Índice
As Maratonas: 20 Anos de Construção
A Anatomia de 20 Anos de Treino
- Gráfico das Maratonas
- Gráfico das Meias Maratonas
- Gráfico Volume Anual × Pace nas Meias Maratonas
- Gráfico Idade x Pace
- Gráfico Frequência Semanal de Treinos
- Gráfico Picos de Mesociclos Anuais
Conclusões
- O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam
Entrevista com Laerte: 20 Anos Vivendo a Corrida por Dentro
- Conversando com Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida
Introdução
A Trajetória de um Corredor Incomum
Os dados compilados e apresentados em 6 gráficos que você verá neste artigo levaram 20 anos para existir.
O que apresento aqui é a trajetória de um homem comum que, ao longo de duas décadas consecutivas praticando Corrida, acabou se transformando em um corredor incomum.
O engenheiro civil Laerte Marengo Filho, hoje aposentado, iniciou um treinamento sistematizado aos 50 anos de idade, sem imaginar até onde a corrida poderia levá-lo.

Ao longo desses vinte anos, viveu praticamente tudo o que um corredor de longa trajetória costuma experimentar: evolução, auge físico, lesões, oscilações de desempenho, o avanço natural da idade, mudanças na rotina de vida e até o retorno temporário ao mercado de trabalho já aposentado.
E, apesar de tudo isso, continuou correndo.
👉 Se preferir, em vez de ler, assista ao vídeo (sem a entrevista):
🎥 20 Anos Consecutivos e 955 Semanas de Treino: As Lições de Um Só Corredor
As Maratonas: 20 Anos de Construção
Agora, aos 70 anos, Laerte se prepara para disputar sua 15ª e última maratona, encerrando um ciclo construído com algo tão quanto talento: consistência ao longo do tempo.
Talvez seja justamente por isso que seus gráficos contém uma história tão interessante.
Mais do que números, eles registram decisões, escolhas, paciência e milhares de quilômetros acumulados semana após semana.
Ao longo deste artigo, vamos percorrer essa trajetória utilizando gráficos que revelam como uma vida inteira de treinamento pode ensinar muito sobre desempenho, envelhecimento e longevidade esportiva.
FASE 1 | Descoberta e Expansão
Depois de seis anos de treinamento sistematizado, 13 provas de 5 km, 46 provas de 10 km e seis meias maratonas, o primeiro gráfico finalmente registra o nascimento do “Laerte Maratonista”, com sua estreia nos 42,195 km, em 2012.

Dois aspectos chamam bastante atenção nesse momento: o primeiro é que esperar seis anos de prática consistente antes da estreia mostra que Laerte provavelmente não iniciou sua trajetória pensando na maratona.
Ela surgiu como consequência natural de um processo construído com calma — e não como uma obsessão precoce; detalhe, aparentemente simples, mas que explica parte do que veremos aqui.
Num cenário em que muitos corredores aceleram etapas e chegam rapidamente aos 42 km sem uma base sólida de treinamento, Laerte percorreu um caminho diferente.
Quando finalmente estreou, já acumulava centenas de treinos, dezenas de provas e anos de adaptação fisiológica.
Em outras palavras, a maratona chegou na hora certa, e isso, muito provavelmente, ajudou a construir a longevidade esportiva que ele demonstra até hoje.
A partir dali a maratona deixa de ser apenas um objetivo distante e passa a ocupar espaço permanente em sua vida.
Entre 2012 e 2014, observa-se um período muito ativo, onde aparecem:
- Porto Alegre;
- Nova York;
- Las Vegas;
- Curitiba;
- múltiplas participações;
- viagens;
- novas experiências;
E um envolvimento cada vez maior com o universo das grandes maratonas. Mais do que disputar provas, Laerte passou a viver a cultura da maratona.
Em Nova York (2012) ocorreu um episódio simbólico dessa fase. A prova estava marcada para o dia 4 de novembro, mas acabou cancelada em razão dos enormes danos provocados pela supertempestade Sandy.
Foi a primeira vez, em toda a história da Maratona de Nova York, que a competição não aconteceu. Cerca de 47 mil corredores foram afetados, e Laerte estava entre eles.
