Houve uma época em que terminar um treino desidratado podia ser motivo de orgulho. Hoje, essa ideia parece um verdadeiro absurdo.
Quanto mais tempo conseguíamos correr sem beber água, mais fortes e resistentes parecíamos. Entre corredores, não era incomum ouvir comentários como: “Hoje corri 30 quilômetros sem tomar um gole de água.”
E isso não era visto como um erro; pelo contrário: muitas vezes era contado como uma conquista, sendo raro encontrar alguém com uma garrafinha de água para um treino longo.
Quando isso acontecia, a pessoa podia até ser vista como “menos resistente” ou como alguém que ainda não tinha desenvolvido a força necessária para suportar grandes distâncias.
Hoje sabemos que essa lógica faz pouco sentido. A hidratação passou a ser compreendida como parte importante do treinamento e do cuidado com o corpo, especialmente em corridas longas, temperaturas elevadas ou situações de maior perda de líquidos.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa história seja entender como chegamos a acreditar que correr sem beber água era uma demonstração de força.
Neste artigo, vamos resgatar uma prática que marcou uma época da corrida, compreender as crenças que ajudaram a mantê-la e observar como a evolução do conhecimento transformou a forma de treinar, competir e cuidar da hidratação.
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📺 Quando Correr Sem Beber Água Era Sinal de Força
A corrida era outra…
Na década em que comecei meus treinamentos, o universo da corrida era muito diferente do que vemos hoje:
- havia poucos corredores amadores
- poucas provas
- quase nenhuma informação disponível
- não existia internet
- não existiam relógios inteligentes
- não havia vídeos de especialistas no YouTube
Grande parte do conhecimento circulava de atleta para atleta e muitos comportamentos eram simplesmente reproduzidos; se os atletas de elite faziam assim, os amadores faziam também, e nem sempre porque havia evidências, mas porque parecia fazer sentido.
A cultura da resistência
Naquela época existia uma ideia muito forte: o bom corredor era aquele que suportava mais sofrimento, e quanto mais difícil, melhor.
Era quase uma competição paralela:
- quem suportava mais calor
- quem terminava mais destruído
- quem corria mais quilômetros
- quem precisava de menos água
Era como se a resistência física fosse medida pela capacidade de ignorar as necessidades do próprio corpo. Hoje percebemos que isso confundia resistência com sofrimento, e são coisas completamente diferentes.
Os relatos eram comuns
Lembro perfeitamente das nossas conversas: “Hoje fiz 25 quilômetros sem beber água” — dizia um. “Eu fiz trinta” — respondia outro, quase como se aquilo fosse um recorde.
Ninguém perguntava: “Como ficou sua hidratação?” Aliás, praticamente não existia conversas sobre hidratação. A preocupação era terminar o treino e o resto parecia fazer parte do pacote.
Mas eu me lembro muito bem dos efeitos disso. Depois daqueles longos nas manhãs sem beber água, passava boa parte das tardes com uma sede enorme; era o corpo passando horas tentando restabelecer seu equilíbrio e recuperando aquilo que tinha perdido durante o treino.
Na época, não se não fazia essa relação com a hidratação. Ninguém interpretava aquilo como um sinal de que havíamos exagerado na desidratação, e aquela condição era apenas considerada como normal.
O problema não estava somente na prática de correr sem beber água, mas no comportamento tão normal que ninguém questionava as consequências.
Mas, por que acreditávamos nisso?
Hoje é fácil olhar para trás e pensar: “Como eles faziam isso?”
Para tanto, é preciso entender o seguinte contexto:
- A ciência do exercício ainda estava evoluindo
- Muitos mecanismos da hidratação ainda eram pouco compreendidos
- Os estudos demoravam anos para chegar ao treinamento do dia a dia
- Havia forte influência da cultura militar na cultura esportiva
Suportar desconforto era visto como sinal de força mental, mas o problema é que uma ideia verdadeira acabou sendo exagerada, porque sim, o atleta precisa desenvolver resistência mental, mas isso nunca significou ignorar necessidades fisiológicas do organismo em exercício.
A ciência mudou nossa forma de enxergar a hidratação
Com o passar dos anos, os estudos começaram a mostrar algo importante:
- Durante o exercício perdemos muito mais do que água
- Perdemos líquidos
- Perdemos eletrólitos
- A temperatura corporal aumenta
- O volume plasmático diminui
- O coração precisa trabalhar mais para manter o mesmo esforço

Dependendo da intensidade, tudo isso começa a afetar diretamente o desempenho. Além disso, ficou claro que uma desidratação importante aumenta o risco de vários problemas fisiológicos, principalmente em ambientes quentes.
Ou seja, não era apenas questão de conforto; era também questão de desempenho e segurança.
A evolução dos isotônicos
Outro marco importante aconteceu com a popularização das bebidas esportivas. A primeira bebida isotônica surgiu nos Estados Unidos na década de 60, mas demorou muitos anos para chegar de forma consistente ao Brasil.
No final dos anos 80 ela começou a aparecer com mais frequência. Nos anos 90 ainda era praticamente restrita aos atletas de maior rendimento, e só nos anos 2000 passou realmente a fazer parte da rotina de muitos corredores amadores.
Ao mesmo tempo, aumentaram as pesquisas, os congressos e a divulgação de conhecimento sobre hidratação esportiva, quando o cenário começou a mudar rapidamente.
Então devemos beber água o tempo todo?
Aqui existe outro extremo. Hoje sabemos muito mais, mas também sabemos que não existe uma regra única.
A necessidade de hidratação na corrida depende de vários fatores:
- duração do treino
- intensidade
- temperatura ambiente
- umidade relativa do ar
- quantidade de suor produzida pelo corredor
- nível de adaptação ao calor
Por isso, não existe uma quantidade universal que sirva para todos os corredores, e assim, a hidratação também precisa ser individualizada.
O que continua valendo?
Curiosamente, algumas ideias daquela época continuam verdadeiras. O corredor realmente precisa desenvolver tolerância ao desconforto.
Nem todo treino será confortável, nem toda sede significa perigo imediato e nem toda sensação desagradável exige interromper o treino.
A diferença é que hoje sabemos separar desconforto fisiológico esperado, de sinais importantes que o corpo está enviando, e essa talvez seja a maior mudança.
Da mesma forma, entendemos que resistência não é lutar contra o corpo, mas aprender a trabalhar junto com ele.
Quando olhamos para trás, pode parecer estranho imaginar corredores comemorando um treino inteiro sem beber água, mas é importante lembrar que não treinávamos assim por irresponsabilidade, mas porque aquele era o conhecimento disponível no momento.
A ciência do treinamento evoluiu, nós evoluímos com ela, e talvez essa seja a maior lição dessa série aqui no blog, porque na corrida, como em tantas outras áreas do conhecimento e até da vida, aprender e atualizar fazem parte do treinamento.
O verdadeiro corredor não é aquele que permanece preso ao passado; é aquele que continua evoluindo, e talvez daqui a vinte anos algumas das certezas que temos hoje também sejam revistas.
E isso não significa que estamos errando; significa que a ciência continua evoluindo e o importante não é defender tradições, mas continuar aprendendo.
E fique de olho no Blog do Bertô: em um dos próximos artigos da série “Comportamento do Corredor”, vamos falar sobre outro hábito que já foi muito comum entre corredores e atletas, e que hoje parece ainda mais estranho: correr usando saco plástico para “emagrecer mais rápido”.
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