Categoria: Corrida

  • Primeira Maratona: Como Saber se Você Está Pronto para Correr 42 km?

    Primeira Maratona: Como Saber se Você Está Pronto para Correr 42 km?

    Se você já corre há algum tempo, completou algumas provas, talvez até uma meia maratona, talvez se pergunte qual seria o momento certo de correr uma maratona.

    Talvez o pensamento mais importante nem seja se está pronto para correr 42 quilômetros, mas, se está pronto para começar a se preparar para correr 42 quilômetros.

    Neste artigo pretendo detalhar sobre essa decisão, já que a maratona não começa na largada; ela começa muitos meses antes, na construção de uma base capaz de suportar o aumento progressivo do volume, os treinos longos, a fadiga acumulada e todas as exigências de uma preparação que pode transformar a experiência de correr 42 quilômetros em uma grande conquista — ou em um processo difícil demais para o momento atual do corredor.

    E então surgem as dúvidas:

    • Existe um tempo mínimo de corrida antes de estrear na maratona?
    • É preciso correr durante dois, três ou cinco anos?
    • Ter completado várias meias maratonas?
    • Alcançar determinado volume semanal?
    • Fazer um longão de 30 quilômetros ou mais?

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Quando é a Hora Certa de Correr Sua Primeira Maratona?   

    Não existe um prazo universal nem um único teste capaz de determinar se alguém está pronto, porque, diferentes corredores podem ter o mesmo tempo de prática, mas histórias de treinamento muito diferentes.

    Um pode ter construído regularidade, aumentado as cargas gradualmente e aprendido a interpretar as respostas do próprio corpo, e o outro, ter passado longos períodos sem treinar, acumulado tentativas interrompidas ou ainda não desenvolvido uma base suficiente para iniciar uma preparação tão exigente.

    Por isso, mais importante do que perguntar apenas há quanto tempo se corre é entender o que se construiu durante esse tempo e como o corpo respondeu ao processo.

    Ao longo do tempo como treinador, acompanhei situações muito diferentes:

    • Vi corredores que construíram uma trajetória longa antes de estrear na maratona.
    • Vi também quem quis antecipar essa etapa com pouco tempo de treinamento sistematizado, e descobriu que o desejo havia chegado muito antes da preparação.

    E acompanho corredores que treinam há muitos anos, evoluem, participam de provas e encontram na meia maratona o limite que desejam alcançar, sem nunca sentir necessidade de correr 42 quilômetros.

    Essas experiências reforçam duas ideias importantes:

    • A maratona não é uma etapa obrigatória na vida de todo corredor.
    • Quando a maratona se torna um objetivo, o momento certo é definido pela capacidade de se construir uma preparação progressiva, consistente e sustentável para ela.

    Os apelos do desejo de correr os 42 km

    Muitos corredores se apaixonam pela ideia da maratona, e eles são legítimos:

    • a medalha
    • o desafio
    • o status
    • a experiência
    • a sensação de superação

    Mas, querer completar uma maratona não significa nem mesmo estar preparado para iniciar o processo. A maratona começa muito antes da largada.

    Não existe “tempo mínimo”, mas histórico necessário

    O tempo de corrida ajuda, mas não pode ser o único critério. Um corredor com três anos de prática irregular pode estar menos preparado que outro com dois anos de treinamento consistente.

    Considere os fatores: 

    Infográfico cinco fatores no processo de treino para estrear na maratona: regularidade, continuidade, tolerância à carga, experiência com treinos longos e capacidade de manter uma rotina.

    E vai perceber que, mais importante do que há quanto tempo você corre é como seu corpo respondeu ao que você fez até aqui.

    O momento viável e o momento inviável

    A própria história que deu origem à maratona traz uma reflexão interessante. Segundo a tradição mais conhecida, Fidípides percorreu a distância entre Maratona e Atenas para anunciar a vitória dos gregos e, depois de cumprir sua missão, morreu.

    É claro que não podemos comparar literalmente essa narrativa com uma prova moderna, mas ela ajuda a ilustrar uma diferença importante: conseguir percorrer uma distância não significa necessariamente estar preparado para suportar as exigências dela.

    Um fato é o corredor desejar a maratona; outro, é já ter construído as condições necessárias para se preparar para ela com segurança, progressão e possibilidade real de concluir bem o percurso.

    Ao longo da minha trajetória, alguns casos ajudaram a reforçar essa percepção.

    20 anos de treinamento; 6 anos até a estreia

    O caso descrito agora expõe o processo de um aluno que treina comigo desde 2006. Ao longo dos anos, construiu uma trajetória longa e consistente na corrida, participou de diferentes provas e acumulou experiência em várias distâncias.

    Sua estreia na maratona aconteceu em 2012. Isso não significa que todo corredor precise esperar seis anos para correr sua primeira maratona; esse não é o ponto.

    Esse caso mostra que a maratona não precisa ser tratada como uma consequência central da evolução na corrida nem como uma etapa que deve ser alcançada o mais rápido possível.

    Quando chegou o momento de iniciar a preparação, o aluno em questão já possuía uma base construída ao longo do tempo, experiência de treinamento e conhecimento do próprio corpo, então a maratona passou a ser uma continuidade possível de uma trajetória, e não uma tentativa apressada de alcançar uma distância maior.

    Quando o desejo chega antes da preparação

    Também tive um aluno que chegou ao treinamento já com alguma experiência na corrida, e com poucos meses de um processo sistematizado, manifestou o desejo de iniciar a preparação para uma maratona.

    Naquele momento, tentei demovê-lo da ideia; expliquei que ainda havia pouco tempo de treinamento estruturado e que antecipar a preparação poderia não dar certo. Mesmo assim a decisão dele foi seguir adiante, e como eu havia previsto, a preparação ficou longe do ideal e a prova não deu certo.

    Esse caso reforçou uma lição importante: o desejo do corredor merece ser respeitado, mas o treinador precisa avaliar se é compatível com o momento atual do corpo e com o histórico de treinamento.

    Aqui, a melhor orientação é explicar por que ainda não é o momento e mostrar qual caminho pode tornar a maratona viável mais adiante. Adiar uma maratona não significa abandonar um sonho, mas, aumentar as chances de realizá-lo bem.

    Nem todo corredor precisa chegar à maratona

    Tenho também uma aluna que treina comigo há 19 anos e desde de sempre encontrou na meia maratona o seu limite de interesse e de objetivo. Ela nunca desejou correr uma maratona, e isso não representa falta de evolução, de coragem ou de capacidade.

    A corrida não possui uma única trajetória obrigatória. O fato de um corredor completar 5, 10 ou 21 quilômetros não quer dizer que ele precise continuar avançando até os 42 quilômetros, porque evolução não é necessariamente correr cada vez mais longe.

    Os três exemplos que vimos mostram que não existe um prazo universal para estrear na maratona.

    • Existe o corredor que construiu sua trajetória até chegar ao momento viável
    • Existe o corredor que tentou antecipar uma etapa antes de estar preparado
    • E existe o corredor que escolheu conscientemente não transformar a maratona em objetivo

    Por isso, quando alguém me pergunta: “Quando é a hora certa de correr minha primeira maratona?”, minha resposta não começa com um número de meses, anos ou quilômetros; mas, com outra pergunta: “o que você já construiu até aqui — e como seu corpo respondeu a esse processo?”

    A indicação para a maratona é individual

    Aqui no Clube da Corrida, a indicação para a primeira maratona não segue uma regra baseada apenas no tempo de prática, na idade, no número de provas realizadas ou na distância máxima já percorrida.

    Cada corredor é analisado individualmente, considerando:

    • sua trajetória de treinamento
    • regularidade
    • experiência
    • capacidade de suportar o aumento progressivo das cargas
    • resposta aos treinos
    • condições atuais para iniciar uma preparação mais exigente

    Essa avaliação faz parte do Método Corrida com Longevidade e orienta a decisão sobre o momento viável para começar o processo.

    Quando o corredor apresenta as condições necessárias, a preparação é construída de forma progressiva e individualizada, seguindo os protocolos do método para o desenvolvimento da resistência, o aumento das cargas, a realização dos treinos longos e o acompanhamento das respostas do corpo.

    A indicação contrária não significa negar o objetivo, mas, organizar o caminho para que a maratona deixe de ser uma aposta e se transforme em uma meta preparada com mais segurança, consistência e possibilidade de continuidade.

    Então, se não existe um prazo universal e a maratona não é obrigatória, o que devemos observar para saber se um corredor está pronto para iniciar essa preparação?

    A meia maratona como referência

    Completar uma meia maratona não significa automaticamente que o corredor esteja pronto para dobrar a distância, porque a maratona não é apenas “duas meias”.

    A segunda metade acontece com: 

    Infográfico comparativo das exigências fisiológicas da maratona em relação à meia maratona, incluindo depleção energética, fadiga muscular, resistência, estratégia de ritmo e impacto da nutrição.

    A meia maratona pode mostrar que você está evoluindo, mas não entrega sozinha o certificado para a maratona.

    A tolerância ao volume

    Ser capaz de fazer um longo de 30 km ou mais, também não significa a prontidão imediata para correr uma maratona.

    O treinador deve observar o conjunto:

    • como o corredor chegou ao longo
    • como terminou
    • quanto tempo levou para recuperar
    • se houve dor
    • se o restante da semana foi preservado
    • se o volume vinha sendo construído progressivamente

    Um longão isolado mostra o que você conseguiu fazer em um dia; a preparação mostra o que você consegue sustentar durante meses.

    A recuperação como indicador de prontidão

    Não basta olhar o treino realizado; é preciso observar o que acontece depois.

    • fadiga residual
    • dores persistentes
    • sono
    • disposição
    • queda de rendimento
    • capacidade de retomar a rotina

    A resposta do corpo depois do treino pode ser mais importante do que o número registrado no relógio durante o treino.

    A vida pronta para a maratona

    A preparação exige:

    • tempo
    • sono
    • organização
    • alimentação
    • recuperação
    • disponibilidade emocional

    O corredor pode estar fisicamente apto, mas vivendo um período incompatível com uma preparação longa:

    • trabalho muito intenso
    • mudança de rotina
    • viagens
    • privação de sono
    • estresse elevado

    A maratona não exige apenas um corpo preparado; exige uma rotina que permita preparar esse corpo.

    A motivação precisa ser sustentável

    A motivação pode ser na forma de:

    • sonho pessoal
    • desafio
    • comemoração
    • desejo de evolução
    • influência de amigos
    • pressão das redes sociais
    Infográfico das principais motivações de quem se torna maratonista: sonho pessoal, desafio, comemoração, desejo de evolução, influência de amigos e pressão das redes sociais.

    A maratona não precisa ser a consequência obrigatória de quem começou a correr. Nem todo corredor precisa chegar aos 42 km.

    Quando a preparação deixa de ser uma aposta

    O momento certo para estrear na maratona não é quando o corredor acha que dá conta; é quando o histórico mostra:

    • consistência
    • adaptação
    • progressão
    • recuperação
    • disponibilidade
    • motivação

    O momento certo de estrear na maratona não é determinado por uma idade, um número de anos correndo ou uma distância isolada. Ele aparece quando o corredor construiu uma base que permite transformar a preparação em um processo progressivo, e não em uma aposta contra o próprio corpo.

    Cruzar a linha de chegada completamente destruído não deve ser tratado como prova de que a maratona foi um sucesso; às vezes, pode ser apenas o sinal de que a distância exigiu mais do que o corredor estava preparado para entregar naquele momento.

    A melhor primeira maratona não é necessariamente a mais rápida, mas, aquela em você termina relativamente bem e que te permite continuar correndo depois dela.

  • Corrida e Dor no Joelho: O Que Sabemos Hoje Sobre Lesões e Saúde

    Corrida e Dor no Joelho: O Que Sabemos Hoje Sobre Lesões e Saúde

    A antiga sentença

    Durante décadas, milhões de pessoas ouviram a mesma recomendação: Você tem problema no joelho? Então não corra.

    A corrida era frequentemente tratada como uma agressão à articulação. O impacto significava o surgimento automático de algum problema, e o desgaste parecia inevitável.

    Mas será que a história é realmente tão simples assim?

    Eu mesmo já acompanhei um aluno que recebeu exatamente essa recomendação. A minha resposta? “Vamos com calma; esse caso pode não ser bem assim.”

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Corrida e Joelho: Como era e o que Sabemos Hoje                

    Quando correr era considerado um risco para o joelho

    A lógica antiga era praticamente mecânica: Se a articulação recebe milhares de impactos, ela necessariamente vai se desgastar.

    • impacto = agressão
    • repetição = desgaste
    • corrida = sobrecarga
    • joelho = a estrutura que vai se deteriorar

    Isso parece intuitivo; o problema dessa intuição é que o corpo humano não é uma peça de máquina passiva e o joelho não é simplesmente um rolamento que vai acumulando quilômetros até quebrar.

    É um sistema biológico, vivo, que recebe estímulos, adapta-se, recupera-se, e na interação com o treino de corrida, responde de maneira diferente, dependendo de:

    • idade
    • histórico de lesões
    • composição corporal
    • níveis de força
    • controle motor
    • volume de treinamento
    • intensidade
    • recuperação
    • progressão da carga

    O impacto não é automaticamente um dano. O impacto é uma carga, e a resposta do organismo depende da relação entre essa carga e a capacidade atual de suportá-la.

    A experiência prática desafia a velha ideia

    Em determinado momento, um aluno que por um descuido se acidentou, me procurou depois de receber uma recomendação que, durante muito tempo, foi bastante comum: abandonar a corrida por conta de um problema no joelho.

    Respondi que seria bom tentarmos entender melhor se aquele diagnóstico realmente significava que ele não poderia mais correr.

    E segui falando: “Cumpra as semanas de tratamento, e no retorno, antes de uma segunda posição, pergunte com firmeza a quem está te tratando: “Então, sr. agente de saúde, quando é que poderei voltar a correr?”.

    Eu achava que aquele diagnóstico inicial e sozinho, não deveria encerrar automaticamente a conversa sobre a prática da corrida, e estava certo, porque o corredor voltou e corre até hoje.

    O diagnóstico pode ser o ponto de partida da decisão; não necessariamente o ponto final.

    Outro diagnóstico que não conta toda a história

    Paralelamente ao meu trabalho, já vi uma pessoa que tinha condromalácia bilateral antes mesmo de começar a correr, o que não a impediu de continuar correndo.

    Isso não significa que a presença de condromalácia não importe, mas também não significa imediatamente que a corrida esteja proibida.

    A questão passa a ser:

    • Qual é o quadro clínico?
    • Existe dor?
    • Qual é a intensidade?
    • Como o joelho responde à carga?
    • O corredor consegue se recuperar?
    • A carga está adequada à capacidade atual?
    • Há fatores relacionados à força, mobilidade e controle do movimento que podem ser trabalhados?

