Categoria: Performance e Progresso

  • Pace na Corrida: O que é, como Calcular e como Melhorar

    Pace na Corrida: O que é, como Calcular e como Melhorar

    “Como eu faço pra melhorar meu pace?”
    É uma pergunta que eu recebo de forma recorrente, de um jeito ou de outro, e eu entendo bem o motivo: pace não é só um detalhe, mas, um número que resume a corrida para maioria dos corredores; é ele que aparece no relógio, é ele que a gente compara com o treino anterior, é ele que decide se a gente sai satisfeito ou frustrado depois de um treino ou até mesmo depois de uma prova.

    Só que, ao mesmo tempo em que é o tema mais falado sobre corrida, é também um dos pouco compreendidos.

    • Tem gente que confunde pace com velocidade
    • Tem gente que acha que só correr mais rápido no treino já resolve
    • E outros que travam tentando melhorar o pace do jeito errado

    Então, neste artigo, eu quero deixar bem claro o que é pace e te explicar como ele realmente melhora.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Pace: O Número que Todo Corredor Quer Melhorar; e Poucos Sabem Como               

    O que é Pace, Afinal?

    Antigamente conhecido como ritmo de corrida, o pace, de forma simples, é o tempo que você leva para percorrer um quilômetro; ele é medido em minutos por quilômetro (min/km). Se o seu relógio mostra 5’30” ou 5:30, significa que você está levando cinco minutos e trinta segundos pra cada quilômetro percorrido.

    Aqui já vale um esclarecimento importante: pace não é a mesma coisa que velocidade. Velocidade é medida em quilômetros por hora (km/h) e ela cresce quando você acelera, já o pace funciona ao contrário: ele diminui conforme você fica mais rápido.

    Um pace de 5’00” é mais rápido que um pace de 6’00” e isso confunde muita gente no começo, mas é simples assim: quanto menor o pace, mais rápida é a corrida; e quanto maior o pace, mais lenta ela é.

    Como Calcular o Pace

    Para calcular seu pace médio de um treino, é bem direto: divide o tempo total da corrida pela distância percorrida. Se você correu 5 quilômetros em 30 minutos, seu pace médio foi de 6’00” por quilômetro.

    Agora, o cálculo complica um pouco quando o tempo total da corrida não é um número “redondo”, por exemplo, 33’45” para percorrer os mesmos 5 quilômetros. Aqui a divisão direta não funciona tão simples, porque minutos e segundos não seguem a base decimal (não são “100”, são “60”).

    O caminho mais prático é transformar tudo em segundos antes de dividir: 33 minutos e 45 segundos equivalem a 2.025 segundos; dividindo esse valor pelos 5 quilômetros, chegamos a 405 segundos por quilômetro. Agora é só converter de volta, assim: em 405 segundos cabem 6 minutos inteiros (360 segundos) e sobram 45 segundos, ou seja, pace de 6’45” por quilômetro.

    Pode parecer trabalhoso, mas, na prática, você nem precisa fazer essa conta na mão: hoje, a maioria dos relógios e aplicativos já calcula isso automaticamente, inclusive por trecho, ou seja, o pace de cada quilômetro individual, e não somente a média geral. Essa informação por trecho é até mais útil do que a média, porque mostra se você começou rápido e foi caindo, ou se manteve constância, o que, aliás, costuma ser sinal de uma corrida bem administrada.

    Por que Melhorar o Pace não é tão Simples quanto Parece

    Agora vem a parte que eu considero mais importante deste artigo. O erro mais comum que eu vejo, e já vi muitas vezes, é o corredor tentar melhorar o pace treinando sempre no limite; a lógica parece óbvia: “se eu quero correr mais rápido, eu preciso treinar sempre mais rápido”, só que essa lógica, na prática, é o que ajuda a travar a evolução.

    Pace não é uma decisão de vontade; você não melhora o pace só porque decidiu se esforçar mais o tempo todo. Pace é uma consequência, o resultado visível de adaptações que aconteceram dentro do seu corpo, ao longo do tempo, com treino organizado. 

    Preciso destacar um ponto, porque ele é o centro de tudo que eu quero te mostrar hoje: o pace melhora quando o corpo melhora, não o contrário. Você não força um número menor no relógio; você desenvolve capacidades antes, ao longo do tempo, e o número menor aparece depois, como resultado.

    Os Fatores que Determinam seu Pace  

    Infográfico "FATORES QUE DETERMINAM SEU PACE". 1. Dimensão Fisiológica, 2. Dimensão Biomecânica e 3. Dimensão Estrutural.

    1. Dimensão Fisiológica

    Capacidade aeróbica

    A eficiência do corpo em utilizar oxigênio para gerar energia. É o que chamamos de “VO2” ou “limiar” e quanto melhor essa capacidade, mais você sustenta um determinado ritmo sem entrar em fadiga excessiva.

    Aqui ainda não estamos falando da capacidade de desenvolver determinados paces, mas da capacidade de mantê-los, o que é bem diferente, combinado?

    Capacidade anaeróbica

    Complementa a capacidade aeróbica na a habilidade do corpo de sustentar esforços intensos. É ela que entra em ação e se desenvolve nos treinos de tiros, e se manifesta nas arrancadas e no final de uma prova, quando o corpo já não conta apenas com o sistema aeróbico para manter a velocidade.

    2. Dimensão Biomecânica

    Economia de corrida

    Tem a ver com técnica e biomecânica. Dois corredores com a mesma capacidade aeróbica podem ter paces diferentes simplesmente porque um gasta menos energia para correr no mesmo ritmo que o outro. Postura, cadência, contato com o solo; tudo isso influencia.

    Postura

    Um tronco ereto, levemente projetado à frente, com o olhar no horizonte, favorece uma passada mais eficiente e reduz o gasto energético desnecessário; postura desalinhada, ombros caídos, tronco inclinado para trás, gera compensações que drenam energia a cada passada. Com o tempo, essa energia perdida se traduz em menos “combustível” disponível para sustentar o ritmo; corrigir a postura, portanto, é ganhar eficiência.

    Cadência

    Cadência se refere ao número de passadas por minuto. Cadências muito baixas, às vezes, vêm com passadas mais longas e o pé pousando longe do centro de gravidade, o que aumenta o impacto e o gasto energético; ajustar a cadência para uma faixa mais eficiente reduz esse desgaste e permite sustentar o ritmo por mais tempo, com menos fadiga acumulada.

    Contato com o solo

    O tempo e a forma como o pé toca o chão também custam energia. Contatos muito prolongados, ou o pé pousando muito na frente do corpo, funcionam como um pequeno “freio” a cada passada; energia que deveria impulsionar o corredor pra frente é perdida frenando o próprio movimento, enquanto um contato mais rápido e mais próximo ao centro de massa aproveita melhor a energia elástica do corpo, tornando cada passada mais econômica e, no acúmulo, mais rápida.

    3. Dimensão Estrutural

    Força muscular e resistência

    Um corpo mais forte sustenta o esforço por mais tempo e absorve melhor o impacto repetido da corrida, o que impacta diretamente na sua capacidade de manter ritmo sem quebrar no final.  

    Volume e constância de treino

    Não é um treino isolado que melhora pace, mas a soma de semanas e meses treinando de forma organizada, é o que constrói essa evolução.

    Recuperação

    Ela também incide sobre o seu pace, porque é durante a recuperação que o corpo efetivamente se adapta ao estímulo do treino. Sem recuperação adequada, o estímulo não se transforma em evolução e só se acumula como fadiga.

    Como Melhorar o Pace de Forma Estruturada

    Então, como a gente trabalha, na prática, para melhorar o pace?

    Treino de base

    As famosas rodagens leves e moderadas. Pode parecer contraintuitivo, mas correr mais assim, em boa parte dos treinos, é o que constrói a base aeróbica que vai sustentar ritmos mais rápidos depois; corredor que só treina forte, sem essa base, evolui até um ponto e depois para de progredir, ou até mesmo se lesiona.

    Treinos específicos

    Intervalado, Fartlek, treino em ritmo controlado. Esses são os estímulos que, de fato, desafiam o corpo a melhorar sua capacidade de sustentar velocidade, mas eles precisam ser dosados, bem ajustados, feitos com critério e estrutura.

    Existe um princípio antigo e bem conhecido no treinamento de força: só é forte o músculo que repetidamente faz força, ou seja, o corpo se adapta ao estímulo específico que recebe. Treine força, ele fica mais forte; treine resistência, ele fica mais resistente.

    Com a velocidade funciona na mesma lógica: corre mais rápido quem pratica repetidamente a velocidade. É pura adaptação neuromuscular e metabólica ao estímulo específico, por isso os treinos de tiro existem: eles ensinam o corpo a reconhecer e sustentar aquele ritmo mais intenso, algo que a rodagem leve, por si só, nunca vai treinar.

    Progressão gradual de intensidade e volume

    O corpo se adapta em etapas; pular etapas querendo evoluir rápido demais, é uma das formas mais comuns de travar o progresso, ou pior, de se lesionar.

    Individualização

    Não existe treino mágico que funcione igual para todos; o treino que melhora o pace de um corredor pode ser inadequado para outro, dependendo de vários fatores, como histórico, idade, capacidade atual e objetivos de cada um.

    Infográfico "COMO MELHORAR O PACE". 1. Treino de Base, 2. Treinos Específicos, 3. Progressão Gradual de Intensidade e Volume e 4. Individualização.

    O Que Trava a Evolução do Pace

    • Treinar sempre no mesmo ritmo — seja sempre na zona de conforto, seja sempre no limite — é um dos principais motivos de estagnação.
    • Ignorar a recuperação entre estímulos. Fadiga acumulada, sem tempo de assimilação também não gera evolução e ainda gera desgaste.
    • Querer resultado rápido demais, pulando etapas do processo. É sempre bom lembrar que pace melhora com o tempo e não existe atalho consistente para isso.

    Pace Não Deve Ser Uma Obsessão Diária

    Nesse ponto, é preciso dizer uma coisa importante: pace é uma referência; não deveria ser uma obsessão.

    Existe uma diferença enorme entre acompanhar seu pace como ferramenta para entender sua evolução e ajustar seu treino, e viver preso a ele, checando o relógio a cada minuto, se cobrando em todo treino como se fosse uma prova.

    Dias bons e dias ruins fazem parte do processo. Tem dia que o pace ideal vem naturalmente e tem dia em que ele simplesmente não aparece, ainda que com o mesmo esforço, e isso é natural da fisiologia.

    E aqui eu conecto com algo que falo bastante nos meus conteúdos: evolução consistente vale muito mais que resultado imediato; corredor que entende isso treina de forma mais sustentável, evolui de forma mais sólida e, o mais importante, continua correndo por muito mais tempo.

    Resumindo

    Pace não é algo que você melhora com força de vontade num treino isolado. Pace é o resultado visível de um processo, capacidades aeróbica e anaeróbica, economia de corrida, força, constância e recuperação; tudo trabalhando junto e ao longo do tempo.

    É essa lógica aplicada no Método Corrida com Longevidade, com os fundamentos da Individualização Profunda e da Progressão Estruturada, para que a evolução do pace aconteça de forma sólida, sem atalhos, sem lesão, e sustentável no longo prazo.

    Bons treinos, e nos vemos no próximo artigo!

  • Primeira Maratona: Como Saber se Você Está Pronto para Correr 42 km?

    Primeira Maratona: Como Saber se Você Está Pronto para Correr 42 km?

    Se você já corre há algum tempo, completou algumas provas, talvez até uma meia maratona, talvez se pergunte qual seria o momento certo de correr uma maratona.

    Talvez o pensamento mais importante nem seja se está pronto para correr 42 quilômetros, mas, se está pronto para começar a se preparar para correr 42 quilômetros.

    Neste artigo pretendo detalhar sobre essa decisão, já que a maratona não começa na largada; ela começa muitos meses antes, na construção de uma base capaz de suportar o aumento progressivo do volume, os treinos longos, a fadiga acumulada e todas as exigências de uma preparação que pode transformar a experiência de correr 42 quilômetros em uma grande conquista — ou em um processo difícil demais para o momento atual do corredor.

    E então surgem as dúvidas:

    • Existe um tempo mínimo de corrida antes de estrear na maratona?
    • É preciso correr durante dois, três ou cinco anos?
    • Ter completado várias meias maratonas?
    • Alcançar determinado volume semanal?
    • Fazer um longão de 30 quilômetros ou mais?

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Quando é a Hora Certa de Correr Sua Primeira Maratona?   

    Não existe um prazo universal nem um único teste capaz de determinar se alguém está pronto, porque, diferentes corredores podem ter o mesmo tempo de prática, mas histórias de treinamento muito diferentes.

    Um pode ter construído regularidade, aumentado as cargas gradualmente e aprendido a interpretar as respostas do próprio corpo, e o outro, ter passado longos períodos sem treinar, acumulado tentativas interrompidas ou ainda não desenvolvido uma base suficiente para iniciar uma preparação tão exigente.

