra situação curiosa. Nos 20 quilômetros, também na marcha atlética, o soviético Mikhail Shchennikov entrou no estádio em segundo, perseguindo o italiano Maurizio Damilano, campeão olímpico de Moscou.

    Shchennikov deu um sprint acreditando que faltava só a reta final da pista de atletismo, cruzou a linha de chegada e relaxou pensando que tinha ganhado a prova, quando faltava mais uma volta na pista.

    Momento em que o então soviético Mikhail Shchennikov percebe o seu engano, o que daria a vitória ao italiano Maurizio Damilano nos 20 km do mundial de Tóquio 1991.
    Shchennikov (esq.) percebe o próprio erro e Damilano vence

    Damilano seguiu no seu ritmo abrindo a volta final, quando Shchennikov entendeu que não tinha terminado e retomou para finalizar, mas já sem forças pra reagir a Damilano, que agora era quem tinha forças para os 300 metros finais, vencendo a prova.

    Perceba que o italiano não teve o mesmo grau de empatia do espanhol, que parou e ainda possibilitou a vitória ao queniano, mas também não infringiu nenhuma regra ao continuar até a sua vitória, que representava um título mundial e a diferença de 20 mil dólares entre as colocações.

    Quando o que está em jogo muda tudo

    Existe um exemplo muito interessante aqui no Brasil. Na São Silvestre de 2019, o ugandense Jacob Kiplimo, entrou na reta final com a segurança da vitória nas mãos, manteve o ritmo até a linha de chegada, só atrás dele vinha num sprint o queniano Kibiwott Kandie; e Kandie fez o que qualquer atleta faria numa disputa desse nível…

    Continuou correndo muito forte e conseguiu ultrapassar o adversário praticamente sobre a linha, venceu a prova, quebrou o recorde da São Silvestre e ainda recebeu uma premiação significativamente maior pela vitória.

    O descuido de Jacob Kiplimo que permitiu a vitória de Kibiwott Kandie na São Silvestre de 2019.
    Kandie ultrapassa Kiplimo, por descuido, praticamente na linha de chegada

    Nenhum dos dois fez algo errado. Kiplimo se descuidou e Kandie apenas aproveitou uma oportunidade criada pelo próprio adversário.

    O caso da competição em São Paulo, assim como o de Tóquio, nos levam a uma reflexão interessante: quanto maior o valor daquilo que está em disputa, mais raros se tornam os gestos de abrir mão de uma vantagem conquistada dentro das regras.

    Por outro lado, já vimos e certamente seguiremos vendo os inúmeros episódios de corredores amadores se ajudando espontaneamente pelos percursos e nas chegadas de praticamente todas as corridas de rua.

    A minha impressão geral

    Depois de olhar todos esses exemplos, talvez a grande pergunta já não seja mais: o que eu faria diante de determinada situação? Mas, até onde a nossa mente conversa com o fair play? Na minha opinião, eu diria que na corrida essa conversa pode ir longe, mas geralmente, tem seus limites. 

    O fair play na corrida começa com a obrigação de cumprir as regras, passa pelo respeito ao adversário, pode chegar à empatia e, em situações muito especiais, poderá quem sabe até levar alguém a abrir mão de uma vitória, mas, sobre esse último nível, não há evidências e de tão extremo, ele chega a ser inimaginável.

  • Ambição na Corrida: Quando Ela Ajuda — E Quando Pode Atrapalhar

    Ambição na Corrida: Quando Ela Ajuda — E Quando Pode Atrapalhar

    A ambição é uma coisa muito boa; ela move pessoas, cria metas, e aqui no nosso caso, tira o corredor do sofá e o coloca na rua, já sem ambição, ninguém evolui.

    Mas na corrida — como em quase tudo que envolve o corpo — ambição sem medida algumas vezes vira problema.

    Vou abordar aqui, um comportamento muito comum entre corredores: a ambição exagerada; aquele desejo constante de fazer mais do que o corpo, a rotina e o histórico permitem pelo viés do excesso de vontade.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Até Onde Ir? A Linha Tênue Entre Ambição e Autossabotagem na Corrida

    Ambição não é o problema

    Para deixar isso claro logo de início: ambição não é defeito; o problema não é querer correr mais, não é querer melhorar tempo nem sonhar com uma maratona, com varias outras corridas, uma ultramaratona ou uma prova desafiadora.

    O problema começa quando o desejo passa a ignorar a biologia. A corrida responde a estímulos — mas também cobra custos, e esses custos não podem ser pagos adiantados.

