Categoria: Comportamento do Corredor

  • Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Você já percebeu que, às vezes, o motivo que te fez começar a correr não é mais o mesmo que te faz continuar?

    Isso acontece com quase todo corredor. A gente começa por um motivo muito específico — perder peso, controlar a ansiedade, voltar a se sentir ativo, ou até pra acompanhar um amigo. Mas o tempo, as experiências e até o próprio corpo vão mudando esse sentido.

    👉 Se preferir assistir em vez de ler, veja o vídeo:
    📺 Seu Objetivo Mudou (E Isso é Ótimo)

    E sabe o que é o mais interessante? Isso não é um problema, mas, exatamente o contrário: é sinal de evolução, e esse artigo é sobre isso — sobre como os objetivos mudam com o tempo, e por que essa mudança é um sinal claro de amadurecimento como corredor.

    O Objetivo Inicial: O Que Te Trouxe Até Aqui

    Todo corredor tem um “ponto de partida emocional” e talvez o seu tenha sido o espelho, um exame médico, o estresse do trabalho ou simplesmente a vontade de se sentir melhor.

    Esses primeiros objetivos são legítimos e poderosos, porque te tiram da inércia, mas eles são apenas o começo de uma história, já que, com o tempo, a corrida deixa de ser apenas um meio e começa a se tornar um propósito em si mesma.

    Eu costumo dizer que a corrida é uma escola, e que a primeira lição dela é justamente essa: o motivo que te faz começar não precisa ser o mesmo que te faz continuar.

    E isso é libertador porque te permite entender que o que importa é seguir em movimento, mesmo que o destino mude.

    Quando o Objetivo Muda

    Com o tempo, as conquistas e as frustrações começam a moldar seus novos objetivos; você atinge uma meta — e quer outra, ou percebe que o que antes te motivava já não te move mais, ou ficou em segundo plano.

    E está tudo certo, porque na verdade, isso mostra que você está crescendo dentro do esporte.

    Exemplos de transição de objetivos:

    • Você começou para emagrecer — e hoje corre para se desafiar
    • Começou buscando performance — e agora busca equilíbrio
    • Queria provar algo para alguém — e hoje corre pela sensação de liberdade

    Essas transições são mais comuns do que parecem, e cada uma delas exige uma mudança de mentalidade e, às vezes, até de metodologia de treino.

    Por isso, é tão importante ter consciência sobre o seu momento atual, porque o treino ideal muitas vezes não é o que está na planilha — é o que faz sentido para o seu propósito de hoje.

    O Papel do Treinador Nessa Jornada

    Um bom treinador não serve apenas para ajustar volumes e intensidades. Para começar, ele ajuda o corredor a interpretar o momento em que está.

    Às vezes, o aluno quer perseguir uma meta antiga, sem perceber que a vida mudou, que as prioridades são outras, que o corpo responde de forma diferente, que o objetivo precisa se atualizar.

    E é aí que entra o papel do treinador como espelho e bússola; alguém que te ajuda a encontrar o ponto de equilíbrio entre o desafio e o prazer.

    Treinador de corrida orientando corredora com uma bússola enquanto ela se olha no espelho, simbolizando orientação técnica e autoconhecimento.

    A bússola aponta o caminho técnico, mas é o espelho que revela a sua força interna. O treinador une os dois para uma evolução consistente.

    Eu vejo isso o tempo todo aqui no Clube da Corrida:

    • Alunos que chegam querendo performance a qualquer custo e, depois de um tempo, descobrem que o que precisavam mesmo era constância
    • Outros vêm buscando saúde e acabam se apaixonando pelo processo competitivo

    Um ponto importante
    Esse tipo de objetivo tem uma peculiaridade: quase ninguém tem a mínima noção da energia necessária para sustentar uma preparação voltada à performance.

    É um processo que exige:

    • tempo
    • disciplina
    • foco
    • estrutura

    Estrutura de vida voltada à performance é coisa que pouca gente tem disponível, e por isso é comum que, depois de algumas tentativas frustradas, o corredor acabe:

    • revendo suas metas
    • desistindo do objetivo de performance
    • no extremo, se afastando da corrida

    Um Caso Real Para Refletir

    Aqui segue um caso interessante pra te contar.
    Eu treinava um senhor que tinha uma ótima aptidão para corrida. Com o tempo, ele começou a evoluir rápido; apresentava performances muito acima da média para a faixa etária dele.

    Naturalmente, passamos a investir em treinos mais específicos, voltados à performance, e, como acontece com qualquer corredor que segue um bom processo, chegou um momento em que ele atingiu o que eu chamo de:

    Zona limítrofe da performance

    Aquela fase em que:

    • os ganhos já não são tão evidentes
    • cada segundo a menos passa a custar muito mais esforço, técnica e paciência

    Mas aí veio o ponto crítico. Ele acreditou que estava estagnado por causa do treino, e não porque já tinha chegado ao seu limite técnico e fisiológico dentro da rotina que levava.

    Achando que ainda havia um “salto escondido” para dar, decidiu trocar de treinador.
    O resultado foi o oposto do que esperava:

    • começaram as lesões recorrentes
    • o rendimento despencou
    • nunca mais conseguiu correr nem perto do que corria antes

    Com o tempo, acabou desistindo até mesmo dos treinos. Perceba que cada um tem uma trajetória, e entender o momento da jornada, reconhecer que nem sempre evoluir significa melhorar tempos ou bater recordes, é fundamental para não se frustrar.

    Quando Insistir e Quando Reajustar

    Muita gente se culpa por não estar mais tão motivada quanto antes, mas isso geralmente é um sinal de que o objetivo antigo já cumpriu o papel dele.

    A motivação não some do nada — ela muda de forma, e quando isso acontece você tem duas opções:

    • insistir em um propósito que não te representa mais
    • permitir um reajuste inteligente

    Possibilidades de reajuste

    👉 Talvez você não consiga ou não queira mais fazer recordes pessoais — e tudo bem.
    👉 Talvez queira focar em qualidade de vida, ou em correr acompanhado.
    👉 Ou, quem sabe, esteja na hora de experimentar novas distâncias, novos ambientes, e até novas modalidades.

    Reajustar o objetivo não é retroceder. É evoluir com consciência.
    A única coisa que realmente impede o progresso é ficar preso ao passado, tentando repetir o que já foi, em vez de construir o que faz sentido agora.

    Maturidade Esportiva

    Com o tempo, o corredor amadurece e esse amadurecimento se manifesta de várias formas:

    Você passa a ouvir mais o corpo do que o relógio

    É quando o corredor entende que o corpo é o verdadeiro marcador de progresso.
    O relógio mostra números, mas não mostra:

    • fadiga
    • estresse
    • qualidade do sono

    Quando você começa a ouvir o que o corpo está dizendo, e não apenas o que o pace mostra, passa a treinar de forma mais inteligente.

    Essa escuta:

    • evita lesões
    • melhora a recuperação
    • mantém o prazer em correr

    É o momento em que o treino deixa de ser uma obrigação e vira um diálogo com o próprio corpo.

    Aprende a respeitar os dias ruins sem culpa

    Nem todo treino vai sair como o planejado, e tudo bem, porque dias ruins fazem parte do processo e, muitas vezes, são os que mais ensinam sobre limites e equilíbrio.

    Quando o corredor entende isso, deixa de transformar cada corrida em uma prova de fogo. Respeitar um corpo cansado é sinal de inteligência, não de fraqueza, e, muitas vezes, o descanso é o treino mais eficiente daquele dia.

    Entende que constância vale mais do que intensidade

    A maturidade no treino vem quando se percebe que não é o esforço pontual que traz resultado, mas o acúmulo de boas semanas, meses e anos.

    A intensidade é importante, mas sem constância ela não se sustenta, e o corredor que busca resultados duradouros aprende a priorizar o hábito, não a exceção. Quando a regularidade se torna parte da rotina, o progresso vem de forma mais leve, natural e permanente.

    Percebe que o prazer de correr é o verdadeiro combustível

    Chega um momento em que a corrida deixa de ser apenas sobre metas e resultados, e passa a ser sobre prazer. O simples ato de calçar o tênis e sair para correr já se torna recompensador.

    É o prazer que mantém a chama acesa quando o ritmo cai, quando a motivação oscila ou quando a vida aperta, e no fim das contas, o que faz alguém continuar correndo por anos não é a busca por recordes; é a satisfação genuína de se sentir vivo em movimento.

    A maturidade esportiva é quando você deixa de se comparar com os outros — e começa a se comparar com o seu ontem. É o ponto em que a corrida deixa de ser uma cobrança e vira um diálogo com você mesmo.

    infografico-maturidade-esportiva-corredor.jpg • Alt Text: Infográfico sobre os quatro pilares da maturidade esportiva na corrida: ouvir o corpo, respeitar dias ruins, constância versus intensidade e prazer como combustível.

    A Corrida se Adapta à Sua Vida

    Depois de algum tempo de experiência como treinador, percebi que os objetivos podem mudar até mesmo para os mais inusitados; como, por exemplo, aquele de muita gente atualmente: correr para poder comer mais à vontade, inclusive já contei isso com detalhes no artigo anterior.

    • Alguns correm para competir
    • Outros visando o turismo esportivo
    • Outros para aliviar a cabeça
    • Outros, para poder comer o churrasco do fim de semana sem culpa

    E tudo isso é válido.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    O Ciclo do Propósito

    Eu gosto de pensar nos objetivos da corrida como ciclos:

    🔹 Ciclo do começo: Quando tudo é descoberta
    🔹 Ciclo da conquista: Quando queremos resultados
    🔹 Ciclo da consciência: Quando correr já é parte da nossa identidade

    O segredo é reconhecer em qual ciclo você está e viver ele por inteiro, sem pressa, sem comparação e com o entendimento de que todos eles têm o seu valor.

    Se o Seu Objetivo Mudou… Comemore

    Se o seu objetivo mudou, comemore, porque isso significa que você mudou também e é justamente essa capacidade de se transformar que mantém o corredor em movimento, dentro e fora da pista.

    Então, se hoje o seu motivo para correr não é mais o mesmo de quando começou, está ótimo, você está no caminho certo, e continue evoluindo, do seu jeito, no seu ritmo, com propósito.

    👉 Sobre esse assunto, assista ao vídeo:
    🎥
    Quando o Propósito Supera o Objetivo | O Sentido do Seu Treino

  • Afinal, Para Que Mesmo Você Treina?

    Afinal, Para Que Mesmo Você Treina?

    Corredor:- você tem uma resposta bem definida sobre os motivos pelos quais você treina?

    Se alguém te perguntasse agora qual é o seu objetivo real com a corrida, você saberia responder com clareza? Porque acredite — muitos corredores não sabem, sobretudo os menos experientes.

    Muitos começam “na onda” com uma motivação, mas no meio do caminho isso muda, se perde, se contamina com a de outros, ou até se contradiz, e entender por que você corre é o que define não só o seu progresso, mas a forma como você vive a corrida.

    👉 Se preferir, em vez do texto, veja esse assunto no vídeo:
    📺 Afinal, pra que mesmo você treina?

    Os Motivos Mais Comuns Para Começar a Correr

    Quando a gente observa o universo da corrida de rua, conversa com os corredores, ou até mesmo vê as estatísticas sobre perfis, percebe o primeiro ponto; as pessoas correm pelos motivos mais variados:

    • Algumas querem emagrecer
    • Outras, aliviar o estresse
    • Tem quem corra por desafio pessoal
    • Por saúde
    • Ou para socializar

    E tem quem simplesmente comece porque o amigo chamou.

    Infográfico apresentando as 5 motivações principais para quem começa a correr: emagrecimento, alívio do estresse, desafio pessoal, saúde e socialização, com ícones e breves explicações para cada um.

    Estatisticamente, por dados aproximados baseados em estudos e pesquisas nacionais:

    – O Brasil tem hoje cerca de 13 milhões de corredores amadores
    – Desses, metade treina por conta própria — ou seja, sem acompanhamento direto
    – E, segundo levantamentos de portais de corrida e saúde, os principais motivos para começar são:

    • 35%: emagrecimento e estética
    • 25%: melhorar a saúde cardiovascular
    • 20%: reduzir o estresse e ansiedade
    • 10%: superar desafios pessoais
    • 10%: conviver com outras pessoas

    Se agruparmos os interesses em torno da saúde física, mental e social, ou, a Saúde  Integral do individuo, teremos uma quantidade por volta dos 83%.