    Por isso, mais importante do que perguntar apenas há quanto tempo se corre é entender o que se construiu durante esse tempo e como o corpo respondeu ao processo.

    Ao longo do tempo como treinador, acompanhei situações muito diferentes:

    • Vi corredores que construíram uma trajetória longa antes de estrear na maratona.
    • Vi também quem quis antecipar essa etapa com pouco tempo de treinamento sistematizado, e descobriu que o desejo havia chegado muito antes da preparação.

    E acompanho corredores que treinam há muitos anos, evoluem, participam de provas e encontram na meia maratona o limite que desejam alcançar, sem nunca sentir necessidade de correr 42 quilômetros.

    Essas experiências reforçam duas ideias importantes:

    • A maratona não é uma etapa obrigatória na vida de todo corredor.
    • Quando a maratona se torna um objetivo, o momento certo é definido pela capacidade de se construir uma preparação progressiva, consistente e sustentável para ela.

    Os apelos do desejo de correr os 42 km

    Muitos corredores se apaixonam pela ideia da maratona, e eles são legítimos:

    • a medalha
    • o desafio
    • o status
    • a experiência
    • a sensação de superação

    Mas, querer completar uma maratona não significa nem mesmo estar preparado para iniciar o processo. A maratona começa muito antes da largada.

    Não existe “tempo mínimo”, mas histórico necessário

    O tempo de corrida ajuda, mas não pode ser o único critério. Um corredor com três anos de prática irregular pode estar menos preparado que outro com dois anos de treinamento consistente.

    Considere os fatores: 

    Infográfico cinco fatores no processo de treino para estrear na maratona: regularidade, continuidade, tolerância à carga, experiência com treinos longos e capacidade de manter uma rotina.

    E vai perceber que, mais importante do que há quanto tempo você corre é como seu corpo respondeu ao que você fez até aqui.

    O momento viável e o momento inviável

    A própria história que deu origem à maratona traz uma reflexão interessante. Segundo a tradição mais conhecida, Fidípides percorreu a distância entre Maratona e Atenas para anunciar a vitória dos gregos e, depois de cumprir sua missão, morreu.

    É claro que não podemos comparar literalmente essa narrativa com uma prova moderna, mas ela ajuda a ilustrar uma diferença importante: conseguir percorrer uma distância não significa necessariamente estar preparado para suportar as exigências dela.

    Um fato é o corredor desejar a maratona; outro, é já ter construído as condições necessárias para se preparar para ela com segurança, progressão e possibilidade real de concluir bem o percurso.

    Ao longo da minha trajetória, alguns casos ajudaram a reforçar essa percepção.

    20 anos de treinamento; 6 anos até a estreia

    O caso descrito agora expõe o processo de um aluno que treina comigo desde 2006. Ao longo dos anos, construiu uma trajetória longa e consistente na corrida, participou de diferentes provas e acumulou experiência em várias distâncias.

    Sua estreia na maratona aconteceu em 2012. Isso não significa que todo corredor precise esperar seis anos para correr sua primeira maratona; esse não é o ponto.

    Esse caso mostra que a maratona não precisa ser tratada como uma consequência central da evolução na corrida nem como uma etapa que deve ser alcançada o mais rápido possível.

    Quando chegou o momento de iniciar a preparação, o aluno em questão já possuía uma base construída ao longo do tempo, experiência de treinamento e conhecimento do próprio corpo, então a maratona passou a ser uma continuidade possível de uma trajetória, e não uma tentativa apressada de alcançar uma distância maior.

    Quando o desejo chega antes da preparação

    Também tive um aluno que chegou ao treinamento já com alguma experiência na corrida, e com poucos meses de um processo sistematizado, manifestou o desejo de iniciar a preparação para uma maratona.

    Naquele momento, tentei demovê-lo da ideia; expliquei que ainda havia pouco tempo de treinamento estruturado e que antecipar a preparação poderia não dar certo. Mesmo assim a decisão dele foi seguir adiante, e como eu havia previsto, a preparação ficou longe do ideal e a prova não deu certo.

    Esse caso reforçou uma lição importante: o desejo do corredor merece ser respeitado, mas o treinador precisa avaliar se é compatível com o momento atual do corpo e com o histórico de treinamento.

    Aqui, a melhor orientação é explicar por que ainda não é o momento e mostrar qual caminho pode tornar a maratona viável mais adiante. Adiar uma maratona não significa abandonar um sonho, mas, aumentar as chances de realizá-lo bem.

    Nem todo corredor precisa chegar à maratona

    Tenho também uma aluna que treina comigo há 19 anos e desde de sempre encontrou na meia maratona o seu limite de interesse e de objetivo. Ela nunca desejou correr uma maratona, e isso não representa falta de evolução, de coragem ou de capacidade.

    A corrida não possui uma única trajetória obrigatória. O fato de um corredor completar 5, 10 ou 21 quilômetros não quer dizer que ele precise continuar avançando até os 42 quilômetros, porque evolução não é necessariamente correr cada vez mais longe.

    Os três exemplos que vimos mostram que não existe um prazo universal para estrear na maratona.

    • Existe o corredor que construiu sua trajetória até chegar ao momento viável
    • Existe o corredor que tentou antecipar uma etapa antes de estar preparado
    • E existe o corredor que escolheu conscientemente não transformar a maratona em objetivo

    Por isso, quando alguém me pergunta: “Quando é a hora certa de correr minha primeira maratona?”, minha resposta não começa com um número de meses, anos ou quilômetros; mas, com outra pergunta: “o que você já construiu até aqui — e como seu corpo respondeu a esse processo?”

    A indicação para a maratona é individual

    Aqui no Clube da Corrida, a indicação para a primeira maratona não segue uma regra baseada apenas no tempo de prática, na idade, no número de provas realizadas ou na distância máxima já percorrida.

    Cada corredor é analisado individualmente, considerando:

    • sua trajetória de treinamento
    • regularidade
    • experiência
    • capacidade de suportar o aumento progressivo das cargas
    • resposta aos treinos
    • condições atuais para iniciar uma preparação mais exigente

    Essa avaliação faz parte do Método Corrida com Longevidade e orienta a decisão sobre o momento viável para começar o processo.

    Quando o corredor apresenta as condições necessárias, a preparação é construída de forma progressiva e individualizada, seguindo os protocolos do método para o desenvolvimento da resistência, o aumento das cargas, a realização dos treinos longos e o acompanhamento das respostas do corpo.

    A indicação contrária não significa negar o objetivo, mas, organizar o caminho para que a maratona deixe de ser uma aposta e se transforme em uma meta preparada com mais segurança, consistência e possibilidade de continuidade.

    Então, se não existe um prazo universal e a maratona não é obrigatória, o que devemos observar para saber se um corredor está pronto para iniciar essa preparação?

    A meia maratona como referência

    Completar uma meia maratona não significa automaticamente que o corredor esteja pronto para dobrar a distância, porque a maratona não é apenas “duas meias”.

    A segunda metade acontece com: 

    Infográfico comparativo das exigências fisiológicas da maratona em relação à meia maratona, incluindo depleção energética, fadiga muscular, resistência, estratégia de ritmo e impacto da nutrição.

    A meia maratona pode mostrar que você está evoluindo, mas não entrega sozinha o certificado para a maratona.

    A tolerância ao volume

    Ser capaz de fazer um longo de 30 km ou mais, também não significa a prontidão imediata para correr uma maratona.

    O treinador deve observar o conjunto:

    • como o corredor chegou ao longo
    • como terminou
    • quanto tempo levou para recuperar
    • se houve dor
    • se o restante da semana foi preservado
    • se o volume vinha sendo construído progressivamente

    Um longão isolado mostra o que você conseguiu fazer em um dia; a preparação mostra o que você consegue sustentar durante meses.

    A recuperação como indicador de prontidão

    Não basta olhar o treino realizado; é preciso observar o que acontece depois.

    • fadiga residual
    • dores persistentes
    • sono
    • disposição
    • queda de rendimento
    • capacidade de retomar a rotina

    A resposta do corpo depois do treino pode ser mais importante do que o número registrado no relógio durante o treino.

    A vida pronta para a maratona

    A preparação exige:

    • tempo
    • sono
    • organização
    • alimentação
    • recuperação
    • disponibilidade emocional

    O corredor pode estar fisicamente apto, mas vivendo um período incompatível com uma preparação longa:

    • trabalho muito intenso
    • mudança de rotina
    • viagens
    • privação de sono
    • estresse elevado

    A maratona não exige apenas um corpo preparado; exige uma rotina que permita preparar esse corpo.

    A motivação precisa ser sustentável

    A motivação pode ser na forma de:

    • sonho pessoal
    • desafio
    • comemoração
    • desejo de evolução
    • influência de amigos
    • pressão das redes sociais
    Infográfico das principais motivações de quem se torna maratonista: sonho pessoal, desafio, comemoração, desejo de evolução, influência de amigos e pressão das redes sociais.

    A maratona não precisa ser a consequência obrigatória de quem começou a correr. Nem todo corredor precisa chegar aos 42 km.

    Quando a preparação deixa de ser uma aposta

    O momento certo para estrear na maratona não é quando o corredor acha que dá conta; é quando o histórico mostra:

    • consistência
    • adaptação
    • progressão
    • recuperação
    • disponibilidade
    • motivação

    O momento certo de estrear na maratona não é determinado por uma idade, um número de anos correndo ou uma distância isolada. Ele aparece quando o corredor construiu uma base que permite transformar a preparação em um processo progressivo, e não em uma aposta contra o próprio corpo.

    Cruzar a linha de chegada completamente destruído não deve ser tratado como prova de que a maratona foi um sucesso; às vezes, pode ser apenas o sinal de que a distância exigiu mais do que o corredor estava preparado para entregar naquele momento.

    A melhor primeira maratona não é necessariamente a mais rápida, mas, aquela em você termina relativamente bem e que te permite continuar correndo depois dela.

  • 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    Índice

    As Maratonas: 20 Anos de Construção

    A Anatomia de 20 Anos de Treino

    Conclusões

    • O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam

    Entrevista com Laerte: 20 Anos Vivendo a Corrida por Dentro

    • Conversando com Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida

    Introdução

    A Trajetória de um Corredor Incomum

    Os dados compilados e apresentados em 6 gráficos que você verá neste artigo levaram 20 anos para existir.

    O que apresento aqui é a trajetória de um homem comum que, ao longo de duas décadas consecutivas praticando Corrida, acabou se transformando em um corredor incomum.

    O engenheiro civil Laerte Marengo Filho, hoje aposentado, iniciou um treinamento sistematizado aos 50 anos de idade, sem imaginar até onde a corrida poderia levá-lo.

    Imagem do corredor amador Laerte Marengo F.

    Ao longo desses vinte anos, viveu praticamente tudo o que um corredor de longa trajetória costuma experimentar: evolução, auge físico, lesões, oscilações de desempenho, o avanço natural da idade, mudanças na rotina de vida e até o retorno temporário ao mercado de trabalho já aposentado.

    E, apesar de tudo isso, continuou correndo.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo (sem a entrevista):
    🎥 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor

    As Maratonas: 20 Anos de Construção

    Agora, aos 70 anos, Laerte se prepara para disputar sua 15ª e última maratona, encerrando um ciclo construído com algo tão quanto talento: consistência ao longo do tempo.

    Talvez seja justamente por isso que seus gráficos contém uma história tão interessante.

    Mais do que números, eles registram decisões, escolhas, paciência e milhares de quilômetros acumulados semana após semana.

    Ao longo deste artigo, vamos percorrer essa trajetória utilizando gráficos que revelam como uma vida inteira de treinamento pode ensinar muito sobre desempenho, envelhecimento e longevidade esportiva.

    FASE 1 | Descoberta e Expansão

    Depois de seis anos de treinamento sistematizado, 13 provas de 5 km, 46 provas de 10 km e seis meias maratonas, o primeiro gráfico finalmente registra o nascimento do “Laerte Maratonista”, com sua estreia nos 42,195 km, em 2012.

    Gráfico mostrando a evolução das 15 maratonas disputadas por Laerte ao longo de 20 anos consecutivos de treinamento de corrida.

    Dois aspectos chamam bastante atenção nesse momento: o primeiro é que esperar seis anos de prática consistente antes da estreia mostra que Laerte provavelmente não iniciou sua trajetória pensando na maratona.

    Ela surgiu como consequência natural de um processo construído com calma — e não como uma obsessão precoce; detalhe, aparentemente simples, mas que explica parte do que veremos aqui.

    Num cenário em que muitos corredores aceleram etapas e chegam rapidamente aos 42 km sem uma base sólida de treinamento, Laerte percorreu um caminho diferente.

    Quando finalmente estreou, já acumulava centenas de treinos, dezenas de provas e anos de adaptação fisiológica.