    Devemos lembrar que mesmo diagnóstico pode produzir respostas bem diferentes em pessoas diferentes. Ele descreve uma condição, mas geralmente não descreve sozinho a capacidade de uma pessoa correr.

    O que a ciência começou a investigar

    No estudo-piloto canadense da Universidade da Colúmbia Britânica, pesquisadores compararam a resposta da cartilagem após 30 minutos de corrida em pessoas com e sem osteoartrite.

    Não foram encontradas diferenças globais significativas imediatamente após a corrida, embora o grupo com osteoartrite apresentasse alterações em alguns parâmetros e pudesse necessitar de mais tempo de recuperação. (Arthritis Research Canada)

    O estudo não permite afirmar que correr cura a osteoartrite, mas que a resposta do joelho à corrida é mais complexa do que simplesmente impacto significa destruição.

    Uma meta-análise sobre corrida e osteoartrite de quadril e joelho não encontrou uma associação simples entre corrida e maior risco de osteoartrite. (PubMed)

    As pesquisas sobre esse assunto – corrida e dor no joelho – começaram a perguntar menos se correr desgasta o joelho e a se ocupar mais com: como o joelho responde à corrida. 

    E assim, os estudos passaram a observar:

    • cartilagem
    • resposta imediata ao exercício
    • recuperação
    • marcadores inflamatórios
    • osteoartrite
    • volume de corrida
    • diferenças entre corredores recreacionais e competitivos

    A articulação não é uma peça morta

    Durante muito tempo, a imagem era: impacto → desgaste → artrose, enquanto que hoje, entendemos melhor que o corpo responde à carga.

    A cartilagem, o osso, os tendões, os músculos e os demais tecidos fazem parte de um sistema vivo. A própria articulação precisa de movimento e carga adequados para funcionar.

    O problema não é apenas a carga aplicada, mas a relação entre a carga aplicada, a capacidade atual do organismo e o tempo suficiente para essa adaptação.

    A área da saúde também mudou

    Não é que a área da saúde tenha passado de: Corrida é ruim para a Corrida é sempre boa; a mudança foi bem melhor do que isso.

    Hoje a abordagem tende a ser mais:

    • individualizada
    • baseada em sintomas
    • baseada em capacidade funcional
    • orientada por progressão
    • menos baseada em proibições genéricas

    A própria pesquisa canadense destacou que havia pouca evidência sustentando a percepção de que correr necessariamente danifica os joelhos, e investigou especificamente a segurança da corrida em pessoas com osteoartrite.

    Se, a corrida foi durante décadas tratada como uma ameaça genérica ao joelho, hoje entendemos que a resposta depende da pessoa, da condição do tecido, da carga e da capacidade de adaptação.

    E assim, vemos muito menos contra indicações à pratica da corrida por conta do joelho, e casos mais sensíveis geralmente não são mais tratados a partir de um simples “pode ou não pode correr”.

    A conversa agora é: como essa pessoa com problema no joelho pode correr, quanto ela pode correr, como seu corpo responde, e como essa carga pode ser progressivamente administrada.

    Mas cuidado: a corrida não é uma panaceia

    Depois de décadas dizendo: “Correr destrói os joelhos”, seria igualmente simplista passar a dizer: “Correr sempre protege os joelhos”; já que a corrida pode ser uma excelente atividade física para muitas pessoas.

    Porque ainda existem:

    As pesquisas ainda sugerem que pessoas com osteoartrite podem apresentar uma recuperação diferente após a corrida, e isso pode precisar de ajustes na duração e recuperação dos treinos, conforme os sintomas.

    O que aprendi acompanhando corredores

    A corrida foi durante décadas tratada como uma ameaça genérica ao joelho. Hoje entendemos que a resposta depende da pessoa, da condição do tecido, da carga e da capacidade de adaptação.

    Ao longo de décadas acompanhando corredores, aprendi que o mesmo diagnóstico pode produzir histórias muito diferentes.

    Já vi pessoas com alterações nos joelhos que continuavam correndo normalmente, outras que precisaram interromper por um tempo, corredores que precisaram reduzir, modificar e reconstruir sua relação com a corrida.

    Hoje, o que separa essas histórias não é apenas o nome do diagnóstico, mas a forma de enxerga-lo diante do que se pode fazer com ele sem precisar excluir de imediato a corrida.

    A afirmação de que correr faz mal ao joelho tem dado lugar a questões como: “Como este joelho responde à corrida?” e “Como podemos fazer com que a carga da corrida seja compatível com a capacidade atual desse organismo?”.

    A corrida mais compreendida…

    Durante décadas, a corrida foi frequentemente tratada como inimiga dos joelhos, e hoje, sabemos que a história é muito mais complexa.

    A corrida não é de imediato destrutiva, o impacto não significa lesão, e um diagnóstico não precisa ser uma sentença de afastamento permanente da corrida.

    Tudo isso, no outro extremo, não significa que todo mundo possa correr da mesma maneira. A questão não é simplesmente correr ou não correr; é entender o corredor, o joelho, a carga e a capacidade de adaptação daquele organismo.

    O que pode destruir a longevidade da corrida em relação ao joelho não é necessariamente o impacto, mas a incapacidade de administrar a relação entre o impacto e a capacidade do corpo de absorvê-lo.

    A evidência atual não permite dizer que correr é universalmente proteção ou uma segurança para qualquer joelho, mas enfraquece bastante a velha ideia de que a corrida, por si só, inevitavelmente desgasta ou destrói os joelhos.  

  • 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    Índice

    As Maratonas: 20 Anos de Construção

    A Anatomia de 20 Anos de Treino

    Conclusões

    • O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam

    Entrevista com Laerte: 20 Anos Vivendo a Corrida por Dentro

    • Conversando com Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida

    Introdução

    A Trajetória de um Corredor Incomum

    Os dados compilados e apresentados em 6 gráficos que você verá neste artigo levaram 20 anos para existir.

    O que apresento aqui é a trajetória de um homem comum que, ao longo de duas décadas consecutivas praticando Corrida, acabou se transformando em um corredor incomum.

    O engenheiro civil Laerte Marengo Filho, hoje aposentado, iniciou um treinamento sistematizado aos 50 anos de idade, sem imaginar até onde a corrida poderia levá-lo.

    Imagem do corredor amador Laerte Marengo F.

    Ao longo desses vinte anos, viveu praticamente tudo o que um corredor de longa trajetória costuma experimentar: evolução, auge físico, lesões, oscilações de desempenho, o avanço natural da idade, mudanças na rotina de vida e até o retorno temporário ao mercado de trabalho já aposentado.

    E, apesar de tudo isso, continuou correndo.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo (sem a entrevista):
    🎥 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    As Maratonas: 20 Anos de Construção

    Agora, aos 70 anos, Laerte se prepara para disputar sua 15ª e última maratona, encerrando um ciclo construído com algo tão quanto talento: consistência ao longo do tempo.

    Talvez seja justamente por isso que seus gráficos contém uma história tão interessante.

    Mais do que números, eles registram decisões, escolhas, paciência e milhares de quilômetros acumulados semana após semana.

    Ao longo deste artigo, vamos percorrer essa trajetória utilizando gráficos que revelam como uma vida inteira de treinamento pode ensinar muito sobre desempenho, envelhecimento e longevidade esportiva.

    FASE 1 | Descoberta e Expansão

    Depois de seis anos de treinamento sistematizado, 13 provas de 5 km, 46 provas de 10 km e seis meias maratonas, o primeiro gráfico finalmente registra o nascimento do “Laerte Maratonista”, com sua estreia nos 42,195 km, em 2012.

    Gráfico mostrando a evolução das 15 maratonas disputadas por Laerte ao longo de 20 anos consecutivos de treinamento de corrida.

    Dois aspectos chamam bastante atenção nesse momento: o primeiro é que esperar seis anos de prática consistente antes da estreia mostra que Laerte provavelmente não iniciou sua trajetória pensando na maratona.

    Ela surgiu como consequência natural de um processo construído com calma — e não como uma obsessão precoce; detalhe, aparentemente simples, mas que explica parte do que veremos aqui.

    Num cenário em que muitos corredores aceleram etapas e chegam rapidamente aos 42 km sem uma base sólida de treinamento, Laerte percorreu um caminho diferente.

    Quando finalmente estreou, já acumulava centenas de treinos, dezenas de provas e anos de adaptação fisiológica.

    Em outras palavras, a maratona chegou na hora certa, e isso, muito provavelmente, ajudou a construir a longevidade esportiva que ele demonstra até hoje.

    A partir dali a maratona deixa de ser apenas um objetivo distante e passa a ocupar espaço permanente em sua vida.

    Entre 2012 e 2014, observa-se um período muito ativo, onde aparecem:

    • Porto Alegre;
    • Nova York;
    • Las Vegas;
    • Curitiba;
    • múltiplas participações;
    • viagens;
    • novas experiências;

    E um envolvimento cada vez maior com o universo das grandes maratonas. Mais do que disputar provas, Laerte passou a viver a cultura da maratona.

    Em Nova York (2012) ocorreu um episódio simbólico dessa fase. A prova estava marcada para o dia 4 de novembro, mas acabou cancelada em razão dos enormes danos provocados pela supertempestade Sandy.

    Foi a primeira vez, em toda a história da Maratona de Nova York, que a competição não aconteceu. Cerca de 47 mil corredores foram afetados, e Laerte estava entre eles.

    O ano de 2014 também merece destaque; aos 58 anos, ele alcançou seu melhor tempo na maratona, com 3h28’35”.

    Nesse mesmo ano participou de três maratonas; uma estratégia que foge completamente da filosofia de treinamento que praticamos e que, em condições normais, não recomendamos.

    Mesmo assim, essa sequência ajuda a compreender o momento que Laerte vivia; um corredor já bem envolvido pelo universo das maratonas. Viajava, experimentava novos percursos, acumulava vivências e aprendia, na prática, o que significava construir uma carreira de longo prazo.

    Mais tarde, toda essa bagagem deixaria de representar apenas experiências isoladas para se transformar em algo muito mais valioso: longevidade esportiva. E talvez seja justamente isso que torne essa história tão interessante.

    A capacidade de permanecer treinando, competindo e evoluindo durante duas décadas, realmente diferencia uma trajetória rara de um corredor comum.

    Mas essa fase de descoberta era apenas o começo. Nos anos seguintes, os resultados nas meias maratonas e nas maratonas começariam a revelar algo ainda mais interessante: a evolução consistente de um corredor que envelhecia… sem deixar de evoluir.

    FASE 2 | Maturidade Competitiva

    Quando a experiência passa a valer tanto quanto a capacidade física.

    Existe uma diferença importante entre registrar o melhor tempo da carreira e tornar-se o melhor maratonista possível dentro da própria realidade. Ao observar a trajetória do Laerte, essa distinção fica bastante evidente.

    Entre 2016 e 2019, vemos surgir um corredor muito mais completo; não necessariamente mais rápido, mas certamente mais preparado para lidar com tudo o que uma maratona exige.

    Nesse período, ele se mostra:

    • mais experiente;
    • mais eficiente;
    • mais estratégico;
    • emocionalmente mais sólido.

    Foi nessa fase que participou de provas marcantes como:

    • ASICS São Paulo;
    • Golden Run;
    • Maratona de Barcelona;
    • Maratona de Florianópolis.
    Laerte participando da maratona de Barcelona.
    Laerte na maratona de Barcelona 2019

    O aspecto mais interessante desse período é que o auge competitivo do Laerte não parece ter sido consequência de uma mudança radical no treinamento; ao contrário, nasce da combinação de fatores que normalmente só aparecem após muitos anos de prática:

    Ao longo dos anos, surge um atleta capaz de compreender aspectos que fazem enorme diferença na maratona:

    Essa talvez seja uma das maiores características dos corredores masters experientes: depois de certa idade, o auge deixa de ser exclusivamente fisiológico e passa a ser, sobretudo, estratégico.

    Os gráficos mostram justamente isso: vários anos consecutivos mantendo elevado nível de desempenho, algo extremamente valioso quando falamos da prova mais exigente da corrida de rua.

    FASE 3 | Adaptação e Longevidade

    Quando permanecer correndo se torna mais importante do que correr mais rápido.

    Todo maratonista máster chega a um momento em que o treinamento deixa de representar apenas uma busca por evolução e passa também a significar administração inteligente das limitações naturais do envelhecimento.

    Na trajetória do Laerte – a partir de 2019 – essa transição aparece de forma bastante clara:

    O treinamento passa a depender muito mais da capacidade de adaptação do que simplesmente da vontade de treinar mais, entretanto, talvez o aspecto mais importante dessa fase seja outro.

    Laerte não abandona a maratona quando percebe que seu corpo já não responde como aos cinquenta anos. Em vez disso, aprende a negociar com ele, e essa mudança transforma completamente sua relação com o esporte.

    Mesmo já aposentado, chegou a retornar temporariamente ao trabalho, lembrando algo que muitas vezes esquecemos: o treinamento nunca acontece isoladamente.

    Ele precisa conviver com a rotina, com as responsabilidades familiares, com o cansaço, com o envelhecimento e com todas as adaptações impostas pela vida.

    Outro detalhe interessante aparece nas demandas físicas típicas do corredor máster. Aqui, as panturrilhas passam a exigir atenção constante — situação comum nessa faixa etária, já que a capacidade aeróbia costuma envelhecer melhor do que os tecidos responsáveis pela absorção dos impactos e pela produção repetitiva de força.

    Como consequência, o treinamento precisa priorizar cada vez mais:

    • fortalecimento;
    • prevenção de lesões;
    • recuperação adequada;
    • controle da carga;
    • manutenção da funcionalidade muscular.
    Laerte executando treino de fortalecimento muscular.

    Hoje, aos 70 anos, preparando sua 15ª e última maratona, o significado da prova já não está ligado apenas ao cronômetro. Ela representa o encerramento consciente de um ciclo extraordinário.

    Ao concluir sua participação nas maratonas de maneira lúcida, saudável e planejada, Laerte abre espaço para seguir sua trajetória esportiva em provas de até 21 km, cujas exigências fisiológicas são mais compatíveis com esta fase da vida.

    Olhando retrospectivamente, percebe-se que sua maior conquista dificilmente foi um pace específico; foi ter conseguido atravessar duas décadas mantendo um vínculo permanente com a corrida.

    A última maratona, portanto, ganha um enorme valor simbólico. Ela encerra uma história construída não por talento extraordinário, mas por algo também raro: consistência ao longo do tempo.

    E talvez seja justamente isso que transforma um homem comum em um maratonista incomum.