    O fato é que quase todo corredor começa com uma motivação muito prática, e a maioria não percebe que esse ponto de partida é só o início de uma trajetória de transformação, porque, com o tempo, os motivos variavelmente mudam — e, junto com eles, muda também o significado da corrida.

    Quando o Objetivo Muda — e isso é bom!

    Muita gente acha que o ideal é ter um objetivo fixo, bem definido — tipo ‘quero correr uma meia maratona’ ou ‘quero perder 10 quilos’.

    Só que na prática, o amadurecimento de um corredor vem justamente quando os objetivos começam a mudar.

    👉 Veja as implicações nessas mudanças, no vídeo:
    📺 Seu Objetivo Mudou (e isso é ótimo)

    Um Exemplo Prático

    Conheci muita gente que começou a correr para perder peso, e percebi que depois de alguns meses, atingindo o peso ideal, ficou meio sem saber o que fazer.

    Só que aí, algo interessante geralmente acontece: o corredor começa a perceber o prazer de se desafiar nos treinos, de sentir o corpo respondendo, de ver a melhora na performance, então passa a dar mais atenção aos parâmetros de tempo e distância nos treinos.

    O objetivo deixa de ser o peso corporal; o praticante até mesmo se esquece de verificar aquilo que já está sob controle  — e naturalmente volta a sua atenção para a evolução pessoal na forma de performance.

    No meu caso – para que você veja só como esse negócio de objetivo pode ser muito dinâmico – eu já tinha praticado alguns esportes, mas, ainda adolescente, parei na marcha atlética, uma modalidade de fundo; que nem a corrida que tratamos por aqui.

    Contrariando totalmente a lógica do adolescente que procura por um esporte, meu objetivo inicial era ficar distante do sedentarismo. Pois bem, algum tempo passou e eu, ainda juvenil, nem me lembrava do sedentarismo e só pensava na performance.

    Depois de mais de uma década, e ainda pelo viés da performance, me veio um objetivo bem especifico: o sonho olímpico. Encerrado esse ciclo e com algum tempo inativo, voltei com o mesmo objetivo de quando era um menino: o de fugir do sedentarismo, mas agora preocupado com a saúde e com a estética.

    Diagrama de 4 mudanças de objetivos durante a carreira esportiva de Cláudio Bertolino.

    E isso acontece com frequência: a corrida começa sendo um meio para algo externo, mas com o tempo, vira um valor interno. Ela deixa de ser sobre resultados e passa a ser sobre identidade, e justamente nesse ponto, entra o papel do treinador.

    O Papel do Treinador na Construção e Revisão de Objetivos

    Um bom treinador não é só quem passa treinos, mas quem ajuda o corredor a entender o porquê de cada treino — e com a mesma importância, a repensar os próprios objetivos quando for preciso.

    O treinador é uma espécie de espelho, nos momentos em que mostra o que o aluno ainda não percebeu sobre si mesmo.

    O Papel Prático do Treinador

    • Ajudar o aluno a definir metas realistas e alinhadas ao momento atual;
    • Identificar quando o corredor está preso num objetivo ultrapassado (por exemplo, insistindo em performance quando o corpo pede saúde);
    • Traduzir o propósito emocional do aluno em estratégias técnicas de treino;
    • Relembrar o aluno de que a corrida é uma jornada de longo prazo, e que os objetivos podem mudar conforme a vida muda.
    Infográfico detalhando como o treinador atua na jornada do corredor, auxiliando na definição de metas realistas, identificação de objetivos ultrapassados e na tradução de propósitos emocionais em estratégias técnicas de treino.

    E o mais interessante: o treinador também aprende com isso, porque, à medida que o aluno amadurece, o olhar do treinador sobre ele também muda.

    A História do ‘Correr Para Poder Comer Mais’

    Já faz algum tempo, durante um treino com meu grupo, eu comentei algo que gerou polêmica.

    Baseado no que eu tinha percebido, disse que muita gente corre pra poder ter um cardápio mais flexível — em outras palavras, pra poder comer mais à vontade e de certa forma, isso faz todo o sentido.

    Existe até uma brincadeira recorrente sobre as fases da vida: no início da fase adulta, a pessoa pode comer de tudo, mas não tem dinheiro para isso. Depois que se estabiliza profissionalmente, já tem recursos, mas a idade começa a cobrar o preço — e aí, parece que “não pode comer mais nada”.

    É justamente nesse ponto que a corrida entra em cena: ela devolve certa liberdade; a pessoa percebe que, com o hábito de correr pode manter o prazer de comer sem culpa, equilibrando o que gosta com o que precisa, como se a corrida se tornasse a ponte entre o prazer e o autocuidado.

    O prazer de comer com flexibilidade faz parte da qualidade de vida — que, aliás, é algo relativo entre as pessoas, já que, para muita gente, poder se alimentar bem, sem culpa e sem restrições exageradas, é um dos grandes prazeres da vida.

    Quando a corrida entra nessa equação, ela ajuda a equilibrar o prazer e a saúde de um jeito leve, sem extremos. Cada um encontra seu ponto de equilíbrio: uns correm pra poder saborear um bom prato, outros pra manter o corpo ativo e a mente tranquila. No fim das contas, qualidade de vida é isso — encontrar o próprio jeito de viver bem.

    Os Diferentes Tipos de Objetivo na Corrida

    Para entender onde você está na sua jornada como corredor, vale conhecer os tipos de objetivos que normalmente aparecem nesse caminho. Também é bom saber que, quando alguém começa a correr dificilmente o faz por um único motivo, que esses variam muito entre pessoas, e também mudam com o tempo.

    Objetivos Estéticos

    Muito comuns entre iniciantes e especialmente entre mulheres antes da meia-idade.

    • Perda de peso
    • Definição corporal
    • Melhora do tônus muscular
    • Sentir-se melhor com o próprio corpo

    Objetivos de Saúde

    • Controle do colesterol
    • Redução do estresse
    • Melhora do sono
    • Equilíbrio do humor
    • Promoção do bem-estar geral

    Objetivos Emocionais

    • Alívio do estresse
    • Sensação de bem-estar mental
    • Espaço de equilíbrio no dia a dia
    • Corrida como válvula de escape

    Objetivos de Performance

    • Baixar tempos
    • Aumentar distâncias
    • Melhorar desempenho em provas
    • Alcançar metas específicas

    Objetivos Sociais e de Propósito

    • Integração com grupos de corrida
    • Motivação coletiva
    • Superação de desafios pessoais
    • Enfrentar ou ressignificar fases difíceis
    • Reconexão consigo mesmo

    No fim das contas, todos esses motivos são válidos e se entrelaçam de alguma forma, já que a corrida tem essa capacidade de atender diferentes dimensões do ser humano — o físico, o mental, o emocional e até o social.

    Eles não são fixos, mas ajudam a visualizar a progressão natural de quem vive a corrida de verdade; e não importa o motivo inicial, o que importa é o quanto a corrida transforma a pessoa ao longo do caminho.

    O Amadurecimento do Corredor

    O amadurecimento do corredor acontece quando ele entende que o objetivo é dinâmico, que ele pode mudar de fase, mudar de meta, e isso não significa estar perdido, mas estar vivo dentro da prática.

    A corrida é um espelho da vida: às vezes o foco é saúde, às vezes superação, às vezes conexão — e tá tudo certo.

    É positivo quando um corredor passa a treinar com mais consciência; quando ele para de se comparar com os outros e começa a buscar melhorar a si mesmo, dentro do contexto que está vivendo agora. É aí que nasce o corredor maduro.

    👉 Veja um artigo que poderá te ajudar com isso:
    📝 Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    Pontos de Reflexão

    Agora é com você Corredor: por que você treina? Qual é o seu objetivo hoje? E ele é o mesmo de quando você começou? Em que fase da corrida você está?

    A corrida pode ser o que você quiser que ela seja: um meio para emagrecer, um espaço de paz, um campo de batalha pessoal, ou um laboratório de autoconhecimento. O importante é que seja consciente — e que te faça crescer.

  • Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?

    Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?

    Existe uma diferença enorme entre correr com método… e correr para provar alguma coisa, e boa parte dos corredores não percebe quando atravessa essa linha.

    Porque no campo esportivo o ego não aparece como vilão; ele aparece como coragem, como competitividade, como “garra”.

    Só que, muitas vezes, o que parece força…é desorganização emocional, e tem um ponto importante aqui: o ser humano, principalmente na fase adulta de construção de identidade — quando estamos consolidando carreira, posição social, imagem pessoal:

    • Tende ao modo de afirmação
    • Quer mostrar competência
    • Precisa mostrar capacidade
    • Quer mostrar força

    Não apenas material, mas também moralmente, queremos provar que damos conta em tudo o quanto nos envolvemos.

    E esse impulso, que naquela fase faz sentido na vida profissional e social…
    muitas vezes invade o treino.

    E quando ele invade o treino, o método começa a perder espaço para a necessidade de validação.

    Esse artigo vai falar sobre isso: sobre a diferença entre treinar e competir com método, ou deixar o ego tomar decisões que o planejamento já tinha resolvido.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Método ou Ego: O que está Guiando sua Corrida?   

    O que é correr com método?

    Correr com método é simples — mas não é fácil.

    É entender que:

    • Cada treino tem um objetivo fisiológico
    • Cada fase do ciclo tem uma função
    • Cada intensidade tem um propósito

    No âmbito das provas, você não é o mesmo atleta em todas elas, já que o organismo responde de forma diferente dependendo do momento do ciclo; e no ambiente do treino não é sobre intensidade máxima – é sobre estímulo adequado – um regenerativo não é fraco, ele é estratégico. Um treino controlado não é “menos esforço”, mas construção.

    Método é saber que performance não é construída no impulso. É construída na repetição inteligente.

    O que é correr com ego?

    Agora vamos falar do que esta sempre nas entrelinhas e quase ninguém admite: ego não é comportamento de arrogância explícita. Ego é quando a emoção toma a decisão que o planejamento já tinha tomado.

    É quando:

    • Você acelera o treino regenerativo porque alguém passou
    • Você transforma um treino progressivo em disputa
    • Você ignora o ritmo da planilha porque “estava se sentindo bem”
    • Você larga uma prova acima do planejado porque “o grupo puxou”

    O ego raramente grita; ele sussurra:

    “Você pode mais”
    “Não fica para trás”
    “Mostra que você está forte”

    E assim… o método começa a se dissolver.

    Infográfico comparativo entre correr com método (objetivo fisiológico, ciclos e propósitos) versus correr com ego (acelerar regenerativos, disputar treinos e ignorar planilhas).

    Treino não é palco

    Tem uma frase aplicável nesse contexto: “Treino não é palco”, porque se o corredor precisa ganhar o treino, então perdeu o processo, já que o treino existe para provocar adaptação fisiológica, não para validar identidade.

    Quando o treino vira validação, a carga externa pode até parecer correta — mas a carga interna já saiu do controle e isso é invisível no momento.

    Mas aparece depois:

    • Fadiga acumulada
    • Oscilação de performance
    • Dificuldade de recuperação
    • Mais dores, em número e grau
    • Lesões recorrentes
    • Sensação constante de “não encaixar”

    O que acontece Fisiologicamente quando o ego assume

    Quando você altera o ritmo de forma impulsiva, você altera:

    Zona metabólica predominante

    Cada intensidade ativa uma predominância metabólica diferente. Quando você acelera além do planejado, sai de uma zona majoritariamente aeróbia e começa a aumentar a participação glicolítica.

    Isso eleva a produção de lactato e a dependência de glicogênio muscular, então, o que era para ser um estímulo de base passa a gerar estresse metabólico elevado, a recuperação deixa de ser simples e passa a exigir mais tempo e reorganização interna, e o que era construção controlada vira desgaste desnecessário.

    Recrutamento de fibras

    Em ritmos controlados, predominam fibras do tipo I, mais resistentes e econômicas. Quando você acelera impulsivamente, começa a recrutar mais fibras do tipo II; essas fibras são mais potentes, mas fatigam mais rápido.

