Autor: bertolino-atleta

  • Lesões na Corrida: Métodos de Treino Podem Ser o Verdadeiro Gatilho

    Lesões na Corrida: Métodos de Treino Podem Ser o Verdadeiro Gatilho

    O assunto Lesões na Corrida pode ser percorrido por várias rotas e este texto vai abordar duas delas; uma de maneira objetiva, pois que já foi bastante examinada: as Lesões Típicas, com suas regiões e pontos anatômicos de manifestação; e outra com maior profundidade porque será o nosso foco: a Dinâmica das Cargas de Treino como fator predisponente original, ou como precursora quando atua como gatilho de um desequilíbrio, condição preexistente para as lesões.

    📌 Este artigo complementa o vídeo:
    👉 Lesões Típicas na Corrida

    Juntamente com o aumento da quantidade de praticantes da corrida, houve o aumento do acometimento multifatorial pelas lesões, as investigações para melhor conhecê-las na especialidade, e as ações a fim de evitar e ou sana-las.

    Sobre o tópico Prevenção, pode-se interceder com algum sucesso, pois, geralmente as lesões dos corredores de rua são geradas por microtraumas, de desenvolvimento lento, desconforto local que precede a dor e intensidade gradativa da mesma.

    A grande maioria das lesões desses atletas envia sinais antecipados e um lapso de tempo para ajustes e correções, quando a experiência e percepção aguçada de treinador/atleta podem interceder fazendo a diferença entre um processo rápido de reversão da situação garantindo a continuidade normal do processo, e o agravamento da situação, com perdas e outros empenhos no processo de treinos.

    E o que propriamente seria a Dinâmica das Cargas de Treino?
    Essa variável é a essência do planejamento; elege, hierarquiza, combina, distribui, qualifica, quantifica, temporiza e modifica os diversos tipos de cargas dos treinos obedecendo aos princípios científicos do treinamento esportivo.

    Essa dinâmica respeita as individualidades, o que pode e o que não se recomenda para os treinos, as etapas de evolução, manutenção, regressão e transição dentro do processo; em ultima instância, concorre para extrair o melhor da forma no ponto em que se precisa, preservando o indivíduo ao máximo.

    A presença de equívocos aqui, pode significar um dos principais fatores para desencadear lesões durante o processo de treinos, tratando-se aqui da prática regular da Corrida de Resistência, mas verificado em qualquer modalidade esportiva, nível ou objetivo do praticante.

    Uma boa equação da Dinâmica das Cargas é responsável não só por ótimos resultados, mas também por baixos índices de lesões. 

    Lesões Típicas na Corrida: Onde Elas Acontecem?

    Verificadas em várias regiões e predominantemente na parte inferior do corpo, as lesões que mais acometem os praticantes da corrida são também frequentes em três articulações: quadril, joelho e tornozelo.

    Região lombar, ponto de lesão específica na corrida.

    Nas costas temos a lombalgia; no quadril as síndromes do piriforme e do impacto, as bursites e tendinite de glúteo médio; nas pernas os estiramentos, distensões musculares (posteriores das coxas e panturrilhas), as periostites (tíbia) e fraturas por estresse (tíbia e fêmur), nos joelhos a condromalácia patelar e a síndrome da banda iliotibial; nos pés, fascite plantar, tendinite no aquiles e fratura por estresse no calcâneo.

    O Verdadeiro Problema: A Dinâmica das Cargas de Treino

    1. CARGAS DESPROPORCIONAIS

    Cabe aqui o conceito de Carga Externa x Carga Interna. Carga Externa representa os valores convencionados, estabelecidos pelo plano: 45’ de corrida contínua a 6’00”/km; 22 kg no supino; 8 x 1000m a 4’40”; etc…ou seja, as medidas que o treinador prescreveu na planilha ou sugeriu verbalmente.

    Carga Interna será o que esses valores representarem para o organismo no momento da execução: desde as sensações inócuas, passando por aquelas na medida, as que nos interessam é claro, chegando às extenuantes e até insuportáveis, as quais o métier costumava chamar de predatórias, e a seus prescritores (secretamente) de quebra-nozes.

    A escala de Borg adaptada, que classifica o esforço subjetivo, onde a pessoa pontua de 0 a 10 a sensação do esforço dispendido no exercício, é simples e ao mesmo tempo muito eficaz quando bem utilizada, podendo auxiliar bastante na questão das cargas externas x internas.

    📌 Se você quiser entender mais profundamente essa relação, assista:
    👉 Carga Interna x Carga Externa

    Atletas experimentados variavelmente conseguem executar até mesmo sequências de cargas extenuantes, ao menos por algum tempo, já que seu parâmetro de desafios e resultados é de extremos, sua predisposição mental e sua relação com o esforço são também muito diferenciadas.

    Tais níveis de cargas são praticadas até mais frequentemente do que podemos pensar, apesar da incoerência em muitos casos, porquê o empenho por super capacitar provisoriamente, acarretará altos riscos de incapacitar precocemente.

    No setor amadorístico então, não há justificativa alguma, a não ser a imperícia, para tal procedimento, e tanto neste quanto no setor profissionalizado, a insistência dessa condição pode até tardar, mas trará uma pesada fatura.

    2. ESTÍMULOS DESCONEXOS

    Um estímulo diferente dos padrões momentâneos praticados, em natureza e magnitude, geralmente na sua introdução ou reintrodução, como nos casos em que é aplicado com grandes lapsos de tempo, tanto possui a dificuldade de assimilação estrutural/orgânica do que se pretende com ele, como pode gerar um impacto negativo ao nível de lesão.

    São unidades de treinos fora do contexto, às vezes verdadeiras invencionices comprometendo o equilíbrio do processo, depletando energia demasiada, tomando tempo, concorrendo com capacidades importantes a serem desenvolvidas no momento e dificultando a regeneração de tecidos e sistemas.

    Tomada desplugada, representando desconexão.