    Em outras palavras, a maratona chegou na hora certa, e isso, muito provavelmente, ajudou a construir a longevidade esportiva que ele demonstra até hoje.

    A partir dali a maratona deixa de ser apenas um objetivo distante e passa a ocupar espaço permanente em sua vida.

    Entre 2012 e 2014, observa-se um período muito ativo, onde aparecem:

    • Porto Alegre;
    • Nova York;
    • Las Vegas;
    • Curitiba;
    • múltiplas participações;
    • viagens;
    • novas experiências;

    E um envolvimento cada vez maior com o universo das grandes maratonas. Mais do que disputar provas, Laerte passou a viver a cultura da maratona.

    Em Nova York (2012) ocorreu um episódio simbólico dessa fase. A prova estava marcada para o dia 4 de novembro, mas acabou cancelada em razão dos enormes danos provocados pela supertempestade Sandy.

    Foi a primeira vez, em toda a história da Maratona de Nova York, que a competição não aconteceu. Cerca de 47 mil corredores foram afetados, e Laerte estava entre eles.

    O ano de 2014 também merece destaque; aos 58 anos, ele alcançou seu melhor tempo na maratona, com 3h28’35”.

    Nesse mesmo ano participou de três maratonas; uma estratégia que foge completamente da filosofia de treinamento que praticamos e que, em condições normais, não recomendamos.

    Mesmo assim, essa sequência ajuda a compreender o momento que Laerte vivia; um corredor já bem envolvido pelo universo das maratonas. Viajava, experimentava novos percursos, acumulava vivências e aprendia, na prática, o que significava construir uma carreira de longo prazo.

    Mais tarde, toda essa bagagem deixaria de representar apenas experiências isoladas para se transformar em algo muito mais valioso: longevidade esportiva. E talvez seja justamente isso que torne essa história tão interessante.

    A capacidade de permanecer treinando, competindo e evoluindo durante duas décadas, realmente diferencia uma trajetória rara de um corredor comum.

    Mas essa fase de descoberta era apenas o começo. Nos anos seguintes, os resultados nas meias maratonas e nas maratonas começariam a revelar algo ainda mais interessante: a evolução consistente de um corredor que envelhecia… sem deixar de evoluir.

    FASE 2 | Maturidade Competitiva

    Quando a experiência passa a valer tanto quanto a capacidade física.

    Existe uma diferença importante entre registrar o melhor tempo da carreira e tornar-se o melhor maratonista possível dentro da própria realidade. Ao observar a trajetória do Laerte, essa distinção fica bastante evidente.

    Entre 2016 e 2019, vemos surgir um corredor muito mais completo; não necessariamente mais rápido, mas certamente mais preparado para lidar com tudo o que uma maratona exige.

    Nesse período, ele se mostra:

    • mais experiente;
    • mais eficiente;
    • mais estratégico;
    • emocionalmente mais sólido.

    Foi nessa fase que participou de provas marcantes como:

    • ASICS São Paulo;
    • Golden Run;
    • Maratona de Barcelona;
    • Maratona de Florianópolis.
    Laerte participando da maratona de Barcelona.
    Laerte na maratona de Barcelona 2019

    O aspecto mais interessante desse período é que o auge competitivo do Laerte não parece ter sido consequência de uma mudança radical no treinamento; ao contrário, nasce da combinação de fatores que normalmente só aparecem após muitos anos de prática:

    Ao longo dos anos, surge um atleta capaz de compreender aspectos que fazem enorme diferença na maratona:

    Essa talvez seja uma das maiores características dos corredores masters experientes: depois de certa idade, o auge deixa de ser exclusivamente fisiológico e passa a ser, sobretudo, estratégico.

    Os gráficos mostram justamente isso: vários anos consecutivos mantendo elevado nível de desempenho, algo extremamente valioso quando falamos da prova mais exigente da corrida de rua.

    FASE 3 | Adaptação e Longevidade

    Quando permanecer correndo se torna mais importante do que correr mais rápido.

    Todo maratonista máster chega a um momento em que o treinamento deixa de representar apenas uma busca por evolução e passa também a significar administração inteligente das limitações naturais do envelhecimento.

    Na trajetória do Laerte – a partir de 2019 – essa transição aparece de forma bastante clara:

    O treinamento passa a depender muito mais da capacidade de adaptação do que simplesmente da vontade de treinar mais, entretanto, talvez o aspecto mais importante dessa fase seja outro.

    Laerte não abandona a maratona quando percebe que seu corpo já não responde como aos cinquenta anos. Em vez disso, aprende a negociar com ele, e essa mudança transforma completamente sua relação com o esporte.

    Mesmo já aposentado, chegou a retornar temporariamente ao trabalho, lembrando algo que muitas vezes esquecemos: o treinamento nunca acontece isoladamente.

    Ele precisa conviver com a rotina, com as responsabilidades familiares, com o cansaço, com o envelhecimento e com todas as adaptações impostas pela vida.

    Outro detalhe interessante aparece nas demandas físicas típicas do corredor máster. Aqui, as panturrilhas passam a exigir atenção constante — situação comum nessa faixa etária, já que a capacidade aeróbia costuma envelhecer melhor do que os tecidos responsáveis pela absorção dos impactos e pela produção repetitiva de força.

    Como consequência, o treinamento precisa priorizar cada vez mais:

    • fortalecimento;
    • prevenção de lesões;
    • recuperação adequada;
    • controle da carga;
    • manutenção da funcionalidade muscular.
    Laerte executando treino de fortalecimento muscular.

    Hoje, aos 70 anos, preparando sua 15ª e última maratona, o significado da prova já não está ligado apenas ao cronômetro. Ela representa o encerramento consciente de um ciclo extraordinário.

    Ao concluir sua participação nas maratonas de maneira lúcida, saudável e planejada, Laerte abre espaço para seguir sua trajetória esportiva em provas de até 21 km, cujas exigências fisiológicas são mais compatíveis com esta fase da vida.

    Olhando retrospectivamente, percebe-se que sua maior conquista dificilmente foi um pace específico; foi ter conseguido atravessar duas décadas mantendo um vínculo permanente com a corrida.

    A última maratona, portanto, ganha um enorme valor simbólico. Ela encerra uma história construída não por talento extraordinário, mas por algo também raro: consistência ao longo do tempo.

    E talvez seja justamente isso que transforma um homem comum em um maratonista incomum.

    A Anatomia de 20 Anos de Treino

    Além das Maratonas: A Importância da Meia Maratona.

    Entre uma preparação para os 42 km e outra existe uma distância que talvez tenha sido ainda mais importante para sustentar toda essa trajetória: a Meia Maratona.

    Ao longo de vinte anos, Laerte participou de 35 provas de 21 km, atravessando diferentes fases da vida, do condicionamento físico e da própria relação com o esporte.

    Gráfico com a evolução das 35 meias maratonas de Laerte durante 20 anos consecutivos de treinamento.

    Existe, porém, um detalhe bastante revelador: antes de estrear na maratona, ele treinou durante seis anos de maneira sistematizada.

    Já para disputar sua primeira meia maratona, também esperou o momento adequado. Foram treze meses de treinamento organizado, além de todo o período anterior de prática ainda sem acompanhamento técnico.

    E, olhando hoje para aquele contexto, é difícil não fazer uma reflexão: há cerca de vinte anos, a ansiedade dos corredores iniciantes para entrar nas meias maratonas e maratonas era consideravelmente menor do que observamos atualmente.

    Da mesma forma, convencer um amador a esperar o momento certo para aumentar as distâncias de provas também parecia uma tarefa mais fácil…

    No caso do Laerte, tudo indica que o momento escolhido foi bastante acertado. Sua estreia na meia aconteceu em 1h42’17”, equivalente a um ritmo médio de 4’50”/km, aos 51 anos de idade.

    Muito mais do que um bom resultado, esse tempo revela uma preparação paciente, sólida e plenamente compatível com a distância.

    Ao observar o gráfico ao longo dos anos, percebe-se algo esperado em qualquer carreira esportiva de longa duração: os tempos oscilam, em alguns momentos melhoram, em outros aumentam.

    Há provas claramente voltadas para desempenho e outras disputadas em contexto preparatório, turístico ou simplesmente como forma de manter o vínculo competitivo.

    E isso torna a trajetória profundamente humana, já que a carreira de um corredor raramente evolui em linha reta.

    Ela acompanha as mudanças da própria vida:

    • o trabalho;
    • as lesões;
    • a motivação;
    • o envelhecimento;
    • as diferentes prioridades de cada fase.

    Apesar dessas oscilações, um aspecto permanece constante: desde 2007, Laerte jamais deixou de participar regularmente das provas. Mesmo convivendo com as mudanças naturais da idade, manteve-se competitivo durante duas décadas consecutivas.

    Laerte com sua galeria de troféus; destaque em sua categoria nas provas regionais.

    E do ponto de vista técnico, isso revela algo bastante interessante; talvez tenha sido justamente a meia maratona a distância que mais sustentou sua longevidade esportiva.

    A explicação faz sentido também sob a ótica da fisiologia. Enquanto a maratona impõe enorme desgaste muscular, articular e metabólico — especialmente após os 60 anos — a meia maratona permite:

    • recuperação mais rápida;
    • maior frequência competitiva;
    • menor desgaste estrutural;
    • manutenção mais sustentável da performance ao longo dos anos.

    Sob essa perspectiva, os dois gráficos assumem papéis diferentes: as maratonas representam os grandes capítulos da história; as meias maratonas revelam aquilo que sustenta esses capítulos; a continuidade.

    Mesmo depois dos 65 anos, Laerte continuou entregando resultados bastante respeitáveis para um corredor máster, preservando não apenas sua participação frequente, mas também seu espírito competitivo.

    Essa trajetória ajuda a desmontar a ideia de que envelhecer significa abandonar objetivos esportivos.

    Na prática, o que muda não é apenas a capacidade física. Muda, principalmente, a maneira como o atleta passa a se relacionar com o treinamento, com a recuperação e com suas próprias expectativas.

    Por isso, a decisão de encerrar o ciclo das maratonas e direcionar o foco para provas de até 21 km parece uma evolução absolutamente natural.

    Ao olhar toda a trajetória do Laerte, percebe-se que a meia maratona nunca foi apenas uma etapa intermediária rumo aos 42 quilômetros. Ela sempre foi um dos pilares que sustentaram sua vida esportiva durante vinte anos consecutivos.

    A seguir, o gráfico da trajetória do Laerte que cruza performance com volume de treinamento.

    Gráfico relacionando o volume anual de treinamento com o pace nas meias maratonas ao longo de 20 anos de corrida.
    A linha laranja mostra a curva dos paces nas 35 Meias Maratonas. A linha azul mostra os volumes anuais de corrida,

    Talvez a primeira conclusão importante seja a de que a longevidade esportiva não parece ter sido construída por extremos, mas por continuidade.

    O gráfico mostra um corredor que passou praticamente duas décadas mantendo regularidade de treinamento, mesmo atravessando:

    • oscilações naturais de performance;
    • envelhecimento;
    • algumas lesões;
    • mudanças de rotina;
    • diferentes fases da vida.

    Em alguns momentos, o aumento de volume claramente ajudou na evolução dos resultados; como vemos entre 2014 e 2017.

    Entre 2007 e 2013, vemos crescimento progressivo dos volumes anuais acompanhado de performances sólidas nas Meias Maratonas, culminando nos melhores momentos competitivos do Laerte na distância.

    E isso faz sentido. Nos primeiros anos da construção aeróbia, aumentar volume costuma produzir respostas importantes:

    • melhora da eficiência cardiovascular;
    • maior tolerância ao esforço;
    • melhor economia de corrida;
    • aumento da resistência muscular.

    O gráfico também mostra algo importante: mais volume nem sempre significou melhores resultados (2019 a 2020), e talvez esse seja um dos pontos mais interessantes de toda a análise.

    Em vários momentos da trajetória, o Laerte conseguiu sustentar performances competitivas mesmo sem atingir os maiores volumes da carreira. (2012 a 2015).

    Isso sugere algo valioso no corredor máster: com o passar dos anos, experiência e inteligência de treinamento começam a compensar parte da perda fisiológica natural do envelhecimento.

    O corredor passa a depender menos de “quanto treina” e mais de:

    • como treina;
    • como recupera;
    • como distribui as cargas;
    • como administra o próprio corpo.

    Isso aparece claramente após os 60 anos (2016 em diante). Os volumes já não crescem como antes; decrescem gradualmente, com um pico de queda., e as performances declinam ligeiramente e junto, mas permanecem respeitáveis para um atleta máster entre 60 e 65 anos.

    E aqui surge talvez uma das maiores lições do gráfico: a adaptação; porque o envelhecimento não exige apenas redução de carga, ele exige refinamento.