    Isso aumenta o custo neuromuscular da sessão, e além disso, altera o padrão de adaptação esperado para aquele treino; você treinou potência no dia em que deveria treinar eficiência.

    Demanda neural

    Aumentar o ritmo não é apenas questão muscular — é neural. O sistema nervoso central passa a coordenar maior frequência de disparo motor; isso eleva a exigência de sincronização e controle fino do movimento.

    O esforço deixa de ser predominantemente metabólico, passa a ter forte componente neural e o sistema nervoso demora mais para se recuperar do que a musculatura, por isso, às vezes, o corpo parece pronto, mas o desempenho não responde.

    Resposta hormonal

    Mudanças bruscas de intensidade elevam marcadores de estresse, como cortisol e catecolaminas. Em doses adequadas, isso é positivo e adaptativo, mas quando ocorre fora do contexto planejado, gera sobrecarga desnecessária.

    O equilíbrio entre estímulo e recuperação hormonal fica prejudicado; isso pode impactar sono, recuperação e sensação subjetiva de energia, e o ciclo começa a perder harmonia.

    Perceba que você muda completamente o tipo de estímulo e isso desorganiza o ciclo esforço–recuperação. O problema aqui não é correr forte; o problema é correr forte no dia errado.

    Método organiza a adaptação. Ego cria ruído na adaptação, e performance precisa de sinal claro, não de ruído.

    Infográfico 'QUANDO O EGO ASSUME', mudanças fisiológicas negativas na corrida: 1. Zona metabólica predominante da aeróbia para a glicolítica. 2. Recrutamento de fibras musculares começando a recrutar mais fibras do tipo II. 3. Demanda neural com maior frequência de disparo motor. 4. Resposta hormonal com elevação de marcadores de estresse.

    Treinar em grupo: quando o longo vira competição

    Eu já vivi isso tanto em treinos quanto em provas. Teve uma fase da minha carreira em que participava de um camping anual de treinos, e ali, quase sempre conseguíamos reunir um grupo de atletas da mesma modalidade, cada um com sua planilha de treinos, mas compartilhando parte das sessões.

    Alguns treinos da semana eram feitos juntos, principalmente regenerativos e, quase sempre, os longos, e foi justamente nos longos que um padrão começou a se repetir.

    Faltando alguns quilômetros para terminar, alguém acelerava; às vezes era outro atleta, algumas vezes era eu. O ritmo começava a subir progressivamente, e quando percebíamos, aquele longo terminava como se fosse uma prova.

    👉 Nem todo treino precisa virar intensidade; veja isso no vídeo:
    📺 Não São os Tiros: O Treino Mais Importante da Corrida é Outro

    Na semana seguinte, a mesma coisa, e isso começa a ficar normal. Ninguém comenta, os treinadores nem sempre ficam sabendo, e parece algo natural do grupo.

    O momento em que o método se perde

    Mas o que estava acontecendo ali? O treino longo, que tinha uma função específica dentro do ciclo, muitas vezes aeróbia, controlada, acumulativa, estava virando estímulo competitivo.

    A carga interna já não era mais a planejada, e depois de algumas semanas assim, comecei a perceber o efeito colateral:

    • A recuperação ficava mais lenta
    • A sensação de controle diminuía
    • Os treinos seguintes da semana não encaixavam tão bem

    👉 O que acontece entre os treinos também conta; veja no artigo:
    📝 Os Pilares Invisíveis que Sustentam seu Progresso na Corrida

    E aí vem a parte difícil: assumir que aquilo não era estratégia; era ego. Era a necessidade de não chegar depois, de não “ceder” no final, de mostrar força, então ao perceber que aquilo estava afetando o restante da semana, e por consequência, o planejamento inteiro, e foi quando tomei uma decisão consciente.

    Voltei meu foco imediato para a preparação e deixei o foco distante para as competições. Passei a controlar o final dos treinos mantendo meu ritmo ideal, mesmo que isso significasse chegar depois.

    E sabe o que aconteceu?

    O processo voltou a encaixar.
    Os treinos começaram a responder melhor.
    A recuperação melhorou.
    As competições passaram a refletir essa organização.

    E assim, entendi algo que levo até hoje: chegar primeiro no treino pode alimentar o ego, mas chegar inteiro na prova alimenta a performance.

    Na Prova: onde o ego aparece com mais força

    Agora vamos para a prova — onde o ego fica mais sofisticado… e mais perigoso; ele aparece já na largada, e se existe um ritmo planejado para o percurso, ele é um, mas o ritmo do grupo é outro.

    E aí surge a pergunta: você tem, e está executando estratégia, ou reagindo ao ambiente? Porque prova não é lugar de provar valor acima de tudo; é lugar de executar estratégia, e quem larga acima do planejado normalmente paga no final, e muitas vezes não é falta de preparo, mas erro de decisão.

    Estratégia exige maturidade para ser executada

    Ali na prova, da mesma forma que nos treinos, nenhuma estratégia funciona se você não tiver maturidade para executá-la, porque a prova certamente não vai refletir uma planilha perfeita sem a presença da disciplina emocional.

    👉 Assista ao vídeo sobre estratégia de prova:
    📺 Por que Você Quebra na Prova? A Estratégia que está Faltando 

    Se isso puder ajudar – eu sempre ensino aos meus alunos algo que aprendi desde muito cedo na minha carreira de atleta: respeitar o nível de condicionamento que tinha em cada competição, e esse nível geralmente varia bastante, dentro, e entre temporadas.

    👉 Nem todo corredor está pronto para executar o que acha que está, e acaba errando:
    📝 Manias de quem tem treinador, mas vive mudando o treino

    Nem toda prova era para recorde pessoal, nem toda fase era de performance máxima, mas em quase todas consegui extrair o melhor possível dentro daquele momento fisiológico – porque eu executava o que estava planejado.

    Nas raras vezes em que errei perdi segundos importantes, porque no alto rendimento, segundos fazem diferença (para o amador, isso pode representar minutos), mas, hoje sabendo que esses erros estavam ligados à leitura de prova, não à necessidade de provar algo, menos mal.

    E essa diferença é fundamental: quando o erro vem da estratégia, ele ensina; quando vem do ego, ele se repete.

    Ego não é maldade; é insegurança

    Na maioria das vezes o ego não é arrogância; é medo.

    • Medo de parecer fraco
    • Medo de ficar para trás
    • Medo de não evoluir
    • Medo de acharem que você “não está bem”

    Mas maturidade esportiva é saber que performance não se constrói na comparação, se constrói na consistência, e quem disputa treino normalmente compromete prova; quem executa método, normalmente surpreende na prova.

    O papel do treinador

    Como já disse em outras ocasiões, por aqui e também para os meus alunos, o treinador não existe para acelerar você; ele está ali para regular, para proteger você de você mesmo, porque todo atleta — inclusive o experiente — em algum momento vai querer provar algo.

    E é aí que ele precisa ser convencido de que o método precisa prevalecer sobre o impulso.

    Agora deixo uma reflexão simples: quando você treina ou compete, pergunte:

    Essa decisão está alinhada com meu método… ou está alimentando meu ego? E pode ser que só isso já te ajude a ir melhorando suas atitudes pelos treinos e provas, porque o ego constrói momentos, enquanto o método constrói carreira.

    E se você quer correr melhor — e por mais tempo — precisa decidir quem está guiando sua corrida.

  • Ambição na Corrida: Quando Ela Ajuda — E Quando Pode Atrapalhar

    Ambição na Corrida: Quando Ela Ajuda — E Quando Pode Atrapalhar

    A ambição é uma coisa muito boa; ela move pessoas, cria metas, e aqui no nosso caso, tira o corredor do sofá e o coloca na rua, já sem ambição, ninguém evolui.

    Mas na corrida — como em quase tudo que envolve o corpo — ambição sem medida algumas vezes vira problema.

    Vou abordar aqui, um comportamento muito comum entre corredores: a ambição exagerada; aquele desejo constante de fazer mais do que o corpo, a rotina e o histórico permitem pelo viés do excesso de vontade.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Até Onde Ir? A Linha Tênue Entre Ambição e Autossabotagem na Corrida

    Ambição não é o problema

    Para deixar isso claro logo de início: ambição não é defeito; o problema não é querer correr mais, não é querer melhorar tempo nem sonhar com uma maratona, com varias outras corridas, uma ultramaratona ou uma prova desafiadora.

    O problema começa quando o desejo passa a ignorar a biologia. A corrida responde a estímulos — mas também cobra custos, e esses custos não podem ser pagos adiantados.

    Como a Ambição Exagerada se Manifesta na Prática

    Na prática, eu vejo como a ambição exagerada se manifesta de várias formas:

    Corredores que querem:

    • Aumentar volume rápido demais
    • Correr várias maratonas no mesmo ano
    • Emendar provas sem fase de recuperação
    • Ignorar sinais claros de fadiga
    • Treinar forte em quase todos os dias — erro comum na organização da semana de treinos

    Tudo isso geralmente vem acompanhado de uma frase clássica: sem problemas, eu aguento; mas a questão não é aguentar, é o que vai sobrar depois.

    De Onde Vem Essa Pressa

    E de onde vem essa pressa? Raramente essa ambição nasce do corpo; ela nasce da cabeça e ela vem:

    • Da comparação com outros corredores
    • Do feed do Strava
    • Das redes sociais mostrando só o resultado final
    • Da ideia de que “se ele consegue, eu também consigo”

    Mas cada corpo carrega uma história diferente: idade, rotina, sono, estresse, lesões passadas, onde a ambição sem contexto vira ilusão.

    Os Sinais de Alerta

    Existem alguns sinais claros, que pude captar, de que a ambição saiu do lugar saudável:

    • Incômodo com treinos leves
    • Sensação de culpa ao descansar
    • Frustração constante com o planejamento
    • Vontade de pular etapas
    • Lesões recorrentes sem causa óbvia

    Incômodo com treinos leves

    Quando a ambição sai do lugar saudável, o treino leve começa a incomodar. O corredor olha para aquele dia mais solto e sente que está “perdendo tempo”.

    Falta paciência para respeitar o papel daquele treino dentro do ciclo e o problema não é o treino ser leve, mas o ego não aceitar que nem todo dia precisa provar alguma coisa. Quando o treino leve vira ameaça, algo já saiu do eixo.

    Sensação de culpa ao descansar

    O descanso deixa de ser visto como parte do treino e passa a ser interpretado como falha pessoal. O corredor descansa, mas não descansa de verdade — fica inquieto, se cobrando, achando que poderia estar fazendo mais.

    Essa culpa é um sinal claro de que o processo foi substituído pela ansiedade do corredor que sente culpa ao descansar, e, geralmente está treinando mais para aliviar a mente do que para evoluir o corpo.

    Frustração constante com o planejamento

    O planejamento passa a ser visto como limitador, não como guia; o corredor começa a achar o plano “conservador demais” ou “lento demais”, mesmo sem conseguir executar bem o que está proposto.

    Surge uma irritação constante com a estrutura do treino, como se ela estivesse segurando o avanço; quando o plano vira inimigo, é porque a ambição já está falando mais alto que a leitura do momento.

    Vontade de “pular etapas”

    A pressa vira argumento. O corredor quer antecipar estímulos, aumentar volume, intensificar treinos antes da hora, sempre com a justificativa de que “dá pra aguentar”, e o problema é que o corpo até aguenta por um tempo — mas não assimila.

    Pular etapas pode gerar sensação imediata de progresso, mas costuma cobrar um preço mais adiante, porque evolução que não respeita sequência, raramente se sustenta.

    Lesões recorrentes sem causa óbvia

    As lesões começam a aparecer sem um evento claro que as explique: não foi uma queda, não foi um treino específico, nem  um erro pontual; são dores que surgem do acúmulo, da insistência, da soma de pequenas decisões mal reguladas.

    Quando o corpo começa a “frear sozinho”, é sinal de que a ambição deixou de ouvir os avisos mais sutis; quando o corredor começa a lutar contra o próprio planejamento, é porque algo está errado.

    Infográfico 5 sinais de alerta da ambição excessiva na corrida: incômodo com treinos leves, culpa ao descansar, frustração com planejamento, pular etapas e lesões recorrentes.