    3. CARGAS CONFLITANTES

    Pense em cargas subsequentes como interação medicamentosa ou alimentar. Temos um medicamento ou alimento com poder de anular indesejada e respectivamente o efeito de outro, e uma situação ainda pior no primeiro caso, onde pode tal administração concomitante pode causar efeitos muito danosos ao organismo.

    Durante o processo dos treinos de Corrida, é possível por um descuido, impor cargas consecutivas, de diferentes naturezas e grandezas ou não, mas conflitantes entre si, tendo como reguladores o tempo de recuperação e a ordem da aplicação entre as mesmas.

    A prática de outros esportes, diferentes solicitações musculoesqueléticas pontuais, e até mesmo sessões alongamento muscular ou de flexibilidade, que em primeira análise só trazem benefícios, mal colocadas, entram nessa conta.

    Representação do conflito entre cargas de treinos.

    Então, ainda que um planejamento de âmbito amador não sugira muito treino ao praticante, mas o suficiente em termos de volume e intensidade, ele deve também comtemplar a lógica fisiológica, considerando a natureza e a ordem de aplicação das cargas, os diferentes períodos da preparação e a recuperação entre estímulos.

    Resulta que o plano ideal bem dimensiona a quantidade das cargas, gerais e específicas; uma variável pouco complexa, assim como bem respeita a qualidade delas; uma variável algo complexa, e tudo verificado pelo conteúdo e gerenciamento geral, responsável por evitar as contraposições que podem gerar lesões.  

    Tipo, qualidade e quantidade das cargas são ferramentas cujo domínio facilitam objetivos.

    4. GRADAÇÃO DAS CARGAS

    Imaginemos alguém aprendendo a andar de bicicleta na quarta-feira, porque pretende no sábado, atravessar pedalando uma cidade grande e movimentada, e conhece o caminho só por um mapa…

    Vai praticar até na sexta e deve conseguir, já que está decidido…mas não se pode garantir o quanto estará adaptado ao equipamento, qual o real impacto da distância percorrida no organismo ou nos joelhos, e como se sairá no trânsito.

    Representação do prejuízo causado pela falta de gradação das cargas de treinos.

    A aplicação repentina de um bloco ou de cargas isoladas de magnitude muito superiores às praticadas no momento, portanto em desrespeito à gradação, é também um caminho obscuro, sem chances adaptativas, produto da queima de etapas e não obstante se cumpra, as consequências são desconhecidas, porque o organismo e as estruturas do sistema de locomoção nem sempre respondem bem aos sobressaltos.  

    Estamos falando da carência da maturação estrutural e orgânica para enfrentar esses desafios, e a participação em distâncias maiores de provas sem a devida gradação também enquadra-se em situação abrupta.

    Respeito aos degraus é uma fórmula inteligente para a preparação.

    📌 Se você quiser entender por que a progressão é inegociável no treinamento, assista:
    👉 Treino de Corrida: Por que Não Queimar Etapas

    5. PADRÕES CONSTANTES (Platô e Sobrecarga Silenciosa)

    Face oposta à gradação das cargas. A utilização dos estímulos repetitivos ou de pequenos blocos deles comumente são observados entre os praticantes da corrida sem orientação especializada.

    Níveis moderados de intensidade de cargas repetitivas também podem estressar os sistemas orgânico e mental mais do se possa imaginar, com poderes de gerar lesões ou no mínimo, impedir aquisições viáveis de performance para as competições ou mesmo resultados esperados para a estética, onde o metabolismo passa a modular o balanço da ingestão calórica e gasto energético de forma desfavorável e não reage à altura para uma possível perda de peso desejada.

    Platôs permanentes de condicionamento em atividade específica devem ser evitados.

    Logo no início dos meus treinos sistematizados já mantinha um diário por temporada de treinos: primeiro num caderno, depois numa agenda e atualmente num arquivo do word, e essa prática, que gera uma preciosa fonte, sempre me auxiliou muito.

    Sempre que ocorria um percalço ia direto para o diário, e ali por vezes, encontrava a causa subentendida, quando não implícita mesmo, pelas semanas ou até meses anteriores; aprendia algo sobre aquilo e podia evitar a repetição de eventuais equívocos.

    Mantenho esse sistema também para todos os meus orientados e assim nunca me perco sobre a fase em que eles estão e quais as suas possibilidades atuais, traço diagnósticos e prognósticos da preparação e das provas, posso intervir mais precisamente sobre os fatores dinâmica das cargas e prevenção, e essa é uma forma efetiva de reduzir possíveis equívocos referentes aos cinco tópicos acima expostos. 

    Planejamento de Treino é Como um Jogo de Xadrez

    Lembrando um jogo de xadrez, onde diferentes peças desempenham diferentes funções, com alguma liberdade de escolha para os lances que se articulam e determinam um caminho, com possibilidades de previsões reativas, um plano de treinamento de corrida bem pensado contém vários métodos, gerais e específicos para melhorar cada uma das capacidades necessárias na preparação do corredor de resistência, e inúmeras combinações entre eles, o que confere certa flexibilidade no planejamento, limitada pelos fundamentos teóricos e características individuais, onde a subjetividade tem pouco espaço, e a sucessão de erros provocará perdas.

    🟢 Lesão não é acaso, e pode ser processo mal gerenciado. Boa parte das lesões na corrida não surge de um único treino, mas da acumulação mal distribuída de cargas.

    Quando o método respeita:

    • quantidade
    • qualidade
    • ordem
    • recuperação
    • individualidade

    A chance de lesão cai drasticamente. Treinar não é apenas aplicar estímulo; é saber quando, quanto e como aplicar. E isso separa improviso de planejamento.

    Fontes:
    João Abrantes
    http://www.centrodetreino.com/index.php/treino/carga-de-treino
    Adriano Leonardi
    http://educacaofisica.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=107

  • Lesões na Corrida: As Mais Comuns e Como Evitar

    Lesões na Corrida: As Mais Comuns e Como Evitar

    Se você corre regularmente, é muito provável que em algum momento enfrente alguma dor ou lesão. A corrida é uma das atividades físicas mais populares do mundo — e também uma das que mais expõe o corpo a pequenas sobrecargas constantes.