    A Anatomia de 20 Anos de Treino

    Além das Maratonas: A Importância da Meia Maratona.

    Entre uma preparação para os 42 km e outra existe uma distância que talvez tenha sido ainda mais importante para sustentar toda essa trajetória: a Meia Maratona.

    Ao longo de vinte anos, Laerte participou de 35 provas de 21 km, atravessando diferentes fases da vida, do condicionamento físico e da própria relação com o esporte.

    Gráfico com a evolução das 35 meias maratonas de Laerte durante 20 anos consecutivos de treinamento.

    Existe, porém, um detalhe bastante revelador: antes de estrear na maratona, ele treinou durante seis anos de maneira sistematizada.

    Já para disputar sua primeira meia maratona, também esperou o momento adequado. Foram treze meses de treinamento organizado, além de todo o período anterior de prática ainda sem acompanhamento técnico.

    E, olhando hoje para aquele contexto, é difícil não fazer uma reflexão: há cerca de vinte anos, a ansiedade dos corredores iniciantes para entrar nas meias maratonas e maratonas era consideravelmente menor do que observamos atualmente.

    Da mesma forma, convencer um amador a esperar o momento certo para aumentar as distâncias de provas também parecia uma tarefa mais fácil…

    No caso do Laerte, tudo indica que o momento escolhido foi bastante acertado. Sua estreia na meia aconteceu em 1h42’17”, equivalente a um ritmo médio de 4’50”/km, aos 51 anos de idade.

    Muito mais do que um bom resultado, esse tempo revela uma preparação paciente, sólida e plenamente compatível com a distância.

    Ao observar o gráfico ao longo dos anos, percebe-se algo esperado em qualquer carreira esportiva de longa duração: os tempos oscilam, em alguns momentos melhoram, em outros aumentam.

    Há provas claramente voltadas para desempenho e outras disputadas em contexto preparatório, turístico ou simplesmente como forma de manter o vínculo competitivo.

    E isso torna a trajetória profundamente humana, já que a carreira de um corredor raramente evolui em linha reta.

    Ela acompanha as mudanças da própria vida:

    • o trabalho;
    • as lesões;
    • a motivação;
    • o envelhecimento;
    • as diferentes prioridades de cada fase.

    Apesar dessas oscilações, um aspecto permanece constante: desde 2007, Laerte jamais deixou de participar regularmente das provas. Mesmo convivendo com as mudanças naturais da idade, manteve-se competitivo durante duas décadas consecutivas.

    Laerte com sua galeria de troféus; destaque em sua categoria nas provas regionais.

    E do ponto de vista técnico, isso revela algo bastante interessante; talvez tenha sido justamente a meia maratona a distância que mais sustentou sua longevidade esportiva.

    A explicação faz sentido também sob a ótica da fisiologia. Enquanto a maratona impõe enorme desgaste muscular, articular e metabólico — especialmente após os 60 anos — a meia maratona permite:

    • recuperação mais rápida;
    • maior frequência competitiva;
    • menor desgaste estrutural;
    • manutenção mais sustentável da performance ao longo dos anos.

    Sob essa perspectiva, os dois gráficos assumem papéis diferentes: as maratonas representam os grandes capítulos da história; as meias maratonas revelam aquilo que sustenta esses capítulos; a continuidade.

    Mesmo depois dos 65 anos, Laerte continuou entregando resultados bastante respeitáveis para um corredor máster, preservando não apenas sua participação frequente, mas também seu espírito competitivo.

    Essa trajetória ajuda a desmontar a ideia de que envelhecer significa abandonar objetivos esportivos.

    Na prática, o que muda não é apenas a capacidade física. Muda, principalmente, a maneira como o atleta passa a se relacionar com o treinamento, com a recuperação e com suas próprias expectativas.

    Por isso, a decisão de encerrar o ciclo das maratonas e direcionar o foco para provas de até 21 km parece uma evolução absolutamente natural.

    Ao olhar toda a trajetória do Laerte, percebe-se que a meia maratona nunca foi apenas uma etapa intermediária rumo aos 42 quilômetros. Ela sempre foi um dos pilares que sustentaram sua vida esportiva durante vinte anos consecutivos.

    A seguir, o gráfico da trajetória do Laerte que cruza performance com volume de treinamento.

    Gráfico relacionando o volume anual de treinamento com o pace nas meias maratonas ao longo de 20 anos de corrida.
    A linha laranja mostra a curva dos paces nas 35 Meias Maratonas. A linha azul mostra os volumes anuais de corrida,

    Talvez a primeira conclusão importante seja a de que a longevidade esportiva não parece ter sido construída por extremos, mas por continuidade.

    O gráfico mostra um corredor que passou praticamente duas décadas mantendo regularidade de treinamento, mesmo atravessando:

    • oscilações naturais de performance;
    • envelhecimento;
    • algumas lesões;
    • mudanças de rotina;
    • diferentes fases da vida.

    Em alguns momentos, o aumento de volume claramente ajudou na evolução dos resultados; como vemos entre 2014 e 2017.

    Entre 2007 e 2013, vemos crescimento progressivo dos volumes anuais acompanhado de performances sólidas nas Meias Maratonas, culminando nos melhores momentos competitivos do Laerte na distância.

    E isso faz sentido. Nos primeiros anos da construção aeróbia, aumentar volume costuma produzir respostas importantes:

    • melhora da eficiência cardiovascular;
    • maior tolerância ao esforço;
    • melhor economia de corrida;
    • aumento da resistência muscular.

    O gráfico também mostra algo importante: mais volume nem sempre significou melhores resultados (2019 a 2020), e talvez esse seja um dos pontos mais interessantes de toda a análise.

    Em vários momentos da trajetória, o Laerte conseguiu sustentar performances competitivas mesmo sem atingir os maiores volumes da carreira. (2012 a 2015).

    Isso sugere algo valioso no corredor máster: com o passar dos anos, experiência e inteligência de treinamento começam a compensar parte da perda fisiológica natural do envelhecimento.

    O corredor passa a depender menos de “quanto treina” e mais de:

    • como treina;
    • como recupera;
    • como distribui as cargas;
    • como administra o próprio corpo.

    Isso aparece claramente após os 60 anos (2016 em diante). Os volumes já não crescem como antes; decrescem gradualmente, com um pico de queda., e as performances declinam ligeiramente e junto, mas permanecem respeitáveis para um atleta máster entre 60 e 65 anos.

    E aqui surge talvez uma das maiores lições do gráfico: a adaptação; porque o envelhecimento não exige apenas redução de carga, ele exige refinamento.

    A recuperação passa a ter mais importância. A musculatura periférica — especialmente panturrilhas nesse caso, exige atenção constante, o fortalecimento segue com sua importância, o treinamento deixa de ser apenas acúmulo de quilômetros e passa a ser gestão de desgaste.

    Laerte fortalecendo as panturrilhas.

    Outro detalhe é que o segundo maior pico de volume (2250 km) coincide com a melhor performance, mas os outros maiores volumes anuais da carreira (2259 km e 2170 km) não coincidem exatamente com os outros melhores resultados absolutos nas meias maratonas.

    E isso desmonta a ideia no esporte amador, de que desempenho melhora de maneira linear apenas aumentando quilometragem.

    Na prática, principalmente no corredor máster, existe um ponto de equilíbrio mais sensível entre:

    • estímulo;
    • recuperação;
    • disponibilidade física;
    • sustentabilidade.

    Talvez seja por isso que a linha azul do volume anual oscila ao longo dos anos (1990 km, 1295 km) sem que a linha vermelha da performance “despenque” na mesma proporção.

    O que sustentou o Laerte por quase vinte anos não foi treinar cada vez mais. Foi continuar treinando, e talvez essa seja a principal mensagem escondida nesse gráfico.

    A performance pode oscilar; os tempos podem subir, as fases da vida mudam; mas a consistência prolongada ainda continua sendo uma das ferramentas mais poderosas do treinamento de corrida.

    Gráfico da IDADE x PACE

    A Idade Realmente Destrói sua Corrida?

    Muitas pessoas provavelmente esperariam encontrar uma linha de declínio constante no gráfico que segue; quanto mais idade, pior a performance. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

    Gráfico mostrando a relação entre idade e pace nas meias maratonas durante duas décadas de treinamento de corrida.

    Houve um platô de resultados superiores por 3 anos (52 aos 54 anos), após a estreia, e logo melhorou mais um pouco.

    Foram mais 5 anos (55 aos 60 anos) praticamente estáveis, para depois encontrar sua melhor performance com 1h35’36”, de modo que, dos 51 aos 60 anos, o Laerte não apenas se manteve competitivo; ele evoluiu.

    Isso ajuda a desmontar a ideia comum de que o envelhecimento automaticamente destrói a performance no endurance.

    Na prática, principalmente em corredores que começam mais tarde, experiência, maturidade aeróbia e inteligência de treinamento podem evoluir mais rápido do que o próprio envelhecimento fisiológico durante vários anos.

    E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes do gráfico: performance versus envelhecimento não aparece de maneira linear; a curva não despenca, ela oscila.

    Existem:

    • evoluções;
    • platôs;
    • pequenas quedas;
    • retomadas;
    • adaptações;
    • diferentes fases de estabilidade competitiva.

    Isso torna o gráfico mais humano, porque a performance esportiva real não acompanha uma linha reta; acompanha a vida.

    Mesmo após os 60 anos, o Laerte ainda consegue entregar performances sólidas para um corredor master.

    E talvez isso revele algo importante: o corredor experiente passa progressivamente a depender menos apenas da fisiologia bruta e mais de fatores como:

    • eficiência;
    • estratégia;
    • distribuição de esforço;
    • recuperação;
    • conhecimento do próprio corpo;
    • maturidade emocional.                                       

    Dos 65 aos 69 anos, o Laerte perdeu 8,7% de performance nas meias maratonas; uma média de 1,7% ao ano.

    O gráfico sugere um declínio de percentual esperado, gradual e bem preservado para um corredor máster nessa faixa etária.

    Os dados mostram que o envelhecimento existe, mas talvez mostre também algo ainda mais interessante: o quanto é possível desacelerar esse processo quando existe consistência construída ao longo de décadas.

    Como vemos entre os 65 e 69 anos, não existe colapso, existe adaptação. Os tempos sobem gradualmente, mas o vínculo competitivo com a corrida permanece vivo.

    Laerte participando de sua meia maratona mais recente, jun/2026.
    Laerte correndo sua meia maratona mais recente, em junho de 2026.

    E talvez a pergunta mais interessante desse gráfico não seja quanto o Laerte perdeu com a idade…mas quanto conseguiu preservar ao longo dela.

    Porque o aspecto mais impressionante da trajetória de um corredor master certamente não é continuar melhorando para sempre; mas continuar correndo, competindo e se adaptando por muito tempo.

    A Frequência de Treinos Semanais

    Ao longo desses 20 anos de registros, o Laerte treinou em média, 48 das 52 semanas de cada ano. A única exceção relevante foi 2018, temporada marcada por uma cirurgia, que reduziu significativamente as condições para os treinamentos.

    Considerando as 955 semanas de treinos executadas e analisadas, a frequência média vista no gráfico que segue foi de 4,1 treinos de corrida por semana; um número que permaneceu surpreendentemente estável ao longo de toda a trajetória.

    Gráfico da frequência semanal de treinos de corrida ao longo de 955 semanas consecutivas.

    O corredor evoluiu mantendo uma frequência relativamente constante, normalmente entre 4 e 5 sessões semanais. Não houve uma tendência clara ou picos expressivos de aumento da frequência ao longo da carreira, mas uma enorme capacidade de mantê-la.

    Outro dado chama a atenção: apenas um terço das semanas ficou abaixo de quatro sessões de corrida e mesmo nessas ocasiões, o treinamento raramente era interrompido por completo, quando o trabalho de força continuava presente por meio de duas sessões semanais de musculação até 2015 e circuito funcional de 2015 até o momento.

    Laerte no circuito funcional, do trabalho de força do Clube da Corrida Bertolino.

    Mais do que revelar quantas vezes um corredor treinou, um gráfico assim evidencia um dos pilares de sua evolução: a capacidade de manter uma rotina consistente durante décadas.

    Enquanto muitos atletas alternam períodos de grande dedicação com longas interrupções, o Laerte construiu sua trajetória sobre a repetição contínua de semanas produtivas, ano após ano.

    O resultado é uma lição valiosa para corredores amadores: grandes volumes e desempenhos relativamente expressivos normalmente não surgem de semanas isoladas de esforço extremo, mas da soma de milhares de treinos realizados com regularidade ao longo do tempo.

    Talvez o aspecto mais impressionante não seja a média de 4,1 treinos semanais, mas o fato de ela ter permanecido praticamente inalterada por duas décadas.

    O gráfico sugere que a evolução do atleta ocorreu muito mais pelo aumento gradual da qualidade e do volume dos treinos, e não pelo acréscimo de dias de corrida na semana.

    Os Picos de Mesociclos Anuais

    Em treinamento de corrida, os mesociclos são normalmente blocos de quatro semanas consecutivas de treino.

    Neste estudo foi identificado, para cada temporada, o mesociclo mais volumoso do ano, permitindo visualizar, no gráfico que segue, os períodos de maior carga concentrada ao longo da carreira do atleta.

    Gráfico dos maiores mesociclos anuais de treinamento de corrida, mostrando os picos de volume semanais em 20 anos de preparação.

    Entre 2007 e 2013 os dados revelaram uma evolução clara da capacidade de treinamento. Após 2008, poucas semanas dentro desses mesociclos ficaram abaixo dos 40 km.

    Em contrapartida, tornaram-se cada vez mais frequentes as semanas acima dos 60 km (2012 a 2014 e 2016 a 2023), evidenciando temporadas voltadas para provas de longa distância, especialmente meias maratonas e maratonas.

    Ao longo dos anos, surgem diversos blocos com picos semanais entre 60 e 70 km, e em alguns momentos próximos ou chegando aos 80 km (2016 e 2017).

    Mais do que mostrar semanas isoladas de grande volume, o gráfico evidencia a capacidade de sustentar cargas elevadas durante períodos prolongados; característica típica de atletas que desenvolveram uma sólida base aeróbia.

    O que o Gráfico Realmente Mostra

    O que impressiona não é a semana de 80 km. Mas o seguinte contexto:

    2016

    • Semana 25 | 77 km
    • Semana 26 | 51 km
    • Semana 27 | 80 km
    • Semana 28 | 54 km

    2017

    • Semana 24 | 67 km
    • Semana 25 | 78 km
    • Semana 26 | 58 km
    • Semana 27 | 80 km

    Isso significa que o atleta não estava apenas atingindo uma semana de pico ocasional. Ele estava convivendo com semanas altas durante um bloco inteiro de preparação.