O ano de 2014 também merece destaque; aos 58 anos, ele alcançou seu melhor tempo na maratona, com 3h28’35”.
Nesse mesmo ano participou de três maratonas; uma estratégia que foge completamente da filosofia de treinamento que praticamos e que, em condições normais, não recomendamos.
Mesmo assim, essa sequência ajuda a compreender o momento que Laerte vivia; um corredor já bem envolvido pelo universo das maratonas. Viajava, experimentava novos percursos, acumulava vivências e aprendia, na prática, o que significava construir uma carreira de longo prazo.
Mais tarde, toda essa bagagem deixaria de representar apenas experiências isoladas para se transformar em algo muito mais valioso: longevidade esportiva. E talvez seja justamente isso que torne essa história tão interessante.
A capacidade de permanecer treinando, competindo e evoluindo durante duas décadas, realmente diferencia uma trajetória rara de um corredor comum.
Mas essa fase de descoberta era apenas o começo. Nos anos seguintes, os resultados nas meias maratonas e nas maratonas começariam a revelar algo ainda mais interessante: a evolução consistente de um corredor que envelhecia… sem deixar de evoluir.
FASE 2 | Maturidade Competitiva
Quando a experiência passa a valer tanto quanto a capacidade física.
Existe uma diferença importante entre registrar o melhor tempo da carreira e tornar-se o melhor maratonista possível dentro da própria realidade. Ao observar a trajetória do Laerte, essa distinção fica bastante evidente.
Entre 2016 e 2019, vemos surgir um corredor muito mais completo; não necessariamente mais rápido, mas certamente mais preparado para lidar com tudo o que uma maratona exige.
Nesse período, ele se mostra:
- mais experiente;
- mais eficiente;
- mais estratégico;
- emocionalmente mais sólido.
Foi nessa fase que participou de provas marcantes como:
- ASICS São Paulo;
- Golden Run;
- Maratona de Barcelona;
- Maratona de Florianópolis.

O aspecto mais interessante desse período é que o auge competitivo do Laerte não parece ter sido consequência de uma mudança radical no treinamento; ao contrário, nasce da combinação de fatores que normalmente só aparecem após muitos anos de prática:
- experiência acumulada;
- regularidade;
- inteligência na distribuição das cargas;
- profundo conhecimento do próprio corpo;
- maturidade emocional sobre as decisões durante a preparação e nas provas.
Ao longo dos anos, surge um atleta capaz de compreender aspectos que fazem enorme diferença na maratona:
- controle de ritmo;
- recuperação entre sessões de treinos;
- distribuição da energia durante a prova;
- tolerância ao esforço prolongado;
- capacidade de reconhecer limites.
Essa talvez seja uma das maiores características dos corredores masters experientes: depois de certa idade, o auge deixa de ser exclusivamente fisiológico e passa a ser, sobretudo, estratégico.
Os gráficos mostram justamente isso: vários anos consecutivos mantendo elevado nível de desempenho, algo extremamente valioso quando falamos da prova mais exigente da corrida de rua.
FASE 3 | Adaptação e Longevidade
Quando permanecer correndo se torna mais importante do que correr mais rápido.
Todo maratonista máster chega a um momento em que o treinamento deixa de representar apenas uma busca por evolução e passa também a significar administração inteligente das limitações naturais do envelhecimento.
Na trajetória do Laerte – a partir de 2019 – essa transição aparece de forma bastante clara:
- Os tempos começam, gradualmente, a aumentar.
- O processo de recuperação deixa de ser o mesmo.
- A musculatura exige cuidados cada vez maiores.
O treinamento passa a depender muito mais da capacidade de adaptação do que simplesmente da vontade de treinar mais, entretanto, talvez o aspecto mais importante dessa fase seja outro.
Laerte não abandona a maratona quando percebe que seu corpo já não responde como aos cinquenta anos. Em vez disso, aprende a negociar com ele, e essa mudança transforma completamente sua relação com o esporte.
Mesmo já aposentado, chegou a retornar temporariamente ao trabalho, lembrando algo que muitas vezes esquecemos: o treinamento nunca acontece isoladamente.
Ele precisa conviver com a rotina, com as responsabilidades familiares, com o cansaço, com o envelhecimento e com todas as adaptações impostas pela vida.