    Mas, por ser tão simples de começar, muita gente se esquece de algo importante: a corrida é uma atividade de impacto e altamente repetitiva.

    Isso significa que, ao longo de um treino, você repete milhares de passadas — e cada uma delas gera uma carga, que na soma, torna-se significativa para o corpo.

    Com o tempo, esse processo acaba expondo desequilíbrios, assimetrias e fragilidades que já existiam no corredor.

    Ou seja: na maioria das vezes, a corrida não cria o problema — ela revela o problema.

    Por isso, entender as Lesões Típicas da Corrida é fundamental para qualquer corredor que queira evoluir sem, ou diminuindo as interrupções.

    Neste artigo vamos ver:

    • Quais são as lesões mais comuns entre corredores
    • Por que elas surgem
    • Quais são os sinais de alerta
    • Como prevenir esses problemas antes que afastem você dos treinos

    Mas antes, vale dizer algo importante: a corrida não é uma atividade perigosa.

    Hoje já sabemos muito mais sobre prevenção, tratamento e recuperação de lesões. Com orientação adequada e progressão correta de treino, é perfeitamente possível correr por muitos anos com saúde e consistência.

    Inclusive, se você quiser entender esse tema de forma mais detalhada, assista também ao vídeo completo abaixo:

    Por que as lesões na corrida são tão comuns?

    A corrida reúne três características que, quando mal administradas, aumentam o risco de lesões.

    1. Movimento cíclico

    A corrida repete sempre o mesmo padrão de movimento.

    2. Movimento altamente repetitivo

    Em um único treino você pode dar milhares de passos, exigindo repetidamente das mesmas estruturas.

    3. Atividade de impacto

    A cada passada o corpo recebe uma carga que pode chegar a 2 a 3 vezes o peso corporal.

    Essa combinação cria um cenário interessante. O sistema cardiovascular evolui muito rápido; em poucas semanas você já percebe que está mais condicionado, respira melhor e aguenta correr mais tempo.

    Mas existe um detalhe importante. Os músculos, tendões, ligamentos e ossos levam muito mais tempo para se adaptar. Em alguns casos, essa adaptação pode levar meses ou até anos.

    Esse descompasso cria o que podemos chamar de janela de vulnerabilidade.
    O corredor se sente preparado para aumentar o treino, mas as estruturas que absorvem impacto ainda não estão totalmente adaptadas. É exatamente nesse momento que muitas lesões aparecem.

    Mas existe um detalhe importante: Muitas vezes, as lesões não surgem apenas pelo impacto da corrida, e sim por erros na forma como os estímulos de treino são aplicados.

    Alguns tipos de treino — quando mal utilizados — acabam funcionando como verdadeiros gatilhos de lesões em corredores.

    👉 Por isso, no artigo abaixo eu explico quais são os métodos de treino que mais geram lesões na corrida e por quê.
    ➡️ Lesões na Corrida: Gatilhos por Estímulos de Treino

    Outro ponto importante é que, na corrida, as lesões raramente surgem de forma abrupta.

    Diferente de esportes explosivos, como futebol ou basquete, na corrida geralmente aparecem sinais progressivos antes que o problema se instale de vez. O problema é que muitos corredores ignoram esses sinais.

    Índices de lesões em corredores (dados científicos)

    Estudos científicos mostram que entre 40% e 45% dos corredores sofrem algum tipo de lesão relacionada à corrida ao longo da prática esportiva.

    Esses números aparecem de forma consistente em revisões científicas que analisaram dezenas de estudos sobre lesões em corredores.

    Entre as mais comuns estão:

    Quadro dos índices das lesões típicas dos corredores

    Ou seja, quando falamos de lesões na corrida, estamos lidando com um conjunto relativamente previsível de problemas que aparecem repetidamente entre corredores, e quando analisamos quais lesões aparecem com mais frequência, aparecem sempre as mesmas.

    Lesões típicas na corrida

    A grande maioria das lesões de corredores acontece na parte inferior do corpo, especialmente em três articulações:

    • Quadril
    • Joelho
    • Tornozelo
    Imagem das principais articulações envolvidas na corrida: quadril, joelho e tornozelo

    Agora seguem alguns detalhes sobre as lesões mais recorrentes no praticante da Corrida.

    Fascite plantar

    A fascite plantar é uma das reclamações mais comuns entre corredores.
    Ela se caracteriza por uma dor intensa no calcanhar, com ardência na sola do pé, especialmente nos primeiros passos da manhã.

    Por que acontece

    A fáscia plantar é uma estrutura que sustenta o arco do pé. O impacto repetitivo da corrida pode gerar microlesões nessa região, levando à inflamação.

    Isso costuma acontecer quando:

    • O volume de treino aumenta rápido demais
    • O corredor treina sempre em pisos muito duros
    • Há pouca força na musculatura do pé

    Sinais de alerta

    • Dor no calcanhar
    • Dor ao acordar
    • Desconforto na sola do pé após longos períodos em pé

    Prevenção

    • Fortalecer musculatura do pé
    • Alongar a fáscia plantar
    • Usar tênis adequado
    • Variar os pisos de treino
    • Progredir volume gradualmente

    Uma observação interessante: você raramente verá um corredor experiente rodando em asfalto; sempre que podem, eles procuram evitar o excesso de treinos em pisos duros como o asfalto, justamente para reduzir o impacto acumulado.

    Tendinopatia do Aquiles

    Outra lesão bastante comum é a tendinopatia do tendão de Aquiles.
    O tendão de Aquiles, o mais potente do corpo, mas também suscetível, conecta a panturrilha ao calcanhar e sofre grande carga a cada passada.

    Sinais de alerta

    • Dor atrás do calcanhar
    • Rigidez pela manhã
    • Desconforto ao iniciar o treino

    Muitos corredores cometem um erro clássico: pensar que “aquecendo a dor passa”. De fato, a dor pode diminuir durante o treino, mas isso não significa que a lesão desapareceu, e foi exatamente assim que presenciei vários atletas limitados por esse problema, por anos.