    Essa é uma diferença enorme: uma semana de 80 km pode ser fruto de entusiasmo; várias semanas consecutivas entre 60 e 80 km são fruto de adaptação.

    Três Fases Visíveis no Gráfico    

    Fase 1 – Construção (2006–2010)

    Os maiores mesociclos variam com semanas entre 25 e 55 km. O foco parece estar na construção gradual da capacidade aeróbia e na consolidação do hábito de treinamento. Ainda não aparecem blocos sustentados de alta quilometragem.

    Fase 2 – Salto de capacidade (2011–2015)

    O cenário muda. Aparecem diversas semanas acima dos 60 km.

    Destaques:

    • 2011 → pico de 54 km
    • 2012 → pico de 72 km
    • 2013 → pico de 74 km
    • 2014 → pico de 72 km

    É o período em que o corredor passa a demonstrar capacidade consistente para suportar cargas típicas de preparação para maratona.

    Fase 3 – Consolidação da maturidade aeróbia (2016–2025)

    Aqui estão os maiores blocos da carreira e semanas destaques de picos.

    • 80 km em 2016
    • 80 km em 2017
    • 73 km em 2019
    • 72 km em 2020
    • 71 km em 2023
    • 70 km em 2026

    O mais interessante é que esses valores aparecem repetidamente. Ou seja, não foram episódios isolados. O organismo passou a reconhecer esse nível de carga como algo treinável e sustentável.

    Conclusões

    O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam aos Corredores Amadores

    A evolução do corredor aconteceu baseada numa frequência relativamente estável, ele aumentou gradualmente sua capacidade de sustentar volumes mais elevados durante blocos completos de treinamento.

    Isso se alinha com o gráfico anterior de frequência semanal. Enquanto a frequência permaneceu próxima de 4 treinos por semana durante duas décadas, os mesociclos mais fortes praticamente dobraram de tamanho.

    Em outras palavras: o segredo não foi correr mais vezes. Foi tornar cada ciclo de treinamento mais robusto, mais consistente e mais sustentável.

    Quando observamos os resultados das provas, os volumes anuais, a frequência de treinos e agora os picos dos mesociclos, fica evidente que os melhores momentos da trajetória do Laerte não foram construídos por períodos isolados de treinamento intenso.

    O que aparece ao longo de praticamente vinte anos é uma combinação rara de regularidade, progressão gradual e capacidade de sustentar cargas relevantes de treinamento por longos períodos.

    Os mesociclos entre 60 e 80 km semanais não surgem como eventos excepcionais, mas como consequência natural de uma rotina consolidada, sustentada por semanas consecutivas de treinamento consistente.

    Talvez esse seja o principal ensinamento que emerge da análise dessas 955 semanas de treino: a performance não foi resultado de alguns grandes ciclos, mas da repetição disciplinada de bons ciclos ao longo de duas décadas.

    “O diferencial do Laerte nunca foi um treinamento extraordinário; foi a extraordinária capacidade de repetir o treinamento ordinário durante vinte anos.”

    E isso tem um valor enorme para corredores amadores, porque torna o caso dele replicável. A mensagem implícita não é “treine como um profissional”, mas:

    “Permaneça treinando por tempo suficiente para que a consistência faça seu trabalho.”

    Nenhum dos números que acabamos de ver, individualmente, impressiona tanto quanto o conjunto. Um corredor pode fazer um ano de 4 treinos por semana, pode fazer uma temporada com picos de 70 km semanais, pode correr uma maratona, mas, repetir isso durante duas décadas é algo completamente diferente.

    Por isso, ao longo da análise, o Laerte deixa de ser apenas um corredor que correu bem. Ele passa a representar um conceito que trabalhamos frequentemente por aqui: a consistência como habilidade.

    Muita gente trata consistência como característica de personalidade ou motivação. Os dados do Laerte sugerem a consistência como uma competência desenvolvida ao longo do tempo, construída pela repetição de escolhas adequadas.

    E talvez seja justamente por isso que a trajetória dele seja tão valiosa para ser estudada. Não porque ela mostra o que fazer durante uma semana perfeita, mas porque mostra o que acontece quando semanas suficientemente boas são repetidas durante vinte anos.


    ENTREVISTA

    Conversando com o Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida

    A História

    C.B. – Quando você começou a correr?
    LAERTE – Comecei em 2005, e em 2006 com acompanhamento técnico do prof. Claudio.

    C.B. – O que fez você permanecer na corrida durante tantos anos?
    LAERTE – Desde o começo foi para permanecer saudável.

    C.B. – Em algum momento pensou em parar definitivamente?
    LAERTE – Sim, em alguns momentos pensei em parar devido a algumas lesões, falta de tempo…mas a vontade de continuar correndo superou tudo.

    C.B. – Se pudesse resumir sua trajetória em uma palavra, qual seria?
    LAERTE – Persistência

    C.B. – Você imaginava que um dia teria 20 anos consecutivos registrados?
    LAERTE – Não, nunca imaginei, não gosto de projetar muito o futuro, deixo as coisas irem acontecendo.

    O Processo

    C.B. – Como você organizava sua rotina para conseguir treinar tantos anos?
    LAERTE – Sempre trabalhei muito (sou engenheiro), viajava muito, para cumprir a planilha de treinos sempre carreguei no carro uma mochila com tênis, camiseta, shorts… durante a semana sempre programei os treinos no final do dia, sempre depois das 18hs e no fim de semana treinava de manhã.

    C.B. – O que fazia quando não tinha vontade de treinar?
    LAERTE – Aconteceu várias vezes, ia assim mesmo.

    C.B. – Você sempre gostou de correr ou aprendeu a gostar?
    LAERTE – Nunca gostei de correr, pratiquei vários outros esportes na juventude, basquete, judô, futebol… talvez essa cultura de esportista tenha despertado a vontade de fazer um esporte que fosse individual, que só dependia de mim.

    C.B. – Qual foi o maior desafio para manter a consistência?
    LAERTE – Sempre o maior desafio foi conciliar o trabalho, família, vida social…

    C.B. – Como conciliou trabalho, família e treinamento?
    LAERTE – Como disse, no trabalho ia treinar sempre a tarde/noite, na medida do possível tentei dar atenção à família, consegui com a ajuda da minha esposa criar muito bem os meus dois filhos.

    Os aprendizados

    C.B. – Hoje, olhando para trás, o que você faria diferente?
    LAERTE – Nas lesões eu não forçaria a barra para voltar antes.

    C.B. – Qual foi o maior erro que cometeu como corredor?
    LAERTE – Treinar sem dar o tempo necessário para recuperar de lesão

    C.B. – O que aprendeu sobre seu corpo nesses 20 anos?
    LAERTE – O nosso corpo emite sinais, você precisa saber interpretar esses sinais, cansaço fora do normal, fale com o seu técnico, talvez diminuir o volume/intensidade, uma dorzinha incomodando, pode ser o aviso de uma lesão que vem por ai.

    C.B. – Qual foi o melhor conselho que recebeu?
    LAERTE – Do meu técnico Claudio, – Nunca saia numa corrida em um ritmo muito forte, ali na frente a conta vem.

    C.B. – Qual conselho você daria para quem começou agora?
    LAERTE – Seja persistente, não queira queimar etapas, um passo de cada vez, os resultados virão.

    As Histórias

    C.B. – Qual foi a prova mais emocionante?
    LAERTE – A prova mais emocionante foi a Maratona de Nova York, em 2014, muita gente incentivando no percurso inteiro.

    C.B. – Qual foi o treino mais difícil que você lembra?
    LAERTE – Foi um treino para a Maratona de Porto Alegre, 39 km, teve chuva, frio e diarreia, terrível…

    C.B. – Existe alguma corrida que nunca vai esquecer?
    LAERTE – Acho que foi a minha primeira maratona (Porto Alegre), consegui terminar bem e ter confiança para fazer outras.

    C.B. – Qual foi sua maior superação?
    LAERTE – Maratona de São Paulo, cãibra no km 40, fui mancando até o final, nos últimos 100 metros a  cãibra foi tão intensa que achei que ia desmaiar.

    C.B. – Tem alguma situação engraçada pra contar?
    LAERTE – Maratona de Barcelona, estava voltando de uma cirurgia que tinha feito no joelho (menisco), estava bem, pois bem, no km 41 fui ultrapassado por uma anã, devia ter um metro de altura, enquanto eu dava um passo ela dava quatro, achei um desaforo, tirei forças de onde eu não tinha mas consegui ultrapassá-la, achei que tinha deixado ela bem para traz e quando ultrapassei o pórtico de chegada ela estava ao meu lado, acho que ganhei dela pela ponta do tênis.

    C.B. – Alguma prova em que tudo deu errado?
    LAERTE – Algumas, a mais marcante foi em uma maratona em São Paulo em que tive dores intensas na posterior da coxa, abandonei na metade da prova.

    C.B. – Qual foi o momento em que mais se emocionou correndo?
    LAERTE – Toda maratona e emocionante, quando você termina é uma mistura de dor, alegria, superação…Como disse, o momento mais emocionante foi na maratona de Porto alegre na minha primeira maratona quando encontrei minha esposa e meus amigos.

    O que os Gráficos não Mostram

    C.B. – O que não aparece nesses gráficos e você ressaltaria?
    LAERTE – Os gráficos mostram evoluções, retrocessos…esses gráficos não mostram as fases da vida pessoal, trabalho…acho que eles se completariam.

    C.B. – Que parte da sua história ninguém vê quando olha todos esses números?
    LAERTE – Os numeras são frios, não contam o que se passou, chuva, frio, calor, dores…

    C.B. – Houve fases difíceis que, olhando os dados, parecem normais?
    LAERTE – Sim, houve fases difíceis e que foram superadas e não aparecem nos dados.

    C.B. – Qual foi o preço para manter essa consistência?
    LAERTE – Não paguei preço nenhum, muito pelo contrário, ganhei saúde, amigos, autoestima.

    C.B. – O que significou correr durante 20 anos para sua vida, além da corrida?
    LAERTE – A corrida me ensinou a ter persistência, resiliência, disciplina, a vida ficou mais leve de ser vivida.

  • Os 5 Fundamentos do Método Corrida com Longevidade

    Os 5 Fundamentos do Método Corrida com Longevidade

    No artigo anterior, apresentei o Método Corrida com Longevidade, explicando a filosofia que orienta meu trabalho como treinador e a visão de que evoluir na corrida vai muito além de correr mais ou mais rápido.

    A proposta do método é ajudar o corredor a construir resultados consistentes, respeitando o próprio corpo e pensando na corrida como um projeto de longo prazo.    

    Agora é hora de conhecer os cinco fundamentos que sustentam esse método na prática. Eles nasceram da combinação entre os princípios clássicos do treinamento esportivo e mais de duas décadas acompanhando corredores dos mais diferentes perfis, objetivos e níveis de experiência.           

    Esses fundamentos não funcionam de forma isolada. Eles se complementam e formam um sistema: a individualização orienta as decisões, a gestão da carga controla os estímulos, a progressão organiza a evolução, o corpo fornece o feedback necessário para os ajustes e a disciplina sustentável mantém todo esse processo acontecendo ao longo dos anos.

    Diagrama com os cinco fundamentos do Método Corrida com Longevidade: Individualização Profunda, Gestão Inteligente da Carga, Progressão Estruturada, Corpo como Sistema de Feedback e Disciplina Sustentável.

    Nenhum desses fundamentos é uma técnica isolada ou uma regra rígida. Juntos, eles formam uma maneira de pensar o treinamento – uma forma de tomar decisões que respeita tanto a ciência quanto a individualidade de cada corredor.

    A seguir, vamos entender cada um deles e por que essa combinação é a base para evoluir na corrida de forma consistente, segura e duradoura.

    Individualização Profunda

    Nenhum plano de treinamento funciona igualmente para todos. O primeiro fundamento do Método Corrida com Longevidade parte justamente desse princípio: compreender o corredor antes de prescrever o treino.

    O primeiro fundamento do Método Corrida com Longevidade é a Individualização Profunda. Ele parte de um princípio simples, mas frequentemente ignorado: cada corredor responde de forma diferente ao treinamento.

    Não é raro que corredores busquem planilhas prontas, copiem treinos de amigos ou sigam programas encontrados na internet. Embora essa prática pareça lógica, ela desconsidera um aspecto essencial do treinamento: o mesmo estímulo pode produzir respostas completamente diferentes em organismos distintos.      

    A adaptação ao treino depende de diversos fatores, como histórico esportivo, idade biológica, capacidade de recuperação, rotina, nível de estresse e até do histórico de lesões.

    Por isso, dois corredores podem realizar exatamente o mesmo treino e obter resultados muito diferentes. Enquanto um evolui, outro pode acumular fadiga, estagnar ou até desenvolver lesões.

    Esse fundamento está diretamente relacionado ao Princípio da Individualidade Biológica, um dos pilares da ciência do treinamento esportivo. Ele estabelece que cada organismo possui uma capacidade própria de adaptação e, por isso, precisa receber estímulos compatíveis com sua realidade.

    Na prática, individualizar o treinamento vai muito além de ajustar ritmos ou distâncias. Significa observar como cada corredor responde às cargas de treino, respeitar seu tempo de recuperação e adaptar o planejamento de acordo com sua evolução.

    Mesmo quem treina por conta própria pode aplicar esse conceito fazendo perguntas simples: o treino respeita meu nível atual de condicionamento? Estou me recuperando adequadamente entre as sessões? Estou evoluindo de forma consistente ou apenas acumulando cansaço?

    A Individualização Profunda é o ponto de partida do método e reconhece que não existe um treinamento ideal para todos.

    No Método Corrida com Longevidade, a evolução começa quando deixamos de perguntar ‘qual é o melhor treino’ e passamos a perguntar ‘qual é o melhor treino para este corredor, neste momento’.

    👉 Quer aprofundar esse fundamento?
    📺 Assista ao vídeo “Por que Copiar Treinos não Funciona na Corrida”, onde explico esse conceito com exemplos práticos.

    Gestão Inteligente da Carga

    Treinar forte o tempo todo não é sinônimo de evoluir mais rápido. O segundo fundamento do Método Corrida com Longevidade mostra que a evolução nasce do equilíbrio entre estímulo e recuperação, transformando esforço em adaptação por meio de uma gestão inteligente da carga.

    Respeitar a individualidade do corredor é apenas o primeiro passo. O segundo fundamento do Método Corrida com Longevidade consiste em administrar a carga de treinamento de forma inteligente, buscando o equilíbrio entre estímulo e recuperação.

