Em 2003, no lançamento da quarta revista física especializada em corrida no Brasil, ela publicou uma afirmação que era amplamente aceita na época: A de que duas pessoas que percorressem a mesma distância, teriam como resultado praticamente o mesmo gasto energético, independentemente do ritmo.
A teoria “10 km são sempre 10 km”. A ideia era simples: ela dizia que era um erro pensar que o corredor mais rápido consumisse mais calorias, e que sem dúvidas, era só uma questão de tempo…

E seguia assim: gasta-se a mesma quantidade de calorias correndo 10 km em ritmo forte ou 10 km em ritmo lento, a diferença, é que correndo rápido se gasta-se entre 30 a 40 minutos para completar o percurso, contra 50 a 60 minutos em um ritmo mais lento.
Durante muito tempo e apoiado em fisiologistas do exercício renomados mundialmente, como McArdle, esse conceito fez sentido… mas, será que hoje ainda pensamos assim?
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📺 10 km São Sempre 10 km? O Que Aprendemos Desde Então
Por que essa ideia parecia correta
Essa ideia não surgiu do nada, mas com a seguinte base fisiológica:
1. O custo energético de deslocar o próprio corpo
Durante muito tempo, a fisiologia do exercício entendia que grande parte do gasto energético da corrida estava relacionada ao simples ato de transportar a massa corporal por uma determinada distância.
Em outras palavras, mover um corpo de 70 kg por 10 km exigiria uma quantidade relativamente previsível de energia, independentemente da velocidade utilizada.
Essa lógica ajudou a popularizar a ideia de que “10 km são sempre 10 km”. Era uma visão simples, intuitiva e que possuía fundamentos biomecânicos razoáveis para a época.
2. Os estudos clássicos e a influência de McArdle
Essa interpretação ganhou força por meio de estudos clássicos da fisiologia do exercício e foi amplamente difundida em livros de referência, como os de McArdle, leitura obrigatória para estudantes e profissionais da área.
A mensagem transmitida era que o custo energético por quilômetro percorrido permanecia relativamente estável dentro de determinadas faixas de velocidade, por isso, treinadores, revistas especializadas e corredores passaram a repetir essa ideia durante muitos anos.
Ela não surgiu como um mito, mas como uma interpretação legítima do conhecimento disponível naquele momento.
3. O estágio da ciência do treinamento na época
Também é importante lembrar que a ciência do esporte ainda estava construindo muitos dos conceitos que hoje consideramos comuns. Temas como resposta hormonal ao exercício, economia de corrida, EPOC, recrutamento muscular e adaptações metabólicas específicas ainda recebiam menos atenção do que recebem atualmente.
A distância percorrida acabava ocupando um papel central na análise do treinamento, mas, com o passar dos anos, novas pesquisas ampliaram essa visão e mostraram que a intensidade, a duração e o contexto do esforço também influenciam profundamente as respostas do organismo.
Até aqui, tudo parecia fazer sentido, porém, quando a teoria encontrou a prática, algumas perguntas interessantes começaram a surgir.
A experiência prática começou a levantar dúvidas
Um pouco antes da matéria (10 km são sempre 10 km) da revista, eu que tinha sido colunista de um site que falava também sobre caminhada, tinha ido até o Vale do Paraíba, em São Paulo, para entrevistar Antonio Clayr Santarnecchi, um dos maiores andarilhos competitivos do mundo.

Apreciando as fotos do grupo dele, um grupo muito especial e reconhecido entre a elite nacional dos andarilhos, formado por integrantes extremamente ativos, que faziam muitas caminhadas longas, entre 20 e 25 km diários, algo me chamou a atenção…
Vi que, apesar de um gasto calórico supostamente alto imposto por um volume de caminhadas parecido ao dos corredores de elite, a maioria deles tinha sobrepeso resultante de uma composição corporal bem diferente daquela dos corredores.
A teoria parecia sólida, mas a prática insistia em fazer perguntas.
O ponto central nunca foi a distância
Hoje sabemos que não existe apenas distância, mas também:
- intensidade
- potência metabólica
- recrutamento muscular
- resposta hormonal
- eficiência mecânica
- custo interno do esforço