Outro detalhe interessante aparece nas demandas físicas típicas do corredor máster. Aqui, as panturrilhas passam a exigir atenção constante — situação comum nessa faixa etária, já que a capacidade aeróbia costuma envelhecer melhor do que os tecidos responsáveis pela absorção dos impactos e pela produção repetitiva de força.
Como consequência, o treinamento precisa priorizar cada vez mais:
- fortalecimento;
- prevenção de lesões;
- recuperação adequada;
- controle da carga;
- manutenção da funcionalidade muscular.

Hoje, aos 70 anos, preparando sua 15ª e última maratona, o significado da prova já não está ligado apenas ao cronômetro. Ela representa o encerramento consciente de um ciclo extraordinário.
Ao concluir sua participação nas maratonas de maneira lúcida, saudável e planejada, Laerte abre espaço para seguir sua trajetória esportiva em provas de até 21 km, cujas exigências fisiológicas são mais compatíveis com esta fase da vida.
Olhando retrospectivamente, percebe-se que sua maior conquista dificilmente foi um pace específico; foi ter conseguido atravessar duas décadas mantendo um vínculo permanente com a corrida.
A última maratona, portanto, ganha um enorme valor simbólico. Ela encerra uma história construída não por talento extraordinário, mas por algo também raro: consistência ao longo do tempo.
E talvez seja justamente isso que transforma um homem comum em um maratonista incomum.
A Anatomia de 20 Anos de Treino
Além das Maratonas: A Importância da Meia Maratona.
Entre uma preparação para os 42 km e outra existe uma distância que talvez tenha sido ainda mais importante para sustentar toda essa trajetória: a Meia Maratona.
Ao longo de vinte anos, Laerte participou de 35 provas de 21 km, atravessando diferentes fases da vida, do condicionamento físico e da própria relação com o esporte.

Existe, porém, um detalhe bastante revelador: antes de estrear na maratona, ele treinou durante seis anos de maneira sistematizada.
Já para disputar sua primeira meia maratona, também esperou o momento adequado. Foram treze meses de treinamento organizado, além de todo o período anterior de prática ainda sem acompanhamento técnico.
E, olhando hoje para aquele contexto, é difícil não fazer uma reflexão: há cerca de vinte anos, a ansiedade dos corredores iniciantes para entrar nas meias maratonas e maratonas era consideravelmente menor do que observamos atualmente.
Da mesma forma, convencer um amador a esperar o momento certo para aumentar as distâncias de provas também parecia uma tarefa mais fácil…
No caso do Laerte, tudo indica que o momento escolhido foi bastante acertado. Sua estreia na meia aconteceu em 1h42’17”, equivalente a um ritmo médio de 4’50”/km, aos 51 anos de idade.
Muito mais do que um bom resultado, esse tempo revela uma preparação paciente, sólida e plenamente compatível com a distância.
Ao observar o gráfico ao longo dos anos, percebe-se algo esperado em qualquer carreira esportiva de longa duração: os tempos oscilam, em alguns momentos melhoram, em outros aumentam.
Há provas claramente voltadas para desempenho e outras disputadas em contexto preparatório, turístico ou simplesmente como forma de manter o vínculo competitivo.
E isso torna a trajetória profundamente humana, já que a carreira de um corredor raramente evolui em linha reta.
Ela acompanha as mudanças da própria vida:
- o trabalho;
- as lesões;
- a motivação;
- o envelhecimento;
- as diferentes prioridades de cada fase.
Apesar dessas oscilações, um aspecto permanece constante: desde 2007, Laerte jamais deixou de participar regularmente das provas. Mesmo convivendo com as mudanças naturais da idade, manteve-se competitivo durante duas décadas consecutivas.

E do ponto de vista técnico, isso revela algo bastante interessante; talvez tenha sido justamente a meia maratona a distância que mais sustentou sua longevidade esportiva.
A explicação faz sentido também sob a ótica da fisiologia. Enquanto a maratona impõe enorme desgaste muscular, articular e metabólico — especialmente após os 60 anos — a meia maratona permite:
- recuperação mais rápida;
- maior frequência competitiva;
- menor desgaste estrutural;
- manutenção mais sustentável da performance ao longo dos anos.