    A recuperação passa a ter mais importância. A musculatura periférica — especialmente panturrilhas nesse caso, exige atenção constante, o fortalecimento segue com sua importância, o treinamento deixa de ser apenas acúmulo de quilômetros e passa a ser gestão de desgaste.

    Laerte fortalecendo as panturrilhas.

    Outro detalhe é que o segundo maior pico de volume (2250 km) coincide com a melhor performance, mas os outros maiores volumes anuais da carreira (2259 km e 2170 km) não coincidem exatamente com os outros melhores resultados absolutos nas meias maratonas.

    E isso desmonta a ideia no esporte amador, de que desempenho melhora de maneira linear apenas aumentando quilometragem.

    Na prática, principalmente no corredor máster, existe um ponto de equilíbrio mais sensível entre:

    • estímulo;
    • recuperação;
    • disponibilidade física;
    • sustentabilidade.

    Talvez seja por isso que a linha azul do volume anual oscila ao longo dos anos (1990 km, 1295 km) sem que a linha vermelha da performance “despenque” na mesma proporção.

    O que sustentou o Laerte por quase vinte anos não foi treinar cada vez mais. Foi continuar treinando, e talvez essa seja a principal mensagem escondida nesse gráfico.

    A performance pode oscilar; os tempos podem subir, as fases da vida mudam; mas a consistência prolongada ainda continua sendo uma das ferramentas mais poderosas do treinamento de corrida.

    Gráfico da IDADE x PACE

    A Idade Realmente Destrói sua Corrida?

    Muitas pessoas provavelmente esperariam encontrar uma linha de declínio constante no gráfico que segue; quanto mais idade, pior a performance. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

    Gráfico mostrando a relação entre idade e pace nas meias maratonas durante duas décadas de treinamento de corrida.

    Houve um platô de resultados superiores por 3 anos (52 aos 54 anos), após a estreia, e logo melhorou mais um pouco.

    Foram mais 5 anos (55 aos 60 anos) praticamente estáveis, para depois encontrar sua melhor performance com 1h35’36”, de modo que, dos 51 aos 60 anos, o Laerte não apenas se manteve competitivo; ele evoluiu.

    Isso ajuda a desmontar a ideia comum de que o envelhecimento automaticamente destrói a performance no endurance.

    Na prática, principalmente em corredores que começam mais tarde, experiência, maturidade aeróbia e inteligência de treinamento podem evoluir mais rápido do que o próprio envelhecimento fisiológico durante vários anos.

    E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes do gráfico: performance versus envelhecimento não aparece de maneira linear; a curva não despenca, ela oscila.

    Existem:

    • evoluções;
    • platôs;
    • pequenas quedas;
    • retomadas;
    • adaptações;
    • diferentes fases de estabilidade competitiva.

    Isso torna o gráfico mais humano, porque a performance esportiva real não acompanha uma linha reta; acompanha a vida.

    Mesmo após os 60 anos, o Laerte ainda consegue entregar performances sólidas para um corredor master.

    E talvez isso revele algo importante: o corredor experiente passa progressivamente a depender menos apenas da fisiologia bruta e mais de fatores como:

    • eficiência;
    • estratégia;
    • distribuição de esforço;
    • recuperação;
    • conhecimento do próprio corpo;
    • maturidade emocional.                                       

    Dos 65 aos 69 anos, o Laerte perdeu 8,7% de performance nas meias maratonas; uma média de 1,7% ao ano.

    O gráfico sugere um declínio de percentual esperado, gradual e bem preservado para um corredor máster nessa faixa etária.

    Os dados mostram que o envelhecimento existe, mas talvez mostre também algo ainda mais interessante: o quanto é possível desacelerar esse processo quando existe consistência construída ao longo de décadas.

    Como vemos entre os 65 e 69 anos, não existe colapso, existe adaptação. Os tempos sobem gradualmente, mas o vínculo competitivo com a corrida permanece vivo.

    Laerte participando de sua meia maratona mais recente, jun/2026.
    Laerte correndo sua meia maratona mais recente, em junho de 2026.

    E talvez a pergunta mais interessante desse gráfico não seja quanto o Laerte perdeu com a idade…mas quanto conseguiu preservar ao longo dela.

    Porque o aspecto mais impressionante da trajetória de um corredor master certamente não é continuar melhorando para sempre; mas continuar correndo, competindo e se adaptando por muito tempo.

    A Frequência de Treinos Semanais

    Ao longo desses 20 anos de registros, o Laerte treinou em média, 48 das 52 semanas de cada ano. A única exceção relevante foi 2018, temporada marcada por uma cirurgia, que reduziu significativamente as condições para os treinamentos.

    Considerando as 955 semanas de treinos executadas e analisadas, a frequência média vista no gráfico que segue foi de 4,1 treinos de corrida por semana; um número que permaneceu surpreendentemente estável ao longo de toda a trajetória.

    Gráfico da frequência semanal de treinos de corrida ao longo de 955 semanas consecutivas.

    O corredor evoluiu mantendo uma frequência relativamente constante, normalmente entre 4 e 5 sessões semanais. Não houve uma tendência clara ou picos expressivos de aumento da frequência ao longo da carreira, mas uma enorme capacidade de mantê-la.

    Outro dado chama a atenção: apenas um terço das semanas ficou abaixo de quatro sessões de corrida e mesmo nessas ocasiões, o treinamento raramente era interrompido por completo, quando o trabalho de força continuava presente por meio de duas sessões semanais de musculação até 2015 e circuito funcional de 2015 até o momento.

    Laerte no circuito funcional, do trabalho de força do Clube da Corrida Bertolino.

    Mais do que revelar quantas vezes um corredor treinou, um gráfico assim evidencia um dos pilares de sua evolução: a capacidade de manter uma rotina consistente durante décadas.

    Enquanto muitos atletas alternam períodos de grande dedicação com longas interrupções, o Laerte construiu sua trajetória sobre a repetição contínua de semanas produtivas, ano após ano.

    O resultado é uma lição valiosa para corredores amadores: grandes volumes e desempenhos relativamente expressivos normalmente não surgem de semanas isoladas de esforço extremo, mas da soma de milhares de treinos realizados com regularidade ao longo do tempo.

    Talvez o aspecto mais impressionante não seja a média de 4,1 treinos semanais, mas o fato de ela ter permanecido praticamente inalterada por duas décadas.

    O gráfico sugere que a evolução do atleta ocorreu muito mais pelo aumento gradual da qualidade e do volume dos treinos, e não pelo acréscimo de dias de corrida na semana.

    Os Picos de Mesociclos Anuais

    Em treinamento de corrida, os mesociclos são normalmente blocos de quatro semanas consecutivas de treino.

    Neste estudo foi identificado, para cada temporada, o mesociclo mais volumoso do ano, permitindo visualizar, no gráfico que segue, os períodos de maior carga concentrada ao longo da carreira do atleta.

    Gráfico dos maiores mesociclos anuais de treinamento de corrida, mostrando os picos de volume semanais em 20 anos de preparação.

    Entre 2007 e 2013 os dados revelaram uma evolução clara da capacidade de treinamento. Após 2008, poucas semanas dentro desses mesociclos ficaram abaixo dos 40 km.

    Em contrapartida, tornaram-se cada vez mais frequentes as semanas acima dos 60 km (2012 a 2014 e 2016 a 2023), evidenciando temporadas voltadas para provas de longa distância, especialmente meias maratonas e maratonas.

    Ao longo dos anos, surgem diversos blocos com picos semanais entre 60 e 70 km, e em alguns momentos próximos ou chegando aos 80 km (2016 e 2017).

    Mais do que mostrar semanas isoladas de grande volume, o gráfico evidencia a capacidade de sustentar cargas elevadas durante períodos prolongados; característica típica de atletas que desenvolveram uma sólida base aeróbia.

    O que o Gráfico Realmente Mostra

    O que impressiona não é a semana de 80 km. Mas o seguinte contexto:

    2016

    • Semana 25 | 77 km
    • Semana 26 | 51 km
    • Semana 27 | 80 km
    • Semana 28 | 54 km

    2017

    • Semana 24 | 67 km
    • Semana 25 | 78 km
    • Semana 26 | 58 km
    • Semana 27 | 80 km

    Isso significa que o atleta não estava apenas atingindo uma semana de pico ocasional. Ele estava convivendo com semanas altas durante um bloco inteiro de preparação.

    Essa é uma diferença enorme: uma semana de 80 km pode ser fruto de entusiasmo; várias semanas consecutivas entre 60 e 80 km são fruto de adaptação.

    Três Fases Visíveis no Gráfico    

    Fase 1 – Construção (2006–2010)

    Os maiores mesociclos variam com semanas entre 25 e 55 km. O foco parece estar na construção gradual da capacidade aeróbia e na consolidação do hábito de treinamento. Ainda não aparecem blocos sustentados de alta quilometragem.

    Fase 2 – Salto de capacidade (2011–2015)

    O cenário muda. Aparecem diversas semanas acima dos 60 km.

    Destaques:

    • 2011 → pico de 54 km
    • 2012 → pico de 72 km
    • 2013 → pico de 74 km
    • 2014 → pico de 72 km

    É o período em que o corredor passa a demonstrar capacidade consistente para suportar cargas típicas de preparação para maratona.

    Fase 3 – Consolidação da maturidade aeróbia (2016–2025)

    Aqui estão os maiores blocos da carreira e semanas destaques de picos.

    • 80 km em 2016
    • 80 km em 2017
    • 73 km em 2019
    • 72 km em 2020
    • 71 km em 2023
    • 70 km em 2026

    O mais interessante é que esses valores aparecem repetidamente. Ou seja, não foram episódios isolados. O organismo passou a reconhecer esse nível de carga como algo treinável e sustentável.

    Conclusões

    O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam aos Corredores Amadores

    A evolução do corredor aconteceu baseada numa frequência relativamente estável, ele aumentou gradualmente sua capacidade de sustentar volumes mais elevados durante blocos completos de treinamento.

    Isso se alinha com o gráfico anterior de frequência semanal. Enquanto a frequência permaneceu próxima de 4 treinos por semana durante duas décadas, os mesociclos mais fortes praticamente dobraram de tamanho.

    Em outras palavras: o segredo não foi correr mais vezes. Foi tornar cada ciclo de treinamento mais robusto, mais consistente e mais sustentável.

    Quando observamos os resultados das provas, os volumes anuais, a frequência de treinos e agora os picos dos mesociclos, fica evidente que os melhores momentos da trajetória do Laerte não foram construídos por períodos isolados de treinamento intenso.

    O que aparece ao longo de praticamente vinte anos é uma combinação rara de regularidade, progressão gradual e capacidade de sustentar cargas relevantes de treinamento por longos períodos.

    Os mesociclos entre 60 e 80 km semanais não surgem como eventos excepcionais, mas como consequência natural de uma rotina consolidada, sustentada por semanas consecutivas de treinamento consistente.

    Talvez esse seja o principal ensinamento que emerge da análise dessas 955 semanas de treino: a performance não foi resultado de alguns grandes ciclos, mas da repetição disciplinada de bons ciclos ao longo de duas décadas.

    “O diferencial do Laerte nunca foi um treinamento extraordinário; foi a extraordinária capacidade de repetir o treinamento ordinário durante vinte anos.”

    E isso tem um valor enorme para corredores amadores, porque torna o caso dele replicável. A mensagem implícita não é “treine como um profissional”, mas:

    “Permaneça treinando por tempo suficiente para que a consistência faça seu trabalho.”

    Nenhum dos números que acabamos de ver, individualmente, impressiona tanto quanto o conjunto. Um corredor pode fazer um ano de 4 treinos por semana, pode fazer uma temporada com picos de 70 km semanais, pode correr uma maratona, mas, repetir isso durante duas décadas é algo completamente diferente.

    Por isso, ao longo da análise, o Laerte deixa de ser apenas um corredor que correu bem. Ele passa a representar um conceito que trabalhamos frequentemente por aqui: a consistência como habilidade.

    Muita gente trata consistência como característica de personalidade ou motivação. Os dados do Laerte sugerem a consistência como uma competência desenvolvida ao longo do tempo, construída pela repetição de escolhas adequadas.

    E talvez seja justamente por isso que a trajetória dele seja tão valiosa para ser estudada. Não porque ela mostra o que fazer durante uma semana perfeita, mas porque mostra o que acontece quando semanas suficientemente boas são repetidas durante vinte anos.


    ENTREVISTA

    Conversando com o Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida

    A História

    C.B. – Quando você começou a correr?
    LAERTE – Comecei em 2005, e em 2006 com acompanhamento técnico do prof. Claudio.

    C.B. – O que fez você permanecer na corrida durante tantos anos?
    LAERTE – Desde o começo foi para permanecer saudável.

    C.B. – Em algum momento pensou em parar definitivamente?
    LAERTE – Sim, em alguns momentos pensei em parar devido a algumas lesões, falta de tempo…mas a vontade de continuar correndo superou tudo.