E assim, compreendemos que o corpo não responde apenas ao quanto a pessoa se move; ele responde também a como se move.
O exemplo dos dois corredores
Corredor A: 10 km em 70 minutos.
Corredor B: 10 km em 40 minutos.
Eles percorreram a mesma distância; mas será que produziram exatamente o mesmo estímulo fisiológico?
A resposta é que provavelmente não, e as justificativas são as seguintes:
Demanda cardiovascular
O corredor que percorreu os 10 km em 40 minutos provavelmente sustentou uma demanda cardiovascular muito maior do que aquele que levou 70 minutos. Frequência cardíaca, débito cardíaco e intensidade relativa do esforço podem ter sido significativamente diferentes entre os dois.
Ventilação
A velocidade mais alta também exige uma resposta ventilatória mais intensa, com maior consumo de oxigênio e maior movimentação de ar pelos pulmões. O corredor mais rápido provavelmente passou mais tempo próximo de zonas ventilatórias mais exigentes.
Glicogênio
Embora ambos tenham percorrido a mesma distância, o corredor mais rápido provavelmente utilizou energia em uma intensidade mais elevada e, consequentemente, pode ter exigido mais do metabolismo glicolítico e do glicogênio muscular. A quantidade e a proporção dos substratos energéticos utilizados não são determinadas apenas pela distância.
Fadiga
A fadiga também pode ser muito diferente. O corredor que completou os 10 km em 40 minutos pode ter acumulado maior estresse metabólico e neuromuscular, enquanto o corredor de 70 minutos pode ter enfrentado um esforço mais prolongado, com outras características de desgaste.
Dez quilômetros são uma distância, mas não são, necessariamente, o mesmo treino.
O que aprendemos desde então
Hoje sabemos que:
- distância importa
- intensidade importa
- frequência importa
- duração importa
- contexto importa
Ou seja: 10 km continuam sendo 10 km, mas não contam toda a história.
Ampliando a aplicação do conceito
Perceba que, até aqui, estamos falando apenas de uma ideia específica: o gasto energético necessário para percorrer certa distância.
Mas, uma vez compreendido esse conceito intangível, podemos facilmente ampliar sua aplicação para entender diferentes aspectos tangíveis — e muito importantes — da corrida:
Treinamento
No treinamento, a distância é apenas uma das variáveis da carga. O mesmo volume pode representar um estímulo leve para um corredor e uma carga elevada para outro, dependendo da velocidade, do nível de condicionamento e do momento da preparação.
Emagrecimento
A mesma distância também não significa necessariamente o mesmo impacto sobre o emagrecimento. O gasto energético depende de fatores como massa corporal, velocidade, eficiência mecânica e intensidade relativa do esforço.
Performance
Dois corredores podem percorrer os mesmos 10 km, mas produzir estímulos completamente diferentes para a performance. Para um, pode ser um treino leve; para outro, um esforço próximo do limite, com exigências muito maiores sobre o sistema cardiovascular, metabólico e neuromuscular.
Lesão
Uma determinada distância também não provoca necessariamente a mesma resposta mecânica em todos os corpos. A carga sobre os tecidos depende da técnica, da força, da fadiga, da velocidade e da capacidade individual de absorver e tolerar o esforço.
Recuperação
Corredores que percorrem a mesma distância podem precisar de tempos de recuperação muito diferentes. O que determina a recuperação não é apenas o número de quilômetros, mas o conjunto de estímulos que o organismo recebeu e a capacidade que possui para se recuperar deles.

O número pode ser o mesmo; a realidade fisiológica, não necessariamente. Em todos esses casos, a mesma palavra — distância, peso, volume, dor ou tempo — pode esconder realidades fisiológicas muito diferentes.
O erro de simplificar
Quando transformamos um fenômeno complexo em uma única frase — 10 km são sempre 10 km — ganhamos simplicidade, mas perdemos a complexidade e a precisão do fenômeno que estamos tentando compreender.
A corrida evolui, a ciência evolui, os métodos evoluem. O que sabíamos no passado nos trouxe até aqui, mas o que sabemos hoje nos permite enxergar mais longe, e foi por isso que criei a série “Como Era e o Que Sabemos Hoje” no YouTube, e “ANTES | HOJE” aqui no Blog.





