    As Consequências não Aparecem na Hora

    O maior perigo da ambição exagerada é que ela não cobra o preço imediatamente; o corpo até responde por um tempo, e os resultados até podem aparecer, mas o custo vem depois:

    É bom ressaltar que acabamos de ver um conjunto de consequências, mas apenas uma delas pode ser o sinal para uma avaliação sobre os exageros, e mais, muitos corredores confundem isso com “falta de vontade”, quando na verdade é o excesso dela.

    Quando Mudar a Rota Não é Desistir

    E aqui entra um ponto que pouca gente entende — e que, como treinador, eu vejo o tempo todo.

    Muitas vezes, o corredor não só pode, como precisa mudar a rota durante um ciclo; não porque falhou, mas porque continuar no mesmo caminho vai gerar prejuízo certo.

    Quando os sinais aparecem — fadiga acumulada, dores persistentes, queda de qualidade técnica, irritabilidade, insônia — insistir no plano original não é disciplina, é teimosia.

    Nesses momentos, mudar a rota vira uma intervenção de redução de danos, e pode significar:

    Isso pode ate doer no ego, sobretudo com um monte planos amplamente divulgados. O corredor conta aos 04 cantos tudo o que pretende fazer, e depois, o ego fala alto e tenta manter o acelerador; mas é o pé no freio que salva o corpo.

    E é aqui que um treinador experiente vai fazer a diferença: não um que promete performance a qualquer custo, mas o que tem coragem de frear o atleta quando continuar acelera o prejuízo.

    Infográfico com estratégias para corredores: reduzir volume, tirar provas do calendário, adiar metas, trocar estímulos e redefinir o foco da temporada para evitar a desistência.

    Casos Reais: Quando a Ambição Passa do Limite

    1. Recentemente, um corredor tinha planejado, pela segunda vez, participar de uma ultramaratona aqui na região, e nós sabemos que, além das bases solidas para maratona é preciso uma preparação de meses para uma ultra.

    Na metade dessa preparação eu percebi a discrepância entre ela e a meta, e dei um alerta: Eu disse a ele, “olha só, estamos aqui num limite das coisas, mais precisamente o cumprimento do volume geral e também dos treinos longos, e se a preparação não se encaminhar para criar corpo e te dar as condições mínimas, devemos abortar essa meta.”

    A resposta: “Eu consigo!”. Depois de algumas semanas, vendo que a coisa não mudou e que ele não se manifestava, dei outro aviso: “Veja bem, agora indico que você não tente mais essa meta, redirecionamos a sua preparação e não haverá prejuízos.”

    E mesmo assim ele insistiu em manter a ultramaratona.

    Foi quando eu disse; tudo bem seu corpo suas regras, mas tem quatro detalhes que você precisa saber:

    • que teremos de ser mais agressivos com a gradação sobre o que te falta
    • que você terá mais dificuldades para cumprir a prova, e não se espante se tiver que desistir lá pelos dois terços dela
    • que você não vai conseguir a performance esperada
    • que sua recuperação também será prejudicada

    No final das contas, ele não conseguiu treinar nem mesmo o mínimo, e por sorte decidiu não correr. Organismo e corpo foram poupados de eventuais sequelas, mas a frustração ficou visível e não sabemos ate quando ela vai.

    1. 2. Há alguns anos, contraindiquei a maratona a outro aluno recém-chegado ao clube, explicando a ele dois fatores determinantes: sem um histórico favorável e sem tempo hábil de preparação, isso poderia dar muito errado.

    Expliquei também, a corrida como um processo onde tudo tem seu tempo e que esse desafio era prematuro; mas ele insistiu, e movido por um senso de autodesafio muito forte decidiu correr.

    O resultado: Ele não só não concluiu a prova, como aprendeu da pior maneira tudo aquilo que tentei explicar. Depois de ter ficado muito tempo longe da corrida, e a frustração explica isso, fiquei feliz ao vê-lo correndo recentemente.

    O Que é Uma Ambição Saudável

    Eu diria que muita ambição precisa de contenção, e que ambição boa é aquela que:

    • Respeita ciclos e quantidades
    • Entende que evolução não é linear
    • Valoriza constância mais do que picos

    Treinar menos do que você gostaria, e mais critério em participações de provas, às vezes, é exatamente o que permite você correr melhor e por mais tempo. Paciência também é uma habilidade treinável.

    Às vezes, o maior avanço é aceitar um pequeno recuo estratégico.

    O Papel do Treinador na Regulação da Ambição

    O treinador não está ali para acelerar tudo mas para regular, e muitas vezes, o melhor treino é exatamente aquele que o atleta não faria sozinho — e o mesmo vale para as provas.

    Eu mesmo tenho critérios muito bem definidos na orientação dos treinos e indicação de provas, atuando também como um mediador, sempre focado na segurança e longevidade do corredor.

    Aceitar uma contraindicação a uma prova longa cedo demais, ou abrir mão de competir várias vezes em um intervalo curto não é sinal de fragilidade, é sinal de leitura correta do momento.

    Quando o treinador freia, não é para atrasar o atleta, é para proteger o processo; aceitar contenção, ajustes e até um “não agora” faz parte da maturidade esportiva, e quem não tolera ser regulado geralmente não está pronto para sustentar a própria ambição.

    Nem todo “sim” para uma prova é um avanço; às vezes, é só precipitação com data marcada.

    Reflexão Final: Até Onde Vale Ir?

    Então fica a reflexão: Você quer correr mais este ano — ou quer continuar correndo nos próximos dez ou vinte? Ambição é combustível, mas sem freio, ela não leva longe, e na corrida, quem dura mais, pode evoluir mais.

    Se esse assunto te incomodou um pouco, talvez ele tenha cumprido o papel certo, porque quase todo corredor ambicioso já passou, ou ainda passa, por esse ponto de exagero.

    Querer evoluir não é o problema; o problema é quando o desejo de ir mais rápido ignora o tempo que o corpo e o processo precisam, e às vezes, o passo mais inteligente não é acelerar, é regular.

    Mudar a rota no meio do ciclo dói no ego, mas costuma salvar a continuidade, e correr bem não é provar algo o tempo todo, é saber sustentar o caminho.

  • O que Mais Dificulta sua Corrida não Acontece no Treino

    O que Mais Dificulta sua Corrida não Acontece no Treino

    O Problema não é o Treino

    Você já percebeu que, muitas vezes, o treino em si não é o maior problema da corrida?
    O treino começa quando você calça o tênis, tá certo…mas a dificuldade real começa muito antes disso.

    Antes de aquecer, antes de pensar em ritmo, antes de olhar o relógio —
    o corredor já enfrentou uma série de obstáculos invisíveis.

    Hoje eu quero falar justamente sobre isso: as dificuldades do dia a dia que atrapalham e podem até impedir o treino, mesmo quando a vontade de correr existe.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Por que Treinar Corrida é Muito Mais Difícil Fora do Treino

    Os Obstáculos Invisíveis do Corredor

    Quando se fala em dificuldade para treinar, normalmente o pensamento vai direto para falta de disciplina, preguiça e desorganização.

    Mas isso é uma leitura superficial, porque na prática, quase sempre os maiores obstáculos do corredor são logísticos, contextuais e mentais, e aparecem antes do treino começar.

    Vamos a alguns exemplos bem comuns:

    • Distância entre casa e local de treino
    • Pouco tempo real disponível
    • Horários ruins por conta do trabalho, família, e compromissos
    • Falta de percurso adequado
    • Insegurança em determinados locais
    • Repetição excessiva de trajetos
    • Dificuldade para encaixar treinos longos
    • Treinar sempre sozinho

    Nada disso aparece na planilha. Nada disso o relógio mede. Mas tudo isso pesa, e muito.

    Quando o Treino Depende da Logística, o Desafio Muda Completamente

    Quando eu morava em cidade grande, sentia isso na pele — e via essa realidade o tempo todo. Corredores que precisavam pegar o carro para chegar até o parque enfrentavam trânsito antes e depois do treino, tinham janelas de tempo muito curtas e, muitas vezes, desistiam.

    Não por falta de vontade, mas por exaustão logística.
    Por isso, desde então, sempre que alguém me traz esse tipo de dificuldade como motivo de desânimo, costumo contar uma história real.

    Durante um bom período, treinei diariamente no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e não era raro ver a seguinte cena: um corredor chegando do treino, abrindo o porta-malas do carro, se secando ali mesmo, trocando de roupa — colocando inclusive a gravata — para sair direto para o trabalho.

    Agora compara isso com outra realidade: aquele corredor que desce do prédio cruza a rua, e já está em um percurso extenso, seguro e agradável para treinar; são contextos completamente diferentes.

    Essas duas realidades não são comparáveis — e tentar tratá-las como iguais gera frustração, porque, no fim das contas, o problema não está no corredor, o problema está em tentar encaixar um treino ideal em uma vida real que não comporta esse modelo.

    Falta de Tempo não é Desculpa – é contexto

    Pouca gente realmente não tem tempo, mas muita gente não tem tempo ideal, o tempo contínuo, previsível e tranquilo, porque treinar corrida exige deslocamento, preparação, execução, retorno e recuperação.

    Às vezes, a pessoa até tem uma hora disponível, só que esse tempo vem espremido entre compromissos, com a cabeça cheia, com pressa para voltar e isso desgasta mentalmente.

    E aqui entra um ponto importante: Treino não é só físico; é também cognitivo, ecorrer cansado mentalmente também pesa.

    A Solidão do Treino – e seus efeitos

    Treinar sozinho não é um problema em si, aliás, conheço vários que o preferem assim, mas sabemos que no dia a dia, para a maioria, a solidão pode pesar quando o dia já foi difícil, o clima está ruim, o treino é longo, a motivação está baixa.

    Ter companhia não é só sobre conversa; é sobre compartilhar o esforço, dividir o custo mental, por isso, muitos corredores treinam melhor em grupo e assim sustentam melhor a constância, sofrem menos abandono, e não reconhecer isso é ignorar um fator humano essencial.

    A Falta de Variedade de Percursos

    Desde sempre isso fez muita diferença, porque sim, correr sempre no mesmo lugar pode cansar mentalmente, reduzir estímulos sensoriais, tornar os longos mais pesados e aumentar a percepção de esforço.

    Mesmo percursos bons, quando repetidos demais, perdem o frescor e aquela paisagem agradável começa a passar despercebida. Onde oriento presencialmente os treinos, temos algumas opções de parques e percursos pela cidade, que deixam o processo menos penoso para os alunos, e por conta de um relativo conforto desse aspecto nos treinos, vários deles reclamam das provas em que precisam fazer duas voltas de 4 ou 5 km.

    No inicio da minha carreira na prova da marcha atlética, uma prova também de fundo, que nem a corrida. Era numa cidade grande, parte da grande São Paulo, mas quase sem parques e opções de estradas para os treinos, então, no meio da semana, treinávamos no clube o qual representávamos, em volta do campo de futebol, que media 292 metros.

    Fotografia capturando o treinador Claudio Bertolino em sua rotina de treino no início da carreira esportiva, de forma dedicada e focada em um pequeno percurso de pedrisco que contornava um campo de futebol.

    Quando o propósito sempre foi bem maior do que o percurso.

    Era o que tínhamos; ficar rodando por um circuito pequeno com quatro curvas fechadas, por voltas e voltas até cumprir os treinos que pareciam bem mais demorados do que eram, que nem a sensação de se correr na esteira.

    Não havia reclamações sobre percurso pequeno, já que a iniciação e adaptação era ali, naquela estrutura limitada, e não tinha o que fazer tão pouco pensávamos nessa questão e além disso, nossa referência era o treinador, um admirável atleta campeão, então já veterano e que também treinava ali, e não raramente, treinava dentro do quintal dele, em volta da casa.

    Eu diria que o ambiente pode limitar a prática, mas rodando ali naqueles 292 metros, de maneira pragmática consegui muitos títulos e recordes, do nível estadual ao nacional, da categoria pré-juvenil a adulta, então diria também que isso depende muito mais do praticante do que do ambiente.

    O Problema Não é Falta de Motivação — é referência distorcida

    Veja como esse negócio de referência é relativo. Há um tempo, fui orientar um treino de força no condomínio de um aluno que estava com dificuldade para manter a regularidade nos treinos de corrida.