    C.B. – Se pudesse resumir sua trajetória em uma palavra, qual seria?
    LAERTE – Persistência

    C.B. – Você imaginava que um dia teria 20 anos consecutivos registrados?
    LAERTE – Não, nunca imaginei, não gosto de projetar muito o futuro, deixo as coisas irem acontecendo.

    O Processo

    C.B. – Como você organizava sua rotina para conseguir treinar tantos anos?
    LAERTE – Sempre trabalhei muito (sou engenheiro), viajava muito, para cumprir a planilha de treinos sempre carreguei no carro uma mochila com tênis, camiseta, shorts… durante a semana sempre programei os treinos no final do dia, sempre depois das 18hs e no fim de semana treinava de manhã.

    C.B. – O que fazia quando não tinha vontade de treinar?
    LAERTE – Aconteceu várias vezes, ia assim mesmo.

    C.B. – Você sempre gostou de correr ou aprendeu a gostar?
    LAERTE – Nunca gostei de correr, pratiquei vários outros esportes na juventude, basquete, judô, futebol… talvez essa cultura de esportista tenha despertado a vontade de fazer um esporte que fosse individual, que só dependia de mim.

    C.B. – Qual foi o maior desafio para manter a consistência?
    LAERTE – Sempre o maior desafio foi conciliar o trabalho, família, vida social…

    C.B. – Como conciliou trabalho, família e treinamento?
    LAERTE – Como disse, no trabalho ia treinar sempre a tarde/noite, na medida do possível tentei dar atenção à família, consegui com a ajuda da minha esposa criar muito bem os meus dois filhos.

    Os aprendizados

    C.B. – Hoje, olhando para trás, o que você faria diferente?
    LAERTE – Nas lesões eu não forçaria a barra para voltar antes.

    C.B. – Qual foi o maior erro que cometeu como corredor?
    LAERTE – Treinar sem dar o tempo necessário para recuperar de lesão

    C.B. – O que aprendeu sobre seu corpo nesses 20 anos?
    LAERTE – O nosso corpo emite sinais, você precisa saber interpretar esses sinais, cansaço fora do normal, fale com o seu técnico, talvez diminuir o volume/intensidade, uma dorzinha incomodando, pode ser o aviso de uma lesão que vem por ai.

    C.B. – Qual foi o melhor conselho que recebeu?
    LAERTE – Do meu técnico Claudio, – Nunca saia numa corrida em um ritmo muito forte, ali na frente a conta vem.

    C.B. – Qual conselho você daria para quem começou agora?
    LAERTE – Seja persistente, não queira queimar etapas, um passo de cada vez, os resultados virão.

    As Histórias

    C.B. – Qual foi a prova mais emocionante?
    LAERTE – A prova mais emocionante foi a Maratona de Nova York, em 2014, muita gente incentivando no percurso inteiro.

    C.B. – Qual foi o treino mais difícil que você lembra?
    LAERTE – Foi um treino para a Maratona de Porto Alegre, 39 km, teve chuva, frio e diarreia, terrível…

    C.B. – Existe alguma corrida que nunca vai esquecer?
    LAERTE – Acho que foi a minha primeira maratona (Porto Alegre), consegui terminar bem e ter confiança para fazer outras.

    C.B. – Qual foi sua maior superação?
    LAERTE – Maratona de São Paulo, cãibra no km 40, fui mancando até o final, nos últimos 100 metros a  cãibra foi tão intensa que achei que ia desmaiar.

    C.B. – Tem alguma situação engraçada pra contar?
    LAERTE – Maratona de Barcelona, estava voltando de uma cirurgia que tinha feito no joelho (menisco), estava bem, pois bem, no km 41 fui ultrapassado por uma anã, devia ter um metro de altura, enquanto eu dava um passo ela dava quatro, achei um desaforo, tirei forças de onde eu não tinha mas consegui ultrapassá-la, achei que tinha deixado ela bem para traz e quando ultrapassei o pórtico de chegada ela estava ao meu lado, acho que ganhei dela pela ponta do tênis.

    C.B. – Alguma prova em que tudo deu errado?
    LAERTE – Algumas, a mais marcante foi em uma maratona em São Paulo em que tive dores intensas na posterior da coxa, abandonei na metade da prova.

    C.B. – Qual foi o momento em que mais se emocionou correndo?
    LAERTE – Toda maratona e emocionante, quando você termina é uma mistura de dor, alegria, superação…Como disse, o momento mais emocionante foi na maratona de Porto alegre na minha primeira maratona quando encontrei minha esposa e meus amigos.

    O que os Gráficos não Mostram

    C.B. – O que não aparece nesses gráficos e você ressaltaria?
    LAERTE – Os gráficos mostram evoluções, retrocessos…esses gráficos não mostram as fases da vida pessoal, trabalho…acho que eles se completariam.

    C.B. – Que parte da sua história ninguém vê quando olha todos esses números?
    LAERTE – Os numeras são frios, não contam o que se passou, chuva, frio, calor, dores…

    C.B. – Houve fases difíceis que, olhando os dados, parecem normais?
    LAERTE – Sim, houve fases difíceis e que foram superadas e não aparecem nos dados.

    C.B. – Qual foi o preço para manter essa consistência?
    LAERTE – Não paguei preço nenhum, muito pelo contrário, ganhei saúde, amigos, autoestima.

    C.B. – O que significou correr durante 20 anos para sua vida, além da corrida?
    LAERTE – A corrida me ensinou a ter persistência, resiliência, disciplina, a vida ficou mais leve de ser vivida.

  • Clube da Corrida Bertolino: 20 Anos Formando Corredores com Consciência

    Clube da Corrida Bertolino: 20 Anos Formando Corredores com Consciência

    Em um cenário onde a corrida de rua cresce a cada ano e atrai milhares de praticantes, é fácil esquecer que nem sempre foi assim.

    Hoje existe informação em abundância, aplicativos, relógios sofisticados, planilhas automatizadas e conteúdos para todos os níveis. Mas nem sempre houve clareza. Nem sempre houve método. E, principalmente, nem sempre houve orientação.

    Foi nesse contexto — muito diferente do atual — que nasceu o Clube da Corrida Bertolino.

    O Início: Quando Correr ainda era Intuição

    O Clube da Corrida Bertolino surgiu formalmente em Londrina, em abril de 2006.

    Localmente e naquele momento, a corrida de rua ainda estava longe do nível de organização e acesso à informação que vemos hoje. Os corredores treinavam por conta própria, baseados em tentativas, sensações ou orientações genéricas.

    Era comum ver:

    Foi nesse ambiente que surgiu a proposta do Clube:

    Organizar o treino de corrida com método, lógica e individualização

    Desde o início, o trabalho já combinava duas frentes que, para a época, eram inovadoras:

    • acompanhamento presencial com planilhas
    • orientação à distância com planilhas individualizadas

    A orientação à distância é um modelo que, ainda hoje, gera dúvidas, e que já expliquei com mais profundidade em um conteúdo específico sobre como e quando esse tipo de treino realmente funciona.

    👉 O Treino a Distância: Como e Quando Funciona?

    Tudo isso com um olhar voltado não apenas para performance, mas também para a saúde e a continuidade do corredor na prática.

    O Problema que Precisava ser Resolvido

    Mais do que oferecer treinos, o Clube nasceu para resolver um problema claro:

    Corredores sem direção

    Correr sem entender o porquê — e esse é um dos erros mais comuns entre corredores, tanto que já aprofundei esse ponto num vídeo do nosso canal do YouTube sobre propósito no treino.

    🎥 Quando o Propósito Supera o Objetivo | O Sentido do Seu Treino

    Na prática, isso se traduzia em erros comuns: fazer sempre o mesmo tipo de treino, correr sem entender o porquê, aumentar carga de forma desorganizada e buscar resultado sem base.

    Esse modelo, embora comum, levava a consequências previsíveis:

    • lesões
    • estagnação
    • frustração
    • abandono da corrida

    A proposta do Clube da Corrida Bertolino foi, desde o início, ir na contramão disso.

    👉 menos improviso, mais consciência
    👉 menos volume aleatório, mais progressão

    A Construção: Muito Além de Planilhas

    Com o passar dos anos o Clube evoluiu, mas essa evolução nunca foi apenas estética ou estrutural; ela foi, principalmente, conceitual.

    Sim, houve mudanças visíveis:

    • evolução da logomarca
    • aprimoramento do modelo de atendimento
    • adaptação às novas demandas dos corredores

    Mas o que realmente se consolidou foi uma forma de trabalhar. As planilhas deixaram de ser apenas uma sequência de treinos e passaram a representar um processo estruturado de desenvolvimento — e, na prática, isso passa muito por saber organizar bem a semana de treinos, algo que já detalhei em outro artigo aqui no Blog.

    📝Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida

    Cada corredor passou a ser visto como um sistema único, com:

    • rotina própria
    • histórico diferente
    • respostas individuais ao treino

    Isso exigiu algo que nem sempre é simples: observar, ajustar, aprender e evoluir constantemente.

    A Evolução do Treinador

    Nenhum método se sustenta sem experiência real. Ao longo desses 20 anos, a construção do Clube esteve diretamente ligada à trajetória do treinador, que traz uma base multilateral de vivências dentro do esporte.

    Essa base inclui:

    • experiência como atleta de alto rendimento
    • convivência em ambientes competitivos
    • anos de prática como treinador
    • contato direto com diferentes perfis de corredores e treinadores

    Essa combinação permitiu algo raro – unir teoria e prática de forma consistente, e mais do que aplicar conceitos prontos, o trabalho sempre foi guiado por observação direta: o que funciona, o que não funciona, o que precisa ser ajustado para cada indivíduo.

    E, principalmente, como fazer o corredor evoluir sem se perder no processo.

    O Nascimento de um Método

    Com o tempo, essa experiência deixou de ser apenas prática acumulada e passou a se organizar em forma de método.

    Assim nasceu o conceito de:

    CORRIDA COM LONGEVIDADE

    Um modelo de treinamento que vai além da busca por performance imediata e se baseia em cinco fundamentos principais:

    🔹1. Individualização Profunda
    Cada organismo responde de forma única

    🔹 2. Gestão Inteligente da Carga
    Treinar no limite fisiológico, não no limite do ego

    🔹 3. Progressão Estruturada
    Evoluir de forma consistente, sem picos emocionais

    🔹 4. Corpo como Sistema de Feedback
    Dor é dado. Fadiga é informação

    🔹 5. Disciplina Sustentável
    Motivação oscila. Comportamento permanece

    Esse método nasce da prática, mas se consolida na consistência.

    Resultados que não Aparecem só no Relógio

    Ao longo de duas décadas, muitos corredores passaram pelo Clube da Corrida Bertolino, e, embora performances façam parte do processo, eles nunca foram o único indicador de evolução.

    Nossas marcas mais relevantes muitas vezes são menos visíveis: corredores que permanecem ativos por anos, baixos índices de lesões, maior consciência sobre o próprio treino, capacidade de ajustar expectativas e objetivos.

    E, principalmente, a continuidade, porque correr bem não é apenas correr rápido, mas conseguir continuar correndo.

    A Expansão: do Treino ao Conteúdo

    Com o amadurecimento do trabalho, surgiu uma nova necessidade: levar conhecimento para além do treino direto.

    Assim começou a produção de conteúdo com um canal no YouTube, artigos no Blog e materiais educativos, onde o objetivo não é apenas ensinar o que fazer, mas ajudar o corredor a entender o que está fazendo.

    Essa mudança é fundamental, porque o corredor que entende treina melhor, erra menos, evolui com mais consistência, e, sobretudo, se torna menos dependente e mais consciente.

    O Clube Hoje

    Hoje, o Clube da Corrida Bertolino não é apenas uma assessoria de corrida, é um espaço de desenvolvimento, um ambiente onde o corredor encontra orientação técnica, estrutura de treino e clareza de processo; mas, acima de tudo, consciência.

    O trabalho não é voltado apenas para quem busca performance. É voltado para quem quer:

    • evoluir de forma consistente
    • evitar erros comuns
    • construir uma relação duradoura com a corrida

    O Futuro: Mais do que Treinar, Formar

    Se os primeiros 20 anos foram de construção, os próximos apontam para expansão; não apenas em escala, mas em impacto.

    Os próximos passos passam por:

    • fortalecimento do ambiente digital
    • ampliação da produção de conteúdo
    • desenvolvimento de produtos acessíveis
    • construção de comunidade

    A ideia é clara: atingir mais corredores — sem perder profundidade. E manter o que sempre esteve na base: formar corredores que entendem o que fazem.

    20 Anos Depois…

    Vinte anos podem parecer apenas um número, mas, na prática, representam algo maior:

    • anos de observação
    • ajustes constantes
    • erros e aprendizados
    • evolução contínua

    O Clube da Corrida Bertolino não foi construído em cima de promessas rápidas, foi construído em cima de consistência, e talvez esse seja o maior reflexo do próprio esporte.