    Entre corredores amadores, ainda é comum a ideia de que um treino só foi realmente bom quando termina com sensação de exaustão. Muitos associam o cansaço extremo à evolução, como se treinar sempre no limite fosse o caminho mais rápido para melhorar o desempenho.

    Na prática, porém, acontece justamente o contrário: o organismo responde à carga que recebe, e não ao esforço que o corredor acredita ter feito. A Gestão Inteligente da Carga parte de um princípio simples: treinar no limite fisiológico, e não no limite do ego.

    O objetivo do treinamento não é provar que se consegue suportar mais esforço, mas aplicar estímulos suficientes para gerar adaptação sem ultrapassar a capacidade de recuperação do organismo.

    Quando todos os treinos passam a ser intensos, os diferentes estímulos perdem sua função. Sessões regenerativas deixam de promover recuperação, treinos específicos são realizados sob fadiga acumulada e o corpo entra em um ciclo de desgaste contínuo.

    O resultado costuma aparecer na forma de estagnação, dificuldade para evoluir, dores recorrentes e maior risco de lesões.  

    A ciência do treinamento esportivo mostra que a evolução depende de um processo contínuo de estímulo, recuperação e adaptação. Para que esse ciclo aconteça, é necessário equilibrar cuidadosamente volume e intensidade ao longo do planejamento, respeitando a capacidade atual de cada corredor.

    Na prática, isso significa compreender que treinos leves têm tanto valor quanto treinos intensos, pois cada sessão cumpre uma função específica dentro do processo de evolução.

    Em muitos casos, o corredor melhora seu desempenho não porque passou a treinar mais, mas porque passou a distribuir melhor as cargas ao longo das semanas

    A Gestão Inteligente da Carga transforma princípios clássicos do treinamento em decisões práticas do dia a dia. Ao aplicar o estímulo certo, na intensidade adequada e no momento oportuno, cria-se um ambiente favorável para que o organismo evolua de forma consistente, sustentável e com menor risco de interrupções por fadiga ou lesão.

    👉 Quer aprofundar esse fundamento?
    📺 Assista ao vídeo “O Erro de Treinar Sempre no Limite”, onde explico esse conceito com exemplos práticos.

    Progressão Estruturada

    A evolução consistente não nasce da pressa, mas na continuidade. O terceiro fundamento do Método Corrida com Longevidade mostra que crescer de forma planejada e respeitar os diferentes tempos de adaptação do organismo é o que permite alcançar resultados duradouros.

    Depois de individualizar o treinamento e administrar corretamente as cargas, surge uma nova pergunta: como fazer esse treinamento evoluir ao longo do tempo? É justamente essa a função do terceiro fundamento do Método Corrida com Longevidade: a Progressão Estruturada.

    Muitos corredores acreditam que evoluir significa simplesmente correr mais, aumentar a intensidade ou acrescentar quilômetros à planilha. Embora isso possa gerar resultados no curto prazo, nem sempre respeita a capacidade de adaptação do organismo.

    A evolução consistente depende menos da velocidade com que se aumenta a carga e mais da forma como esse crescimento é organizado.

    Esse fundamento aplica, na prática, o Princípio da Sobrecarga Progressiva, segundo o qual o corpo precisa receber estímulos gradualmente maiores para continuar evoluindo.

    Entretanto, esses aumentos só produzem adaptações positivas quando são distribuídos de maneira planejada, permitindo que músculos, tendões, articulações e demais estruturas acompanhem esse processo.

    Um dos erros mais comuns entre corredores amadores é deixar que a motivação dite o ritmo da evolução. Dias de grande entusiasmo frequentemente levam a aumentos bruscos de volume ou intensidade, criando picos de treinamento que o organismo ainda não está preparado para sustentar.

    O resultado costuma aparecer mais adiante, na forma de fadiga acumulada, perda de rendimento ou lesões que interrompem justamente o processo que se pretendia acelerar.

    A Progressão Estruturada propõe um caminho diferente. Em vez de crescer por impulsos, o treinamento passa a seguir uma sequência lógica de estímulo, adaptação e consolidação.

    Isso significa alternar momentos de aumento de carga com períodos de estabilização e recuperação, respeitando o tempo necessário para que o organismo incorpore cada nova adaptação antes de avançar para o próximo desafio.

    Na prática, esse fundamento exige planejamento, paciência e constância. A verdadeira evolução não é construída por treinos excepcionais isolados, mas pela capacidade de repetir bons treinos durante semanas, meses e anos.   

    É essa continuidade que transforma pequenas melhorias em grandes resultados e permite que o corredor desenvolva desempenho sem abrir mão da saúde e da longevidade esportiva. 

    👉 Quer aprofundar esse fundamento?
    📺 Assista ao vídeo “Por que Evoluir Rápido Demais Prejudica Sua Corrida”, onde explico esse conceito com exemplos práticos.

    Corpo como Sistema de Feedback

    O corpo raramente falha sem antes emitir sinais. O quarto fundamento do Método Corrida com Longevidade ensina que interpretar essas respostas faz parte do treinamento e permite ajustar o processo antes que pequenos alertas se transformem em grandes problemas.

    Depois de individualizar o treinamento, administrar corretamente as cargas e organizar sua progressão ao longo do tempo, surge um novo desafio: interpretar como o organismo responde a todo esse processo. Esse é o papel do quarto fundamento do Método Corrida com Longevidade: compreender o corpo como um sistema de feedback.

    Muitos corredores enxergam dor, fadiga ou oscilações de rendimento apenas como obstáculos a serem superados. No entanto, essas respostas representam informações importantes sobre a forma como o organismo está assimilando o treinamento.

    O corpo raramente “quebra” de forma inesperada; na maioria das vezes, ele envia sinais antes que o problema se instale.

    Esses sinais podem aparecer de diversas maneiras: uma fadiga que demora mais do que o habitual para desaparecer, uma dor localizada que não segue o padrão normal de recuperação, alterações na qualidade da passada ou uma queda de desempenho sem motivo aparente.

    Isoladamente, nenhum desses sinais confirma um problema, mas, quando observados em conjunto, ajudam a indicar se a carga aplicada está sendo bem absorvida ou se ajustes são necessários.

    Esse fundamento está diretamente relacionado ao Princípio da Adaptação. O treinamento só produz evolução quando o organismo consegue responder positivamente aos estímulos recebidos.

    Observar essa resposta permite identificar o momento adequado para manter, reduzir ou aumentar a carga, tornando o processo muito mais seguro e eficiente.

    Na prática, isso significa desenvolver o hábito de avaliar não apenas o treino realizado, mas principalmente a forma como o corpo reagiu a ele.

    Perguntas simples, como “essa fadiga é esperada?”, “essa dor é diferente do habitual?” ou “meu movimento permaneceu eficiente durante toda a sessão?” ajudam o corredor a construir uma percepção cada vez mais refinada sobre o próprio organismo.

    Entender o corpo como um sistema de feedback transforma a relação com o treinamento. Em vez de ignorar os sinais ou enxergá-los como demonstração de fraqueza, o treinador/corredor, aprende a utilizá-los como ferramenta para tomar melhores decisões.

    Assim, reduz o risco de lesões, melhora a qualidade dos ajustes ao longo do planejamento e constrói uma evolução mais consistente e duradoura.

    👉 Quer aprofundar esse fundamento?
    📺 Assista ao vídeo “O Seu Corpo Tentando Te Avisar”, onde explico esse conceito com exemplos práticos.

    Disciplina Sustentável  

    A motivação inicia muitos corredores, mas é a disciplina que os mantém em movimento. O quinto fundamento do Método Corrida com Longevidade mostra que a constância não depende de força de vontade permanente, mas de um treinamento que consiga se integrar de forma sustentável à vida de cada pessoa.

    O quinto fundamento do Método Corrida com Longevidade é, ao mesmo tempo, um princípio e uma consequência dos quatro anteriores.

    Quando o treinamento respeita a individualidade do corredor, administra corretamente as cargas, evolui de forma planejada e considera os sinais do organismo, torna-se muito mais fácil manter a regularidade ao longo dos anos. É isso que chamamos de Disciplina Sustentável.

    Muitas pessoas acreditam que permanecer treinando depende principalmente de motivação. No entanto, a motivação é instável: varia conforme a rotina, o trabalho, a família, o humor e inúmeros fatores da vida cotidiana.

    A disciplina, por outro lado, não depende de entusiasmo permanente, mas da construção de hábitos compatíveis com a realidade de cada corredor.  

    Por isso, dentro do método, o treinamento não é organizado apenas em função da performance, mas também da vida da pessoa. Antes de pensar em volume, intensidade ou metas esportivas, é preciso criar uma rotina que possa ser mantida de forma consistente.

    Quando o treino respeita a disponibilidade, os compromissos e os limites individuais, a prática deixa de ser um esforço temporário e passa a fazer parte do estilo de vida.

    Esse fundamento está diretamente relacionado aos princípios da Continuidade, da Adaptação e da Reversibilidade. O organismo evolui quando recebe estímulos frequentes e progressivos, mas também perde parte dessas adaptações quando longos períodos sem treinamento interrompem o processo.

    Por isso, manter a sequência de treinos costuma ser mais importante do que realizar sessões excepcionalmente intensas de forma esporádica.

    Na prática, disciplina sustentável não significa rigidez. Significa preservar a continuidade mesmo quando o planejamento precisa ser ajustado. Alguns treinos serão reduzidos, outros adiados e, em determinadas fases da vida, será necessário adaptar objetivos. O que não deve ser interrompido é o compromisso com o processo.

    Mais do que formar corredores mais rápidos, esse fundamento busca formar corredores capazes de permanecer ativos por muitos anos. Porque, no longo prazo, a evolução pertence menos a quem treina mais forte e muito mais a quem consegue continuar treinando.

    👉 Quer aprofundar esse fundamento?
    📺 Assista ao vídeo “Disciplina Sustentável: O que Mantém o Corredor Ativo por Anos?”, onde explico esse conceito com exemplos práticos.

    Além dos Fundamentos

    Ao longo deste artigo, conhecemos os cinco fundamentos que sustentam o Método Corrida com Longevidade:

    • Individualidade Biológica: compreender que cada corredor responde de forma única aos estímulos de treino.
    • Gestão Inteligente da Carga: aplicar a quantidade certa de esforço, no momento certo.
    • Progressão Estruturada: evoluir respeitando o tempo de adaptação do organismo.
    • Corpo como Sistema de Feedback: interpretar os sinais que o corpo fornece antes que pequenos problemas se tornem grandes limitações.
    • Disciplina Sustentável: construir uma rotina capaz de permanecer por anos, e não apenas por algumas semanas.

    Isoladamente, cada fundamento já contribui para um treinamento mais consciente. Juntos, porém, eles formam um sistema integrado, em que cada decisão respeita o funcionamento do organismo e favorece uma evolução consistente ao longo do tempo.

    Esse é o princípio que orienta o Método Corrida com Longevidade: não buscar resultados rápidos a qualquer custo, mas construir uma trajetória sólida, capaz de permitir que o corredor continue evoluindo sem precisar interromper sua caminhada por excesso de carga, lesões ou desmotivação.  

    No fim das contas, correr por muitos anos não depende apenas de força de vontade ou talento. Depende, principalmente, de compreender que a evolução é consequência de boas decisões repetidas ao longo do tempo.

    Porque, na corrida, o verdadeiro sucesso não está apenas em cruzar uma linha de chegada. Está em continuar construindo uma relação saudável com a corrida ao longo da vida.

  • O Método Corrida Com Longevidade

    O Método Corrida Com Longevidade

    Durante mais de 20 anos formando corredores, eu desenvolvi uma forma específica de organizar o treinamento de corrida.

    Tudo sobre a Corrida, que você vê neste Blog — cada orientação técnica, cada reflexão sobre comportamento, cada ajuste de perspectiva — tem base teórica e prática.

    Isso tudo foi construído ao longo do tempo; com erros, ajustes, observação, e, principalmente, com repetição. Hoje, essa forma tem nome: Método Corrida Com Longevidade.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo: 
    📺 Corrida com Longevidade: O Método que Organiza Sua Evolução  

    Esse método transcende a área técnica e alcança também o campo comportamental do corredor, devido à minha formação multilateral e construída em múltiplas frentes:

    • Décadas como atleta, treinando e competindo em diferentes níveis.
    • Mais de uma década assimilando a expertise de um treinador de referência e de elite.
    • Troca constante de informações com treinadores experientes.
    • Observação direta de diferentes métodos aplicados a corredores de alto nível.
    • Estudo formal e contínuo da ciência do treinamento esportivo, dentro e fora da universidade.

    O Método Corrida com Longevidade nasce dessa soma: experiência prática, observação crítica, base científica e formação humana.

    👉 Assista ao vídeo sobre um corredor verdadeiramente longevo: 
    📺 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    O que é o Método?

    O Método Corrida com Longevidade é uma estrutura de treinamento voltada para quem deseja evoluir na corrida sem comprometer a continuidade.

    Ele nasce da observação de algo simples: os corredores que permanecem ativos por muitos anos seguem princípios claros — mesmo quando não têm plena consciência disso.                      

    Ao perceber um padrão no meu trabalho como treinador:

    Surgiu também a percepção de que não era acaso; tinha ali, em cada processo, uma estrutura de valor que não apenas funcionava, mas que ao mesmo tempo preservava os corredores.

    Funcionalidade e Preservação

    Os  Critérios Centrais

    Funcionalidade significa que o treinamento cumpre aquilo que promete: gerar adaptação real. Cada sessão tem propósito, cada estímulo tem direção e cada ciclo tem lógica; não há carga aplicada por impulso, mas por necessidade fisiológica.

    O treino deixa de ser uma sequência de tarefas e passa a ser um sistema coerente.
    Funcionalidade é eficiência: fazer o suficiente para evoluir, sem desperdício energético, e quando o processo é funcional, o corredor entende o porquê do que faz – e evolui com consciência.

    👉 Veja as possíveis consequências da desinformação, no artigo: 
    📝 Como a Alienação Barra Sua Evolução

    Evoluir não Basta; é Preciso Preservar

    Preservação é a capacidade de crescer sem comprometer a integridade do organismo;

    Preservar não é frear o desenvolvimento — é sustentá-lo. Sem preservação, qualquer evolução é temporária; com preservação, ela se torna duradoura.

    Com a combinação desses dois critérios – Funcionalidade e Preservação — o Método Corrida com Longevidade ganhou forma, implementando apenas a organização do que já se mostrava sólido na prática.

    Por que Organizar um Método?

    Sem método, o treino vira impulso; quando o corredor decide aumentar o ritmo porque “está se sentindo bem” naquele dia; é transformar um treino regenerativo em moderado sem critério, encaixar um tiro extra porque viu alguém fazendo mais forte ao lado.