    Fatores que favorecem essa lesão

    • Excesso de treino em subidas
    • Aumento rápido de volume
    • Corrida frequente em asfalto
    • Pouca força nas panturrilhas

    Estratégias de prevenção

    • Fortalecimento da panturrilha
    • Progressão gradual de treino
    • Evitar exageros em ladeiras
    • Atenção aos primeiros sinais

    Síndrome da Banda Iliotibial

    Essa é tão típica que recebeu o apelido de joelho do corredor. Ela acontece quando a banda iliotibial, uma faixa de tecido que vai do quadril até a tíbia, começa a gerar atrito na região lateral do joelho.

    Sintomas comuns

    • Dor na parte lateral do joelho
    • Desconforto ao correr
    • Dor ao descer escadas

    Erros comuns que favorecem essa lesão

    • Correr sempre no mesmo sentido em pistas inclinadas
    • Excesso de treinos em ladeiras
    • Fraqueza nos glúteos

    Prevenção

    • Fortalecimento do quadril
    • Exercícios para glúteos
    • Alongamento de posteriores da coxa
    • Variar terrenos e inclinações

    Essa é uma lesão tão presente entre corredores que merece um estudo específico, algo que vamos aprofundar em conteúdos futuros.

    Síndrome Fêmoro-Patelar

    A síndrome fêmoro-patelar causa dor na parte da frente do joelho, atrás da patela. Ela acontece quando há desequilíbrios musculares que alteram o alinhamento da patela durante o movimento.

    Sintomas

    • Dor ao subir escadas
    • Dor ao agachar
    • Desconforto após treinos longos

    Prevenção

    • Fortalecimento de quadríceps
    • Fortalecimento de glúteos
    • Exercícios de core
    • Mobilidade de quadril
    Regiões de quadríceps, glúteos e core, para fortalecer e prevenir lesões na corrida.

    Regiões de quadríceps, glúteos e core.

    Canelite (Estresse Tibial Medial)

    A canelite é outra que aparece com frequência entre corredores.
    Ela se manifesta como uma dor na borda interna da tíbia, que começa leve e vai aumentando com o tempo.

    Por que acontece

    O impacto repetitivo da corrida gera estresse na musculatura e no periósteo (membrana que envolve o osso). Esse quadro costuma surgir quando:

    • A quilometragem aumenta rápido demais
    • O corredor treina sempre em pisos duros
    • O tênis está gasto

    Prevenção

    • Fortalecer tibial anterior
    • Fortalecer panturrilhas
    • Alternar superfícies de treino
    • Progredir carga com paciência

    Fraturas por estresse

    Esse é o extremo da sobrecarga.
    As fraturas por estresse são pequenas fissuras em ossos como:

    • Tíbia
    • Fêmur
    • Metatarso

    Elas aparecem quando o corpo não tem tempo suficiente para se recuperar entre os treinos.

    Sinais de alerta

    • Dor progressiva
    • Dor localizada
    • Dor que piora ao correr

    Muitas vezes o corredor pensa que é apenas uma canelite, mas na verdade já existe uma fratura em desenvolvimento.

    Prevenção

    • Respeitar períodos de descanso
    • Alternar estímulos de treino
    • Incluir treino cruzado, como bike ou natação

    Outros problemas comuns em corredores

    Além das lesões principais, também aparecem com certa frequência:

    • Entorses de tornozelo (principalmente em trilhas)
    • Bursites no quadril ou joelho
    • Pubalgia, causada por desequilíbrios musculares

    Erros que mais levam a lesões na corrida

    Depois de anos acompanhando corredores, alguns padrões aparecem com frequência.

    Os erros mais comuns são:

    • Aumentar volume ou intensidade rápido demais
    • Ignorar dores iniciais
    • Participar de provas em excesso
    • Treinar apenas corrida
    • Usar tênis inadequado ou gasto
    • Ignorar fatores individuais como histórico de lesão ou excesso de peso

    Como prevenir lesões na corrida

    A boa notícia é que a maioria dessas lesões é previsível e evitável. Algumas estratégias fundamentais incluem:

    Planejamento estruturado

    Respeitar a progressão de carga e evitar aumentos bruscos de treino.

    Fortalecimento muscular

    Principalmente para:

    • Quadril
    • Core
    • Pés
    • Panturrilhas

    Treinos regenerativos

    • Corrida leve
    • Mobilidade
    • Alongamentos dinâmicos

    Variedade de estímulos

    Alternar pisos e incluir atividades como:

    • Ciclismo
    • Natação
    • Caminhada vigorosa

    Autoconsciência corporal

    Prestar atenção em sinais como:

    • Dor persistente
    • Rigidez matinal
    • Assimetrias de movimento

    Sono e recuperação

    É durante o descanso que o corpo se adapta e se fortalece.

    Conclusão

    Quando analisamos com calma, percebemos que as lesões típicas da corrida não são um mistério. Elas seguem padrões claros e quase sempre aparecem pelos mesmos motivos:

    • Pressa
    • Excesso
    • Falta de prevenção

    Ao longo da minha trajetória como treinador e atleta, já vi muitos corredores se afastarem da corrida por conta da insistência no erro, mas também vi muitos outros ajustarem o treinamento, corrigirem os erros e seguirem evoluindo normalmente.

    A corrida pode ser uma atividade extraordinária para a saúde e para a longevidade, desde que seja praticada com consciência.

  • Adauto Domingues: atleta olímpico, treinador de Marílson e referência no meio-fundo brasileiro

    Adauto Domingues: atleta olímpico, treinador de Marílson e referência no meio-fundo brasileiro

    Perfil de Adauto Domingues

    • Adauto Donizete Domingues | Meio Fundista | Atleta Olímpico | Treinador
    • Nascimento – 20/05/1961 | São Caetano do Sul/SP
    • Formação – Educação Física | Treinador Nível 5 IAAF 
    • Clubes & Cias – Patrulheiros Mirins de São Caetano | SESI de Santo André | USP/Xerox | BM&F/Pão de Açúcar | B3

    A Carreira de Adauto como Atleta

    Adauto Domingues dispensa apresentações no atletismo brasileiro e até mesmo internacionalmente, e basta dizer que foi treinador do maratonista Marílson dos Santos e pronto; o assunto está resolvido também entre boa parte dos praticantes amadores da corrida.