    A academia ficava de frente para um lago, com um percurso de aproximadamente 700 metros em pedrisco ao redor; um espaço bonito, tranquilo, seguro e praticamente dentro da casa dele.

    Fiz questão de conhecer aquele percurso de perto e logo perguntei: “Por que você não treina por aqui? Mesmo que seja uma ou duas vezes na semana, especialmente nos treinos mais curtos que eu te passo?”

    A resposta veio rápida: “Ah, mas esse percurso é muito pequeno”
    E é aqui que entra um ponto importante. De verdade, nem todo mundo tem acesso a parques extensos, trilhas ou circuitos variados.

    Imagem realista de um corredor vestindo camiseta amarela do Clube da Corrida Bertolino, com expressão pensativa e a mão no queixo. Ele está parado em frente a um pequeno lago circular com uma pista de pedrisco ao redor, em um parque ao entardecer.

    Você já se sentiu limitado pelo local onde treina? Às vezes, a solução está em adaptar a planilha ao que temos disponível.

    Isso pode, sim, dificultar a prática da corrida em alguns casos, mas será que isso deveria ser motivo para desânimo? Porque, muitas vezes, o que está por trás não é falta de opção, mas comparação com um padrão idealizado.

    E é exatamente aqui que aparece um erro muito comum: o corredor, sem perceber, acha que o problema é a falta de motivação, quando na verdade o que ele está sentindo é saturação.

    Saturação de sempre buscar o cenário ideal, de não aceitar o que está disponível, de tentar treinar dentro de um padrão que não cabe na própria rotina.

    Se o seu treino não cabe na sua rotina, talvez o problema não seja disciplina, mas estrutura.

    👉 Veja como organizar melhor sua semana de treinos no artigo:
    📝Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    👉 E conheça a Planilha Customizável de Treinos de Corrida
    📊 https://planilhacust.clubedacorrida.esp.br/

    Um Erro Comum: Copiar Rotinas que não Cabem na Sua Vida

    Esse é um ponto crítico, o corredor vê um atleta profissional, um influencer ou um amigo com rotina diferente, e tenta copiar os horários, volumes, frequências e formatos. Já vi isso acontecer algumas vezes – e os corredores que agiam assim? Não correm mais…

    Como esperado, o resultado disso será uma frustração, então não tente replicar rotinas dos outros, difíceis ou impossíveis para você; crie a sua com o que você tem, da melhor maneira que puder.

    O melhor treino do mundo é inútil se ele não cabe na sua vida

    E nunca se esqueça; treinar corrida não é sobre o treino ideal, é sobre o treino sustentável, então como minimizar os obstáculos? Aqui não tem fórmula mágica, tem inteligência prática e vou te dar alguns exemplos:

    Ajustar o local ao treino, não o contrário

    Em vez de tentar encaixar o treino ideal em um local distante ou complicado, adapte o treino ao espaço que você tem disponível. Um percurso curto, repetido com inteligência, pode gerar ótimos estímulos, já que, o erro está em sacrificar constância por cenários perfeitos, e o treino que acontece vale mais do que o treino idealizado.

    Aceitar trajetos mais curtos e compensar com estrutura

    Percursos menores não são sinônimos de treino ruim.

    👉 O que faz diferença não é o tamanho do percurso…
    👉 é a forma como o treino é estruturado.

    Você pode compensar um trajeto curto com alguns ajustes simples:

    Hidratação planejada

    Ter água por perto facilita a reposição durante o treino.
    Isso permite sessões mais longas e controladas, mesmo em circuitos curtos.

    Controle por tempo (e não por distância)

    Em vez de pensar em quilômetros, pense em minutos de corrida.
    Isso tira a limitação do percurso e amplia as possibilidades.

    Uso inteligente de voltas

    Repetir o mesmo circuito não é problema — é ferramenta.
    Permite controle preciso de ritmo, volume e intensidade.

    Estrutura de treino bem definida

    Treinos intervalados, progressivos ou contínuos podem ser feitos perfeitamente em percursos curtos.
    O estímulo vem da estrutura, não do cenário.

    Foco no objetivo do treino

    Cada sessão tem um propósito: ritmo, volume, recuperação…
    Quando isso está claro, o percurso vira secundário.

    Mas aqui entra uma pergunta ainda mais importante: afinal, para que mesmo você treina? Se você nunca parou pra responder isso com clareza, pode estar treinando sem direção.

    👉 Aprofundei exatamente esse ponto neste vídeo:
    🎥 Afinal, Pra Que Mesmo Você Treina?

    Lá eu explico como o seu objetivo define todo o resto do seu treino — e por que ignorar isso trava sua evolução.

    Regularidade acima da variedade

    Treinar sempre no mesmo lugar pode, inclusive, ajudar na consistência.
    Menos logística → mais execução.

    Ajuste mental (aceitação do contexto)

    Parar de buscar o “percurso ideal” e começar a usar o que está disponível.
    Isso reduz frustração e aumenta a aderência ao treino.

    Um bom treino nasce da organização da estrutura geral, não do tamanho do percurso, quando a estrutura vence a extensão.

    Usar treinos híbridos quando necessário

    Quando o contexto aperta, misturar corrida com outras modalidades pode ser uma solução inteligente, não uma concessão.

    • pequenos trechos de bike
    • caminhada rápida ou inclinada
    • força funcional

    Esses estímulos mantêm o condicionamento com menor impacto logístico; o treino híbrido pode preservar continuidade quando a rotina não colabora.

    Reorganizar expectativas por fase da vida

    A capacidade de treinar muda conforme o trabalho, família, saúde e momento emocional. Insistir em metas antigas pode gerar frustração e abandono; ajustar expectativas não é retroceder — é manter o processo vivo, porque o corredor que respeita fases, dura mais, evolui melhor e se machuca menos.

    Infográfico com o título "Não é sobre o treino ideal, é sobre o treino sustentável". Apresenta 5 pilares: adaptar o local ao treino, aceitar trajetos curtos, variar estímulos no mesmo percurso, usar treinos híbridos e ajustar expectativas conforme a fase da vida.

    Variar estímulos dentro do mesmo percurso

    Mesmo em trajetos repetidos, é possível criar diversidade; isso reduz o cansaço mental e melhora a resposta neuromuscular. O corpo se adapta melhor quando o estímulo muda, mesmo no mesmo cenário.

    Experimente:

    • variação de ritmo
    • controle de recuperação
    • uso consciente de intensidade
    • blocos progressivos
    • modificar sentidos
    • focar em técnica

    Quase sempre, manter 70% do plano é melhor do que abandonar 100%

    Constância não é Perfeição

    Quem evolui na corrida não é quem treina sempre no lugar ideal, tem sempre tempo sobrando, nunca falha; quem evolui é quem:

    • negocia bem com a realidade
    • ajusta sem abandonar
    • aceita fases
    • entende limites temporários

    Isso é maturidade esportiva.

    Conclusão – Treinar Corrida é Treinar Adaptação

    Treinar corrida é muito mais do que correr bem; é aprender a lidar com a vida, negociar com o tempo, respeitar o contexto e ajustar expectativas. A adaptação não é só fisiológica, ela é logística, mental e emocional.

    Se você sente dificuldade para treinar, saiba:
    👉 Você não está sozinho
    👉 Você não é fraco
    👉 Você está lidando com a vida real

    Espero que agora você possa encarar melhor os maioresobstáculos entre você e o treino.

  • Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar   

    Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar   

    Se você é um corredor regular, provavelmente tem uma planilha, é possível que tenha um relógio GPS e esteja conectado ao Strava; mas eu te pergunto:- você tem a sua Agenda de Treino?

    Muitos corredores coletam dados, a Carga Externa do treino, mas poucos processam o feedback do corpo, a Carga Interna do treino. Seus treinos estão arquivados, mas o contexto está perdido; o resultado? Repetição de eventuais erros, estagnação e ate mesmo lesões.

    Por isso é que vou falar aqui sobre o diário de treino, e que ele não é automático nem mesmo complicado, mas é a ferramenta de inteligência que transforma dados brutos em decisões que salvam a evolução e protegem o corpo.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Diário de Treinos: O ‘Upgrade’ Que Seu Strava Não Vai Te Contar      

    Vou mostrar porque é que eu o indico, o que se deve registrar e como isso por vezes salvou a preparação de vários atletas que conheci.

    Tem duas coisas que aprendi logo cedo com meu primeiro treinador:

    • O arquivamento das matérias de jornal das minhas participações e conquistas como atleta
    • Um diário de anotações para cada temporada de treinos

    Com algum tempo percebi a importância da pasta dos recortes, que conta toda uma trajetória (um paralelo das fotos nas corridas atualmente) e do diário, como poderosa ferramenta de realinhamentos.

    O Diário: Onde a Carga Interna se Encontra com a Planilha

    Recapitulando, como descrito no artigo Carga Interna x Carga Externa, cada estímulo da planilha de treinos é aplicado sob o conceito da Carga Externa; o treino que o treinador pede.

    Já a Carga Interna é como o corpo responde ao pedido, ou, ao treino executado; o que o diário pode registrar.

    👉 Se preferir, em vez do artigo, assista ao vídeo:
    📺 Carga Interna x Carga Externa

    O Diário Como Ferramenta de Feedback Real

    Planilha e relógio mostram o que você executa, enquanto o diário mostra o que você vive durante o treino.

    Ele é o único espaço onde treinador e atleta acessam o mundo interno da corrida.
    Sem ele, qualquer ajuste de carga fica baseado em chute — ou só nos números frios do GPS; com ele, você evita erros de progressão, identifica alertas precoces e acelera evolução – é literalmente o upgrade mental que não tem em nenhum aplicativo.

    Como atleta antes mesmo da categoria juvenil e ate hoje competindo na categoria máster, sempre tive os diários anuais que são um verdadeiro tesouro. Quando algo sai dos trilhos na preparação, volto, e entre poucas semanas e às vezes alguns meses, variavelmente encontro o padrão que me mostra o erro.

    Mesmo como treinador não perdi esse habito. Todo aluno meu tem sua planilha de treinos e desde o inicio, mantenho um arquivo individual dos seus treinos, semana a semana, aquelas que elaborei e enviei a eles.

    Foto do treinador Claudio Bertolino em seu escritório, focado no notebook enquanto elabora planilhas de treino personalizadas para alunos do Clube da Corrida Bertolino. Ao fundo, medalhas e banners do clube reforçam a autoridade profissional.

    Além disso, anoto as intercorrências que julgo mais importantes já sabendo que serão as respostas as eventuais questões futuras. Funciona assim: quando preciso de alguma informação especifica ou desvendar algo desalinhado no processo, recorro aos dados que coloquei ali como observação.

    É como fazer um seguro de algo; encaro que estou fazendo ali um investimento sem saber se vou usar depois, mas se precisar terei informações para me ajudar a resolver os problemas do aluno, que indiretamente, são meus problemas também.

    Exemplos Práticos

    1. Uma aluna reclamou de dores nas canelas. Logo fui às anotações na planilha dela, e ao mesmo tempo fiz uma analise de algumas semanas anteriores às dores, assim como implementei as medidas para sanar o problema antes do agravamento, já que, mais importante do que as anotações é o que fazer com elas.
    2. Certa aluna reclamou que, em determinada fase dos treinos esperava ter eliminado alguns quilos de peso. Nesse caso, eu já tinha uma resposta pronta, mas fiz questão de consultar as anotações na planilha dela, que provaram que ela não perfazia, por varias semanas, o mínimo de frequência necessária de treinos semanais, e mais, pouco fazia os melhores treinos para mexer com o metabolismo das gorduras.

    Assim que mostrei os dados das minhas anotações, ela facilmente entendeu onde estava a dificuldade, e perceba que, ela mesma não enxergava o obvio e não era por ignorar aquilo; mas porque não tinha o controle que um simples diário pode nos fornecer.

    Os Pilares de Anotação

    Aqui estão Os Pilares de Anotação — os 04 blocos indispensáveis que tornam um Diário de Treino realmente útil para evolução, prevenção de lesões e ajustes inteligentes de carga; eles são simples, rápidos de preencher e poderosos de interpretar.