Sob essa perspectiva, os dois gráficos assumem papéis diferentes: as maratonas representam os grandes capítulos da história; as meias maratonas revelam aquilo que sustenta esses capítulos; a continuidade.
Mesmo depois dos 65 anos, Laerte continuou entregando resultados bastante respeitáveis para um corredor máster, preservando não apenas sua participação frequente, mas também seu espírito competitivo.
Essa trajetória ajuda a desmontar a ideia de que envelhecer significa abandonar objetivos esportivos.
Na prática, o que muda não é apenas a capacidade física. Muda, principalmente, a maneira como o atleta passa a se relacionar com o treinamento, com a recuperação e com suas próprias expectativas.
Por isso, a decisão de encerrar o ciclo das maratonas e direcionar o foco para provas de até 21 km parece uma evolução absolutamente natural.
Ao olhar toda a trajetória do Laerte, percebe-se que a meia maratona nunca foi apenas uma etapa intermediária rumo aos 42 quilômetros. Ela sempre foi um dos pilares que sustentaram sua vida esportiva durante vinte anos consecutivos.
A seguir, o gráfico da trajetória do Laerte que cruza performance com volume de treinamento.

Talvez a primeira conclusão importante seja a de que a longevidade esportiva não parece ter sido construída por extremos, mas por continuidade.
O gráfico mostra um corredor que passou praticamente duas décadas mantendo regularidade de treinamento, mesmo atravessando:
- oscilações naturais de performance;
- envelhecimento;
- algumas lesões;
- mudanças de rotina;
- diferentes fases da vida.
Em alguns momentos, o aumento de volume claramente ajudou na evolução dos resultados; como vemos entre 2014 e 2017.
Entre 2007 e 2013, vemos crescimento progressivo dos volumes anuais acompanhado de performances sólidas nas Meias Maratonas, culminando nos melhores momentos competitivos do Laerte na distância.
E isso faz sentido. Nos primeiros anos da construção aeróbia, aumentar volume costuma produzir respostas importantes:
- melhora da eficiência cardiovascular;
- maior tolerância ao esforço;
- melhor economia de corrida;
- aumento da resistência muscular.
O gráfico também mostra algo importante: mais volume nem sempre significou melhores resultados (2019 a 2020), e talvez esse seja um dos pontos mais interessantes de toda a análise.
Em vários momentos da trajetória, o Laerte conseguiu sustentar performances competitivas mesmo sem atingir os maiores volumes da carreira. (2012 a 2015).
Isso sugere algo valioso no corredor máster: com o passar dos anos, experiência e inteligência de treinamento começam a compensar parte da perda fisiológica natural do envelhecimento.
O corredor passa a depender menos de “quanto treina” e mais de:
- como treina;
- como recupera;
- como distribui as cargas;
- como administra o próprio corpo.
Isso aparece claramente após os 60 anos (2016 em diante). Os volumes já não crescem como antes; decrescem gradualmente, com um pico de queda., e as performances declinam ligeiramente e junto, mas permanecem respeitáveis para um atleta máster entre 60 e 65 anos.
E aqui surge talvez uma das maiores lições do gráfico: a adaptação; porque o envelhecimento não exige apenas redução de carga, ele exige refinamento.
A recuperação passa a ter mais importância. A musculatura periférica — especialmente panturrilhas nesse caso, exige atenção constante, o fortalecimento segue com sua importância, o treinamento deixa de ser apenas acúmulo de quilômetros e passa a ser gestão de desgaste.

Outro detalhe é que o segundo maior pico de volume (2250 km) coincide com a melhor performance, mas os outros maiores volumes anuais da carreira (2259 km e 2170 km) não coincidem exatamente com os outros melhores resultados absolutos nas meias maratonas.
E isso desmonta a ideia no esporte amador, de que desempenho melhora de maneira linear apenas aumentando quilometragem.
Na prática, principalmente no corredor máster, existe um ponto de equilíbrio mais sensível entre:
- estímulo;
- recuperação;
- disponibilidade física;
- sustentabilidade.
Talvez seja por isso que a linha azul do volume anual oscila ao longo dos anos (1990 km, 1295 km) sem que a linha vermelha da performance “despenque” na mesma proporção.
