Se você corre há algum tempo, provavelmente já passou por isso:
treino forte, no dia seguinte aquela rigidez, perna pesada, dificuldade de soltar a passada… quando muitos pensarão:
“Tomar um miorrelaxante é o que resolve.”
No artigo anterior, eu expliquei por que o uso indiscriminado de anti-inflamatórios é um erro grave para quem treina corrida.
Neste, vamos lidar com outro atalho muito comum — e igualmente perigoso -: os miorrelaxantes, ou, relaxantes musculares.
Você verá, mais uma vez, que na corrida não existem os atalhos mágicos para quem busca longevidade — existe processo.
Então leia até o final, porque talvez você descubra que aquilo que parecia alívio pode estar sabotando seu corpo silenciosamente.
👉 E se preferir, em vez de ler assista ao vídeo sobre o assunto:
📺 Dor na Corrida: Por que Miorrelaxante é um Atalho Perigoso
O que são Miorrelaxantes
Vamos simplificar. Miorrelaxantes são medicamentos que:
- Reduzem a atividade do sistema nervoso
- Diminuem o tônus muscular
- Alteram reflexos e padrões de ativação
Eles não tratam o músculo.
Eles não aceleram a regeneração tecidual.
Eles não resolvem a causa da Dor Muscular de Inicio Tardio (DMIT).
O que eles fazem é reduzir a percepção de rigidez e tensão, mexendo no controle neural do movimento, e isso já deveria acender um alerta em quem corre.
Por que Corredores usam Miorrelaxantes na DMIT
A Dor Muscular de Início Tardio vem acompanhada de:
- Rigidez
- Sensação de músculo “travado”
- Perda de fluidez
- Desconforto ao correr
O erro começa ao se confundir rigidez adaptativa com espasmo patológico. Na maioria dos casos, a DMIT não é um espasmo, mas um estado transitório de proteção neuromuscular.
O corpo aumenta o tônus porque o tecido está vulnerável, houve microlesão, o sistema precisa controlar melhor impacto e movimento, ou seja, essa rigidez é parte do processo de adaptação.
Um ABS na Sua Musculatura
Imagine alguém incomodado com o sistema de freios ABS do carro porque acha que o pedal do freio vibra muito ao ser acionado fortemente.
O que o ABS faz? ele é um dispositivo que evita o travamento das rodas na frenagem e mantém controle direcional, o que nos protege justamente nas condição do limite.
Mas a vibração não é um defeito; é a forma com que o sistema trabalha.
E agora transfira isso para o corpo.
👉 A rigidez pós-treino é o “ABS” do seu sistema neuromuscular, e que incomoda muita gente.
👉 O miorrelaxante é o botão que desliga esse sistema. Com ele a pessoa até sente alívio, mas perde a proteção.
O que a Corrida Exige do Corpo
Corrida não é só resistência e força, como pode parecer; é controle fino e depende de:
Tônus adequado
O tônus é o nível basal de tensão muscular que mantém o corpo pronto para agir.
Na corrida, ele precisa ser suficiente para estabilizar, mas não excessivo a ponto de travar o movimento.
Tônus alto demais gera rigidez, piora a absorção de impacto e aumenta o custo energético; tônus baixo demais, compromete a estabilidade articular. Correr bem é manter esse equilíbrio fino, passo após passo.
Pré-ativação muscular
Antes do pé tocar o solo, o corpo já ativa automaticamente músculos estratégicos como glúteos, core e musculatura estabilizadora entram em ação milésimos de segundo antes do impacto.
Essa pré-ativação protege articulações e melhora a eficiência da passada. Ela depende de um sistema nervoso alerta e funcional, e a sedação neuromuscular atrapalha diretamente esse mecanismo.
Reflexos rápidos
A cada passada, o corpo faz microajustes instantâneos para lidar com o impacto e o terreno. Esses ajustes acontecem por reflexos medulares e vias rápidas do sistema nervoso.
Quanto mais rápido o reflexo, menor o estresse articular, e reflexos lentificados aumentam o tempo de contato com o solo e o risco de sobrecarga. Na corrida, tempo de reação acaba sendo proteção.
Coordenação intermuscular
Correr bem não é contrair tudo forte ao mesmo tempo, mas, saber quem entra, quem sai e em que momento. Músculos agonistas, antagonistas e estabilizadores precisam conversar entre si.
Quando essa coordenação falha surgem compensações e desperdício de energia; a corrida eficiente é uma orquestra, não um empurrão bruto no chão.
Leitura precisa do impacto
Cada passo gera informações sensoriais que sobem do pé ao cérebro, então o corpo lê o impacto para decidir como responder no próximo passo, e isso inclui rigidez do solo, inclinação, fadiga e velocidade.
Quanto mais clara essa leitura, mais inteligente é o ajuste mecânico, mas se você “anestesia” o sistema, essa leitura fica distorcida. Perceba então, que correr bem não é desligar o sistema — é deixar ele trabalhar fino.
Agora, quando você reduz artificialmente o tônus:
- O músculo responde mais lento
- A articulação recebe mais carga
- A passada perde precisão
- O risco de compensações aumenta
Isso é especialmente perigoso no período pós-treino intenso, quando o tecido já está fragilizado.