    Treinador de corrida Adauto e seu atleta Marílson Santos.

    Adauto e Marílson | Foto de Tião Moreira

    O que trazemos aqui tenta retratar o resumo do todo: o conjunto da obra de Adauto como atleta que foi e treinador que é; de extensão e relevância em ambos os contextos, que independentemente do destaque e reconhecimento obtido pela orientação a um atleta, ele já teria luz própria.

    Adauto iniciou cedo no atletismo juntamente com seu irmão nos Patrulheiros Mirins de São Caetano do Sul com a marcha atlética, mas logo passou a dedicar-se às corridas, participando de muitas provas e em variadas distâncias, tantas que aos 18 anos já tinha uns 300 troféus em casa, e em 1982 veio o primeiro resultado importante; foi segundo colocado nos 1.500m do Troféu Brasil de Atletismo, numa época em que a prova era concorrida por vários grandes atletas.    

    Versatilidade e hegemonia nas pistas

    Na década de 80 o então atleta especializou-se nas provas de média distância, porém mostrou rara aptidão também nas de resistência, então dos 1.500m aos 5.000m, inclusive e sobretudo nos 3.000m com obstáculos, onde iniciou por acaso e ganhou o Troféu Brasil por 7 vezes seguidas (de 83 a 89), ou dos 10.000m até a meia maratona que marcou 1h02’50”, passando pelos 12 a 13 km da São Silvestre na época, com 15 participações e 4 pódios, sem perder por 10 anos seguidos no Brasil dentro da sua especialidade, onde o atleta competia era problema na certa aos concorrentes. Estrategista em provas como poucos, não dá pra falar do atleta Adauto sem citar hegemonia, versatilidade e competência.

    O irmão de Adauto, Ademir Domingues, também mostrou a que veio, ao optar permanecer competindo na Marcha Atlética nos Patrulheiros, depois defendendo o Clube Atlético Pirelli na década de 80, e o restante da sua carreira esportiva passou para o Sesi de São Caetano do Sul, quando treinando sempre muito pouco para sua especialidade, a exigente prova dos 50 km, ainda conseguiu estabelecer a respeitável marca de 4h09’03” em 1993, índice técnico com o qual participou do mundial de atletismo em Stuttgart no mesmo ano.   

    As décadas de 80 e 90 corresponderam à época promissora do atletismo nacional, de uma enorme fertilidade de nomes fortes com suas performances altamente relevantes, com centenas de participantes nas provas de velocidade e de saltos, com a pista tomada também para os outros grupos de provas, com vários atletas de alto nível em muitas especialidades, quando havia sempre dois ou três grandes clubes brigando seriamente pelo título do Troféu Brasil, e logo aqueles que almejavam se posicionar entre os 10 melhores, e depois tantos outros.

    O impacto no Troféu Brasil e nos clubes

    Nesse panorama, cada ponto marcado pelo atleta segundo a classificação em sua prova era seriamente disputado, e se, o Grêmio Esportivo do SESI de Santo André conquistou com três vitórias (de 1984 a 1989) o VIII Troféu Brasil de clubes, Adauto foi dos seus maiores protagonistas, ao competir por algumas vezes em 03 provas: 1.500m, 3.000m com obstáculos e 5.000m; no auge vencendo todas elas, com recorde do campeonato para as duas primeiras, o que provia em torno de 50 pontos, o equivalente à pontuação de 07 atletas medianos, perto dos 15% dos pontos totais conquistados pela equipe; ele sozinho representava 03 excelentes atletas competidores de uma prova só.

    Adauto no desfile dos Jogos Pan-Americanos de Havana 1991.

    Desfile de abertura dos Jogos Pan-Americanos de Havana 1991

    O sprint final e o espetáculo

    Se, uma das características do esporte é o espetáculo, o Atleta tinha o seu em quase todos os finais de prova chegando a marcar espantosos 24” nos 200m finais da prova de 5.000 metros. Um sprint assim em fase terminal de prova é dado a poucos fundistas, com particular combinação de certas fibras musculares mais a capacidade de mobilizá-las, de modo que, quando vinha um bloco de atletas decidindo uma prova na última volta na pista e dentre eles Adauto em forma, era quase impossível superá-lo e mais, chegava com muitos metros de distância dos adversários; era um show à parte dentro do evento, e a torcida geralmente de muitos atletas de outras provas fazia questão de vê-lo competir, quando se ouvia o comentário aos finais de suas provas: “lá vem ele”, e vinha, cheio de amplitude como um gigante, e todos já sabiam o que esperar.

    O quadro a seguir mostra as principais participações e conquistas do atleta. 

    Quadro das participações, conquistas e recordes do atleta Adauto Domingues.

    *Recorde brasileiro

    A Transição para o Treinador

    A formação internacional (IAAF nível 5)

    Em 1992 o ainda atleta e já formado em Educação Física Adauto foi convidado a cuidar do grupo de jovens atletas especialistas em 800m, 1.500m e 3.000m com obstáculos e realizava seus treinamentos com outro grupo, pelo qual logo se tornaria também o responsável técnico cujos destaques eram os jovens ainda potencial Marílson dos Santos e Clodoaldo Gomes, até que em 1996 passou a atuar somente com treinador, e fez questão de chegar ao nível 5, a maior graduação de formação para treinadores da IAAF – Associação Internacional de Federações de Atletismo.

    A condição de pós-atleta de elite trouxe uma imensa bagagem à condição do treinador, onde a facilidade de interpretar as forças e fraquezas de cada atleta treinado por ele, direcionando e concentrando atenção às questões necessárias de cada preparação sob sua responsabilidade e tão acostumado aos pódios, sempre soube o caminho como enviar para lá, e assim foram surgindo seus campeões. 