    Decisões isoladas, movidas por sensação momentânea, desorganizam o processo.

    Sem método, a carga vira exagero:

    • O volume cresce mais rápido do que a capacidade adaptativa permite.
    • Acumula-se intensidade em sequência sem respeitar recuperação.
    • Acredita-se que mais sempre é melhor.
    • Ignoram-se sinais sutis do corpo até que se tornem lesão ou queda brusca de rendimento.

    Da mesma forma, o corredor que acumula carga sem critério pode até sustenta-la por um tempo, mas o impacto chega, e quando chega, interrompe.

    👉 Veja como o organismo entende as cargas de treinos, no artigo: 
    📝 Carga Interna x Carga Externa

    Sem método, a evolução vira acaso. E acaso não sustenta longevidade.

    • Acaso é melhorar um tempo por empolgação, mas não saber explicar o porquê.
    • É ter semanas boas seguidas de interrupções inesperadas.
    • É alternar entre fases de entusiasmo e fases de frustração.
    • É depender da sorte biológica em vez de estrutura planejada.

    O corpo tolera excesso por um tempo, mas isso não é adaptação. Correr por muitos anos exige estrutura, decisões conscientes e critérios que não dependam apenas de motivação.

    Com ou sem orientação, o corredor precisa de critérios claros, parâmetros objetivos e capacidade de ajustar decisões com base em dados; não apenas em sensação ou empolgação.

    Dois Exemplos Reais

    No ponto médio da minha carreira como atleta, eu já tinha experiência, ótimos resultados em nível nacional e, em determinado período, treinava sozinho. Os estímulos estavam lá. A dedicação também.

    Mas o grande salto de qualidade veio quando submeti a organização da minha preparação a um treinador experiente. Perceba: não era falta de treino; era falta de organização estratégica do treino.

    Os estímulos existiam, mas o método não estava estruturado.

    Em outra situação, já experiente como treinador e com o “feeling” apurado, tive a oportunidade de treinar um atleta da minha modalidade que também era treinador — e tão experiente quanto eu.

    Conseguimos excelentes resultados, e aqui não se tratava de diferença de conhecimento;

    • Tratava-se de ponto de vista externo.
    • De alguém organizando decisões.
    • De controle emocional sobre a carga.
    • De referência técnica para validar ou ajustar cada passo da preparação.

    Em ambos os casos, o que fez diferença não foi intensidade; foi estrutura, e isso reforça o ponto de que método não é dependência, mas organização consciente do processo.

    OS 5 FUNDAMENTOS

    1. Individualização Profunda

    Cada organismo responde de forma única.   

    2. Gestão Inteligente da Carga     

    Treinar no limite fisiológico, não no limite do ego.

    3. Progressão Estruturada

    Evoluir de forma consistente, sem picos emocionais.

    4. Corpo como Sistema de Feedback

    Dor é dado. Fadiga é informação.

    5. Disciplina Sustentável

    Motivação oscila. Comportamento permanece.   

    Infográfico OS 5 FUNDAMENTOS DA CORRIDA COM LONGEVIDADE. Individualização Profunda, Gestão Inteligente da Carga, Progressão Estruturada, Corpo como Sistema de Feedback, Disciplina Sustentável.

    Fundamento é Estrutura

    Os 05 fundamentos não são conceitos isolados; eles se complementam, e, quando aplicados de forma integrada, criam continuidade.

    De certa forma — em muitos momentos e de forma direta — esses cinco fundamentos dialogam com os princípios clássicos do treinamento esportivo.

    E isso não é por acaso; é porque os princípios do treinamento não são ideias abstratas, mas construções organizadas a partir da fisiologia do exercício, subordinados à forma como o corpo realmente funciona.

    Por isso, servem tanto ao atleta de elite quanto ao amador — respeitando, claro, os ajustes de proporcionalidade de carga, volume, intensidade e contexto de vida.

    O que o Método Corrida com Longevidade faz não é reinventar a fisiologia; é organizar esses princípios dentro de uma estrutura prática, aplicável e sustentável para o corredor comum.

    São fundamentos alinhados à biologia, à ciência do treinamento e à experiência acumulada na prática.

    O que o Método Prioriza

    O Método Corrida com Longevidade prioriza três pontos:

    CONTINUIDADE

    Continuidade é:

    • A capacidade de permanecer treinando ao longo dos anos, não apenas das semanas.
    • Organizar o processo para que ele sobreviva às oscilações da vida real.
    • Respeitar ciclos fisiológicos e emocionais sem interromper a trajetória.
    • Entender que pequenas pausas estratégicas evitam grandes interrupções forçadas.
    • Pensar o treino como um projeto de longo prazo, não como um desafio momentâneo.

    Sem continuidade, qualquer evolução vira episódio isolado.

    SAÚDE

    Saúde é o alicerce que permite treinar com qualidade e regularidade. Não se trata apenas de ausência de lesão, mas de equilíbrio sistêmico.

    Inclui:

    • sono
    • recuperação
    • estabilidade emocional
    • integridade estrutural

    É reconhecer que performance sustentável depende de organismo funcional, ajustando o treino e o calendário de provas antes que o corpo seja obrigado a impor limites.
    Sem a saúde em dia, intensidade vira risco e progresso vira regressão.

    EVOLUÇÃO CONSISTENTE

    Evolução consistente é:

    • Progresso construído com método e critério.
    • Avançar respeitando a capacidade adaptativa do corpo.
    • Substituir os impulsos pelas progressões planejadas.
    • Crescer pouco a pouco, não de uma de uma vez.
    • Aceitar que picos emocionais não sustentam performance duradoura.
    Infográfico PRIORIDADES DO MÉTODO. 1. Continuidade, 2. Saúde, 3. Evolução Consistente.

    Sem consistência, o corredor alterna entre entusiasmo e frustração.

    🔥 A Performance Dentro do Método

    O Método Corrida com Longevidade não é contra performance. Ele apenas organiza a performance dentro de critérios biológicos e estruturais.

    A meta é o corredor quem decide.

    • Pode ser completar uma prova.
    • Pode ser baixar tempos.
    • Pode ser competir em alto nível dentro da sua categoria.

    A partir dessa decisão, dois pontos ficam claros:

    1. As reais possibilidades dentro do seu contexto atual;
    2. O nível de empenho necessário para sustentar a meta.

    👉 Veja como as nossas limitações impactam os treinos, no artigo: 
    📝 O que Mais Dificulta sua Corrida não Acontece no Treino

    Isso ajusta expectativa sem a promessa de resultados imediatos, construindo resultados duradouros, porque performance não é desejo; é consequência de capacidade com dedicação e tempo.

    Quando expectativa e realidade caminham alinhadas, o treino ganha a clareza que reduz frustração.

    Performance é uma escolha. Mas longevidade é uma condição para que ela continue existindo.

    Eu treino corrida. Mas eu formo corredores conscientes.

    O Método Corrida com Longevidade é a formalização disso.

  • Por que o Treino Longo é a Alma da Preparação do Corredor

    Por que o Treino Longo é a Alma da Preparação do Corredor

    Conversando sobre treinos com uma aluna, de maneira muito segura ela afirmou:- “Treinador, o treino mais importante para a maratona são os tiros”…e seguiu – os tiros de 2000 metros são a base da maratona.

    Minha resposta foi imediata e sem pensar muito:- “Não. O longo é a base da maratona”

    Isso não foi em qualquer lugar, mas num ambiente onde eu estimulo os corredores a entender o que estão fazendo.

    Achei o embate normal, já que eu não treino só corredores; eu formo corredores conscientes, e quando o corredor começa a entender o processo, esse tipo de discussão aparece.

    E isso é ótimo, porque mostra que o praticante deixou de apenas executar, e começou a pensar sobre o treino.

    Mas, essa afirmação revelou uma coisa importante: mesmo com alguma consciência sobre a preparação, ainda é muito comum confundir intensidade com base.

    E o interessante não é a resposta, mas o que essa fala revela, porque isso não é um erro isolado; é exatamente como a maioria dos corredores pensa.

    👉Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Não São os Tiros: O Treino Mais Importante da Corrida é Outro

    Um Erro Comum: Confundir Intensidade com Base

    O corredor amador tende a valorizar o que é mais intenso.

    • tiros
    • treinos fortes
    • sensação de esforço alto

    Porque isso dá a impressão de evolução rápida. Mas a maratona, assim como a corrida de forma geral, não se sustenta na intensidade. Ela se sustenta na capacidade de permanecer correndo por muito tempo; e aqui começa a diferença.

    O que Mais Machuca na Corrida não é o Ritmo

    Muita gente pode pensar que o problema da maratona é correr rápido. Não é; e o curioso é que todo mundo conhece aquela frase: isso não é uma corrida de 100 metros… isso é uma maratona, mas, na prática, pouca gente entende o que isso realmente significa.

    Maratona não cobra velocidade; cobra sustentação.

    E se fosse simples assim, nenhum corredor iniciante se lesionaria e nem mesmo os intermediários, que muitas vezes nem abusam de treinos intensos. Mas não é isso o que a gente vê na prática, onde se vê gente se machucando mesmo sem correr rápido e gente quebrando mesmo sem forçar ritmo.

    E por quê? Porque o problema não é só intensidade. O que mais machuca na maratona:

    • é o tempo sob estresse
    • o corpo sendo exigido por horas
    • o sistema sendo pressionado sem pausa
    • a soma de pequenas fadigas que, ao longo do tempo, viram colapso

    E isso não se treina com tiros; isso se treina com tempo, e o nome desse treino é: longo.

    Infográfico 'O QUE MAIS MACHUCA NA MARATONA:' corredor exausto sob estresse; um modelo anatômico com pontos de desgaste articular e físico; o sistema cardiovascular sob pressão contínua; um gráfico e um corredor no limite por pequenas fadigas.

    Tenha em mente que o corpo não quebra só quando você corre mais rápido sem preparo para isso; ele quebra inclusive quando você não está preparado para sustentar o tempo em que está correndo, ainda que lento.

    Por que o Longo é a Base, não só da Maratona

    Agora vamos um ponto importante, e talvez o mais estratégico desse artigo. O longo não é a alma só da maratona; ele é a alma da preparação para qualquer corredor que queira completar bem uma prova.

    Do 10k à maratona, a diferença é só o tamanho do longo.

    • no 10k → longos mais curtos
    • na meia → longos intermediários
    • na maratona → longos mais extensos

    Mas o princípio é o mesmo: ensinar o corpo a sustentar o esforço.

    O Que o Longo Constrói (que os outros treinos não conseguem)

    Quando você faz longos com consistência, está construindo coisas que nenhum outro treino consegue sozinho. 

    🟢 Resistência Estrutural

    Seu corpo aprende a suportar impacto por mais tempo, e isso vai muito além da musculatura. Tendões, ligamentos e articulações começam a se adaptar à repetição contínua do gesto de correr; esse tipo de adaptação não acontece em treinos curtos ou intensos.

    É o volume sustentado que fortalece a estrutura e reduz o risco de quebra ao longo da prova.

    🟢 Uso e Economia de Glicogênio

    O longo ensina o organismo a ser mais eficiente no uso das suas reservas de energia. Com o tempo, o corpo passa a poupar glicogênio e utilizar melhor outras fontes, como a gordura.

    Isso atrasa a fadiga e evita a famosa “quebra” no final da prova, e sem esse ajuste metabólico, o corredor até começa bem, mas não sustenta.

    🟢 Sistema Nervoso

    O esforço prolongado deixa de ser uma ameaça para o corpo e passa a ser algo reconhecido, então, o sistema nervoso se adapta ao padrão contínuo, reduzindo a sensação de alerta e desgaste precoce.

    Isso melhora a coordenação, a economia de movimento e a eficiência geral da corrida; o que antes parecia pesado, começa a se tornar familiar.

    🟢 Tolerância Mental

    O longo não treina só o corpo — ele treina a mente para permanecer em esforço por muito tempo. Você aprende a conviver com o desconforto sem entrar em desespero ou tomar decisões impulsivas.

    Desenvolve paciência, controle e leitura do próprio estado ao longo da corrida; isso é o que evita que o corredor “quebre” mentalmente antes do físico.

    🟢 Previsibilidade

    À medida que os longos se tornam frequentes, o desconhecido diminui. Você passa a entender como o corpo reage depois de certo tempo, como se comporta em diferentes ritmos e como responde ao cansaço.

    Isso traz segurança e melhora a tomada de decisão durante a prova; o que antes era incerteza, vira referência. 

    Infográfico 'O QUE O LONGO CONSTRÓI'. a Resistência Estrutural; Uso e Economia de Glicogênio com gráficos de metabolismo; o Sistema Nervoso e a coordenação motora; a Tolerância Mental e resiliência do corredor; a Previsibilidade com um mapa de planejamento e calendário.

    E isso tudo muda completamente a experiência na prova.

    O Conceito Central (sem romantização)

    Se o corredor não desenvolver outras consistências, mas desenvolver a consistência dos longos, ele já consegue completar uma prova com muito menos prejuízo.

    Isso não garante performance, mas garante algo mais básico, e muitas vezes mais importante: sobrevivência fisiológica.

    Porque mesmo que ele falhe em:

    • força
    • ritmo
    • técnica
    • variação de estímulo

    Se ele faz longos com consistência, ele chega na largada menos vulnerável ao colapso. E isso não é teoria, isso é observado na prática.

    Baseado nisso, sempre que alguém que eu não treino me diz que vai fazer uma maratona, ou estrear em uma distância maior, a primeira pergunta que eu faço é simples e direta: “Você fez treinos longos, progressivos e compatíveis com essa prova?”

    Porque essa resposta, muitas vezes, já diz tudo: se a pessoa fez, ela tem uma base; se não fez, ela está apostando… e vamos combinar, prova longa não é lugar para aposta, não é mesmo?

    Por que o Longo Protege o Corredor

    Sem treino longo consistente:

    🔴 O Ritmo não se Sustenta

    Sem base de longo, o corredor até consegue imprimir um bom ritmo no início, mas não tem estrutura para mantê-lo. O corpo entra em fadiga precoce e começa a desacelerar progressivamente.

    O que parecia controlado vira luta para não parar, e no final, o ritmo deixa de ser escolha e passa a ser consequência.

    🔴 A Força não Aparece na Prática

    Você pode até treinar força fora da corrida, mas sem o longo ela não se manifesta quando realmente importa. A capacidade de sustentar a mecânica ao longo do tempo depende de resistência aplicada, não só de força isolada.

    Com o desgaste acumulado, a passada perde eficiência e a força que existia no treino não aparece na prova.

    🔴 A Estratégia de Prova Desmorona

    Sem vivência de esforço prolongado, o corredor não consegue executar o plano que traçou. Ele até começa seguindo estratégia, mas não tem referência interna para sustentar decisões.

