Jefferson Pérez: Do Ouro Olímpico em Atlanta ao Legado de um Tricampeão Mundial

Esta entrevista faz parte da série especial “30 Anos de Atlanta”, que revisita histórias e personagens dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, publicada em 26 de julho de 2026, exatamente 30 anos depois da conquista do ouro olímpico por Jefferson Pérez, ela recupera uma conversa realizada em 2003, quando o campeão equatoriano ainda estava no auge de sua carreira.


É comum admitirmos que “nascemos para fazer algo bem feito” como expressão da vocação, e que difícil é encontrar esse algo em meio à infinidade de atividades dos campos intelectual e motor, para que uma qualidade inata possa se desenvolver com destaque.

O equatoriano Jefferson Pérez não teve esse problema.

Em 1988, aos 14 anos de idade, decidiu participar da escola de marcha atlética de sua cidade, dirigida pelo competente e pragmático Luis Chocho Sanmartín. Aos 16, já dava sinais de ter encontrado o seu caminho.

Nascido em Cuenca, cidade equatoriana situada a cerca de 2.500 metros de altitude e reconhecida como um dos grandes centros culturais do país, Jefferson Pérez rapidamente começou a dar boas notícias aos seus conterrâneos. E não parou mais.

Ao longo de sua carreira, acumulou títulos em praticamente todos os níveis de disputa. Desenvolveu uma técnica de marcha apuradíssima e construiu uma combinação de evolução e regularidade de performance que poucos atletas do mundo conseguiram alcançar.

Jefferson Pérez: o primeiro ouro olímpico do Equador

Em 1996, aos 22 anos de idade, orientado pelo treinador colombiano Enrique Peña, superou as dificuldades que frequentemente atingiam atletas sul-americanos diante da estrutura e da tradição europeias e conquistou, em Atlanta, a medalha de ouro olímpica nos 20 km da marcha atlética.

Aquela vitória já havia sido extraordinária.
Mas, quando esta entrevista foi realizada, em 2003, a história ainda estava sendo escrita.

Jefferson Pérez havia acabado de conquistar o título mundial dos 20 km em Paris, com 1h17min21s, então melhor marca mundial da prova. Naquele momento, aos 29 anos, o campeão olímpico de Atlanta havia alcançado dois dos grandes objetivos que ainda faltavam à sua carreira: o título mundial e a melhor marca mundial dos 20 km.

A pergunta que dava título à entrevista era, portanto, natural:

O que ainda poderia buscar um atleta que já havia sido campeão olímpico e acabara de se tornar campeão mundial e recordista mundial?

Hoje, 30 anos depois de Atlanta, conhecemos a resposta que o futuro reservava.

Pérez ainda conquistaria mais dois títulos mundiais, em Helsinque 2005 e Osaka 2007, completando uma sequência de três títulos mundiais consecutivos. Em Pequim 2008, encerraria sua participação olímpica com uma segunda medalha, a prata nos 20 km, consolidando uma das carreiras mais extraordinárias da história da marcha atlética.

Jefferson Pérez marchando para vencer a marcha atlética de 20 km no mundial de atletismo de Helsinki 2005.
Jefferson Pérez vencendo os 20 km no mundial de Helsinki 2005

Ao longo dos Jogos Olímpicos da era moderna, a conquista de uma medalha no atletismo sempre foi uma realização reservada a pouquíssimos atletas. Para os países sul-americanos, historicamente, essa dificuldade foi ainda maior.

A seleção genética determina a participação de poucos nos Jogos Olímpicos. Voltar de lá com uma medalha no peito parece ser exclusividade dos predestinados.

Jefferson Pérez não apenas conquistou uma medalha olímpica.

Ele conquistou a primeira medalha olímpica da história do Equador e, posteriormente, acrescentou uma segunda, tornando-se o primeiro atleta do país a subir duas vezes ao pódio olímpico — feito que permanece, até hoje, único na história esportiva equatoriana.

A importância de sua conquista aumenta ainda mais quando se considera a dimensão esportiva do país que representava. O ouro de Atlanta não foi apenas uma vitória pessoal, transformou-se em um acontecimento nacional e fez de Jefferson Pérez a maior referência esportiva da história do Equador.

Em 1996, o Equador passou a ter um campeão olímpico.

Hoje, olhando para trás, sabemos que aquele campeão ainda estava longe de terminar sua história.