    Sensação Subjetiva de Esforço (PSE/RPE)

    O mais importante de todos, é a nota de 0 a 10 que traduz o quanto o treino pesou para você naquele dia — independentemente dos números do relógio. Inclui:

    • “Foi leve, confortável ou sofrido?”
    • “Dei mais do que deveria?”
    • “Meu corpo estava responsivo ou pesado?”
    • “Tinha Capacidade de sustentar o esforço?”

    O diário é o único lugar onde você registra aquilo que nenhum relógio detecta: a percepção real de dificuldade do treino. Dois treinos com o mesmo pace podem ter sensações completamente diferentes.

    Este pilar revela fadiga oculta, alerta risco de overreaching, que pode levar ao overtraining.

    Qualidade do Movimento (técnica)

    Como o movimento se comportou hoje? Esse pilar revela sinais precoces de compensação e sobrecarga. Inclui:

    Esses parâmetros ajudam a identificar padrões antes da dor virar lesão; é a diferença entre corrigir a postura cedo, ou parar por 3 semanas depois. Sem esse registro, qualquer ajuste técnico vira tentativa e erro, porque o relógio diz quanto você correu, mas não diz como você se moveu.

    Intercorrências do Dia (o que o relógio não vê)

    É o “contexto humano” confirmando que treino não acontece no vácuo, mas, dentro da sua vida. Esse pilar explica por que você correu bem ou mal — e o Strava nunca mostraria. Inclui:

    • Horas e qualidade do sono
    • Stress do trabalho e problemas do dia
    • Refeições ruins ou atrasadas
    • Dor de cabeça / cansaço ao acordar
    • Clima emocional do dia

    Tudo isso muda a resposta do corpo e o diário registra essas pequenas variáveis que explicam por que o treino não rendeu.

    👉 Veja os detalhes desse pilar no vídeo:
    📺 Por que Treinar Corrida é Muito Mais Difícil Fora do Treino 

    Notas Estratégicas para o Próximo Treino

    É o pilar do feedback ativo, que fecha o ciclo. Inclui:

    • O que aprendi hoje?
    • O que ajustar amanhã?
    • Preciso correr mais leve?
    • A postura precisa de atenção?
    • Melhor aquecer mais?
    • Estou pronto para subir carga?

    Aqui o corredor vira protagonista — não só executor da planilha.

    Infográfico explicativo sobre o que anotar no diário de treinos, destacando os quatro pilares: sensação subjetiva de esforço, qualidade do movimento, intercorrências do dia e notas estratégicas para o próximo treino.

    Esses pilares são o detalhamento dos pontos importantes nas anotações, e claro, você não vai precisar anotar em todo treino, e cada um desses detalhes, e com o tempo  aprenderá a filtrar.

    Você perceberá padrões e aprenderá a prever seus dias bons e ruins, e sem isso, entra a possibilidade de achar que está regredindo, quando na verdade só estará drenado.

    Transformando Dados em Decisão (o poder do padrão)

    A “Pesquisa” do Corredor

    Seu diário, com o tempo, se torna seu próprio banco de dados e você começa a notar os padrões; quer ver dois exemplos?

    Padrão de Lesão

    “Toda vez que eu faço mais de x km na semana e durmo menos de 7 horas, a lesão volta”. Eu mesmo tinha um padrão desse tipo: quando fazia mais de 100 km na semana, a periostite tibial (fortes dores nas canelas) me atacava, então, com esse padrão identificado sempre estava preparado para essa condição.

    Padrão de Sucesso

    “Meus melhores treinos de ritmo sempre vieram depois de um dia de descanso ativo”. A sequência de várias semanas assim, certamente vai construindo um praticante muito forte para correr.

    O Trabalho do Treinador

    É isso que eu faço com meus alunos do Clube da Corrida. A planilha individualizada que elaboro e eles seguem é o mapa, mas as minhas anotações, o GPS que me diz se devemos manter, fazer um desvio ou acelerar.

    “Se você só me manda o Strava, você me dá uma foto. Se você me manda os dados imensuráveis, você me dá um filme”.

    Quer ver as bases para uma planilha de treinos equilibrada?

    👉 Veja como isso funciona, no artigo:
    📝 Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    O Resumo Para a Evolução: O diário permite a Reprogramação de Ritmos baseada em realidade e não apenas em expectativa.

    👉 Quer saber sobre a reprogramação de ritmos?
    📺 Assista ao vídeo Reprogramação de Ritmos: O Caminho Para Evoluir na Corrida  

    O diário não é burocracia, ele pode ser simples, direto e rápido, é inteligência de treino e indica que você está Cuidando Bem da Sua Corrida.

    Vamos à Ação Imediata! Pegue um caderno simples, crie uma nota no seu celular, ou faça um sistema igual ao que vou te mostrar logo abaixo, ou no vídeo sobre esse assunto. Comece hoje a anotar os Pilares que discutimos. Não precisa começar pela perfeição, mas pela consistência.

    Agora vou te dar um template para as anotações, igual ao que faço para mim, para os meus alunos, para as planilhas que elaborei para o curso Fitwalk | A Caminhada Turbinada e para o meu produto digital Planilha Customizável de Treino de Corrida.    

    Veja no exemplo abaixo, a praticidade de um diário dentro de uma planilha de treinos em arquivo word: entre 2 semanas de treinos, coloco um espaço para as anotações a serem feitas embaixo de cada treino (seta superior), ou apenas abaixo do treino que necessita de alguma observação. Na ausência de intercorrências, não é preciso a linha auxiliar (seta inferior).

    Diário de anotações na planilha de treinos de corrida.

    Detalhe! Quanto mais o plano de treinos for ajustado e com menos invencionices você treina; e quanto mais você trata bem sua corrida, menos anotações serão necessárias no seu diário. 

    Agora pensa e escreve aqui nos comentários: você se lembra de alguma situação em que um diário de treinos teria ajudado a resolver? E não se esqueça:-“O diário é uma forte ponte entre o seu esforço e a sua evolução.”

  • Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida? 5 Sinais de que você pode estar sabotando seus resultados

    Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida? 5 Sinais de que você pode estar sabotando seus resultados

    Você já parou pra pensar… se está tratando bem a sua corrida?

    Não estou falando de performance, pace ou distância.
    Estou falando de cuidado mesmo.

    Porque, assim como a gente cuida do que é mais precioso — uma amizade, um relacionamento ou até mesmo de bens materiais como um carro — a corrida também precisa de atenção para continuar nos dando tudo o que tem de melhor.

    E acredite: ela dá muito. Mas… será que você está retribuindo?

    👉 Se preferir, voce poderá ver esse tema em vídeo:
    📺 Será que Você Está Cuidando Bem da Sua Corrida?    

    A Corrida Está a Seu Serviço — Mas Você Está Cuidando Dela?

    A corrida:

    • Melhora sua saúde
    • Fortalece músculos e ossos
    • Protege seu coração
    • Regula seu humor
    • Ajuda no controle do peso

    A lista é enorme — e isso não é por acaso. A corrida impacta praticamente todas as esferas da vida do corredor, indo muito além do físico. Ela melhora a saúde cardiovascular, fortalece o corpo e aumenta a resistência, mas também atua diretamente na mente, ajudando a reduzir o estresse, a ansiedade e a clarear os pensamentos.

    No campo emocional, a corrida constrói autoconfiança, disciplina e resiliência, qualidades que transbordam para o trabalho, relacionamentos e decisões do dia a dia. Além disso, influencia até a qualidade do sono, a produtividade e o humor, criando um ciclo positivo difícil de ignorar.

    Quando bem cuidada, a corrida deixa de ser apenas uma atividade física e se torna uma ferramenta de equilíbrio e evolução pessoal. Por isso, negligenciar esse cuidado não afeta só o treino — afeta tudo o que ele sustenta.

    Mas, assim como um amigo que sempre te apoia, se você só aparece quando “sobra tempo” — e ainda em condições ruins — cedo ou tarde essa relação cobra um preço.

    Hoje você vai entender:

    • Como muitos corredores sabotam seus próprios resultados sem perceber
    • Quais sinais indicam que você está tratando mal sua corrida
    • E o que fazer para mudar isso

    Correr no “Tempo Que Sobra” Está Sabotando Seus Resultados

    Você já disse ou ouviu alguém falar: “Eu corro no tempo que sobra”. Muito embora isso pareça ser positivo, o que realmente significa esse “tempo que sobra”?

    Na prática, muitas vezes é o período do dia após aquele que foi desperdiçado com coisas pouco relevantes, como rolar o celular sem objetivo, assistir algo sem interesse real ou procrastinar tarefas.

    Mulher relaxada mexendo no celular, ilustrando procrastinação e tempo perdido que atrapalha o treino de corrida

    E o curioso é que, depois disso, o tempo falta justamente para o que importa.

    O Problema de Deixar o Treino por Último

    Quando isso acontece, o treino deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser apenas um encaixe de última hora na rotina. Ele surge como uma obrigação feita no automático, sem presença e sem intenção.

    A energia já foi consumida ao longo do dia, e o corpo responde com menor disposição e qualidade de movimento. O que deveria ser um momento de evolução vira apenas mais um esforço para “cumprir tabela”.

    Sem prioridade, o treino perde força dentro da rotina e começa a competir com qualquer outro compromisso. Aos poucos, isso enfraquece a consistência e compromete os resultados. E, no longo prazo, a corrida deixa de ocupar o espaço que deveria na sua vida.

    E assim, o treino vira:

    • Um encaixe de última hora
    • Um esforço sem energia
    • Um compromisso sem prioridade

    Ou seja: o pior momento do dia.

    Você já chega para treinar cansado, com a energia física praticamente esgotada depois de um dia cheio. A mente também não ajuda — está saturada, carregada de decisões, preocupações e estímulos acumulados. O foco diminui, e até tarefas simples parecem exigir mais esforço do que deveriam.

    Além disso, os compromissos ainda pendentes ficam martelando na cabeça, tirando sua presença no treino. Isso faz com que a corrida deixe de ser um momento de conexão e passe a ser apenas mais uma obrigação. E, nessas condições, o treino dificilmente atinge o potencial que poderia.

    Mulher pensativa olhando para um grande relógio, representando falta de tempo para treinar corrida

    É como tentar plantar uma horta no terreno que sobrou depois de ocupar os melhores espaços. Funciona? Até funciona, mas longe do ideal.

    Quando o Treino Acontece nas Piores Condições

    Treinar no “resto do dia” geralmente significa treinar em condições desfavoráveis.

    1. Cansaço acumulado

    • Energia física e mental já esgotadas
      O corpo chega ao treino sem reservas, com a musculatura já desgastada pelas atividades do dia. A mente, cansada, reduz sua capacidade de foco e de sustentar o esforço.
    • Movimentos mais pesados
      A passada perde leveza e eficiência, exigindo mais esforço para manter o ritmo. O gesto técnico se deteriora, aumentando o gasto energético.
    • Queda na motivação
      O cérebro tende a evitar esforço quando percebe o cansaço acumulado. O treino vira algo que você precisa “se arrastar” para fazer, e não algo que te puxa.
    • Rendimento abaixo do potencial
      Mesmo completando o treino, você entrega menos do que poderia em condições melhores. Isso compromete a qualidade do estímulo e, consequentemente, a evolução.

    Com o tempo, isso gera frustração + sensação de estagnação.

    2. Alimentação inadequada

    • Longos períodos sem comer
      Ficar muitas horas sem se alimentar reduz a disponibilidade imediata de energia para o treino. O corpo entra em modo de economia, dificultando sustentar o esforço.
    • Baixa disponibilidade de energia
      Sem combustível suficiente, o organismo não consegue manter intensidade e estabilidade ao longo da sessão. Isso limita tanto o desempenho quanto a qualidade do estímulo.
    • Maior fadiga durante o treino
      O cansaço aparece mais cedo e de forma mais intensa, mesmo em treinos leves. A percepção de esforço aumenta, tornando cada minuto mais difícil.
    • Menor prazer na atividade
      A experiência deixa de ser agradável e passa a ser desconfortável. Com o tempo, isso reduz a vontade de treinar e afeta a consistência.

    Resultado: Treinos que você não tem vontade de repetir.