    Pequenas variações já desorganizam tudo, e, quando percebe, já está correndo no improviso, não mais no planejamento.

    🔴 A Mente Entra em Pânico

    Quando o corpo entra em território desconhecido, a mente reage com insegurança. O desconforto parece maior do que realmente é, e o corredor começa a duvidar da própria capacidade.

    Isso gera decisões precipitadas, quebra de ritmo e, muitas vezes, abandono; sem o longo, falta familiaridade, e onde não há familiaridade, entra o medo.

    Infográfico 'SEM TREINO LONGO CONSISTENTE:'. a queda de ritmo por um ponteiro de relógio em declínio; pontos de debilidade física; um mapa e planejamento de prova rasgados; um corredor em pânico mental.

    Com longo consistente:  

    • o corpo reconhece o esforço
    • o sistema entra em modo conhecido
    • o desgaste é mais previsível

    E isso muda tudo, porque existe uma diferença enorme entre sofrer correndo e sofrer entendendo o que está acontecendo.

    O que o Longo não Faz (e isso precisa ficar claro)

    Agora, cuidado; o longo é a base, mas não é tudo; ele:

    • não garante performance
    • não corrige erros técnicos
    • não substitui treinos de ritmo
    • não resolve estratégia de prova

    E um plano sensato não absolutiza; ele hierarquiza

    Infográfico 'O QUE O LONGO NÃO FAZ'. uma medalha partida ao meio; uma lupa sobre o sistema muscular; velocímetros cruzados; desenho de um planejamento de prova quebrado.

    A Hierarquia dos Pilares

    Se você tem tudo:

    • força
    • técnica
    • variação
    • ritmo
    • longo

    Ótimo! Mas nós sabemos que a realidade do corredor amador é outra.

    • pouco tempo
    • rotina instável
    • treinos irregulares

    Então a pergunta é: se você não pode ter tudo, o que é que você prioriza?
    E aqui está o ponto que eu defendo:

    Entre todas as consistências possíveis, a dos treinos longos é a mais determinante para completar uma prova com menos prejuízos.

    Traduzindo para o Corredor Comum

    Se você é um corredor que:

    • treina 3x por semana
    • tem uma rotina corrida
    • não busca performance máxima

    O longo passa a ser ainda mais importante, porque ele:

    • organiza sua semana
    • dá base para os outros treinos
    • reduz risco de quebra na prova

    Ele vira o eixo central da sua máquina de correr.

    O Longo como Organizador do Treino

    E aqui entra um ponto mais sofisticado: o treino longo não é só importante; ele organiza todo o resto.  

    • define volume semanal
    • influencia recuperação
    • ajusta intensidade dos outros dias

    Se o longo está bem colocado, o treino tende a se equilibrar. Se está mal colocado, o resto desanda.

    O Grande Problema: Longo mal Feito

    E aqui está um erro comum: o corredor até faz longo, mas faz errado.

    • ritmo muito alto
    • progressão mal planejada
    • falta de constância
    • quebra frequentemente

    E aí o longo deixa de ser base e vira desgaste desnecessário.

    Se você quer correr melhor, completar provas com mais segurança, reduzir sofrimento desnecessário; comece a olhar com mais atenção para os seus longos.

    Porque no fim das contas: a maratona — e qualquer prova longa — não cobra velocidade; cobra sustentação. E sustentação não se constrói no tiro, mas ao longo do tempo.

    Se você só tiver um só pilar no seu processo de treinos, que seja o longo.

  • Quando o Propósito Supera o Objetivo

    Quando o Propósito Supera o Objetivo

    A Jornada Chega ao Seu Sentido

    Chegamos ao último episódio dessa trilogia, “O Sentido do Seu Treino”.
    Nos dois artigos anteriores abordamos: Afinal, Para Que Mesmo Você Treina? e Seu Objetivo Mudou – E Isso é Ótimo.

    Aqui, vamos dar um passo além, e falar sobre o ponto em que o propósito começa a se sobrepor ao objetivo.

    O propósito é o que te mantém correndo quando o objetivo é atingido, muda ou deixa de fazer sentido.

    É aqui que a corrida deixa de ser apenas um meio pra alcançar algo, e passa a ser um modo de estar no mundo.

    Correr, a partir daqui, não é só uma prática física, mas também uma forma de se conhecer, de se manter inteiro, de encontrar sentido.

    Objetivo e Propósito – Não São a Mesma Coisa

    O objetivo é o que te faz começar, e pode ser:

    • perder peso
    • melhorar a saúde
    • baixar o tempo nos 10 km
    • ou simplesmente se sentir bem
    Infográfico sobre os principais objetivos da corrida, destacando perda de peso, melhora da saúde, desempenho em provas e bem-estar.

    Ele tem forma, medida, prazo, mas o propósito é diferente; o propósito é o motivo mais profundo.

    Ele é menos sobre “o que você quer alcançar” e mais sobre “por que você quer isso”.
    É aquilo que continua te movendo mesmo quando você já conquistou o que queria — ou quando as circunstâncias mudaram e aquele objetivo deixou de fazer sentido.

    O objetivo muda; o propósito permanece.
    E é justamente essa diferença que separa o corredor que apenas segue planilhas do corredor que encontra sentido em cada passada, porque uma planilha é justamente uma ferramenta para alcançar objetivos.

    A Corrida Como Espelho da Vida

    A corrida é, de certa forma, um espelho, e tudo o que você vive nela reflete o que acontece fora dela:

    • os altos e baixos
    • as conquistas
    • as pausas forçadas
    • as dúvidas
    • o amadurecimento

    No começo, o corredor é movido por objetivos claros e diretos — correr uma prova, perder uns quilos, desafiar um amigo, mas com o tempo, a corrida começa a mostrar outras camadas.

    Você passa a perceber que aquilo que te prende à prática não é mais o cronômetro, nem o espelho, nem a balança. É algo mais interno, e esse é o ponto em que o propósito começa a aparecer — quase sem que você perceba.

    A Relação Com o Objetivo

    Ter um objetivo é importante: é ele que dá direção, que organiza seu treino, que faz você levantar da cama num dia frio, mas o erro está em acreditar que o objetivo é tudo.

    Quando o corredor enxerga a corrida apenas como meio pra alcançar algo, ele corre o risco de se perder quando esse “algo” acaba, e é por isso que tanta gente desanima depois de atingir uma meta: aquela maratona, aquele peso ideal, aquele recorde pessoal… e depois?

    Se o objetivo é o combustível, o tanque sempre vai esvaziar, mas se o propósito é o motor, ele te mantém em movimento — mesmo quando não há linha de chegada à vista.

    O Ponto de Virada — Quando o Propósito Aparece

    Esse ponto de virada é diferente para cada corredor. Às vezes acontece depois de uma fase atípica da vida, ou após uma lesão, quando você precisa parar e repensar o que está fazendo.
    Às vezes vem depois de anos de prática, quando a corrida já faz parte da sua identidade, e, curiosamente, às vezes o propósito aparece quando o objetivo já foi atingido.

    Você percebe que continua treinando:

    • porque sente falta da corrida
    • mesmo sem uma prova marcada
    • não só por resultados
    • pela presença que ela te traz

    E é aí que tudo muda; a corrida deixa de ser uma cobrança e passa a ser um encontro.

    Os Tipos de Corredor e Suas Transições

    Parece que há um ciclo quase natural no desenvolvimento do corredor, detalhado no artigo anterior, mas que vou citar por aqui para quem não o leu, e que podemos chamar de Ciclo do Propósito:

    Motivação inicial | quando o objetivo é começar
    Desenvolvimento | quando o objetivo é melhorar
    Maturidade | quando o propósito toma o lugar do objetivo

    Infográfico dos ciclos do propósito do corredor: Motivação Inicial, Desenvolvimento e Maturidade.

    Nem todos chegam à terceira fase, e tudo bem. Mas quem chega, descobre que correr é menos sobre “buscar” e mais sobre “ser”.
    Esses corredores costumam ter uma relação mais equilibrada com o treino, com o corpo e até com a própria vida.

    Quando o Objetivo Divide Espaço com o Propósito

    É natural que, com o tempo, o objetivo que um dia ocupava o centro da sua motivação passe a dividir espaço com o propósito.

    Então:

    • Aquela vontade de baixar os tempos;
    • Correr a primeira meia maratona;
    • Ou perder peso;

    Podem até perder força, mas isso não significa que os objetivos deixaram de ser importantes.

    Na verdade, eles continuam existindo. A diferença é que agora deixam de ser a única razão para você correr e passam a ocupar o lugar que sempre deveriam ter: o de etapas de uma jornada maior.

    O propósito e o objetivo não são opostos; eles se complementam. O segredo está em compreender que o objetivo está a serviço do propósito — e não o contrário.

    Quando o corredor entende isso, tudo se encaixa. Ele pode buscar performance sem se perder, perseguir metas sem viver sob cobrança constante e sonhar alto sem transformar cada prova em um julgamento sobre si mesmo.

    Porque ele sabe por que faz o que faz. O propósito torna-se a bússola; os objetivos continuam importantes, mas passam a indicar apenas os próximos passos do caminho.

    O Propósito Como Raiz

    O propósito é a raiz que sustenta a árvore, mesmo quando as folhas mudam; ele é o que faz você continuar correndo mesmo quando não há prova marcada, quando o tempo não melhora, quando a motivação dá uma pausa.

    O propósito não se mede em pace ou medalhas, ele se percebe:

    • no bem-estar
    • na clareza mental
    • na sensação de pertencimento
    • no prazer do treino que te faz bem
    Infográfico sobre A PERCEPÇÃO DO PROPÓSITO NA CORRIDA destacando Bem-Estar, Clareza Mental, Sensação de Pertencimento e Treino que Faz Bem.

    E é por isso que, mesmo sem objetivo definido, o corredor com propósito não para; ele entende que correr é uma forma de se manter vivo, conectado, presente.

    A Corrida Como Estilo de Vida

    Correr se torna um espaço de reflexão, um ritual de equilíbrio, uma forma de se reconectar com o essencial. Não importa o ritmo, o percurso ou o resultado — o que importa é o sentido.

    A corrida passa a ser uma prática de autoconhecimento, de autoexpressão e, em muitos casos, até de espiritualidade silenciosa.

    O corredor maduro entende que não precisa provar nada, nem pra si, nem para os outros; ele corre porque correr faz sentido, e isso basta.

    O Sentido do Seu Treino

    No fim das contas, o treino é só uma parte do que a corrida te ensina. Ela te mostra que objetivos são importantes, mas são transitórios, e que o propósito é o que te mantém em movimento, mesmo quando todo o resto muda.

    O propósito é o que te mantém correndo quando o objetivo é atingido, muda ou deixa de fazer sentido, e talvez seja isso o que faz da corrida uma das práticas mais completas que existem.

    Sem objetivos, o propósito perde direção. Sem propósito, os objetivos perdem significado.


    Este artigo também está em vídeo:

    🎥 Quando o Propósito Supera o Objetivo

    Continue explorando este tema

    Além deste artigo, estes vídeos ajudam a aprofundar essa reflexão sobre propósito, objetivos e longevidade na corrida:

    🎥 Afinal, Pra Que Mesmo Você Treina?

    🎥 Seu Objetivo Mudou – E Isso é Ótimo

    🎥 Disciplina Sustentável: O Que Mantém o Corredor Ativo

    🎥 Corrida com Longevidade: O Método que Organiza Sua Evolução

  • Clube da Corrida Bertolino: 20 Anos Formando Corredores com Consciência

    Clube da Corrida Bertolino: 20 Anos Formando Corredores com Consciência

    Em um cenário onde a corrida de rua cresce a cada ano e atrai milhares de praticantes, é fácil esquecer que nem sempre foi assim.

    Hoje existe informação em abundância, aplicativos, relógios sofisticados, planilhas automatizadas e conteúdos para todos os níveis. Mas nem sempre houve clareza. Nem sempre houve método. E, principalmente, nem sempre houve orientação.

    Foi nesse contexto — muito diferente do atual — que nasceu o Clube da Corrida Bertolino.

    O Início: Quando Correr ainda era Intuição

    O Clube da Corrida Bertolino surgiu formalmente em Londrina, em abril de 2006.

    Localmente e naquele momento, a corrida de rua ainda estava longe do nível de organização e acesso à informação que vemos hoje. Os corredores treinavam por conta própria, baseados em tentativas, sensações ou orientações genéricas.

    Era comum ver:

    Foi nesse ambiente que surgiu a proposta do Clube:

    Organizar o treino de corrida com método, lógica e individualização

    Desde o início, o trabalho já combinava duas frentes que, para a época, eram inovadoras:

    • acompanhamento presencial com planilhas
    • orientação à distância com planilhas individualizadas

    A orientação à distância é um modelo que, ainda hoje, gera dúvidas, e que já expliquei com mais profundidade em um conteúdo específico sobre como e quando esse tipo de treino realmente funciona.

    👉 O Treino a Distância: Como e Quando Funciona?

    Tudo isso com um olhar voltado não apenas para performance, mas também para a saúde e a continuidade do corredor na prática.

    O Problema que Precisava ser Resolvido

    Mais do que oferecer treinos, o Clube nasceu para resolver um problema claro:

    Corredores sem direção

    Correr sem entender o porquê — e esse é um dos erros mais comuns entre corredores, tanto que já aprofundei esse ponto num vídeo do nosso canal do YouTube sobre propósito no treino.

    🎥 Quando o Propósito Supera o Objetivo | O Sentido do Seu Treino

    Na prática, isso se traduzia em erros comuns: fazer sempre o mesmo tipo de treino, correr sem entender o porquê, aumentar carga de forma desorganizada e buscar resultado sem base.

    Esse modelo, embora comum, levava a consequências previsíveis:

    • lesões
    • estagnação
    • frustração
    • abandono da corrida

    A proposta do Clube da Corrida Bertolino foi, desde o início, ir na contramão disso.

    👉 menos improviso, mais consciência
    👉 menos volume aleatório, mais progressão

    A Construção: Muito Além de Planilhas

    Com o passar dos anos o Clube evoluiu, mas essa evolução nunca foi apenas estética ou estrutural; ela foi, principalmente, conceitual.

    Sim, houve mudanças visíveis:

    • evolução da logomarca
    • aprimoramento do modelo de atendimento
    • adaptação às novas demandas dos corredores

    Mas o que realmente se consolidou foi uma forma de trabalhar. As planilhas deixaram de ser apenas uma sequência de treinos e passaram a representar um processo estruturado de desenvolvimento — e, na prática, isso passa muito por saber organizar bem a semana de treinos, algo que já detalhei em outro artigo aqui no Blog.