    Como a Ambição Exagerada se Manifesta na Prática

    Na prática, eu vejo como a ambição exagerada se manifesta de várias formas:

    Corredores que querem:

    • Aumentar volume rápido demais
    • Correr várias maratonas no mesmo ano
    • Emendar provas sem fase de recuperação
    • Ignorar sinais claros de fadiga
    • Treinar forte em quase todos os dias — erro comum na organização da semana de treinos

    Tudo isso geralmente vem acompanhado de uma frase clássica: sem problemas, eu aguento; mas a questão não é aguentar, é o que vai sobrar depois.

    De Onde Vem Essa Pressa

    E de onde vem essa pressa? Raramente essa ambição nasce do corpo; ela nasce da cabeça e ela vem:

    • Da comparação com outros corredores
    • Do feed do Strava
    • Das redes sociais mostrando só o resultado final
    • Da ideia de que “se ele consegue, eu também consigo”

    Mas cada corpo carrega uma história diferente: idade, rotina, sono, estresse, lesões passadas, onde a ambição sem contexto vira ilusão.

    Os Sinais de Alerta

    Existem alguns sinais claros, que pude captar, de que a ambição saiu do lugar saudável:

    • Incômodo com treinos leves
    • Sensação de culpa ao descansar
    • Frustração constante com o planejamento
    • Vontade de pular etapas
    • Lesões recorrentes sem causa óbvia

    Incômodo com treinos leves

    Quando a ambição sai do lugar saudável, o treino leve começa a incomodar. O corredor olha para aquele dia mais solto e sente que está “perdendo tempo”.

    Falta paciência para respeitar o papel daquele treino dentro do ciclo e o problema não é o treino ser leve, mas o ego não aceitar que nem todo dia precisa provar alguma coisa. Quando o treino leve vira ameaça, algo já saiu do eixo.

    Sensação de culpa ao descansar

    O descanso deixa de ser visto como parte do treino e passa a ser interpretado como falha pessoal. O corredor descansa, mas não descansa de verdade — fica inquieto, se cobrando, achando que poderia estar fazendo mais.

    Essa culpa é um sinal claro de que o processo foi substituído pela ansiedade do corredor que sente culpa ao descansar, e, geralmente está treinando mais para aliviar a mente do que para evoluir o corpo.

    Frustração constante com o planejamento

    O planejamento passa a ser visto como limitador, não como guia; o corredor começa a achar o plano “conservador demais” ou “lento demais”, mesmo sem conseguir executar bem o que está proposto.

    Surge uma irritação constante com a estrutura do treino, como se ela estivesse segurando o avanço; quando o plano vira inimigo, é porque a ambição já está falando mais alto que a leitura do momento.

    Vontade de “pular etapas”

    A pressa vira argumento. O corredor quer antecipar estímulos, aumentar volume, intensificar treinos antes da hora, sempre com a justificativa de que “dá pra aguentar”, e o problema é que o corpo até aguenta por um tempo — mas não assimila.

    Pular etapas pode gerar sensação imediata de progresso, mas costuma cobrar um preço mais adiante, porque evolução que não respeita sequência, raramente se sustenta.

    Lesões recorrentes sem causa óbvia

    As lesões começam a aparecer sem um evento claro que as explique: não foi uma queda, não foi um treino específico, nem  um erro pontual; são dores que surgem do acúmulo, da insistência, da soma de pequenas decisões mal reguladas.

    Quando o corpo começa a “frear sozinho”, é sinal de que a ambição deixou de ouvir os avisos mais sutis; quando o corredor começa a lutar contra o próprio planejamento, é porque algo está errado.

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    As Consequências não Aparecem na Hora

    O maior perigo da ambição exagerada é que ela não cobra o preço imediatamente; o corpo até responde por um tempo, e os resultados até podem aparecer, mas o custo vem depois:

    É bom ressaltar que acabamos de ver um conjunto de consequências, mas apenas uma delas pode ser o sinal para uma avaliação sobre os exageros, e mais, muitos corredores confundem isso com “falta de vontade”, quando na verdade é o excesso dela.

    Quando Mudar a Rota Não é Desistir

    E aqui entra um ponto que pouca gente entende — e que, como treinador, eu vejo o tempo todo.

    Muitas vezes, o corredor não só pode, como precisa mudar a rota durante um ciclo; não porque falhou, mas porque continuar no mesmo caminho vai gerar prejuízo certo.

    Quando os sinais aparecem — fadiga acumulada, dores persistentes, queda de qualidade técnica, irritabilidade, insônia — insistir no plano original não é disciplina, é teimosia.

    Nesses momentos, mudar a rota vira uma intervenção de redução de danos, e pode significar:

    Isso pode ate doer no ego, sobretudo com um monte planos amplamente divulgados. O corredor conta aos 04 cantos tudo o que pretende fazer, e depois, o ego fala alto e tenta manter o acelerador; mas é o pé no freio que salva o corpo.