O que sustentou o Laerte por quase vinte anos não foi treinar cada vez mais. Foi continuar treinando, e talvez essa seja a principal mensagem escondida nesse gráfico.
A performance pode oscilar; os tempos podem subir, as fases da vida mudam; mas a consistência prolongada ainda continua sendo uma das ferramentas mais poderosas do treinamento de corrida.
Gráfico da IDADE x PACE
A Idade Realmente Destrói sua Corrida?
Muitas pessoas provavelmente esperariam encontrar uma linha de declínio constante no gráfico que segue; quanto mais idade, pior a performance. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

Houve um platô de resultados superiores por 3 anos (52 aos 54 anos), após a estreia, e logo melhorou mais um pouco.
Foram mais 5 anos (55 aos 60 anos) praticamente estáveis, para depois encontrar sua melhor performance com 1h35’36”, de modo que, dos 51 aos 60 anos, o Laerte não apenas se manteve competitivo; ele evoluiu.
Isso ajuda a desmontar a ideia comum de que o envelhecimento automaticamente destrói a performance no endurance.
Na prática, principalmente em corredores que começam mais tarde, experiência, maturidade aeróbia e inteligência de treinamento podem evoluir mais rápido do que o próprio envelhecimento fisiológico durante vários anos.
E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes do gráfico: performance versus envelhecimento não aparece de maneira linear; a curva não despenca, ela oscila.
Existem:
- evoluções;
- platôs;
- pequenas quedas;
- retomadas;
- adaptações;
- diferentes fases de estabilidade competitiva.
Isso torna o gráfico mais humano, porque a performance esportiva real não acompanha uma linha reta; acompanha a vida.
Mesmo após os 60 anos, o Laerte ainda consegue entregar performances sólidas para um corredor master.
E talvez isso revele algo importante: o corredor experiente passa progressivamente a depender menos apenas da fisiologia bruta e mais de fatores como:
- eficiência;
- estratégia;
- distribuição de esforço;
- recuperação;
- conhecimento do próprio corpo;
- maturidade emocional.
Dos 65 aos 69 anos, o Laerte perdeu 8,7% de performance nas meias maratonas; uma média de 1,7% ao ano.
O gráfico sugere um declínio de percentual esperado, gradual e bem preservado para um corredor máster nessa faixa etária.
Os dados mostram que o envelhecimento existe, mas talvez mostre também algo ainda mais interessante: o quanto é possível desacelerar esse processo quando existe consistência construída ao longo de décadas.
Como vemos entre os 65 e 69 anos, não existe colapso, existe adaptação. Os tempos sobem gradualmente, mas o vínculo competitivo com a corrida permanece vivo.

E talvez a pergunta mais interessante desse gráfico não seja quanto o Laerte perdeu com a idade…mas quanto conseguiu preservar ao longo dela.
Porque o aspecto mais impressionante da trajetória de um corredor master certamente não é continuar melhorando para sempre; mas continuar correndo, competindo e se adaptando por muito tempo.
A Frequência de Treinos Semanais
Ao longo desses 20 anos de registros, o Laerte treinou em média, 48 das 52 semanas de cada ano. A única exceção relevante foi 2018, temporada marcada por uma cirurgia, que reduziu significativamente as condições para os treinamentos.
Considerando as 955 semanas de treinos executadas e analisadas, a frequência média vista no gráfico que segue foi de 4,1 treinos de corrida por semana; um número que permaneceu surpreendentemente estável ao longo de toda a trajetória.

O corredor evoluiu mantendo uma frequência relativamente constante, normalmente entre 4 e 5 sessões semanais. Não houve uma tendência clara ou picos expressivos de aumento da frequência ao longo da carreira, mas uma enorme capacidade de mantê-la.
Outro dado chama a atenção: apenas um terço das semanas ficou abaixo de quatro sessões de corrida e mesmo nessas ocasiões, o treinamento raramente era interrompido por completo, quando o trabalho de força continuava presente por meio de duas sessões semanais de musculação até 2015 e circuito funcional de 2015 até o momento.

Mais do que revelar quantas vezes um corredor treinou, um gráfico assim evidencia um dos pilares de sua evolução: a capacidade de manter uma rotina consistente durante décadas.
