Você pode estar fazendo tudo certo nos seus treinos… ou acreditando que está.
Mas se você não sabe exatamente o que está fazendo — nem por que está fazendo — o risco de estar se sabotando é enorme, e o pior: muitas vezes isso acontece sem que o corredor perceba.
Neste artigo vamos falar sobre alienação no treinamento de corrida: o estado em que o atleta treina no automático, sem buscar clareza sobre o processo e, por isso mesmo, acaba comprometendo sua evolução.
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👉 Como a Alienação Barra Sua Evolução
Um ciclo que pode libertar — ou aprisionar
A corrida é, por natureza, um movimento cíclico.
Passo após passo, um gesto se repete e se encaixa no outro, formando um padrão de deslocamento que pode parecer quase hipnótico.
Esse automatismo biomecânico é fundamental para a eficiência da corrida; quanto mais natural e econômico o movimento, melhor, mas existe um detalhe curioso: esse automatismo físico pode acabar se refletindo também na mente do corredor.
Quando isso acontece, o atleta passa a:
- repetir treinos sem questionar
- cumprir planilhas sem entender
- manter hábitos sem avaliá-los
- acumular quilômetros sem construir consciência
O que deveria ser um ciclo virtuoso de evolução acaba se transformando em um ciclo vicioso de estagnação.
A estagnação quase sempre gera prejuízos.
O corpo continua correndo , mas o entendimento não evolui, e quando o entendimento para, a performance pode parar também.
O que é alienação no treino de corrida?
Neste contexto, alienação não tem relação com o uso jurídico do termo. No treinamento esportivo, usamos a palavra para descrever quando o corredor não compreende a lógica do próprio processo de treinamento.
Ele não sabe, por exemplo:
- por que a intensidade muda ao longo da semana
- qual é o objetivo de cada tipo de treino
- o papel das rodagems, intervalados e longões
- quais são as cargas ideais para cada estímulo
- por que existe uma ordem estratégica entre esses treinos
Também não entende por que às vezes ainda não é hora de correr uma meia maratona ou uma maratona, mesmo que tenha vontade. Na maioria das vezes, o problema não está apenas na falta de conhecimento técnico, o problema está na postura passiva diante do processo.
É o corredor que:
- apenas segue a planilha
- ou treina “no feeling”
- mas não procura entender o que está acontecendo.
O ciclo da alienação no treinamento
A alienação no treino costuma funcionar como um ciclo que se retroalimenta; vamos entender como isso acontece.
1. Falta de consciência
O primeiro elo é simples: executar sem compreender. Muitos corredores apenas “seguem o fluxo”, repetindo treinos sem saber:
- qual sistema energético estão trabalhando
- qual o objetivo do treino do dia
- em que fase do planejamento se encontram
Treinar passa a ser quase uma receita de bolo. Hoje, com tanta informação disponível gratuitamente na internet, esse comportamento chama ainda mais atenção, já que antigamente era preciso comprar revistas especializadas ou participar de cursos para entender o básico.
Hoje bastaria acompanhar:
- bons canais no YouTube
- podcasts especializados
- conteúdos educativos
Mesmo assim, muitos corredores não desenvolvem essa curiosidade ativa, e essa falta de consciência cria terreno fértil para:
- erros de treinamento
- vícios técnicos
- sobrecarga
- estagnação
- lesões evitáveis
Sem entender o processo, o corredor vive um treino praticamente “cego”.
2. Vulnerabilidade
Sem entender o que está fazendo, o corredor se torna altamente vulnerável.
Ele pode:
- seguir orientações equivocadas sem perceber
- confiar cegamente em qualquer treinador ou influenciador
- cometer erros sozinho acreditando que está evoluindo
Essa falta de critérios abre espaço para exageros, desequilíbrios e decisões ruins. É como dirigir um carro em alta velocidade com os vidros embaçados.
Pode até funcionar por um tempo, mas cedo ou tarde o impacto aparece.
3. Resultados fracos
Com o aumento da vulnerabilidade, os resultados começam a refletir esse desequilíbrio.
O rendimento pode:
- estagnar
- evoluir muito lentamente
- ou até regredir
Além disso, podem surgir:
- sinais de sobrecarga
- pequenas lesões recorrentes
- queda na motivação
O corredor treina, se esforça… mas a evolução não aparece.
4. Frustração e confusão
Quando os resultados não aparecem, surge a frustração. Sem entender o motivo, o corredor começa a duvidar:
- do método
- do treinador
- do próprio corpo
- ou da própria capacidade
Ele tenta corrigir por conta própria, mas como não tem clareza do problema, acaba cometendo novos erros. Isso gera:
- confusão mental
- desânimo
- perda de prazer na corrida
5. Reforço da alienação
Mesmo frustrado, o corredor continua repetindo os mesmos padrões. Ele pensa:
“Uma hora vai dar certo.” Sem reflexão e sem orientação consciente, os erros se normalizam, a alienação vira hábito e o ciclo se fortalece.