“De tanta excelência que conseguiu, pode até ser que ele não tenha encontrado a marcha, e sim a marcha, por capricho, tenha trazido o prodígio para si.”

As Conquistas de Jefferson Pérez

Principais conquistas, medalhas e recordes da carreira de Jefferson Pérez na marcha atlética, de 1987 a 2007.
  • Recorde mundial dos 20 km: 1:17:21 | Paris, 2003
  • Melhor marca pessoal: 1:17:21
  • Principais títulos: 1 ouro olímpico, 3 títulos mundiais e 1 prata olímpica

Entrevista com Jefferson Pérez em 2003: Uma Conversa no Auge da Carreira

C.Bertolino Quais são os verdadeiros reconhecimentos que o Equador tem por você, que ganhou a única medalha olímpica do  país?
J.Pérez – É permitir-me ser ouvido pelas maiores autoridades, e isso tem ajudado a encontrar respaldo para o esporte do meu país, o que me enche de satisfação.

C.Bertolino Como comentaria o fato de alguns dirigentes do COI (Comitê Olímpico Internacional) estarem cogitando a retirada da marcha do programa olímpico, por conta das polêmicas sobre sua arbitragem?
J.Pérez – Definitivamente, não podemos eliminar a primeira atividade que o ser humano aprende, quando dá seus primeiros passos, isto é, o caminhar. A marcha é uma das disciplinas mais antigas (100 anos), e tirá-la do programa olímpico seria como desconhecer o princípio da atividade do homem. 

C.Bertolino Sabemos que há tempos, você está sem a orientação técnica do colombiano Enrique Peña. O que aconteceu? Está corrigindo essa situação?
J.Pérez – Bem, como você sabe, agora Enrique é treinador da equipe dos Estados Unidos e está residindo por lá; é um pouco difícil o treinamento à distância, mesmo assim ele me ajuda com meus planos de treinamento, e tem um contrato com o Comitê Olímpico Equatoriano.

C.Bertolino Você é um marchador extremamente técnico, de movimentos “leves”. Trabalhou muito para isso, ou é característica natural?. Na sua opinião, quais escolas se destacam na técnica da marcha?  
J.Pérez – Sempre tive que trabalhar muito mais do que os outros marchadores, porque minha estatura não é ideal, e isso me tem possibilitado uma técnica muito apurada, nada fácil de conseguir. A origem da marcha, no aspecto técnico, tem suas bases no trabalho de Herzy Hausleber, de procedência polonesa e treinador do México; mesmo assim, cada região tem adaptado a técnica de acordo com as características de seus marchadores. Assim, temos os europeus, os mexicanos, os sul-americanos e os asiáticos, que são os grupos mais seletos em técnica.

C.Bertolino O Equador tem vários centros de treinamento de marcha desenvolvendo muitos atletas, e quem sabe, outros campeões do seu nível? Seus dirigentes estão trabalhando por mais medalhas?
J.Pérez – O único lugar onde se treinam marchadores, com especialização e desde muito jovens, é a escola de marcha de Cuenca, que você conhece. Nossos planos em conformidade com os dirigentes são: tratar de trabalhar com os talentos, projetando-os e cuidando deles, para que não se repita o acontecido com vários marchadores equatorianos de grande futuro, mas que abandonaram esta atividade desportiva por serem mal conduzidos. 

C.Bertolino Ainda que distante, chegará o dia de encerrar a carreira de atleta. Como gostaria de ser lembrado pelas pessoas?
J.Pérez – Como aquele pequeno homem de estatura, mas que não teve medo do destino, e quando teve que enfrentá-lo, estava preparado para fazê-lo.

Dois Momentos na História de Jefferson Pérez

Éramos 61 atletas de 34 países participando dos 20 km dos Jogos Olímpicos de Atlanta ’96. Chegado “o grande dia”, um grupo embarcou no segundo ônibus na vila rumo ao estádio olímpico, que não chegava, porque o motorista, militar que substituiu o voluntário demissionário não sabia o caminho.

A situação era de silêncio e muita tensão, e todos imaginando o pior. Ao meu lado, o jovem equatoriano de 22 anos Jefferson Perez, ia aparentemente tranqüilo, enquanto seu técnico colombiano praguejava tanta incompetência da organização. Foi por pouco que não perdemos a largada da prova, e foi por pouco, mas o suficiente, que o Jefferson ganhou a medalha de ouro.                     