    3. Sono insuficiente

    Dormir mal impacta diretamente:

    • Força
    • Velocidade
    • Recuperação
    • Sistema imunológico

    O efeito prático: você faz mais esforço para ter menos resultado.

    4. A “tempestade perfeita”

    Agora imagine tudo isso acontecendo ao mesmo tempo: cansaço acumulado, fome e noites mal dormidas. O corpo simplesmente não tem de onde tirar energia para sustentar o treino. O rendimento despenca, e aquilo que antes era controlável passa a parecer muito mais difícil.

    A percepção de esforço dispara, fazendo com que ritmos leves pareçam intensos demais. Cada minuto exige mais do que deveria, tanto física quanto mentalmente. Ao final, a sensação não é de satisfação, mas de exaustão extrema. E é exatamente aqui que mora o problema. O que deveria te dar energia e equilíbrio começa, pouco a pouco, a te desgastar.

    Corredora curvada com mãos nos joelhos demonstrando cansaço após treino de corrida

    Quando o Treino Deixa de Ser Estímulo e Vira Agressão

    Repetir esse padrão não sai de graça.

    Queda de rendimento acontece quando você treina constantemente abaixo do seu potencial, sem conseguir extrair qualidade dos estímulos. Com o tempo, a evolução não aparece, mesmo com esforço e frequência. Isso gera frustração e leva à perda de confiança na própria capacidade.

    Maior risco de lesões surge quando o corpo perde controle motor e eficiência na estabilização dos movimentos. Com isso, erros de execução se tornam mais frequentes durante o treino. O resultado parte de contraturas, podendo ir para estiramentos , torções e até fraturas por estresse.

    A Baixa Imunidade aparece quando o corpo está sobrecarregado e não consegue sustentar a recuperação adequada. O sistema imune fica comprometido, aumentando a frequência de doenças. A partir daí, entra-se no ciclo: doença, pausa nos treinos e perda de ritmo.

    A Desmotivação surge quando todo treino passa a ser um sofrimento constante. A corrida perde o prazer, os resultados não aparecem e a disciplina começa a enfraquecer. Aos poucos, você se afasta da prática sem nem perceber.

    A Corrida é um Relacionamento — e Isso Muda Tudo

    Pense na corrida como uma parceria. Ela te entrega energia, saúde, confiança e disposição de forma consistente, sustentando não só o seu desempenho, mas também seu bem-estar no dia a dia. É uma relação que, quando bem construída, impacta muito além do treino.

    Mãos sobrepostas simbolizando parceria e compromisso com a corrida e o treino consistente

    Mas e você? Se só aparece sem planejamento, sem energia e sem atenção, essa conexão começa a enfraquecer. Com a corrida é igual: quanto melhor você cuida, mais ela te devolve em forma de resultados e equilíbrio.

    5 Sinais de Que Você Está Tratando Mal Sua Corrida

    Fique atento:

    • Você treina sempre cansado ou com sono
    • Sente dores frequentes que não desaparecem
    • Seu rendimento caiu sem explicação
    • A corrida já não traz prazer
    • Você vive doente ou resfriado

    👉 Se você se identificou com 2 ou mais sinais, é hora de ajustar.

    Como Cuidar Melhor da Sua Corrida (sem mudar tudo)      

    Pequenos ajustes já fazem uma grande diferença.

    Organize seus horários

    Ícone representando organização de horários para treino de corrida na rotina diária
    • Crie um padrão mínimo
    • Dê prioridade ao treino
    • Evite deixar sempre para o final do dia

    Ajuste sua alimentação

    alimentacao-corrida-energia-treino
    • Evite treinar com fome extrema
    • Evite refeições pesadas antes do treino
    • Busque equilíbrio

    Hidrate-se ao longo do dia

    Ícone de hidratação com água para melhorar a performance na corrida ao longo do dia
    • Não beba água só no treino
    • Mantenha constância
    • Evite queda de performance por desidratação

    Durma melhor

    sono-recuperacao-corrida-descanso
    • O sono é seu principal aliado
    • Impacta recuperação, energia e imunidade
    • Crie rotina de horários

    Escute seu corpo

    Ícone representando atenção aos sinais do corpo durante o treino de corrida
    • Dor não é normal constante
    • Cansaço extremo é sinal
    • Queda de rendimento precisa de atenção

    👉 Ignorar isso só aumenta o risco de lesão e estagnação.

    A Mudança de Mentalidade Que Muda Tudo

    O segredo é simples: não espere o tempo ideal — crie ele. Corra mesmo assim, mas com inteligência, ajustando aos poucos sua rotina, suas condições e a qualidade do treino.

    A evolução vem desse processo consistente de organização e consciência. No fim das contas, a corrida está a nosso serviço, mas não nos obedece — e quanto melhor você a trata, mais ela te devolve.

    Quer Estruturar Melhor Seus Treinos?

    Se você quer cuidar melhor da sua corrida, o próximo passo é entender como organizar sua semana de forma inteligente.

    👉 Assista ao vídeo:
    📺 Como Montar Uma Semana de Treino Equilibrada (sem treinar demais ou de menos)    

    👉 E se quiser se aprofundar ainda mais, recomendo a leitura de dois artigos que complementam essa visão:

    📝 Os Pilares Invisíveis que Sustentam seu Progresso na Corrida  

    📝 Os 3 Pilares Essenciais para Correr Melhor: O Segredo Além da Corrida 

  • Como a Alienação no Treino de Corrida Pode Travar Sua Evolução

    Como a Alienação no Treino de Corrida Pode Travar Sua Evolução

    Você pode estar fazendo tudo certo nos seus treinos… ou acreditando que está.

    Mas se você não sabe exatamente o que está fazendo — nem por que está fazendo — o risco de estar se sabotando é enorme, e o pior: muitas vezes isso acontece sem que o corredor perceba.

    Neste artigo vamos falar sobre alienação no treinamento de corrida: o estado em que o atleta treina no automático, sem buscar clareza sobre o processo e, por isso mesmo, acaba comprometendo sua evolução.

    📺 Prefere assistir em vez de ler?
    Este conteúdo também está disponível em vídeo:
    👉 Como a Alienação Barra Sua Evolução

    Um ciclo que pode libertar — ou aprisionar

    A corrida é, por natureza, um movimento cíclico.
    Passo após passo, um gesto se repete e se encaixa no outro, formando um padrão de deslocamento que pode parecer quase hipnótico.

    Esse automatismo biomecânico é fundamental para a eficiência da corrida; quanto mais natural e econômico o movimento, melhor, mas existe um detalhe curioso: esse automatismo físico pode acabar se refletindo também na mente do corredor.

    Quando isso acontece, o atleta passa a:

    • repetir treinos sem questionar
    • cumprir planilhas sem entender
    • manter hábitos sem avaliá-los
    • acumular quilômetros sem construir consciência

    O que deveria ser um ciclo virtuoso de evolução acaba se transformando em um ciclo vicioso de estagnação.

    Água parada com lixo simbolizando estagnação no treinamento de corrida

    A estagnação quase sempre gera prejuízos.

    O corpo continua correndo , mas o entendimento não evolui, e quando o entendimento para, a performance pode parar também.

    O que é alienação no treino de corrida?

    Neste contexto, alienação não tem relação com o uso jurídico do termo. No treinamento esportivo, usamos a palavra para descrever quando o corredor não compreende a lógica do próprio processo de treinamento.

    Ele não sabe, por exemplo:

    • por que a intensidade muda ao longo da semana
    • qual é o objetivo de cada tipo de treino
    • o papel das rodagems, intervalados e longões
    • quais são as cargas ideais para cada estímulo
    • por que existe uma ordem estratégica entre esses treinos

    Também não entende por que às vezes ainda não é hora de correr uma meia maratona ou uma maratona, mesmo que tenha vontade. Na maioria das vezes, o problema não está apenas na falta de conhecimento técnico, o problema está na postura passiva diante do processo.

    É o corredor que:

    • apenas segue a planilha
    • ou treina “no feeling”
    • mas não procura entender o que está acontecendo.

    O ciclo da alienação no treinamento

    A alienação no treino costuma funcionar como um ciclo que se retroalimenta; vamos entender como isso acontece.

    1. Falta de consciência

    O primeiro elo é simples: executar sem compreender. Muitos corredores apenas “seguem o fluxo”, repetindo treinos sem saber:

    • qual sistema energético estão trabalhando
    • qual o objetivo do treino do dia
    • em que fase do planejamento se encontram

    Treinar passa a ser quase uma receita de bolo. Hoje, com tanta informação disponível gratuitamente na internet, esse comportamento chama ainda mais atenção, já que antigamente era preciso comprar revistas especializadas ou participar de cursos para entender o básico.

    Hoje bastaria acompanhar:

    • bons canais no YouTube
    • podcasts especializados
    • conteúdos educativos

    Mesmo assim, muitos corredores não desenvolvem essa curiosidade ativa, e essa falta de consciência cria terreno fértil para:

    • erros de treinamento
    • vícios técnicos
    • sobrecarga
    • estagnação
    • lesões evitáveis

    Sem entender o processo, o corredor vive um treino praticamente “cego”.

    2. Vulnerabilidade

    Sem entender o que está fazendo, o corredor se torna altamente vulnerável.
    Ele pode:

    • seguir orientações equivocadas sem perceber
    • confiar cegamente em qualquer treinador ou influenciador
    • cometer erros sozinho acreditando que está evoluindo

    Essa falta de critérios abre espaço para exageros, desequilíbrios e decisões ruins. É como dirigir um carro em alta velocidade com os vidros embaçados.

    Vidro embaçado visto de dentro de um carro representando treino sem clareza

    Pode até funcionar por um tempo, mas cedo ou tarde o impacto aparece.

    3. Resultados fracos

    Com o aumento da vulnerabilidade, os resultados começam a refletir esse desequilíbrio.
    O rendimento pode:

    • estagnar
    • evoluir muito lentamente
    • ou até regredir

    Além disso, podem surgir:

    • sinais de sobrecarga
    • pequenas lesões recorrentes
    • queda na motivação

    O corredor treina, se esforça… mas a evolução não aparece.

    4. Frustração e confusão

    Quando os resultados não aparecem, surge a frustração. Sem entender o motivo, o corredor começa a duvidar:

    • do método
    • do treinador
    • do próprio corpo
    • ou da própria capacidade

    Ele tenta corrigir por conta própria, mas como não tem clareza do problema, acaba cometendo novos erros. Isso gera:

    • confusão mental
    • desânimo
    • perda de prazer na corrida
    Corredor sentado e pensativo na pista demonstrando desânimo com os treinos

    5. Reforço da alienação

    Mesmo frustrado, o corredor continua repetindo os mesmos padrões. Ele pensa:

    “Uma hora vai dar certo.” Sem reflexão e sem orientação consciente, os erros se normalizam, a alienação vira hábito e o ciclo se fortalece.

    Infográfico - o ciclo da alienação na corrida.

    Com ou sem treinador, isso pode acontecer

    Um ponto importante: a alienação pode acontecer tanto com quanto sem treinador.
    Você pode estar alienado:

    • mesmo tendo treinador, se apenas executa sem entender
    • mesmo treinando sozinho, se não segue nenhum critério

    Ou seja, o problema não é apenas a presença ou ausência de orientação técnica; o problema é a falta de consciência crítica sobre o processo. Treinar não é apenas correr, Treinar também é pensar sobre o que se está fazendo, e quem pensa sobre o treino tende a aprender mais com os acertos — e errar menos.

    Por que é tão fácil ser enganado?

    Um corredor alienado é relativamente fácil de impressionar.
    Por exemplo:

    • um gráfico bonito pode parecer uma grande análise
    • uma explicação longa pode parecer profunda
    • um treino extremamente difícil pode ser interpretado como “treino eficaz”

    Sem entendimento básico, o corredor pode cair facilmente em:

    • modismos
    • estratégias de marketing
    • orientações mal fundamentadas

    Às vezes, isso acontece até sem má intenção por parte de quem orienta, mas o corredor alienado não tem ferramentas para perceber.

    Uma experiência pessoal sobre alienação

    Aprendi isso fora da corrida, da pior maneira. Durante um período da minha vida profissional, deixei as ações de marketing da minha empresa totalmente nas mãos de terceiros. Eu praticamente não entendia nada sobre o assunto.