Com ou sem treinador, isso pode acontecer
Um ponto importante: a alienação pode acontecer tanto com quanto sem treinador.
Você pode estar alienado:
- mesmo tendo treinador, se apenas executa sem entender
- mesmo treinando sozinho, se não segue nenhum critério
Ou seja, o problema não é apenas a presença ou ausência de orientação técnica; o problema é a falta de consciência crítica sobre o processo. Treinar não é apenas correr, Treinar também é pensar sobre o que se está fazendo, e quem pensa sobre o treino tende a aprender mais com os acertos — e errar menos.
Por que é tão fácil ser enganado?
Um corredor alienado é relativamente fácil de impressionar.
Por exemplo:
- um gráfico bonito pode parecer uma grande análise
- uma explicação longa pode parecer profunda
- um treino extremamente difícil pode ser interpretado como “treino eficaz”
Sem entendimento básico, o corredor pode cair facilmente em:
- modismos
- estratégias de marketing
- orientações mal fundamentadas
Às vezes, isso acontece até sem má intenção por parte de quem orienta, mas o corredor alienado não tem ferramentas para perceber.
Uma experiência pessoal sobre alienação
Aprendi isso fora da corrida, da pior maneira. Durante um período da minha vida profissional, deixei as ações de marketing da minha empresa totalmente nas mãos de terceiros. Eu praticamente não entendia nada sobre o assunto.
Resultado: perdi tempo e dinheiro com profissionais despreparados e depois disso, resolvi aprender ao menos o básico sobre o assunto, não para fazer tudo sozinho, mas para não ser enganado novamente.
Muitos de nós já passamos por algo semelhante em outras áreas da vida e não por acaso, quando precisamos de um especialista, costumamos buscar referências e recomendações antes de contratar.
Afinal, quem nunca saiu de uma oficina com a sensação de não saber se o orçamento do mecânico estava realmente justo? Esse tipo de experiência ensina algo importante:
entender minimamente um serviço não é arrogância — é proteção.
E no treinamento esportivo isso é ainda mais relevante. Diferente de um serviço pontual, a orientação no treino é um processo contínuo e recorrente. O que está em jogo aqui é uma atividade importante realizada diretamente sobre o próprio corpo, com impacto não apenas na performance, mas também na saúde.
Se a orientação for ruim, o prejuízo pode se acumular ao longo do tempo, por isso, quanto mais consciência o corredor desenvolve, mais protegido ele fica.
O risco de acertar sem saber por quê
Errar é ruim, mas existe algo quase tão perigoso quanto errar: acertar sem entender o motivo.
Quando o corredor tenta repetir aquele acerto no futuro, pode falhar completamente, porque o contexto mudou.
Talvez aquele resultado tenha sido fruto de:
- uma fase específica do treinamento
- um momento particular da preparação
- ou simplesmente sorte
Evoluir por sorte é frágil. Já evoluir com consciência é sustentável.
Quem entende o processo sabe:
- o que funcionou
- por que funcionou
- quando repetir
- quando adaptar
Isso constrói uma base sólida para evolução.
Como romper o ciclo da alienação
Você não precisa se tornar especialista em treinamento, mas pode desenvolver um nível básico de consciência sobre o seu processo e algumas atitudes simples ajudam muito nisso.
Estratégias práticas
- Consuma conteúdos educativos confiáveis
- Pergunte mais, mesmo que tenha treinador
- Entenda a lógica geral do seu treinamento
- Busque clareza sempre que algo não fizer sentido
- Evite terceirizar totalmente seu processo
- Anote percepções em um diário de treino
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A autonomia equilibrada é a chave. Nem alienação. Nem teimosia.
Treinar é parceria, não delegação
Um bom treinador não quer um robô que apenas execute a planilha; ele prefere muito mais um aluno que se envolve com o processo.
A evolução nasce da conexão entre:
- planejamento
- execução
- comunicação
Quando o corredor entende minimamente o que está fazendo, ele fica mais preparado para lidar com:
- ajustes de carga
- mudanças no planejamento
- imprevistos na rotina
- adaptações necessárias
Ele deixa de ser apenas executor e passa a ser parte ativa do próprio processo de evolução.
Conclusão: a chave é consciência
Treinar com consciência é o que diferencia o corredor que evolui daquele que apenas acumula quilômetros.
A alienação:
🚫 impede aprender com a experiência
🚫 impede evitar erros
🚫 impede reconhecer progressos
Evoluir na corrida é mais do que correr; é entender o que se está fazendo — e por quê.









