Sabemos que boa parte de uma corrida se refere a disputas. Enquanto muitos corredores largam simplesmente para participar, outros tantos partem para fazer o seu melhor, testar sua capacidade, buscar um resultado ou superar a si mesmo e aos outros.
Agora vamos imaginar o surgimento de um momento particularmente interessante: de repente aparece uma vantagem que você não provocou nem conquistou diretamente pela sua capacidade.
O corredor à sua frente erra o caminho, diminui o ritmo antes da hora, para por engano, perde a concentração, ou simplesmente não percebe que a prova ainda não terminou. E então surge uma escolha: você aproveita a oportunidade ou faz alguma coisa que pode te custar uma posição ou até uma vitória?
É nesse tipo de situação que a corrida deixa de ser apenas uma disputa e passa a colocar o corredor diante de uma decisão, porque competir comumente é querer chegar à frente, e aproveitar uma oportunidade dentro das regras, que aparece em uma prova, não é algo assim comum.
A questão é: quando essa oportunidade surge por causa de um erro do adversário, o que você decide fazer? É justamente nesse ponto que o fair play começa a ficar interessante.
👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo:
📺 Fair Play na Corrida: Até Onde Você Iria?
Não porque exista necessariamente uma resposta certa para todos os casos, mas porque situações assim nos obrigam a pensar sobre os limites que cada corredor estabelece para si mesmo quando está competindo.
Situações como essa já aconteceram em provas de corrida e ganharam repercussão por colocarem em confronto duas possibilidades: aproveitar uma vantagem inesperada ou agir de acordo com aquilo que entendemos como espírito esportivo, e é aí que entra o fair play.
Mais do que uma regra escrita, o fair play envolve ética, respeito ao adversário e a maneira como o atleta se comporta quando tem a oportunidade de obter uma vantagem que não conquistou pela sua própria performance.
Mas será que todos os casos são tão simples assim? E será que agir de acordo com o fair play significa sempre abrir mão de uma vitória?
Ao longo deste artigo, vamos analisar situações reais do esporte e da corrida para discutir onde termina a competição e começa a ética — e o que essas escolhas podem revelar não apenas sobre os atletas, mas também sobre nós mesmos.
O caso que emocionou o mundo
Em 2012, numa prova de cross-country na Espanha, o queniano Abel Mutai, medalha de bronze nos 3.000 metros com obstáculos nos Jogos Olímpicos de Londres, cometeu um erro.
Pensando que já havia cruzado a linha de chegada, ele parou antes do final da prova. Logo atrás vinha o espanhol Iván Fernández Anaya, e bastava ultrapassá-lo para vencer.
Em vez disso, Anaya fez outra escolha: tocou nas costas do queniano, apontou a linha de chegada e permitiu que ele completasse a prova como vencedor.

As imagens desse momento se multiplicaram por todas as mídias e correram o mundo. Milhões de pessoas se emocionaram, e o episódio passou a ser citado como um dos maiores exemplos de fair play da história do esporte.
E eu concordo que foi um gesto bonito e de empatia, mas, será que essa é a única forma de enxergar esse tipo de história?
Porque existe uma pergunta que ninguém fez: se o espanhol Iván Fernández Anaya, eu ou você, estivesse naquela situação, e em jogo estivesse uma medalha olímpica, um título mundial ou outra premiação muito importante, faria exatamente a mesma coisa?
À primeira vista, o que parecia uma pergunta fácil de responder vai abrindo um leque que coloca o fair play numaenorme zona cinzenta, conforme entendemos como funciona o comportamento no esporte de alto rendimento.
Ali, cada decisão envolve anos de treinamento, enorme pressão, carreira, patrocínio, dinheiro e, muitas vezes, a oportunidade de uma vida inteira; o que faz do fair play um tema totalmente aberto.
Depois de vários anos competindo no alto nível, posso dizer que a realidade é um pouco diferente quando ampliamos o contexto, como você vai ver a seguir.
No caso de Anaya, era uma prova importante, mas muito diferente de uma final olímpica ou de uma disputa por um título mundial, e essa diferença de contexto ajuda a entender por que esse assunto é muito mais complexo do que parece.
O que realmente significa Fair Play
Você provavelmente já ouviu essa expressão muitas vezes, e traduzindo ao pé da letra, Fair Play significa jogo limpo.
O conceito nasceu junto com os Jogos Olímpicos da era moderna, idealizados pelo Barão Pierre de Coubertin, em 1896. Mais do que vencer, a proposta era competir de forma honesta, respeitando as regras, os adversários e o próprio esporte.
Ao longo do tempo, o Fair Play passou a representar muito mais do que simplesmente obedecer ao regulamento. Ele passou a simbolizar valores como respeito, integridade, honestidade e espírito esportivo.
Só que existe um detalhe importante: uma coisa é cumprir as regras, outra muito diferente, é abrir mão de uma vantagem para corrigir o erro cometido por um adversário; e é aí que essa conversa começa a ficar interessante.
O Fair Play que a internet conhece
Quando alguém fala em Fair Play é quase certo que apareça uma imagem como aquela que vimos, onde o espanhol poderia ter vencido a corrida, mas preferiu avisar Abel Mutai de que a linha de chegada ainda estava alguns metros adiante.
As imagens daquele ato deram a volta ao mundo, foram reproduzidas milhares de vezes, vistas por milhões de pessoas e passaram a representar, para muita gente, a essência do esporte.
Mas por que esse episódio emocionou tanta gente? Justamente porque ele foge da lógica da competição.
A expectativa comum era que o espanhol aproveitasse o erro do adversário, como acontece em praticamente todos os esportes. Imagine um goleiro que rebate a bola nos pés de um atacante; ninguém espera que ele devolva a bola ao goleiro, o esperado é que faça o gol.
Naquela corrida aconteceu exatamente o contrário, e foi essa quebra de expectativa que transformou a surpresa em admiração. É o tipo de atitude que desperta um sentimento muito bonito e por isso é que aquelas imagens seguem sendo lembradas tantos anos depois.
Mas segue uma questão que quase nunca aparece quando essa história é contada: será que esse comportamento representa a realidade sempre, e em todos os níveis do esporte competitivo, ou se fica famoso pela exceção? É essa pergunta que vamos explorar daqui para frente.
Embora Anaya fosse um excelente corredor, aquela prova estava bem distante do ambiente de uma final olímpica ou de um campeonato mundial. Isso não diminui a grandeza do seu gesto, mas ajuda a entender que o contexto também influencia as decisões; quanto maior o valor daquilo que está em disputa, maior tende a ser o conflito entre competitividade e empatia.
As diferentes faces do Fair Play
O fair play não tem apenas uma camada, indo do mais básico ao mais complexo, e destrinchar isso ajuda a interpretar situações como a de Anaya.
Fair play das regras
- não cortar caminho
- não empurrar um adversário
- não trapacear
- não buscar vantagem por meios ilegais
Fair play do respeito
- cumprimentar o adversário
- aceitar a derrota
- reconhecer o mérito de quem venceu
- postura digna antes, durante e depois da prova
Fair play da empatia
Quando um atleta decide ajudar outro mesmo sem ser obrigado pelas regras; foi exatamente isso que vimos no caso de Iván Fernández Anaya: ele poderia simplesmente continuar correndo, mas escolheu agir de outra maneira.
Fair play da renúncia
Chegamos ao quarto nível, talvez o mais difícil de todos; aquele que exige abrir mão de uma enorme vantagem conquistada dentro das regras.
Os exemplos que eu vi de perto
Em agosto de 1991, durante o Campeonato Mundial de Atletismo, em Tóquio, aconteceu um episódio pouco conhecido, mas muito bonito.
Na prova dos 50 km da marcha atlética, os então soviéticos Aleksandr Pothasov e Andrey Perlov abriram mão de disputar a vitória para cruzarem juntos a linha de chegada, a ponto da classificação ser definida no foto-finish.