    E é aqui que um treinador experiente vai fazer a diferença: não um que promete performance a qualquer custo, mas o que tem coragem de frear o atleta quando continuar acelera o prejuízo.

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    Casos Reais: Quando a Ambição Passa do Limite

    1. Recentemente, um corredor tinha planejado, pela segunda vez, participar de uma ultramaratona aqui na região, e nós sabemos que, além das bases solidas para maratona é preciso uma preparação de meses para uma ultra.

    Na metade dessa preparação eu percebi a discrepância entre ela e a meta, e dei um alerta: Eu disse a ele, “olha só, estamos aqui num limite das coisas, mais precisamente o cumprimento do volume geral e também dos treinos longos, e se a preparação não se encaminhar para criar corpo e te dar as condições mínimas, devemos abortar essa meta.”

    A resposta: “Eu consigo!”. Depois de algumas semanas, vendo que a coisa não mudou e que ele não se manifestava, dei outro aviso: “Veja bem, agora indico que você não tente mais essa meta, redirecionamos a sua preparação e não haverá prejuízos.”

    E mesmo assim ele insistiu em manter a ultramaratona.

    Foi quando eu disse; tudo bem seu corpo suas regras, mas tem quatro detalhes que você precisa saber:

    • que teremos de ser mais agressivos com a gradação sobre o que te falta
    • que você terá mais dificuldades para cumprir a prova, e não se espante se tiver que desistir lá pelos dois terços dela
    • que você não vai conseguir a performance esperada
    • que sua recuperação também será prejudicada

    No final das contas, ele não conseguiu treinar nem mesmo o mínimo, e por sorte decidiu não correr. Organismo e corpo foram poupados de eventuais sequelas, mas a frustração ficou visível e não sabemos ate quando ela vai.

    1. 2. Há alguns anos, contraindiquei a maratona a outro aluno recém-chegado ao clube, explicando a ele dois fatores determinantes: sem um histórico favorável e sem tempo hábil de preparação, isso poderia dar muito errado.

    Expliquei também, a corrida como um processo onde tudo tem seu tempo e que esse desafio era prematuro; mas ele insistiu, e movido por um senso de autodesafio muito forte decidiu correr.

    O resultado: Ele não só não concluiu a prova, como aprendeu da pior maneira tudo aquilo que tentei explicar. Depois de ter ficado muito tempo longe da corrida, e a frustração explica isso, fiquei feliz ao vê-lo correndo recentemente.

    O Que é Uma Ambição Saudável

    Eu diria que muita ambição precisa de contenção, e que ambição boa é aquela que:

    • Respeita ciclos e quantidades
    • Entende que evolução não é linear
    • Valoriza constância mais do que picos

    Treinar menos do que você gostaria, e mais critério em participações de provas, às vezes, é exatamente o que permite você correr melhor e por mais tempo. Paciência também é uma habilidade treinável.

    Às vezes, o maior avanço é aceitar um pequeno recuo estratégico.

    O Papel do Treinador na Regulação da Ambição

    O treinador não está ali para acelerar tudo mas para regular, e muitas vezes, o melhor treino é exatamente aquele que o atleta não faria sozinho — e o mesmo vale para as provas.

    Eu mesmo tenho critérios muito bem definidos na orientação dos treinos e indicação de provas, atuando também como um mediador, sempre focado na segurança e longevidade do corredor.

    Aceitar uma contraindicação a uma prova longa cedo demais, ou abrir mão de competir várias vezes em um intervalo curto não é sinal de fragilidade, é sinal de leitura correta do momento.

    Quando o treinador freia, não é para atrasar o atleta, é para proteger o processo; aceitar contenção, ajustes e até um “não agora” faz parte da maturidade esportiva, e quem não tolera ser regulado geralmente não está pronto para sustentar a própria ambição.

    Nem todo “sim” para uma prova é um avanço; às vezes, é só precipitação com data marcada.

    Reflexão Final: Até Onde Vale Ir?

    Então fica a reflexão: Você quer correr mais este ano — ou quer continuar correndo nos próximos dez ou vinte? Ambição é combustível, mas sem freio, ela não leva longe, e na corrida, quem dura mais, pode evoluir mais.

    Se esse assunto te incomodou um pouco, talvez ele tenha cumprido o papel certo, porque quase todo corredor ambicioso já passou, ou ainda passa, por esse ponto de exagero.

    Querer evoluir não é o problema; o problema é quando o desejo de ir mais rápido ignora o tempo que o corpo e o processo precisam, e às vezes, o passo mais inteligente não é acelerar, é regular.

    Mudar a rota no meio do ciclo dói no ego, mas costuma salvar a continuidade, e correr bem não é provar algo o tempo todo, é saber sustentar o caminho.