    Porque, assim como na corrida, não é o esforço de um dia que define o resultado; é o que você sustenta ao longo do tempo.

    Mais do que correr melhor, continuar correndo

    Ao longo desses 20 anos, um princípio manteve-se claro:

    👉 o objetivo não é apenas formar corredores mais rápidos
    👉 é formar corredores que permanecem correndo

    Com consciência.
    Com consistência.
    E com propósito.

  • 100ª Corrida Internacional de São Silvestre 2025 — História, Resultados e Participação do Clube da Corrida

    100ª Corrida Internacional de São Silvestre 2025 — História, Resultados e Participação do Clube da Corrida

    A Corrida Internacional de São Silvestre chegou à sua 100ª edição em 31 de dezembro de 2025, consolidando-se como uma das provas de rua mais icônicas e históricas do planeta.
    Realizada nas ruas de São Paulo (SP), a prova de 15 km reuniu um contingente recorde de corredores, experiência esportiva e performance internacional, além de marcar um momento especial para o nosso Clube da Corrida, com a participação da Lígia, Rafael e Regina em uma edição histórica.

    Tradição e Contexto Histórico

    A São Silvestre completou 100 anos em 2025 — uma marca inédita no calendário do atletismo brasileiro.
    Desde sua primeira edição, em 1925, a prova cresceu em prestígio e tradição, tornando-se um símbolo do encerramento do ano esportivo no país.

    Essa edição centenária contou com cerca de 55 mil inscritos, o maior número da história da prova, reunindo atletas de 44 países diferentes.

    Resultados Oficiais da 100ª São Silvestre

    Nesta edição histórica, o alto nível competitivo foi novamente evidenciado com fortes performances internacionais.

    Pódio Masculino

    1. Muse Gizachew (Etiópia) – 44 min 28 s
    2. Jonathan Kipkoech (Quênia) – 44 min 32 s
    3. Fábio Jesus (Brasil) – 45 min 06 s

    Pódio Feminino

    1. Sisilia Ginoka Panga (Tanzânia) – 51 min 09 s
    2. Cynthia Chemweno (Quênia) – 52 min 31 s
    3. Nubia de Oliveira (Brasil) – 52 min 42 s

    Destaques e Curiosidades da Edição

    Recorde de Público e Diversidade

    A centésima São Silvestre foi marcada por números impressionantes:

    • 55 mil inscritos – maior marca da história da prova.
    • Representatividade de mais de 40 países.
    • Crescimento significativo da participação feminina e de corredores de diferentes níveis.

    Essa edição reforçou não apenas o prestígio competitivo, mas também o caráter cultural e esportivo da corrida massificada no Brasil.

    A Participação do Clube da Corrida Bertolino

    Nesta edição histórica, o Clube da Corrida marcou presença com a Lígia, Regina e Rafael, que enfrentaram os 15 km da prova mais tradicional do país com aquela determinação de sempre.
    Participar de uma São Silvestre é sempre um marco no calendário de qualquer corredor — e fazê-lo em uma edição centenária adiciona ainda mais significado a esse desafio.

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    A 100ª Corrida Internacional de São Silvestre entrou para a história não apenas pelo seu marco centenário, mas pela celebração da cultura da corrida de rua no Brasil e no mundo.
    A participação do Clube da Corrida nessa edição é motivo de orgulho e inspiração para todos os corredores que seguem em busca de evolução, superação e consistência.

  • Suas Maiores Vantagens na Corrida Podem Estar Sendo Desperdiçadas

    Suas Maiores Vantagens na Corrida Podem Estar Sendo Desperdiçadas

    Tem corredor que evolui mais rápido, e não é só porque treina mais, também não é só genética, e muito menos sorte…

    O que existe — e pouca gente percebe — é que alguns corredores aprendem a usar melhor aquilo que já têm.

    O corredor evolui mais quando identifica e potencializa seus próprios pontos fortes, em vez de tentar reproduzir as qualidades dos outros.

    E é aqui que entra um conceito interessante, que talvez você já tenha ouvido por aí, “Vantagens Injustas”

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Vantagens Injustas na Corrida: Você Está Ignorando as Suas?        

    Mas antes de trazer isso para a corrida, vou te mostrar como isso aparece na vida real.
    Esse termo ficou conhecido no mundo dos negócios, muito ligado ao conceito de Unfair Advantage.

    E a ideia é simples: não é sobre fazer mais; é sobre ter, e usar, algo que te coloca à frente.

    E isso pode vir de vários lugares:

    • da sua história
    • das suas experiências
    • das decisões que você tomou ao longo do tempo

    Se olhar com atenção, você vai perceber que também tem tais vantagens na sua vida.

    • na sua profissão
    • na forma como você aprende
    • na forma como você se organiza
    • na forma como você executa

    Só que, na maioria das vezes é possível que enxergue ou não valorize o que já tem. E aí acontece algo silencioso: você entra no treino, mas sem clareza do que está fazendo, sem leitura do que precisa, sem conexão com o seu próprio processo.

    Quem não ignora o que é seu faz com que o jogo comece a mudar, porque na corrida, quase nunca a vantagem é injusta de verdade; ela só parece injusta para quem ainda não entendeu o próprio jogo.             

    Mas agora eu quero te mostrar tudo isso:

    👉 quais são essas vantagens
    👉 por que alguns evoluem mais rápido
    👉 como você pode usar as suas a seu favor

    Porque talvez, o que esteja faltando para você evoluir não seja treinar mais; seja treinar melhor o que já é seu.

    O que são “vantagens injustas” na corrida?

    Vamos organizar esse conceito. Quando falamos em vantagem injusta na corrida, as pessoas podem restringir o pensamento em algo como genética superior, talento natural ou facilidade acima da média; mas isso é só uma parte, e nem sempre a mais importante.

    Na prática, vantagem é qualquer característica que te coloca em condição melhor de evoluir ou performar.

    E isso pode vir de vários lugares:

    • físico
    • mental
    • comportamental
    • técnico
    • ambiental

    Ou seja: não é uma coisa só; mas um conjunto. E o grande ponto é: quem evolui mais rápido não é quem tem mais vantagens; é quem entende melhor quais são as suas… e sabe usá-las.

    O erro clássico

    Quando o corredor olha para o outro e pensa: “ele é melhor que eu” e a partir daí, tenta copiar o que o outro faz.

    Só que existe um problema nisso; o que se está copiando é a força de alguém, ignorando a realidade própria.

    E isso pode gerar dois efeitos perigosos: a pessoa não desenvolve o que tem de melhor, e ainda reforça o que tem de pior.

    Resultado?

    👉 evolução travada
    👉 sensação de estar sempre atrás
    👉 muitas vezes, lesão ou frustração

    E tudo isso, por não estar jogando o próprio jogo.

    Os tipos de vantagens na corrida

    Agora vamos organizar isso de forma prática e que poderá te trazer alguns exemplos.   

    Vantagens físicas

    Alguns corredores têm características naturais que favorecem:

    • leveza corporal
    • boa economia de corrida
    • resistência e força acima da média
    • facilidade para sustentar ritmo

    Isso existe, mas aqui vai um ponto importante: vantagem física sem controle não se sustenta.

    Vantagens comportamentais

    Na minha visão, essas são das mais poderosas, e mais ignoradas, porque não dependem de talento, mas de atitude repetida; e no longo prazo, os itens que seguem, bem aplicados vencem quase qualquer facilidade inicial.

    Tem corredor que não é o mais talentoso, mas treina certo, toda semana; e isso acaba ganhando de muita “genética boa”.

    Vantagens cognitivas

    Quem entende o que está fazendo, erra menos e evolui com mais previsibilidade; consciência de treino acelera o resultado e evita desperdício de energia.

    Vantagens emocionais

    Aqui temos um divisor de águas, porque essa vantagem sustenta o comportamento quando a pressão aparece. Sem controle emocional, até mesmo um bom planejamento perde valor na prática.

    O corredor que se deixar levar pelas emoções, ainda que com boas condições, geralmente não consegue treinar tão bem quanto poderia, e na prova, se perde completamente.

    Vantagens de contexto

    Estar cercado de boas referências acelera decisões e encurta caminhos, mas sem consciência, até um bom ambiente pode ser mal aproveitado.  

    • acesso à informação
    • orientação
    • ambiente de treino
    • convivência com pessoas que elevam nível

    Isso tudo acelera o processo, mas mesmo aqui segue o detalhe como em todas as outras vantagens: se você não souber usar, não resolve ter.


    Um exemplo real de vantagens…e limitações

    Agora segue um exemplo próprio, do que hoje enxergo com mais clareza sobre a minha trajetória esportiva, e talvez o relato dessas experiências te ajude ainda mais a identificar os seus próprios pontos fortes e fracos.

    Na época, eu não chamava isso de vantagem, mas hoje sei que alguns aspectos me favoreciam; outros me limitavam.

    Minhas vantagens

    No campo fisiológico:

    • boa resistência geral
    • ótimo componente cardiorrespiratório
    • elevado percentual de fibras rápidas
    • excelente poder de sprint

    No campo técnico:

    • facilidade com movimentos
    • rápida evolução técnica para um alto nível

    No campo comportamental:

    • boas estratégias de prova
    • capacidade de seguir o plano de treino

    Minhas limitações

    Aqui seguem os pontos que travavam meu processo.

    • síndrome do túnel do tarso
    • impacto direto na consistência
    • dificuldade para sustentar volume
    • dificuldade para manter sequência de treinos ao longo das temporadas

    E além disso:

    • baixos níveis de força relativa
    • ausência de uma estrutura de base (nutrição, recuperação, suporte)
    • distância do eixo das grandes competições
    • limitação de oportunidades para resultados de alto nível

    Naquela época eu não fazia essa leitura, então tentava evoluir “no geral”, sem usar minhas forças com estratégia, e sem atacar minhas limitações com clareza.

    Isso pode ensinar que não é sobre ter ou não ter vantagens e limitações; mas, sobre saber jogar com o que você tem, antes de favorecer o que é fraco e desperdiçar o que é forte.


    Como usar as suas vantagens na prática

    Agora vamos para a parte mais importante: como aplicar isso no seu treino.

    Passo 1 – Identificar suas forças

    Você precisa observar:

    • onde evolui mais rápido
    • que tipo de treino responde melhor
    • o que você sustenta com mais consistência

    Passo 2 – Identificar suas fraquezas

    Aqui entra maturidade no entendimento de tudo aquilo que limita o seu processo.

    Fraqueza não é só onde dói, é tudo aquilo que, de forma silenciosa, impede você de evoluir, e o problema é quando o corredor só olha para a fraqueza quando ela vira dor. 

    Passo 3 – Estratégia inteligente

    Aqui está o equilíbrio.

    🟢 Usar suas forças como base
    🟢 Desenvolver fraquezas com inteligência

    O equilíbrio que gera evolução

    Quem evolui não é aquele que tenta ser perfeito rapidamente; é quem constrói consistência com inteligência.

    • usa o que tem de melhor
    • melhora o que precisa
    • respeita o processo

    E isso leva a algo muito importante: previsibilidade de evolução.

    O que parece injusto

    Quando você vir alguém evoluindo rápido e isso parecer injusto, na maioria das vezes, não é; esse corredor só está jogando melhor o jogo dele, e talvez você esteja tentando jogar o pior jogo ou um jogo qualquer, que não o seu.

    O Ponto Central

    Perceba que você não precisa de mais informação aleatória; você precisa de mais consciência sobre você, porque a verdadeira vantagem não é o que você tem, mas o que você sabe usar

    Então, não existe vantagem injusta; existe vantagem mal utilizada, força ignorada, potencial desperdiçado, e talvez, o que está faltando para você evoluir na corrida…

    👉 não seja treinar mais
    👉 seja usar melhor o que você já tem
    👉 e começar a entender o seu próprio jogo

    Quando você identifica suas forças, o treino ganha direção; quando você entende suas fraquezas, o erro diminui, e quando você equilibra os dois, a evolução acontece. Na corrida, como na vida, não vence quem faz mais; vence quem faz melhor o que é seu.

    Olhe para o seu processo de treino. Depois, olhe para dentro, porque a pergunta não é mais se você tem vantagens; mas, quais são elas, e se você sabe usar o que já é seu.

  • Estratégia de Prova na Corrida   

    Estratégia de Prova na Corrida   

    Você pode ter a melhor planilha do mundo; pode ter cumprido os treinos por meses, e mesmo assim, na prova tão esperada, competir muito aquém do que podia, ou ate mesmo quebrar.

    Se isso já aconteceu com você, seguramente o problema não estava no treino. Estava na estratégia — e principalmente, na maturidade para executá-la.