    Abaixo, os principais atletas sob a orientação deste treinador, com suas vitórias importantes, marcas expressivas, medalhas Pan-americanas e Sul-americanas, e participações olímpicas, o que nos revela toda a qualidade do seu trabalho:

    Atletas formados por Adauto

    • Marílson Gomes dos Santos: três vitórias na São Silvestre (2003, 2005 e 2010) e duas vitórias na maratona de Nova York (2006 e 2008), atleta olímpico em 2008, 2012 e 2016;
    • Juliana Gomes dos Santos: campeã Pan-americana dos 1.500 em 2007, dos 5.000m em 2015 e recordista Sul-americana dos 3.000 com obstáculos em 2016, atleta olímpica em 2016;
    • Clodoaldo Gomes da Silva: campeão mundial juvenil de 20 km em 1994 e vice-campeão da São Silvestre em 2006;

    Os marchadores de 50 km:

    • Mário José dos Santos Jr.: medalha de prata nos jogos Pan-americanos em 2003, atleta olímpico em 2004, 2008 e 2016;
    • Jonathan Riekmann: atleta olímpico em 2016.

    Atuação além da pista

    Dentre as principais atividades como treinador, Adauto manteve uma assessoria esportiva para corredores de rua, cuidou de jovens iniciantes em escola de atletismo, atuou num belo projeto de equipe de atletismo de iniciativa privada junto à USP, foi um dos treinadores da principal equipe brasileira de atletismo, já foi comentarista em programa esportivo de TV para grandes eventos de atletismo, palestrante e formador de treinadores de atletismo pela IAAF na região Sul-americana, e atualmente treina vários atletas de elite e ministra cursos on-line para a formação de treinadores, especialmente de Corrida de Rua.

    Adauto sendo apresentado para ministrar um curso de corrida de fundo.

    O quadro que segue revela a extensa lista de competições do mais alto nível, às quais Adauto foi convocado como treinador pela CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo ou pelo COB – Comitê Olímpico Brasileiro, e, além dessas delegações participou de outras tantas acompanhando seus atletas. 

    Quadro das participações de Adauto em competições de alto nível pelo mundo.

    Entrevista com Adauto Domingues

    CCorrida: Mesmo que com tantas conquistas, existiu alguma meta que gostaria de ter alcançado como atleta, e ou existe uma meta ainda a ser atingida na carreira de treinador?
    Adauto: Assim como a maioria dos atletas eu tinha uma meta: de ir à Olimpíada. Quando você participa, como eu fui em Seul, fica o sonho da medalha; primeiro tinha como atleta e depois como treinador, e o sonho continua…

    CCorrida: Você poderia ter sido muito melhor como atleta, dadas as eventuais carências estruturais e ou de informação da época?…E como treinador, você tem condições ideais para produzir campeões?
    Adauto: Sim, acredito que sim, pois conhecendo mais de treinamento sei que podia ter feito outros trabalhos, criado mais situações para poder competir mais vezes com os melhores. Como treinador, na época da B3 (Clube B3 Atletismo, mantido pela BM&F, maior e mais bem estruturado clube de atletismo que já houve no país) tinha uma condição mais próxima do ideal, agora estamos nos reinventando para seguir com o trabalho.

    CCorrida: Sobre a base do teu trabalho, para a elaboração dos treinamentos que aplica, você tem como referência a metodologia de alguma (s) escola (s) de meio fundo e fundo em particular?
    Adauto: Na verdade hoje faço um apanhado de muitos treinadores e escola e vou filtrando o que me interessa, mas tenho uma maior porcentagem de trabalho baseado na escola espanhola.

    CCorrida: Há duas décadas, o contingente de atletas fundistas e meio fundistas de elite era maior, assim como a média de sua performance…Quais fatores contribuíram para tal involução?
    Adauto: Isso é um fenômeno mundial, não acontece só no Brasil; veja Portugal, Espanha, Itália e por aí vai…pra nós especificamente, vejo a forma como criamos e desenvolvemos nossos jovens na infância e adolescência, cada vez eles se mexem menos e perdemos um bom momento da vida para o desenvolvimento e crescimento destes jovens e oferecemos a eles cada vez menos oportunidade de praticar movimentos naturais.

    CCorrida: O atletismo nacional já foi referência quando se tratava de altíssima performance ou medalhas olímpicas e mundiais para as modalidades individuais, mas, não obstante os investimentos estatais na modalidade, ficou para trás não só de uma, mas de várias modalidades individuais, como a natação, judô, boxe e canoagem, que evoluíram…Na sua opinião, porque não crescemos também?
    Adauto: Eu acho que estávamos muito atrás e torcendo para um talento excepcional aparecer, acho até que melhoramos sim com mais atletas em finais, maior número de grupos de provas não só de velocidade, mas também acho que perdemos o “time” (tempo), e o dinheiro da Olimpíada só com quem estava com alguma chance de uma possível medalha, e faltou utilizar este dinheiro com os atletas que estariam no ciclo de 8 ou 12 anos depois do Rio.

    CCorrida: Assuntos delicados no atletismo como, doping e fraude, às vezes têm que ser discutidos e resolvidos. Sobre especialização precoce no Brasil, você tem algo a ponderar?
    Adauto: Doping é uma praga que precisa ser combatida, vou sempre pensar assim. Quanto à especialização precoce acho o tema mais delicado; quando o Joaquim (Joaquim Carvalho Cruz, campeão olímpico em 1984 e medalha de prata em 1988 na prova dos 800m) apareceu disseram que o Luiz (Luiz Alberto de Oliveira, treinador) estava “matando” o garoto e que não duraria 3 anos, veja onde ele chegou. Tenho vários exemplos de outros atletas que pintaram bem no infantil não deram certo, e aí disseram que foi um trabalho precoce que “matou” o atleta; depois de algum tempo fico imaginando, será que este garoto era talento mesmo ou era o atleta que tinha um desenvolvimento (uma idade fisiológica já adiantada).
    Mas concordo que para as provas de fundo principalmente, é possível fazer o atleta melhorar no infantil sem precisar de grandes rodagens e sessões de tiros extenuantes.