    Resultado: perdi tempo e dinheiro com profissionais despreparados e depois disso, resolvi aprender ao menos o básico sobre o assunto, não para fazer tudo sozinho, mas para não ser enganado novamente.

    Muitos de nós já passamos por algo semelhante em outras áreas da vida e não por acaso, quando precisamos de um especialista, costumamos buscar referências e recomendações antes de contratar.

    Afinal, quem nunca saiu de uma oficina com a sensação de não saber se o orçamento do mecânico estava realmente justo? Esse tipo de experiência ensina algo importante:
    entender minimamente um serviço não é arrogância — é proteção.

    E no treinamento esportivo isso é ainda mais relevante. Diferente de um serviço pontual, a orientação no treino é um processo contínuo e recorrente. O que está em jogo aqui é uma atividade importante realizada diretamente sobre o próprio corpo, com impacto não apenas na performance, mas também na saúde.

    Se a orientação for ruim, o prejuízo pode se acumular ao longo do tempo, por isso, quanto mais consciência o corredor desenvolve, mais protegido ele fica.

    O risco de acertar sem saber por quê

    Errar é ruim, mas existe algo quase tão perigoso quanto errar: acertar sem entender o motivo.

    Quando o corredor tenta repetir aquele acerto no futuro, pode falhar completamente, porque o contexto mudou.
    Talvez aquele resultado tenha sido fruto de:

    • uma fase específica do treinamento
    • um momento particular da preparação
    • ou simplesmente sorte

    Evoluir por sorte é frágil. Já evoluir com consciência é sustentável.
    Quem entende o processo sabe:

    • o que funcionou
    • por que funcionou
    • quando repetir
    • quando adaptar

    Isso constrói uma base sólida para evolução.

    Como romper o ciclo da alienação

    Você não precisa se tornar especialista em treinamento, mas pode desenvolver um nível básico de consciência sobre o seu processo e algumas atitudes simples ajudam muito nisso.

    Estratégias práticas

    • Consuma conteúdos educativos confiáveis
    • Pergunte mais, mesmo que tenha treinador
    • Entenda a lógica geral do seu treinamento
    • Busque clareza sempre que algo não fizer sentido
    • Evite terceirizar totalmente seu processo
    • Anote percepções em um diário de treino

    📺 Quer aprender a usar um diário de treino de forma realmente estratégica?
    Assista ao vídeo
    👉 Diário de Treino: O Upgrade Que Seu Strava Não Vai Te Contar:

    A autonomia equilibrada é a chave. Nem alienação. Nem teimosia.

    Treinar é parceria, não delegação

    Um bom treinador não quer um robô que apenas execute a planilha; ele prefere muito mais um aluno que se envolve com o processo.

    A evolução nasce da conexão entre:

    • planejamento
    • execução
    • comunicação

    Quando o corredor entende minimamente o que está fazendo, ele fica mais preparado para lidar com:

    • ajustes de carga
    • mudanças no planejamento
    • imprevistos na rotina
    • adaptações necessárias

    Ele deixa de ser apenas executor e passa a ser parte ativa do próprio processo de evolução.

    Conclusão: a chave é consciência

    Treinar com consciência é o que diferencia o corredor que evolui daquele que apenas acumula quilômetros.

    A alienação:

    🚫 impede aprender com a experiência
    🚫 impede evitar erros
    🚫 impede reconhecer progressos

    Evoluir na corrida é mais do que correr; é entender o que se está fazendo — e por quê.

  • Por que não Queimar Etapas nos Treinos

    Por que não Queimar Etapas nos Treinos

    A equivalência da famosa “queima de etapas” para treinos e provas é simples:

    É quando se desconsidera um plano de orientação — ou mesmo sem qualquer diretiva — e se assume a execução de tarefas além das possibilidades momentâneas, mirando metas com muito mais ambição do que realidade.

    Pode acreditar: essa tentação existe aos montes, e talvez você já tenha presenciado; talvez já tenha experimentado. E ela acontece em todos os níveis:

    • Amadores iniciantes
    • Intermediários empolgados
    • Atletas experientes
    • Corredores de alta performance

    Os treinos são como ternos, quanto mais na medida, melhor. Tudo bem as medidas são flexíveis, “mas não altere o samba tanto assim”.

    Representação do treino bem ajustado ao atleta.

    Como e Onde Isso Acontece

    No Âmbito dos Treinos

    As principais formas de atropelar o processo de condicionamento estão na manipulação inadequada de volume e intensidade.

    📌 Se você quer aprender como estruturar uma semana equilibrada e evitar exageros de volume e intensidade, assista:
    👉
    Como Montar Uma Semana de Treino Equilibrada (sem treinar demais ou de menos)

    Quer alguns exemplos clássicos?

    • O treino longo com 30% a mais do que o estabelecido porque “o dia estava bom”.
    • A semana com aumento muito acima dos 10% preconizados pela teoria.
    • Tiros que beiram o inexequível.
    • Ritmos sustentados além da zona proposta.

    São exemplos recorrentes de uma “boa” queima de etapa.

    Um Exemplo Clássico da Cópia Sem Critério

    Na década de 80, o notável meio-fundista marroquino Said Aouita, multicampeão entre 3.000m e 5.000m (com desempenho expressivo dos 800m aos 10.000m), tornou-se referência mundial.

    Seu modelo de treino foi replicado por aqui, mas sem:

    • Especificidade
    • Contexto fisiológico
    • Individualização

    Resultado? Um grande fracasso. Uma tentativa simplista de adiantar o processo para atletas experientes, conduzidos por metodologia inadequada que levou a uma queima de etapa por imitação.

    O atleta multi-campeão Said Aouita competindo.

    O notável atleta Said Aouita

    Especialização Precoce e Declínio Prematuro

    Uma década depois, repetia-se o contexto em outro cenário, e eu seguia observando:

    • Atletas formados entrando em declínio precoce
    • Jovens em iniciação esportiva sendo conduzidos a cargas incompatíveis com suas estruturas em formação

    A consequência mais comum? Foi exatamente o que aconteceu – especialização precoce com o desaparecimento de vários jovens talentos do cenário competitivo na fase adulta.

    A maleabilidade dos planos e dos treinos é uma premissa que tem sido utilizada como uma espécie de licença poética a treinadores imediatistas e seus métodos e processos que produzem campeões mirins, às vezes juvenis, mas quase nunca chegam à fase adulta, e quando acontece, são de carreiras meteóricas.

    Quando a Ciência Intervém

    A federação norte-americana de natação, há décadas atrás, minimizou essa condição com protocolos de limites aos treinamentos de seus jovens atletas, o que evidencia a seriedade necessária do trato a uma área tão preciosa à modalidade e aos seus pré-adolescentes e adolescentes, na fase em que fabricam os sonhos de serem um paralelo de Phelps.

    Quando Isso Chega Até Você: O Perigo dos “Copiões” e dos Especializadores Precoces

    Pode parecer que os exemplos anteriores pertencem apenas ao alto rendimento, mas não, eles estão mais próximos do que se imagina. Hoje, no universo da corrida amadora, também existem:

    • Treinadores que replicam planilhas prontas, sem individualização.
    • Métodos importados de atletas profissionais aplicados a iniciantes.
    • Processos acelerados que produzem “evoluções rápidas” — quase sempre seguidas de consequências negativas.

    O treinador “copião” não considera histórico esportivo, idade biológica, base aeróbia construída, resposta individual à carga; ele considera apenas o modelo.

    Já o “especializador precoce” transforma um corredor iniciante em “especialista” em 3 ou 4 meses:

    • Volume elevado cedo demais
    • Intensidade desproporcional
    • Excesso de provas
    • Pouca base estrutural

    O resultado costuma ser previsível: lesões, queda de rendimento, desmotivação e abandono da prática. A queima de etapas não está apenas na decisão individual de correr além do previsto, também pode estar no ambiente que estimula:

    • Comparações constantes
    • Evoluções apressadas
    • Metas incompatíveis com o momento

    Nem todo treino difícil é treino inteligente, nem toda evolução rápida é sustentável, e muitas vezes, a responsabilidade não está apenas no corredor — mas na orientação que ele recebe.

    Distância de Prova: A Queima de Etapa Mais Sedutora

    “Professor, quero correr uma maratona daqui a quatro meses.”
    “Mas você não estará pronto.”
    “Mas vai ser legal.”

    O diálogo acima foi só uma representação de uma prática comum para mostrar uma das maneiras de como as coisas se dão na queima de etapa para escolha de uma distância de prova a se participar, e assim, começa uma das formas mais comuns de queimar etapas. As provas longas exigem:

    • Tempo de preparação
    • Base aeróbia consolidada
    • Participação prévia em distâncias menores
    • Maturidade fisiológica

    A maratona é fascinante, mas tentar corrê-la sem cumprir pré-requisitos é como tentar escalar uma montanha alta e íngreme sem passar pelas fases preparatórias; desafio sem base é imprudência.

    É possível que todos ali diálogo acima tenham ciência da precocidade da ideia pela imaturidade orgânica do corredor, que o tempo é curto, às vezes algumas temporadas antes do ideal; de que vai ser legal até aproximadamente os 30 km, e às vezes bem antes, um pesadelo, que incorre em riscos, e que poderá deixar sequelas.

    Quando a Emoção Engana

    Em 05/06/2023, um jovem de 26 anos faleceu aos 15 km, durante um desafio empresarial de cumprir uma maratona. Ele não estava preparado sequer para 5 km e a sucessão de imperícias culminou em tragédia.

    Mais uma prova de que a emoção é um estímulo enganoso e a fisiologia não negocia. A combinação de um grande desafio com despreparo, afasta ainda mais a pessoa do risco zero em atividades como o mergulho em apneia, na alta montanha; e também na corrida, embora não pareça.

    As distâncias mais longas de provas são bem exigentes quanto ao caráter e tempo de preparação, e a participação consistente em provas mais curtas é um dos importantes pré-requisitos. Sim, a maratona é uma prova fascinante quanto ao topo dos autodesafios e desafios, mas, um desafio assim sem cumprir pré-requisitos, é tentar atingir o topo do Monte Everest sem as oito semanas preparatórias. 

    Volta aos Treinos Pós-Lesão

    Quando “parece estar tudo bem” é justamente o momento de maior vigilância; queimar etapas na volta pós-lesão é uma das formas mais comuns de reincidência. Recidivas são, em grande parte, consequência de:

    • Dimensionamento inadequado de cargas
    • Tempo insuficiente de cicatrização
    • Fortalecimento incompleto da região afetada
    Atleta corredor em tratamento fisioterápico.

    Experiência Pessoal e Base Sólida

    Me lembro que, ainda atleta em formação, meu primeiro treinador e grande incentivador dizia:- “temos que colocar muitos quilômetros nas suas pernas”. Ele estava dizendo sobre as bases para uma carreira sólida sem atropelos.

    Lembro também, já atleta formado, que meu último treinador foi impecável com as cargas de treinos, sempre muito preciso. Por sorte, aprendi observando o respeito ao processo, que carreira sólida não nasce da pressa, nasce da progressão.

    Por Que os Corredores Queimam Etapas?

    Perfil e Falsa Sensação de Segurança

    1. O amador muitas vezes não sabe que está queimando etapas.
    2. Sabe, mas comete pela ansiedade por resultados rápidos.
    3. Está sob orientação sem fundamentos científicos sólidos.
    4. Acredita que a pior consequência será apenas uma fadiga passageira.

    Essa falsa sensação de segurança é perigosa porque o ambiente parece controlado, mas os “russos da fisiologia” não foram consultados. A queima de etapas nasce de três fontes:

    • Impaciência
    • Emoção
    • Desconhecimento

    Mas o treinamento esportivo é regido por:

    • Progressão
    • Adaptação
    • Tempo
    • Respeito biológico

    Não existe atalho fisiológico, o corpo não evolui na velocidade da vontade e toda tentativa de acelerar o processo cobra juros — às vezes pequenos, às vezes irreversíveis.
    Treinar é construir; queimar etapas é apostar contra o próprio tempo.

    📌 Antes de tentar acelerar seus resultados, veja este vídeo:
    👉 Por Que Não Queimar Etapas