    📝Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    Cada corredor passou a ser visto como um sistema único, com:

    • rotina própria
    • histórico diferente
    • respostas individuais ao treino

    Isso exigiu algo que nem sempre é simples: observar, ajustar, aprender e evoluir constantemente.

    A Evolução do Treinador

    Nenhum método se sustenta sem experiência real. Ao longo desses 20 anos, a construção do Clube esteve diretamente ligada à trajetória do treinador, que traz uma base multilateral de vivências dentro do esporte.

    Essa base inclui:

    • experiência como atleta de alto rendimento
    • convivência em ambientes competitivos
    • anos de prática como treinador
    • contato direto com diferentes perfis de corredores e treinadores

    Essa combinação permitiu algo raro – unir teoria e prática de forma consistente, e mais do que aplicar conceitos prontos, o trabalho sempre foi guiado por observação direta: o que funciona, o que não funciona, o que precisa ser ajustado para cada indivíduo.

    E, principalmente, como fazer o corredor evoluir sem se perder no processo.

    O Nascimento de um Método

    Com o tempo, essa experiência deixou de ser apenas prática acumulada e passou a se organizar em forma de método.

    Assim nasceu o conceito de:

    CORRIDA COM LONGEVIDADE

    Um modelo de treinamento que vai além da busca por performance imediata e se baseia em cinco fundamentos principais:

    🔹1. Individualização Profunda
    Cada organismo responde de forma única

    🔹 2. Gestão Inteligente da Carga
    Treinar no limite fisiológico, não no limite do ego

    🔹 3. Progressão Estruturada
    Evoluir de forma consistente, sem picos emocionais

    🔹 4. Corpo como Sistema de Feedback
    Dor é dado. Fadiga é informação

    🔹 5. Disciplina Sustentável
    Motivação oscila. Comportamento permanece

    Esse método nasce da prática, mas se consolida na consistência.

    Resultados que não Aparecem só no Relógio

    Ao longo de duas décadas, muitos corredores passaram pelo Clube da Corrida Bertolino, e, embora performances façam parte do processo, eles nunca foram o único indicador de evolução.

    Nossas marcas mais relevantes muitas vezes são menos visíveis: corredores que permanecem ativos por anos, baixos índices de lesões, maior consciência sobre o próprio treino, capacidade de ajustar expectativas e objetivos.

    E, principalmente, a continuidade, porque correr bem não é apenas correr rápido, mas conseguir continuar correndo.

    A Expansão: do Treino ao Conteúdo

    Com o amadurecimento do trabalho, surgiu uma nova necessidade: levar conhecimento para além do treino direto.

    Assim começou a produção de conteúdo com um canal no YouTube, artigos no Blog e materiais educativos, onde o objetivo não é apenas ensinar o que fazer, mas ajudar o corredor a entender o que está fazendo.

    Essa mudança é fundamental, porque o corredor que entende treina melhor, erra menos, evolui com mais consistência, e, sobretudo, se torna menos dependente e mais consciente.

    O Clube Hoje

    Hoje, o Clube da Corrida Bertolino não é apenas uma assessoria de corrida, é um espaço de desenvolvimento, um ambiente onde o corredor encontra orientação técnica, estrutura de treino e clareza de processo; mas, acima de tudo, consciência.

    O trabalho não é voltado apenas para quem busca performance. É voltado para quem quer:

    • evoluir de forma consistente
    • evitar erros comuns
    • construir uma relação duradoura com a corrida

    O Futuro: Mais do que Treinar, Formar

    Se os primeiros 20 anos foram de construção, os próximos apontam para expansão; não apenas em escala, mas em impacto.

    Os próximos passos passam por:

    • fortalecimento do ambiente digital
    • ampliação da produção de conteúdo
    • desenvolvimento de produtos acessíveis
    • construção de comunidade

    A ideia é clara: atingir mais corredores — sem perder profundidade. E manter o que sempre esteve na base: formar corredores que entendem o que fazem.

    20 Anos Depois…

    Vinte anos podem parecer apenas um número, mas, na prática, representam algo maior:

    • anos de observação
    • ajustes constantes
    • erros e aprendizados
    • evolução contínua

    O Clube da Corrida Bertolino não foi construído em cima de promessas rápidas, foi construído em cima de consistência, e talvez esse seja o maior reflexo do próprio esporte.

    Porque, assim como na corrida, não é o esforço de um dia que define o resultado; é o que você sustenta ao longo do tempo.

    Mais do que correr melhor, continuar correndo

    Ao longo desses 20 anos, um princípio manteve-se claro:

    👉 o objetivo não é apenas formar corredores mais rápidos
    👉 é formar corredores que permanecem correndo

    Com consciência.
    Com consistência.
    E com propósito.

  • Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Seu Objetivo na Corrida Mudou? Isso é um sinal de evolução

    Você já percebeu que, às vezes, o motivo que te fez começar a correr não é mais o mesmo que te faz continuar?

    Isso acontece com quase todo corredor. A gente começa por um motivo muito específico — perder peso, controlar a ansiedade, voltar a se sentir ativo, ou até pra acompanhar um amigo. Mas o tempo, as experiências e até o próprio corpo vão mudando esse sentido.

    👉 Se preferir assistir em vez de ler, veja o vídeo:
    📺 Seu Objetivo Mudou (E Isso é Ótimo)

    E sabe o que é o mais interessante? Isso não é um problema, mas, exatamente o contrário: é sinal de evolução, e esse artigo é sobre isso — sobre como os objetivos mudam com o tempo, e por que essa mudança é um sinal claro de amadurecimento como corredor.

    O Objetivo Inicial: O Que Te Trouxe Até Aqui

    Todo corredor tem um “ponto de partida emocional” e talvez o seu tenha sido o espelho, um exame médico, o estresse do trabalho ou simplesmente a vontade de se sentir melhor.

    Esses primeiros objetivos são legítimos e poderosos, porque te tiram da inércia, mas eles são apenas o começo de uma história, já que, com o tempo, a corrida deixa de ser apenas um meio e começa a se tornar um propósito em si mesma.

    Eu costumo dizer que a corrida é uma escola, e que a primeira lição dela é justamente essa: o motivo que te faz começar não precisa ser o mesmo que te faz continuar.

    E isso é libertador porque te permite entender que o que importa é seguir em movimento, mesmo que o destino mude.

    Quando o Objetivo Muda

    Com o tempo, as conquistas e as frustrações começam a moldar seus novos objetivos; você atinge uma meta — e quer outra, ou percebe que o que antes te motivava já não te move mais, ou ficou em segundo plano.

    E está tudo certo, porque na verdade, isso mostra que você está crescendo dentro do esporte.

    Exemplos de transição de objetivos:

    • Você começou para emagrecer — e hoje corre para se desafiar
    • Começou buscando performance — e agora busca equilíbrio
    • Queria provar algo para alguém — e hoje corre pela sensação de liberdade

    Essas transições são mais comuns do que parecem, e cada uma delas exige uma mudança de mentalidade e, às vezes, até de metodologia de treino.

    Por isso, é tão importante ter consciência sobre o seu momento atual, porque o treino ideal muitas vezes não é o que está na planilha — é o que faz sentido para o seu propósito de hoje.

    O Papel do Treinador Nessa Jornada

    Um bom treinador não serve apenas para ajustar volumes e intensidades. Para começar, ele ajuda o corredor a interpretar o momento em que está.

    Às vezes, o aluno quer perseguir uma meta antiga, sem perceber que a vida mudou, que as prioridades são outras, que o corpo responde de forma diferente, que o objetivo precisa se atualizar.

    E é aí que entra o papel do treinador como espelho e bússola; alguém que te ajuda a encontrar o ponto de equilíbrio entre o desafio e o prazer.

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    Eu vejo isso o tempo todo aqui no Clube da Corrida:

    • Alunos que chegam querendo performance a qualquer custo e, depois de um tempo, descobrem que o que precisavam mesmo era constância
    • Outros vêm buscando saúde e acabam se apaixonando pelo processo competitivo

    Um ponto importante
    Esse tipo de objetivo tem uma peculiaridade: quase ninguém tem a mínima noção da energia necessária para sustentar uma preparação voltada à performance.

    É um processo que exige:

    • tempo
    • disciplina
    • foco
    • estrutura

    Estrutura de vida voltada à performance é coisa que pouca gente tem disponível, e por isso é comum que, depois de algumas tentativas frustradas, o corredor acabe:

    • revendo suas metas
    • desistindo do objetivo de performance
    • no extremo, se afastando da corrida

    Um Caso Real Para Refletir

    Aqui segue um caso interessante pra te contar.
    Eu treinava um senhor que tinha uma ótima aptidão para corrida. Com o tempo, ele começou a evoluir rápido; apresentava performances muito acima da média para a faixa etária dele.

    Naturalmente, passamos a investir em treinos mais específicos, voltados à performance, e, como acontece com qualquer corredor que segue um bom processo, chegou um momento em que ele atingiu o que eu chamo de:

    Zona limítrofe da performance

    Aquela fase em que:

    • os ganhos já não são tão evidentes
    • cada segundo a menos passa a custar muito mais esforço, técnica e paciência

    Mas aí veio o ponto crítico. Ele acreditou que estava estagnado por causa do treino, e não porque já tinha chegado ao seu limite técnico e fisiológico dentro da rotina que levava.

    Achando que ainda havia um “salto escondido” para dar, decidiu trocar de treinador.
    O resultado foi o oposto do que esperava:

    • começaram as lesões recorrentes
    • o rendimento despencou
    • nunca mais conseguiu correr nem perto do que corria antes

    Com o tempo, acabou desistindo até mesmo dos treinos. Perceba que cada um tem uma trajetória, e entender o momento da jornada, reconhecer que nem sempre evoluir significa melhorar tempos ou bater recordes, é fundamental para não se frustrar.

    Quando Insistir e Quando Reajustar

    Muita gente se culpa por não estar mais tão motivada quanto antes, mas isso geralmente é um sinal de que o objetivo antigo já cumpriu o papel dele.

    A motivação não some do nada — ela muda de forma, e quando isso acontece você tem duas opções:

    • insistir em um propósito que não te representa mais
    • permitir um reajuste inteligente

    Possibilidades de reajuste

    👉 Talvez você não consiga ou não queira mais fazer recordes pessoais — e tudo bem.
    👉 Talvez queira focar em qualidade de vida, ou em correr acompanhado.
    👉 Ou, quem sabe, esteja na hora de experimentar novas distâncias, novos ambientes, e até novas modalidades.

    Reajustar o objetivo não é retroceder. É evoluir com consciência.
    A única coisa que realmente impede o progresso é ficar preso ao passado, tentando repetir o que já foi, em vez de construir o que faz sentido agora.

    Maturidade Esportiva

    Com o tempo, o corredor amadurece e esse amadurecimento se manifesta de várias formas:

    Você passa a ouvir mais o corpo do que o relógio

    É quando o corredor entende que o corpo é o verdadeiro marcador de progresso.
    O relógio mostra números, mas não mostra:

    • fadiga
    • estresse
    • qualidade do sono

    Quando você começa a ouvir o que o corpo está dizendo, e não apenas o que o pace mostra, passa a treinar de forma mais inteligente.

    Essa escuta:

    • evita lesões
    • melhora a recuperação
    • mantém o prazer em correr

    É o momento em que o treino deixa de ser uma obrigação e vira um diálogo com o próprio corpo.

    Aprende a respeitar os dias ruins sem culpa

    Nem todo treino vai sair como o planejado, e tudo bem, porque dias ruins fazem parte do processo e, muitas vezes, são os que mais ensinam sobre limites e equilíbrio.

    Quando o corredor entende isso, deixa de transformar cada corrida em uma prova de fogo. Respeitar um corpo cansado é sinal de inteligência, não de fraqueza, e, muitas vezes, o descanso é o treino mais eficiente daquele dia.

    Entende que constância vale mais do que intensidade

    A maturidade no treino vem quando se percebe que não é o esforço pontual que traz resultado, mas o acúmulo de boas semanas, meses e anos.

    A intensidade é importante, mas sem constância ela não se sustenta, e o corredor que busca resultados duradouros aprende a priorizar o hábito, não a exceção. Quando a regularidade se torna parte da rotina, o progresso vem de forma mais leve, natural e permanente.

    Percebe que o prazer de correr é o verdadeiro combustível

    Chega um momento em que a corrida deixa de ser apenas sobre metas e resultados, e passa a ser sobre prazer. O simples ato de calçar o tênis e sair para correr já se torna recompensador.

    É o prazer que mantém a chama acesa quando o ritmo cai, quando a motivação oscila ou quando a vida aperta, e no fim das contas, o que faz alguém continuar correndo por anos não é a busca por recordes; é a satisfação genuína de se sentir vivo em movimento.

    A maturidade esportiva é quando você deixa de se comparar com os outros — e começa a se comparar com o seu ontem. É o ponto em que a corrida deixa de ser uma cobrança e vira um diálogo com você mesmo.

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    A Corrida se Adapta à Sua Vida

    Depois de algum tempo de experiência como treinador, percebi que os objetivos podem mudar até mesmo para os mais inusitados; como, por exemplo, aquele de muita gente atualmente: correr para poder comer mais à vontade, inclusive já contei isso com detalhes no artigo anterior.

    • Alguns correm para competir
    • Outros visando o turismo esportivo
    • Outros para aliviar a cabeça
    • Outros, para poder comer o churrasco do fim de semana sem culpa

    E tudo isso é válido.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    A corrida é tão rica que cabe todo tipo de motivação; o importante é que o motivo seja verdadeiro para você e que, quando ele mudar — porque vai mudar — você esteja aberto para acompanhar essa transformação.

    O Ciclo do Propósito

    Eu gosto de pensar nos objetivos da corrida como ciclos:

    🔹 Ciclo do começo: Quando tudo é descoberta
    🔹 Ciclo da conquista: Quando queremos resultados
    🔹 Ciclo da consciência: Quando correr já é parte da nossa identidade

    O segredo é reconhecer em qual ciclo você está e viver ele por inteiro, sem pressa, sem comparação e com o entendimento de que todos eles têm o seu valor.

    Se o Seu Objetivo Mudou… Comemore

    Se o seu objetivo mudou, comemore, porque isso significa que você mudou também e é justamente essa capacidade de se transformar que mantém o corredor em movimento, dentro e fora da pista.

    Então, se hoje o seu motivo para correr não é mais o mesmo de quando começou, está ótimo, você está no caminho certo, e continue evoluindo, do seu jeito, no seu ritmo, com propósito.

    👉 Sobre esse assunto, assista ao vídeo:
    🎥
    Quando o Propósito Supera o Objetivo | O Sentido do Seu Treino