    CCorrida: As corridas de rua de antigamente, basicamente de atletas e aspirantes, abriram o campo para o modelo presente, de massificação com viés na saúde e qualidade de vida, suprimindo o modelo original, o que tem prejudicado os atletas profissionais.
    Você enxerga alguma forma para que a categoria dos amadores possa beneficiar a dos profissionais?
    Adauto: Eu sempre acho que a corrida de rua não é o vilão da história; alguns treinadores e atletas não conseguem utilizar as corridas a seu favor e acabam exagerando na dose, fazendo com que as corridas os prejudiquem. Veja bem, nenhum fundista bom e conhecido começou na pista, todos começaram na rua, na prova de bairro perto de sua casa; é ali que terão o primeiro contato com as corridas.

    CCorrida: Tem sido comum a grande quantidade de amadores levando a competitividade muito a sério…Qual seu ponto de vista sobre isso?
    Adauto: Normal…a competição faz parte da essência do ser humano; o papel do treinador é de incentivar, ou se for preciso, pisar no freio deste atleta amador.

    CCorrida: Poderia deixar suas mensagens; à enorme quantidade de corredores amadores e também aos treinadores iniciantes?
    Adauto: Continuem a treinar e competir…o mundo das corridas é maravilhoso e os benefícios orgânicos são enormes, e pra motivar, coloquem pequenas metas sim, pra evitar aquela acomodação de alguns.

    Fontes:

    http://www.cbat.org.br/novo/
    https://soesporte.com.br
    http://www.cassilandianoticias.com.br/ultimas-noticias/saiba-detalhes-de-todas-provas-da-sao-silvestre
    https://www.superesportes.com.br/app/19,66/2014/12/31/noticia_maisesportes,59340/atleta-de-brasilia-clodoaldo-gomes-da-silva-se-despede-da-sao-silvestre.shtml

  • Luiz Antônio dos Santos – O Maratonista de Aço

    Luiz Antônio dos Santos – O Maratonista de Aço

    Perfil

    Luiz Antônio dos Santos | Maratonista
    Clubes & Cias – Arpoador/RJ | Flamengo/RJ | BM&F/Pão de Açúcar | Nike Internacional
    Nascimento – 06/04/1964 | Volta Redonda/RJ
    Fomação – Contabilidade | Nível 1 de Treinadores da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo)
    Trabalho – Gestor/Treinador | Equipe A.A. Luasa de Atletismo | Taubaté/SP

    Conjuntura, Memória e Reconhecimento

    Conjunturas podem ser decisivas para a notoriedade. Assim, além da competência, mais uma vez é preciso estar no lugar certo na hora exata. 

    Se você corre ou é entusiasta e ainda não conhece Luiz Antônio dos Santos, é caso de conjuntura somada à pouca memória que culturalmente temos para tratar nossos campeões.

    Início Tardio e Obstáculos de Saúde

    Luiz Antônio começou tarde com os treinamentos especializados para corridas de fundo, aos 25 anos, pouco antes, deparou-se com um sério problema na série branca do sangue que quase evoluiu para uma leucemia, e teve também uma arritmia cardíaca. Não esteve no pódio da São Silvestre, apesar de tê-la corrido por mais de dez vezes, nem brilhou em Jogos Pan-Americanos; uma boa combinação para ser no limite um atleta mediano, ou mais um corredor amador, o que para nós seria de bom tamanho, mas não para ele…

    A Consolidação como Maratonista de Classe Mundial

    A década de 90 atestou que Luiz Antônio, percebendo sua facilidade para as maiores distâncias, trabalhando duro e aos cuidados do treinador Henrique Viana, seria um maratonista respeitado no mundo todo. Em 1993, após quatro anos de treinamentos direcionados, aconteceu o grande encontro e a constatação do atleta com sua distância de prova perfeita; estreou na maratona de Blumenau vencendo com 2h12’15“.

    Feitos Históricos e Maratonas Majors

    Quadro das conquistas e performances do maratonista Luiz Antonio dos Santos.

    Maratona de Chicago

    Em quase 40 anos de existência, desde 1977, a Maratona de Chicago tem entre os homens apenas 1 tetra e 4 bicampeões, e Luiz Antônio é um deles. Esta maratona sempre foi das mais concorridas por vários aspectos, atualmente conta com 45.000 participantes de mais de 100 países e de todos os 50 estados dos EUA e as inscrições esgotam em uma semana, tem mais de 1.500.000 de expectadores e distribui altas quantias aos vencedores. 

    World Marathon Majors (WMM)

    Este mega evento, juntamente com as maratonas de Tóquio, Berlin, Londres, Nova York e Boston (desde 1897), constituem o World Marathon Majors (WMM), a associação das principais maratonas do mundo, que com vários atrativos se tornaram o sonho de maratonistas amadores ou profissionais em participar de uma, ou de todas elas.

    Medalhas Mundiais e Recordes

    Dentre os poucos membros eméritos da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt, fundada em 1977), título concedido aos atletas brasileiros que obtiveram grande destaque em nível mundial, figura Luiz Antônio dos Santos, porque ele tem uma (bronze, maratona, Gotemburgo – 1995) das raras 12 medalhas conquistadas em campeonatos mundiais de atletismo outdoor para o Brasil, das 15 edições disputadas desde 1983; aliás, a única naquele campeonato e a única, até então, em provas de fundo. E o atleta tem mais uma medalha de nível mundial, bronze por equipe, no mundial de atletismo válido também como copa do mundo de maratona em Atenas 1997, quando individualmente foi o 5º melhor do mundo.

    Luiz Antonio dos Santos (26) competindo ao lado de Vanderlei Cordeiro (1) e Daniel Lopes (81).