O Erro Silencioso: A Falsa Sensação de Recuperação
Aqui mora o problema maior. O corredor toma o miorrelaxante e pensa:- pronto, recuperei, mas o que aconteceu foi dor atenuada e a rigidez mascarada; o sinal de alerta foi desligado.
Veja bem; o tecido não se regenerou mais rápido e o processo biológico não foi acelerado. O corredor apenas perdeu a leitura do corpo, e como treinador, considero isso algo perigoso.
Consequências Práticas na Vida Real
Na prática, o uso recorrente de miorrelaxantes leva a:
Retorno precoce a treinos intensos
O miorrelaxante reduz a sensação de rigidez e desconforto, criando uma falsa impressão de recuperação, então o corredor se sente “solto” antes do tempo biológico real de reparo tecidual.
Com isso, volta a treinos intensos sem ter restabelecido força, controle e coordenação, quando o corpo ainda está vulnerável, mas o sinal de alerta foi desligado.
Resultado: estímulo forte em estrutura ainda imatura.
Aumento de assimetrias
Quando o controle neuromuscular está prejudicado, o corpo busca caminhos alternativos; um lado começa a trabalhar mais para compensar o outro. Essas compensações nem sempre são perceptíveis no início, mas com o tempo, criam sobrecargas assimétricas em quadril, joelho ou tornozelo, e a lesão quase sempre aparece no elo mais fraco dessa cadeia.
Piora da técnica nos dias seguintes
Mesmo após o efeito agudo do miorrelaxante passar, o impacto no controle motor permanece, a passada fica menos econômica, com ajustes mais lentos e menos precisos.
O corredor sente que “algo não encaixa”, mesmo sem dor evidente; a eficiência cai, o custo energético sobe, e técnica ruim, repetida milhares de vezes, cobra o seu preço.
Sobrecarga tendínea e articular
Tendões e articulações dependem de estabilidade ativa para se proteger, e quando o músculo falha no timing ou na intensidade correta, essas estruturas absorvem o impacto.
Isso aumenta a tensão repetitiva sobre tendões, cartilagens e cápsulas articulares; o problema não é imediato, mas cumulativo, e é terreno ideal para tendinopatias e dores articulares persistentes.
Lesões que “aparecem do nada”
Do ponto de vista do corredor, a lesão surge sem explicação clara, mas, biologicamente, ela vem sendo construída há semanas.
👉 Se quiser saber sobre as lesões na corrida, assista ao vídeo:
📺 Lesões Típicas na Corrida
Pequenas falhas de controle, repetidas em milhares de passadas sem dor para avisar, o corpo não teve chance de ajustar e quando a dor aparece, o dano já está instalado.
Então na verdade, aqui as lesões não aparecem do nada; elas são plantadas quando você desliga o sistema de proteção com o miorrelaxante, que por si só não causa a lesão, mas cria o silêncio necessário para que ela se desenvolva.
Miorrelaxantes vs. AINEs
Agora vamos amarrar com o artigo anterior, sobre AINEs, os Anti-inflamatórios Não Esteroides, também amplamente utilizados para o alívio das dores pós-treinos, sobretudo nas provas.
👉 Leia o artigo sobre AINEs:
📝 As Dores pós Treino de Corrida e por que o Anti-Inflamatório é o Pior Caminho
- Miorrelaxantes desligam o controle — sabotam a adaptação neuromuscular.
- AINEs desligam a inflamação — sabotam a adaptação química.
São atalhos diferentes, com o mesmo efeito final: interromper o processo natural de supercompensação, e ambos criam um corpo menos consciente, menos adaptado e mais dependente de atenuantes.
E existem exceções? Sim. Para os casos clínicos específicos: espasmos neurológicos reais em quadros agudos diagnosticados, e tudo isso sob orientação médica clara.
Ou seja, os miorrelaxantes não surgiram nem de longe para lidar com adaptação ao treino, nem com dor muscular tardia.
Eles foram desenvolvidos principalmente para Espasmos musculares de origem neurológica ou reflexa, ou seja, situações em que há:
- hiperatividade anormal do sistema nervoso
- contrações involuntárias persistentes
- perda do controle normal do tônus muscular
Mas isso não é o que estamos discutindo aqui; o problema é o uso rotineiro, às vezes até automático, para suportar treino.
Então qual o Caminho Maduro?
Se você treinou forte e sente DMIT, o caminho é outro, ele esta na:
- Recuperação ativa
- Mobilidade consciente
- Sono de qualidade
- Nutrição adequada
- Ajuste de carga nos dias seguintes
E, principalmente aprender a ler o corpo; A DMIT é uma mensagem, não um inimigo.
👉 Veja sobre o melhor caminho no artigo:
📝 Os Pilares Invisíveis que Sustentam seu Progresso na Corrida
Se eu tivesse que resumir como treinador:
Miorrelaxante não recupera músculo; ele apenas apaga os sinais do corpo silenciando o sistema que está tentando te proteger. Desligar o ABS pode deixar o pedal mais confortável, mas na primeira curva você paga o preço.
E na corrida, quem respeita o processo treina menos lesionado, evolui mais e corre por muito mais tempo.
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