                                                                                                                                      Cláudio BertolinoAtlanta 1996

Enquanto a temperatura apontava 8o C, meu coração batia muito forte, esperando por minha primeira Copa do Mundo de Marcha, após ter sido campeão olímpico. Era abril de 1997, e ao tiro da largada, meu pequeno peito carregava o nome “Equador”.

Quando todos esperavam a linha de chegada como única meta, decidi que a minha meta seria 20 metros antes, onde estava meu treinador Enrique. Ao passar por esse ponto, sabia que já não poderia mudar o resultado; meu primeiro título mundial adulto. Ao cruzar a linha, Enrique chorava, e o frio havia desaparecido. Quando o abracei desejando um feliz aniversário, não pôde conter suas lágrimas, expressando todo o sentimento através de seus olhos.                                                                       

                                                                                                                                       Jefferson PerezPodebrady 1997

Acompanhe Jefferson Pérez

Jefferson Pérez continua sendo uma das maiores referências da marcha atlética mundial. Para acompanhar seu trabalho, suas reflexões e sua trajetória atual, você pode encontrá-lo nas redes sociais:


Um detalhe pessoal dessa história

Existe uma conexão pessoal que torna esta entrevista particularmente especial para mim.

Em 1991, estive durante 50 dias em Cuenca, no Equador, treinando no Parque de La Madre sob a orientação de Luis Chocho Sanmartín, o mesmo treinador que havia iniciado Jefferson Pérez na marcha atlética.

Matéria do jornal El Tiempo, do Equador. O treinador Claudio Bertolino, então atleta, orientado pelo treinador equatoriano Luis Chocho.
Jornal El Tiempo | Cuenca – 08 de março de 1991

Naquele período, eu treinava junto com Jefferson e outros marchadores e marchadoras que faziam parte daquele ambiente extraordinário da marcha cuencana. Conheci, de dentro, o trabalho de Chocho e a atmosfera de uma escola que já começava a revelar atletas de grande talento.

A experiência representou um dos maiores saltos de qualidade da minha carreira como atleta.

Anos depois, competi com Jefferson Pérez em várias oportunidades, inclusive nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Naquele momento, porém, a dimensão completa da carreira que ele construiria ainda estava por ser escrita.

Hoje, olhando para trás, a conexão ganha uma dimensão especial.

O legado de Luis Chocho Sanmartín

Luis Chocho Sanmartín não foi apenas o treinador que iniciou Jefferson Pérez. Ao longo de décadas, sua escola formou uma verdadeira geração de grandes marchadores equatorianos. Jefferson foi um dos primeiros grandes frutos dessa escola; outros campeões viriam depois.

Chocho faleceu em 2021, mas sua marca permanece profundamente ligada à história da marcha atlética do Equador. A homenagem realizada em 2025, no próprio Parque de La Madre, reuniu antigos alunos e grandes nomes da marcha equatoriana, entre eles os campeões olímpicos Jefferson Pérez e Daniel Pintado — uma imagem que resume a dimensão do legado construído por aquele treinador. (Paso de Oro)

A história completa da trajetória de Luis Chocho Sanmartín e do legado deixado por sua escola pode ser conhecida na matéria publicada pelo Paso de Oro:

👉 Conheça a história de Luis Chocho e sua escola de marcha:

📝 La huella de Luis Chocho imborrable en Ecuador y en el mundo

Para mim, existe algo particularmente significativo em tudo isso. Em 1991, fui a Cuenca para treinar com Luis Chocho e convivi diariamente com um jovem Jefferson Pérez.

Em 1996, competi ao lado dele nos Jogos Olímpicos de Atlanta.

Em 2003, entrevistei o campeão olímpico e mundial para a revista RunningBR.

E hoje, mais de duas décadas depois daquela entrevista, volto a essa história para completar a dimensão do atleta, do treinador e da escola de marcha que estiveram presentes em diferentes momentos da minha própria trajetória esportiva.

Algumas histórias não terminam quando acontecem. Às vezes, é preciso esperar muitos anos para perceber que já estávamos dentro de uma história muito maior.

👉 Se você ainda não leu o artigo em que conto um pouco da minha participação nos Jogos Olímpicos de Atlanta e apresento alguns atletas brasileiros das provas de fundo e da marcha atlética, acesse o link:
📝 30 Anos de Atlanta 1996: O que o Tempo não Levou

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