Aquele foi um dos momentos mais bonitos da história da modalidade. Os dois sabiam que a União Soviética estava prestes a deixar de existir e aquela chegada simbolizava muito mais do que uma vitória; era quase um gesto de despedida, e desde então cada qual representaria um país diferente.
Mais do que dividir aquele momento, eles quiseram mostrar que a amizade e a união permaneciam acima das mudanças políticas. Foi um gesto mutuo de empatia baseado no companheirismo de muitos anos de treinos e competições desses atletas.
Os limites do Fair Play
No mesmo Campeonato Mundial aconteceu outra situação curiosa. Nos 20 quilômetros, também na marcha atlética, o soviético Mikhail Shchennikov entrou no estádio em segundo, perseguindo o italiano Maurizio Damilano, campeão olímpico de Moscou.
Shchennikov deu um sprint acreditando que faltava só a reta final da pista de atletismo, cruzou a linha de chegada e relaxou pensando que tinha ganhado a prova, quando faltava mais uma volta na pista.

Damilano seguiu no seu ritmo abrindo a volta final, quando Shchennikov entendeu que não tinha terminado e retomou para finalizar, mas já sem forças pra reagir a Damilano, que agora era quem tinha forças para os 300 metros finais, vencendo a prova.
Perceba que o italiano não teve o mesmo grau de empatia do espanhol, que parou e ainda possibilitou a vitória ao queniano, mas também não infringiu nenhuma regra ao continuar até a sua vitória, que representava um título mundial e a diferença de 20 mil dólares entre as colocações.
Quando o que está em jogo muda tudo
Existe um exemplo muito interessante aqui no Brasil. Na São Silvestre de 2019, o ugandense Jacob Kiplimo, entrou na reta final com a segurança da vitória nas mãos, manteve o ritmo até a linha de chegada, só atrás dele vinha num sprint o queniano Kibiwott Kandie; e Kandie fez o que qualquer atleta faria numa disputa desse nível…
Continuou correndo muito forte e conseguiu ultrapassar o adversário praticamente sobre a linha, venceu a prova, quebrou o recorde da São Silvestre e ainda recebeu uma premiação significativamente maior pela vitória.

Nenhum dos dois fez algo errado. Kiplimo se descuidou e Kandie apenas aproveitou uma oportunidade criada pelo próprio adversário.
O caso da competição em São Paulo, assim como o de Tóquio, nos levam a uma reflexão interessante: quanto maior o valor daquilo que está em disputa, mais raros se tornam os gestos de abrir mão de uma vantagem conquistada dentro das regras.
Por outro lado, já vimos e certamente seguiremos vendo os inúmeros episódios de corredores amadores se ajudando espontaneamente pelos percursos e nas chegadas de praticamente todas as corridas de rua.
A minha impressão geral
Depois de olhar todos esses exemplos, talvez a grande pergunta já não seja mais: o que eu faria diante de determinada situação? Mas, até onde a nossa mente conversa com o fair play? Na minha opinião, eu diria que na corrida essa conversa pode ir longe, mas geralmente, tem seus limites.
O fair play na corrida começa com a obrigação de cumprir as regras, passa pelo respeito ao adversário, pode chegar à empatia e, em situações muito especiais, poderá quem sabe até levar alguém a abrir mão de uma vitória, mas, sobre esse último nível, não há evidências e de tão extremo, ele chega a ser inimaginável.
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