Enquanto muitos atletas alternam períodos de grande dedicação com longas interrupções, o Laerte construiu sua trajetória sobre a repetição contínua de semanas produtivas, ano após ano.
O resultado é uma lição valiosa para corredores amadores: grandes volumes e desempenhos relativamente expressivos normalmente não surgem de semanas isoladas de esforço extremo, mas da soma de milhares de treinos realizados com regularidade ao longo do tempo.
Talvez o aspecto mais impressionante não seja a média de 4,1 treinos semanais, mas o fato de ela ter permanecido praticamente inalterada por duas décadas.
O gráfico sugere que a evolução do atleta ocorreu muito mais pelo aumento gradual da qualidade e do volume dos treinos, e não pelo acréscimo de dias de corrida na semana.
Os Picos de Mesociclos Anuais
Em treinamento de corrida, os mesociclos são normalmente blocos de quatro semanas consecutivas de treino.
Neste estudo foi identificado, para cada temporada, o mesociclo mais volumoso do ano, permitindo visualizar, no gráfico que segue, os períodos de maior carga concentrada ao longo da carreira do atleta.

Entre 2007 e 2013 os dados revelaram uma evolução clara da capacidade de treinamento. Após 2008, poucas semanas dentro desses mesociclos ficaram abaixo dos 40 km.
Em contrapartida, tornaram-se cada vez mais frequentes as semanas acima dos 60 km (2012 a 2014 e 2016 a 2023), evidenciando temporadas voltadas para provas de longa distância, especialmente meias maratonas e maratonas.
Ao longo dos anos, surgem diversos blocos com picos semanais entre 60 e 70 km, e em alguns momentos próximos ou chegando aos 80 km (2016 e 2017).
Mais do que mostrar semanas isoladas de grande volume, o gráfico evidencia a capacidade de sustentar cargas elevadas durante períodos prolongados; característica típica de atletas que desenvolveram uma sólida base aeróbia.
O que o Gráfico Realmente Mostra
O que impressiona não é a semana de 80 km. Mas o seguinte contexto:
2016
- Semana 25 | 77 km
- Semana 26 | 51 km
- Semana 27 | 80 km
- Semana 28 | 54 km
2017
- Semana 24 | 67 km
- Semana 25 | 78 km
- Semana 26 | 58 km
- Semana 27 | 80 km
Isso significa que o atleta não estava apenas atingindo uma semana de pico ocasional. Ele estava convivendo com semanas altas durante um bloco inteiro de preparação.
Essa é uma diferença enorme: uma semana de 80 km pode ser fruto de entusiasmo; várias semanas consecutivas entre 60 e 80 km são fruto de adaptação.
Três Fases Visíveis no Gráfico
Fase 1 – Construção (2006–2010)
Os maiores mesociclos variam com semanas entre 25 e 55 km. O foco parece estar na construção gradual da capacidade aeróbia e na consolidação do hábito de treinamento. Ainda não aparecem blocos sustentados de alta quilometragem.
Fase 2 – Salto de capacidade (2011–2015)
O cenário muda. Aparecem diversas semanas acima dos 60 km.
Destaques:
- 2011 → pico de 54 km
- 2012 → pico de 72 km
- 2013 → pico de 74 km
- 2014 → pico de 72 km
É o período em que o corredor passa a demonstrar capacidade consistente para suportar cargas típicas de preparação para maratona.
Fase 3 – Consolidação da maturidade aeróbia (2016–2025)
Aqui estão os maiores blocos da carreira e semanas destaques de picos.
- 80 km em 2016
- 80 km em 2017
- 73 km em 2019
- 72 km em 2020
- 71 km em 2023
- 70 km em 2026
O mais interessante é que esses valores aparecem repetidamente. Ou seja, não foram episódios isolados. O organismo passou a reconhecer esse nível de carga como algo treinável e sustentável.
Conclusões
O que 20 Anos Consecutivos de Treino Ensinam aos Corredores Amadores
A evolução do corredor aconteceu baseada numa frequência relativamente estável, ele aumentou gradualmente sua capacidade de sustentar volumes mais elevados durante blocos completos de treinamento.