    Dominar os treinos é importante, mas transformar preparo em boa competição exige outras competências, e aqui, vou te mostrar quais são e como transformá-las em suas maiores aliadas para que possa correr sempre bem nas provas.

    Isso não é sobre vencer os outros, porque no final da prova, sempre será você com você mesmo.

    👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
    📺 Por que Você Quebra na Prova? A Estratégia que está Faltando    

    Domínio Antecipado de Prova

    O que vou te ensinar aqui, chamo de domínio antecipado da prova; a capacidade de chegar na largada já sabendo como você vai se comportar.

    Isso reduz drasticamente a ansiedade pré-prova, quando você não está reagindo ao que acontece — você já decidiu como agir antes mesmo do tiro de largada.

    O domínio antecipado:

    • Elimina improvisos desnecessários
    • Evita o erro emocional dos primeiros quilômetros
    • Cria uma sensação de controle interno mesmo em ambiente caótico

    Com ele, você não depende do ritmo dos outros, ou da euforia do momento; você corre com um plano internalizado e não com impulsos.  

    Pré-requisito 1 – Saber Onde Você Está

    Primeiro pré-requisito: a sua Capacidade Real. Saber exatamente em que ponto você está; se vai correr 10 km, precisa saber: hoje eu sou um corredor de 60 minutos? 55? 50? Estratégia começa com honestidade sobre sua capacidade atual.

    Um treinador experiente consegue estimar isso com facilidade, e quem treina sozinho precisa desenvolver autoconhecimento, o que não é tão difícil assim, não é mesmo?

    Pré-requisito 2 – Maturidade Emocional

    Segundo pré-requisito: Maturidade Emocional. Sem ela, qualquer estratégia morre nos primeiros quilômetros, porque desse jeito a prova começa antes da largada — na base da adrenalina.

    Quando a adrenalina sobe:

    • Ela ativa o sistema nervoso simpático
    • Coloca o corpo em estado de ataque
    • A frequência cardíaca dispara antes mesmo do esforço real começar
    • A percepção de esforço fica momentaneamente mascarada
    • O ritmo parece mais confortável do que realmente é

    Quando o ritmo é o que não parece, é porque a percepção de esforço pode enganar

    👉 Veja esse assunto detalhado no vídeo:
    📺 Carga Interna x Carga Externa                     

    O corredor sente potência, leveza e falsa facilidade nos primeiros metros. O cérebro interpreta a excitação do ambiente como capacidade física aumentada, e isso reduz o freio interno que regula o ritmo planejado.

    E quando a adrenalina estabiliza, o custo fisiológico aparece de muitas formas; as mais perceptíveis são a respiração ofegante e as pernas pesadas — só que o erro já foi cometido lá atrás.

    Para muita gente, essa já é a maior batalha da prova.

    Minha Experiência na Prática

    Agora, como exemplo prático e trazendo para a sua realidade, vou dizer exatamente como eu fazia nas provas, e você vai ver que os pontos que vimos anteriormente vão se unir em torno da sua estratégia de provas.

    Eu competia nos 20 km, muitas vezes em pista oficial de 400m, outras vezes em circuitos de rua, de 2 ou 2,5km

    Meu Dominio da Emoção

    Depois de algum tempo competindo, aprendi sozinho que, se não estivesse tão bem preparado para determinada prova, não fazia sentido algum minha mente impor altas exigências ao corpo.

    Então baixar as expectativas era o que me tranquilizava antes dessas provas, e elas para mim, eram encaradas mais como provas preparatórias ou como um treino de luxo.

    Meu Domínio do Ritmo

    Exceto a primeira prova da temporada, baseado numa sequencia lógica e do meu grau de assimilação dos treinos, eu sempre sabia bastante sobre minha performance momentânea, ou seja, conseguia um prognostico de resultado, ou, uma boa estimativa do que tempo faria na prova.

    👉 Se quiser saber mais sobre sequência lógica de treinos, leia o artigo:
    📝 Como Montar uma Semana de Treinos Equilibrada na Corrida 

    Na Prática (no campo amador)

    Se isso funciona? Vamos para a prática no campo amador. Em 2008, por ocasião da meia maratona de Foz do Iguaçu, fiz mais de 20 prognósticos de resultados dos meus alunos que participaram, baseado em suas preparações.

    Para poucos deles a discrepância entre estimativa e resultado foi maior que 4 minutos, e, quanto maior o nível do corredor, melhor a estimativa, considerando os fatores controláveis.

    Esses prognósticos não foram feitos como um exercício teórico, mas como uma aplicação prática do que vinha sendo construído nos treinos — e, no geral, foram positivos.

    A grande maioria dos atletas conseguiu performar dentro da faixa estimada, respeitando o ritmo planejado e sustentando a estratégia ao longo da prova. Isso não significa precisão absoluta — porque a prova sempre envolve variáveis — mas mostra algo importante:

    👉 processo bem conduzido
    👉 estratégia respeitada

    👉 resultado deixa de ser surpresa
    👉 resultado passa a ser consequência

    Mas vamos voltar à minha estratégia; eu fazia um fracionamento cognitivo do esforço, algo que muitos atletas de alto nível fazem intuitivamente e que serve também para o amador.

    Fracionamento Cognitivo da Prova

    Desse modo, eu nunca competia 20 km, competia quatro provas fortes de 5 km. Cada uma tinha uma missão diferente, e ao final, eu não tinha apenas completado 20 km, eu tinha construído uma prova forte, bloco por bloco de 5 km.

    Aquelas 04 partes eram minhas 04 batalhas de 5k, e ainda que na pista, quando em muitas delas eu contava com um acompanhamento e controle externo a cada volta de 400m e a cada km, ou nos circuitos, onde controlava as passagens de 1 e de 2k, minha mente não perdia o foco em vencer os trechos maiores, que também eram os de maior recompensa.

    Agora veja como tudo se encaixa: quando você sabe sobre sua capacidade momentânea em determinada prova, basta dividir a estimativa para ela, obter o pace (os minutos para cumprir cada km), e seguir nele desde o inicio; não é simples?

    E atualmente, com a tecnologia GPS nos relógios, isso ficou totalmente viável.

    O que Mais Voce Precisa Saber

    Toda prova tem um comportamento previsível; não importa se são 5 km, 10 km, meia maratona ou maratona.

    O corpo passa por fases, a mente passa por fases. E quem entende essas transições corre com vantagem estratégica.

    E agora vou te mostrar as quatro partes invisíveis que toda prova tem — e qual é a missão em cada uma delas.

    Parte 1 – Contenção

    Você está inteiro, a respiração sob controle, as pernas ainda leves… É exatamente aí que mora o perigo.

    O corpo ainda não mostrou o custo da prova, então surge a tentação de partir como se não houvesse amanhã; a missão aqui não é acelerar — é respeitar o plano quando tudo parece fácil demais.

    Parte 2 – Consolidação

    Agora você está totalmente aquecido, o motor encaixou, o ritmo estabilizou. Você ainda está inteiro — mas já trabalhando.

    Entre o fim dessa parte e o início da próxima, normalmente está o trecho mais forte da prova.
    A missão aqui é consolidar eficiência: correr firme, econômico e disciplinado, sem desperdiçar energia emocional.

    Parte 3 – Gestão do Desconforto

    Aqui o corpo começa a cobrar a conta; a respiração fica ofegante, a musculatura pesa. A mente começa a sugerir pequenos acordos: “reduz um pouco… depois você tenta voltar.”

    Essa é a fase mais sensível da prova. A missão é sustentar o ritmo planejado com maturidade, transformando desconforto em permanência.

    Parte 4 – Decisão Emocional

    Agora não é mais sobre condição física; é sobre posicionamento interno. Você já está cansado — e isso é normal.

    A pergunta deixa de ser “estou confortável?” e passa a ser “vou honrar o que planejei?”.
    Aqui ninguém corre com a perna; corre com decisão.

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    Como a Estratégia se Adapta a Cada Distância

    Talvez você esteja se perguntando: “Mas isso vale para qual distância?”
    Vale para todas; dos 5 km à maratona, o corpo muda o tempo de exposição, mas não muda a lógica do comportamento.

    O que se ajusta não é a estratégia, é a duração de cada fase, e é exatamente aqui que mora o domínio técnico: saber adaptar sem distorcer o método e quando você entende isso, nenhuma prova fica “fora do seu perfil”.

    Agora eu vou te mostrar como essas quatro partes se comportam nos 5k, 10k, 21k e 42k.

    Se a prova for 5 km

    Aqui tudo acontece mais rápido, a contenção é curta, mas decisiva. A consolidação já entra forte, porque o ritmo é agressivo desde cedo.

    A gestão do desconforto começa antes da metade e a decisão emocional aparece muito antes do que você imagina. Nos 5 km, maturidade é não confundir intensidade com descontrole.

    Se a prova for 10 km

    Aqui existe espaço para construção. A contenção precisa ser real nos primeiros 2 km e a consolidação ocupa o miolo da prova.

    O desconforto cresce progressivamente, não de forma explosiva, e a decisão emocional aparece nos últimos 2 km. Nos 10 km, vence quem administra bem o meio.

    Se for meia maratona (21 km)

    A contenção precisa ser quase conservadora no início. A consolidação é longa e estratégica.

    A gestão do desconforto começa antes do km 15, mesmo que você não admita, e a decisão emocional domina os últimos 5 km. Na meia, o erro não aparece rápido — ele cobra com juros no final.

    Se for maratona (42 km)

    Aqui o jogo é totalmente mental. A contenção é quase um pacto com a paciência, e a consolidação é extensa e silenciosa.

    A gestão do desconforto não é fase — é processo contínuo e a decisão emocional começa muito antes do km 35. Na maratona, estratégia é sobrevivência inteligente.

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    Estratégia é Disciplina Emocional

    Perceba uma coisa: Em nenhuma dessas quatro partes eu falei sobre estar motivado.
    Eu falei sobre estar consciente.

    Porque estratégia de prova não é sobre empolgação; é sobre comportamento sob pressão.

    A maturidade emocional é o que permite que você:

    • Respeite a contenção quando está inteiro
    • Consolide quando está forte
    • Sustente quando o corpo negocia
    • Decida quando tudo em você quer aliviar

    Sem maturidade, a Parte 1 vira imprudência, a Parte 2 vira euforia, a Parte 3 vira desistência disfarçada, e a Parte 4 nem chega a existir.

    É por isso que eu disse lá no começo: estratégia não é planilha perfeita e cheia de números; estratégia é disciplina emocional aplicada ao seu ritmo real. Quem quebra na prova não erra no físico, erra na leitura de si mesmo.

    E não esqueça que estratégia não é algo que você pode usar só no dia da prova, mas algo que você pode carregar para cada treino.

    Quando você começa a correr com consciência, deixa de ser refém do impulso e passa a competir com clareza.

    E que na sua próxima largada, você não leve apenas preparo físico, leve domínio.

  • Atleta de Elite: A Influência Invisível na Sua Corrida       

    Atleta de Elite: A Influência Invisível na Sua Corrida       

    Se amanhã todos os atletas de elite desaparecessem, você continuaria correndo, seu treino seguiria, suas provas continuariam acontecendo, e seu relógio marcaria o mesmo ritmo.

    Então a pergunta pode ser legítima: para que servem os atletas de elite?
    Essa reflexão conversa diretamente com outra ainda mais essencial: afinal, para que mesmo você treina?.

    Essa dúvida aparece com frequência, e não só entre leigos, mas entre corredores experientes. Se o esporte amador funciona sem eles, por que manter um sistema caro, complexo e restrito a tão poucos?

    Quando essa visão ignora o funcionamento do sistema, ela revela um ponto comum entre a maioria dos corredores: a falta de compreensão do processo — algo que já explorei em como a alienação barra sua evolução.

    👉 Se preferir, em vez de ler o artigo, assista ao vídeo:
    📺 Atleta de Elite: Porque Ele é Importante (Também para o Corredor Amador)

    Antes de Seguir: Entendendo o Ponto de Partida

    O que me chamou a atenção para esse tema foi uma discussão em uma rede social sobre os Jogos Olímpicos no Brasil. A questão levantada era direta:

    👉 Qual a importância dos atletas de elite?
    👉 Para que eles servem, de fato?

    Esse tipo de questionamento aparece com frequência, especialmente quando o esporte é visto apenas como meio — e não como sistema.

    Mas antes de continuar, deixo claro um ponto importante:

    👉 Isso não é uma defesa da especialidade alto rendimento
    👉 Também não é um discurso baseado apenas em experiência pessoal

    A experiência ajuda a enxergar nuances, mas o argumento aqui é outro: é estrutural, e a questão não é se o atleta de elite merece aplauso, a questão é: qual função ele cumpre dentro do esporte como sistema — inclusive para quem nunca vai chegar perto desse nível.