    Luiz Antonio dos Santos (26) Vanderlei Cordeiro (1) Daniel Lopes (81)

    Olimpíadas, Pódios e Marca Histórica

    Ainda em âmbito mundial, uma décima colocação olímpica (Atlanta – 1996) é para poucos atletas brasileiros. Luiz Antônio subiu ao pódio das também concorridíssimas maratonas de Boston e de Fukuoka, além de ter sido recordista Sul-Americano (2h09’30”, Fukuoka/JPN – 1995), e tem a marca de 2h08’56” (Rotterdam/NED – 1997), que permanece entre as cinco melhores de todos os tempos entre os brasileiros. https://globoplay.globo.com/v/5163107

    As Dores Fora da Pista

    O atleta Luiz Antônio não viveu uma carreira só de vitórias e conquistas; vivenciou dificuldades, conheceu de perto algumas derrotas extra pista, como problemas estruturais do esporte no Brasil, foi acometido de lesão acompanhada de desamparo, sofreu perda de apoio financeiro e afastamento de alguns amigos quando mais necessitava.

    Da Elite Mundial à Formação de Atletas

    Nunca esmoreceu, encerrou a carreira de atleta em 2005, cuja competência em volume no mais alto nível é de difícil paralelo, e sua relevante obra continua, agora como treinador/gestor de um grande projeto com atletas iniciantes e profissionais brasileiros e estrangeiros, onde já produz muitos resultados positivos e certamente pode, com toda sua bagagem, continuar indicando os melhores percursos rumo à cidadania e vitórias. https://luasa.wordpress.com/luiz-antonio-dos-santos/

    Entrevista | Luiz Antônio dos Santos

    CCorrida – Existe algo na sua carreira que gostaria muito, perseguiu e não foi possível conquistar?
    LuASa – Minha busca maior foi pela medalha olímpica, e depois que ganhei a medalha no mundial (1995) acreditei muito mais nisso. Não foi possível, mas ainda trabalho com este objetivo, agora como treinador.

    CCorrida – Como surgiu, como funciona a estrutura geral da Luasa e sua relação com a prefeitura e com os estrangeiros?
    LuASa – Surgiu primeiramente, com um convite de alguns atletas que perceberam que com minha experiência eu poderia treiná-los, e depois começamos a pensar em algo diferente; em montar a própria equipe. Isso tudo se uniu à oportunidade de trabalhar com os estrangeiros, então somamos tudo e começamos mesmo sabendo das dificuldades, mas pensando ser possível com muito trabalho. Depois de formado tudo isso e com o trabalho já mostrado, começamos a montar as categorias de base buscando parceria com a prefeitura, sempre com objetivo de fazer mudanças em tudo que estamos acompanhando por aí… e assim estamos hoje.

    CCorrida – Fale das conquistas da equipe Luasa como treinador e gestor.
    LuASa – Na verdade sou o gestor, o treinador, o psicólogo, comprador, design…enfim faço de tudo. Acredito que a Luasa já conquistou coisas que equipes no mercado há muito tempo ainda não alcançaram, mas estamos ainda na luta, na busca de mudanças para o atletismo, pois temos muito material humano, mas precisa que lá em cima exista um olhar diferente para o atletismo, porque assim, poderemos ser uma potencia. Nisso é que acredito. 

    CCorrida – Há 30 anos atrás a proporção entre amadores e profissionais nas corridas era diferente. Há 15 anos atrás você já alertava sobre a eventual ganância das organizações das provas acima de tudo. Como anda tudo isso atualmente?
    LuASa – Olha, piorou, pois quem organiza continua ganhando muito dinheiro enquanto a elite continua desvalorizada, e isto cresceu tanto que virou só um negocio para quem organiza. Por isto acontecem até brigas entre as organizadoras. Vejo que a CBAt, a nossa entidade maior, assim como algumas federações também ganham muitos com isto, e eles, que poderiam fazer algo em favor do atletismo, não fazem.

    CCorrida – Desde de 2001, o atletismo brasileiro tem um relevante aporte financeiro estatal. Muito se falou em projetos que alavancariam a modalidade pela entidade gestora. Na sua visão como ex-atleta e treinador de sucesso, porque não temos muito mais resultados expressivos tal qual os seus, a despeito de nosso substrato de alto potencial, vivendo ainda de valores pontuais? 
    LuASa – Justamente, muito dinheiro, aí já viu… outra coisa:- esta garotada de hoje não quer nada com nada, não tem compromisso, não enxerga longe ou muito além do seu nariz. Tem também os clubes grandes que não querem formar atletas e sim tirar de quem os formam, oferecendo dinheiro, porque pra isto eles têm, então o garoto se deslumbra, mas esquece de todo o trabalho para chegar ate ali. Neste caso a CBAt, nossa maior entidade não faz nada. 

    Curiosidades

    Luiz Antônio se quer participaria da 1ª Maratona Internacional de São Paulo, em 1995, já que sua temporada, a melhor de todas, estava terminada e consagrada. Acontece que, um dos patrocinadores queria sua presença na prova, dado o momento do atleta e o prestígio que isso traria ao evento; então ficou acertado que Luiz correria 1 km apenas… ele não só completou, como venceu a maratona.

    Há uma semana da Maratona de Fukuoka de 1995, o atleta passou por uma situação difícil; contraiu uma inflamação na garganta, que piorou com bolhas de sangue assim que ele chegou lá. Bem preparado e muito confiante, ele decidiu por manter sua participação na corrida; “e deu no que deu” conta ele; venceu estabelecendo novo recorde Sul-Americano.

    Nota de Atualização | Fev. 2026

    Em 6 de novembro de 2021, aos 57 anos, Luiz Antônio dos Santos faleceu em Taubaté (SP) vítima de uma parada cardíaca. Sua trajetória é lembrada não só pelos resultados, mas pela entrega à corrida de rua e pela contribuição à formação de outros corredores. Em 2019 foi publicada sua biografia, O Maratonista de Aço: A História de um Atleta Brasileiro, que registra sua vida e feitos no atletismo mundial.

    Fontes

    http://www.cbat.org.br
    https://www.chicagomarathon.com/press-center/race-history
    http://www.mapofsports.com/2014/09/08/world-marathon-majors-as-6-principais-maratonas-do-mundo/
    https://www.iaaf.org/athletes/brazil/luiz-antonio-dos-santos-10437https://www.espn.com.br/atletismo/artigo/_/id/9487371/morre-o-medalhista-mundial-de-maratona-luiz-antonio-dos-santos