Isso se alinha com o gráfico anterior de frequência semanal. Enquanto a frequência permaneceu próxima de 4 treinos por semana durante duas décadas, os mesociclos mais fortes praticamente dobraram de tamanho.
Em outras palavras: o segredo não foi correr mais vezes. Foi tornar cada ciclo de treinamento mais robusto, mais consistente e mais sustentável.
Quando observamos os resultados das provas, os volumes anuais, a frequência de treinos e agora os picos dos mesociclos, fica evidente que os melhores momentos da trajetória do Laerte não foram construídos por períodos isolados de treinamento intenso.
O que aparece ao longo de praticamente vinte anos é uma combinação rara de regularidade, progressão gradual e capacidade de sustentar cargas relevantes de treinamento por longos períodos.
Os mesociclos entre 60 e 80 km semanais não surgem como eventos excepcionais, mas como consequência natural de uma rotina consolidada, sustentada por semanas consecutivas de treinamento consistente.
Talvez esse seja o principal ensinamento que emerge da análise dessas 955 semanas de treino: a performance não foi resultado de alguns grandes ciclos, mas da repetição disciplinada de bons ciclos ao longo de duas décadas.
“O diferencial do Laerte nunca foi um treinamento extraordinário; foi a extraordinária capacidade de repetir o treinamento ordinário durante vinte anos.”
E isso tem um valor enorme para corredores amadores, porque torna o caso dele replicável. A mensagem implícita não é “treine como um profissional”, mas:
“Permaneça treinando por tempo suficiente para que a consistência faça seu trabalho.”
Nenhum dos números que acabamos de ver, individualmente, impressiona tanto quanto o conjunto. Um corredor pode fazer um ano de 4 treinos por semana, pode fazer uma temporada com picos de 70 km semanais, pode correr uma maratona, mas, repetir isso durante duas décadas é algo completamente diferente.
Por isso, ao longo da análise, o Laerte deixa de ser apenas um corredor que correu bem. Ele passa a representar um conceito que trabalhamos frequentemente por aqui: a consistência como habilidade.
Muita gente trata consistência como característica de personalidade ou motivação. Os dados do Laerte sugerem a consistência como uma competência desenvolvida ao longo do tempo, construída pela repetição de escolhas adequadas.
E talvez seja justamente por isso que a trajetória dele seja tão valiosa para ser estudada. Não porque ela mostra o que fazer durante uma semana perfeita, mas porque mostra o que acontece quando semanas suficientemente boas são repetidas durante vinte anos.
ENTREVISTA
Conversando com o Laerte: Bastidores de duas Décadas de Corrida
A História
C.B. – Quando você começou a correr?
LAERTE – Comecei em 2005, e em 2006 com acompanhamento técnico do prof. Claudio.
C.B. – O que fez você permanecer na corrida durante tantos anos?
LAERTE – Desde o começo foi para permanecer saudável.
C.B. – Em algum momento pensou em parar definitivamente?
LAERTE – Sim, em alguns momentos pensei em parar devido a algumas lesões, falta de tempo…mas a vontade de continuar correndo superou tudo.
C.B. – Se pudesse resumir sua trajetória em uma palavra, qual seria?
LAERTE – Persistência
C.B. – Você imaginava que um dia teria 20 anos consecutivos registrados?
LAERTE – Não, nunca imaginei, não gosto de projetar muito o futuro, deixo as coisas irem acontecendo.
O Processo
C.B. – Como você organizava sua rotina para conseguir treinar tantos anos?
LAERTE – Sempre trabalhei muito (sou engenheiro), viajava muito, para cumprir a planilha de treinos sempre carreguei no carro uma mochila com tênis, camiseta, shorts… durante a semana sempre programei os treinos no final do dia, sempre depois das 18hs e no fim de semana treinava de manhã.
C.B. – O que fazia quando não tinha vontade de treinar?
LAERTE – Aconteceu várias vezes, ia assim mesmo.
C.B. – Você sempre gostou de correr ou aprendeu a gostar?
LAERTE – Nunca gostei de correr, pratiquei vários outros esportes na juventude, basquete, judô, futebol… talvez essa cultura de esportista tenha despertado a vontade de fazer um esporte que fosse individual, que só dependia de mim.
C.B. – Qual foi o maior desafio para manter a consistência?