    O Papel Estrutural do Atleta de Elite

    Em países como a Nova Zelândia, isso é entendido com clareza. O atleta que veste o uniforme preto é tido em alto conceito pela sociedade não representa apenas resultado, ele representa:

    • processo
    • identidade
    • responsabilidade

    Existe ali um viés poderoso em todas as camadas para a utilização do desempenho e o entendimento coletivo de que alguém precisa ir ao limite para que o caminho exista, porque é ali que o treino é testado, que os erros aparecem primeiro, que as soluções são forjadas sob pressão real.

    Depois, esse conhecimento desce de nível; é simplificado, adaptado, humanizado, mas a origem continua sendo a mesma: o corredor amador só corre melhor hoje porque alguém, antes, correu até onde dava, e um pouco além, de modo que, ignorar a função do alto rendimento é consumir o produto final sem reconhecer o sistema que o construiu.

    Movimento Cultural x Desconfiança

    O esporte competitivo foi um dos maiores movimentos culturais do século XX. Poucos fenômenos atravessaram fronteiras, regimes políticos, idiomas e classes sociais com a mesma força.

    Atletas, treinadores e pesquisadores tornaram-se vetores desse movimento conectando países.
    Eles promoveram:

    • intercâmbios
    • competições
    • evolução de métodos
    • circulação de conhecimento

    O esporte passou a falar uma língua universal: a do desempenho humano.

    Mas o atleta de elite não existe isolado — nem acima do sistema; ele faz parte de um fluxo cultural que:

    • exporta conhecimento
    • importa técnica
    • transmite comportamento

    Mesmo quem nunca assistiu a uma Olimpíada é de alguma forma, herdeiro desse processo.

    O esporte amador só existe na forma atual porque o alto rendimento pavimentou o caminho, estruturou calendários, criou métodos, estabeleceu parâmetros e forçou o avanço da ciência do treinamento.

    Por que Existe Desconfiança

    Ainda assim, a desconfiança é compreensível, já que, ao longo da história, o esporte de alto rendimento também foi usado como:

    • pão e circo
    • ferramenta política
    • propaganda ideológica
    • negócio pouco transparente
    • demonstrações de supremacia (política, nacional ou sistêmica)

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    Um exemplo clássico de propaganda ideológica foi nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, quando o evento foi amplamente utilizado pelo regime de Adolf Hitler como vitrine de propaganda, reforçando a ideia de supremacia ariana — uma narrativa que acabou confrontada dentro da própria competição por atletas como Jesse Owens.

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    Em outros momentos, o esporte também foi atravessado por contextos políticos complexos. Um exemplo marcante (eu presenciei esse momento – foto 1) ocorreu durante o Campeonato Mundial de Atletismo de 1991, em meio ao processo de dissolução da União Soviética.

    Na prova dos 50 km da marcha atlética, já dentro do estádio e próximo da chegada, Aleksandr Potashov, com a vitória praticamente assegurada, reduziu o ritmo, voltou-se para trás e esperou seu até então compatriota Andrey Perlov, para cruzarem juntos, a linha de chegada.

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    O gesto, mais do que um fair play esportivo, carregava um simbolismo forte: em um momento de fragmentação política, a união entre atletas representava que, naquele ambiente, o vínculo construído no esporte podia transcender a ruptura institucional.

    O desempenho esportivo, em muitos momentos, foi usado como vitrine de poder e afirmação de superioridade entre nações.

    Casos de doping, corrupção e manipulação de resultados mancharam sua imagem e criaram uma pergunta legítima no corredor amador:

    “Se isso tudo é assim, por que deveria importar para mim?”

    A Resposta Realista

    A resposta não está em idealizar o alto rendimento, mas em entendê-lo como sistema imperfeito, cheio de contradições, mas que continua sendo o principal laboratório onde o treinamento é levado ao limite.

    É ali que erros aparecem primeiro, que excessos cobram seu preço e que soluções precisam ser encontradas, e negar essa herança é desconectar o esporte que praticamos hoje do processo histórico que o tornou possível.

    Referência Científica: Onde o Treino é Testado de Verdade

    O alto rendimento é o ambiente onde o treinamento é levado ao limite, não por vaidade, mas por necessidade. Ali, erros custam caro, por isso, métodos de treinamento, estratégias de recuperação, controle de carga, prevenção de lesões e periodização foram desenvolvidos, testados e refinados nesse contexto extremo.

    O corredor amador não precisa treinar como um atleta de elite, mas se beneficia diretamente da ciência que nasceu ali.

    Quando você entende melhor descanso, progressão, intensidade e consistência, é porque alguém antes precisou resolver esses problemas no nível máximo de exigência; o atleta de elite funciona como referência científica viva, mesmo para quem corre três vezes por semana.

    Esses elementos, inclusive, são a base prática de qualquer planejamento — como mostro em como montar uma semana de treinos equilibrada na corrida.

    Tudo o que nasce no alto rendimento não é transferido diretamente para o esporte amador, onde é filtrado, ajustado, simplificado. O treino do atleta de elite não é copiado, e sim traduzido, e o que muda não é a lógica, mas a dose, o contexto e o objetivo.

    Ignorar isso é um dos erros mais comuns — e perigosos — dentro do processo, como explico em por que não queimar etapas nos treinos. 

    E foi assim que surgiram e evoluíram:

    • métodos de treinamento
    • estratégias de recuperação
    • controle de carga
    • periodização
    • prevenção de lesões

    Muitos dos erros de interpretação nesse processo acabam levando a problemas recorrentes, como mostro em lesões típicas na corrida.

    O corredor amador não precisa treinar como um atleta de elite; ele se beneficia diretamente da ciência que nasceu ali.

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    A diferença é que, no amador, essas ideias precisam ser adaptadas à rotina, à idade, e a outros aspectos e o erro não é se inspirar no alto rendimento, mas ignorar que ele precisa ser reinterpretado.

    Essa adaptação é exatamente o que define a eficácia de modelos modernos de orientação, como explico em o treino a distância: como e quando funciona.

    Por isso, o atleta de elite não serve como modelo de treino, mas como fonte de conhecimento, porque o que ele faz no limite ajuda a entender o que o amador deve fazer dentro do seu próprio limite, e é justamente nessa adaptação — entre o extremo e o possível — que a ciência do treinamento encontra seu sentido mais prático.

    Materiais do Extremo para o Cotidiano

    Tênis, roupas, tecidos, acessórios, tecnologias de impacto, amortecimento e estabilidade não surgiram para o amador, eles surgiram para atender exigências extremas e o atleta de elite é quem testa primeiro.

    Com o tempo, essas soluções são adaptadas, simplificadas e chegam a todos os níveis. O corredor amador corre hoje com muito mais conforto, segurança e eficiência porque o esporte de alto rendimento exigiu essas respostas antes, logo, ignorar isso é desconectar o produto do processo que o criou.

    Ainda que, hoje, o maior volume de consumo esteja entre os amadores — em número, em variedade e em impacto comercial — a origem dessas soluções não está no mercado, mas na exigência extrema. O atleta de elite não consome mais, mas exige mais, e é essa exigência que empurra a inovação que depois se massifica.

    Métodos Vindos do Alto Rendimento

    Quando você entende melhor:

    • descanso
    • progressão
    • intensidade
    • consistência

    É porque alguém precisou resolver esses problemas antes — no nível máximo de exigência. O atleta de elite funciona como uma referência científica viva.

    Atributos de Personalidade: O Legado Invisível

    Talvez o aspecto mais subestimado do atleta de elite não seja físico; é comportamental.

    Nesse ambiente é comum encontrar:

    • resiliência
    • disciplina
    • persistência
    • foco
    • tolerância à frustração
    • capacidade de sustentar processos longos

    O Que o Amador Pode Absorver

    Os atributos de personalidade vistos não são qualidades exclusivas de campeões, mas são amplificadas ali e servem como referência para qualquer pessoa, de modo que o corredor amador não precisa copiar treinos, mas pode — e deveria — aprender com essa mentalidade, já que, em muitos casos, esse legado comportamental vale mais do que qualquer método.

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    O Papel Real do Atleta de Elite

    O atleta de elite não existe para ser imitado; ele existe para empurrar limites, gerar conhecimento e manter vivo o processo de evolução do esporte.

    Ainda que o esporte já não seja mais usado oficialmente como “pão e circo”, e que muitas vezes siga como espetáculo inebriante, capaz de anestesiar tensões e de minimizar mazelas sociais…

    Ainda que sua força como manifestação cultural tenha diminuído frente à internet e a outras formas de entretenimento, e ainda que tenhamos aprendido a dar um passo atrás desmascarando falsos campeões e o brilho de performances fraudadas, nada disso anula a sua função estrutural.

    Reflexão Final: O que Isso Muda para Você

    O atleta de elite continua sendo o ponto onde o esforço é levado ao extremo, onde erros aparecem primeiro, onde excessos cobram seu preço e onde soluções precisam ser encontradas, porque é nesse ambiente que o esporte se testa, se corrige e evolui antes de tudo isso chegar aos demais níveis de menor exigência.

    Você pode correr sem o atleta de elite, mas não corre como corre hoje sem tudo o que ele construiu antes.

    Tratemos então a corrida:

    • não como espetáculo vazio
    • não como promessa fácil

    Mas como:

    👉 processo
    👉 construção
    👉 maturidade esportiva

    Porque no fim; a corrida não precisa ser mais dura — precisa ser mais consciente.

  • Treinar Sozinho na Corrida: 3 Erros Comuns e Como Corrigir

    Treinar Sozinho na Corrida: 3 Erros Comuns e Como Corrigir

    Você sabia que mais da metade dos corredores amadores no Brasil treina por conta própria?

    Para muitos, isso é sinônimo de liberdade, flexibilidade e prazer. Mas, sem uma boa estrutura, essa prática pode levar à estagnação, dores e até lesões.

    Neste artigo, Claudio Bertolino, treinador de corrida há mais de 20 anos, revela os erros mais comuns de quem treina sozinho e como evitá-los para conquistar evolução, saúde e desempenho.

    Treinar sozinho não é o problema — estar desorientado, sim

    Correr sozinho tem valor: o silêncio, a conexão, o tempo para pensar. Mas o perigo está em não ter clareza sobre o que fazer, quando e como.

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    Ao longo de décadas, percebi padrões que se repetem entre corredores que treinam sistematicamente, mas sem orientação. Os três mais frequentes são:

    Erro 1 – Fazer sempre o mesmo treino

    É intuitivo: se o objetivo é correr, basta… correr.
    O problema é que repetir sempre o mesmo tipo de treino — distância, intensidade ou formato — limita a evolução.

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    -Falta de variedade impede o estímulo de diferentes capacidades físicas.
    -O corpo não se adapta da forma ideal.
    -A fadiga se acumula, mesmo que o corredor sinta que está “treinando bem”.

    Quase todos os alunos que já recebi traziam esse padrão. Eles treinavam igual toda semana e, mesmo assim, relatavam fadiga alta e poucos resultados.

    Erro 2 – Correr sempre no ritmo errado

    Alguns treinam sempre forte demais. Outros, sempre fraco demais.
    Ambas as situações desorganizam o estímulo e impedem o corpo de se adaptar.

    -Ritmo excessivamente forte → fadiga alta, risco de lesão.
    -Ritmo sempre baixo → evolução lenta ou inexistente.
    -Alternância aleatória de intensidade → falta de coerência no processo.

    Erro 3 – Treinar de forma aleatória

    Tiros mal programados, treinos longos em momentos errados, falta de lógica na distribuição semanal… tudo isso gera conflitos entre estímulos.

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    O efeito desses erros

    Sem referência, o corredor não entende o que o corpo pede nem o que a preparação precisa.

    O resultado? Frustração, estagnação e, muitas vezes, lesões.
    Já vi corredores passarem anos treinando assim, sem perceber que estavam “andando em círculos”.

    A importância do registro e da organização

    Minha virada pessoal veio quando passei a treinar com um competente treinador, usando planilhas organizadas.

    Também criei um diário de treinos: anotava tudo, dividindo por temporadas e ciclos. Essa ferramenta se tornou essencial para planejamento e ajustes.

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    Essa organização ajudou não só na minha carreira como atleta, mas também como treinador de centenas de corredores amadores e na formação de atletas, como uma campeã brasileira juvenil na marcha atlética.

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    Tecnologia a favor do corredor

    Hoje, uso aplicativo especializado para enviar planilhas personalizadas aos meus alunos. Cada treino é adaptado à rotina, com orientações simples e diretas, e feedback constante, e ainda mantenho todos os registros detalhados desde 2006 evitando fórmulas improvisadas ou genéricas.

    Conclusão – Clareza é liberdade

    Treinar sozinho não precisa significar treinar no escuro.
    Com um bom plano, você economiza tempo, reduz riscos e mantém o prazer pela corrida.

    Se vai se dedicar a algo tão importante quanto sua saúde, faça da melhor maneira possível.


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    💬 E me conte nos comentários: você treina sozinho ou segue uma planilha?