LAERTE – Sempre o maior desafio foi conciliar o trabalho, família, vida social…
C.B. – Como conciliou trabalho, família e treinamento?
LAERTE – Como disse, no trabalho ia treinar sempre a tarde/noite, na medida do possível tentei dar atenção à família, consegui com a ajuda da minha esposa criar muito bem os meus dois filhos.
Os aprendizados
C.B. – Hoje, olhando para trás, o que você faria diferente?
LAERTE – Nas lesões eu não forçaria a barra para voltar antes.
C.B. – Qual foi o maior erro que cometeu como corredor?
LAERTE – Treinar sem dar o tempo necessário para recuperar de lesão
C.B. – O que aprendeu sobre seu corpo nesses 20 anos?
LAERTE – O nosso corpo emite sinais, você precisa saber interpretar esses sinais, cansaço fora do normal, fale com o seu técnico, talvez diminuir o volume/intensidade, uma dorzinha incomodando, pode ser o aviso de uma lesão que vem por ai.
C.B. – Qual foi o melhor conselho que recebeu?
LAERTE – Do meu técnico Claudio, – Nunca saia numa corrida em um ritmo muito forte, ali na frente a conta vem.
C.B. – Qual conselho você daria para quem começou agora?
LAERTE – Seja persistente, não queira queimar etapas, um passo de cada vez, os resultados virão.
As Histórias
C.B. – Qual foi a prova mais emocionante?
LAERTE – A prova mais emocionante foi a Maratona de Nova York, em 2014, muita gente incentivando no percurso inteiro.
C.B. – Qual foi o treino mais difícil que você lembra?
LAERTE – Foi um treino para a Maratona de Porto Alegre, 39 km, teve chuva, frio e diarreia, terrível…
C.B. – Existe alguma corrida que nunca vai esquecer?
LAERTE – Acho que foi a minha primeira maratona (Porto Alegre), consegui terminar bem e ter confiança para fazer outras.
C.B. – Qual foi sua maior superação?
LAERTE – Maratona de São Paulo, cãibra no km 40, fui mancando até o final, nos últimos 100 metros a cãibra foi tão intensa que achei que ia desmaiar.
C.B. – Tem alguma situação engraçada pra contar?
LAERTE – Maratona de Barcelona, estava voltando de uma cirurgia que tinha feito no joelho (menisco), estava bem, pois bem, no km 41 fui ultrapassado por uma anã, devia ter um metro de altura, enquanto eu dava um passo ela dava quatro, achei um desaforo, tirei forças de onde eu não tinha mas consegui ultrapassá-la, achei que tinha deixado ela bem para traz e quando ultrapassei o pórtico de chegada ela estava ao meu lado, acho que ganhei dela pela ponta do tênis.
C.B. – Alguma prova em que tudo deu errado?
LAERTE – Algumas, a mais marcante foi em uma maratona em São Paulo em que tive dores intensas na posterior da coxa, abandonei na metade da prova.
C.B. – Qual foi o momento em que mais se emocionou correndo?
LAERTE – Toda maratona e emocionante, quando você termina é uma mistura de dor, alegria, superação…Como disse, o momento mais emocionante foi na maratona de Porto alegre na minha primeira maratona quando encontrei minha esposa e meus amigos.
O que os Gráficos não Mostram
C.B. – O que não aparece nesses gráficos e você ressaltaria?
LAERTE – Os gráficos mostram evoluções, retrocessos…esses gráficos não mostram as fases da vida pessoal, trabalho…acho que eles se completariam.
C.B. – Que parte da sua história ninguém vê quando olha todos esses números?
LAERTE – Os numeras são frios, não contam o que se passou, chuva, frio, calor, dores…
C.B. – Houve fases difíceis que, olhando os dados, parecem normais?
LAERTE – Sim, houve fases difíceis e que foram superadas e não aparecem nos dados.
C.B. – Qual foi o preço para manter essa consistência?
LAERTE – Não paguei preço nenhum, muito pelo contrário, ganhei saúde, amigos, autoestima.
C.B. – O que significou correr durante 20 anos para sua vida, além da corrida?
LAERTE – A corrida me ensinou a ter persistência, resiliência, disciplina, a vida ficou mais leve de ser vivida.
Deixe um comentário